Hugo Milhanas Machado – Entre o Malandro e o Trágico – três poemas

"eu sou uma bela capa"

Em 2009, Hugo Milhanas Machado publicou “Entre o Malandro e o Trágico”, depois de “Poema em Forma de Nuvem” (2005); Masquerade” (2006); “Clave do Mundo” (2007); “À cama com Portugal” (tríptico policopiado: 2009). O livro de que aqui se fala, tarde e a más horas, é certo, engloba um conjunto de poemas (25) que são ‘recuperados’ da produção destinada a “Clave do Mundo”. Não são sobras, porém. Formam um conjunto formal e tematicamente coeso e de contagiante alegria. Versos cadenciados, rápidos e de uma destreza fonética de pendor quase lúdico, na muito lúdica sintaxe deste autor. Que, da mesma forma aparentemente ligeira como elabora os seus poemas, ligeiras temáticas parece abordar: as peripécias da infância; os lugares do crescimento, por vezes cristalizados em curtos poemas de intensa expressividade; um jogo construtivo de quem, de novo aparentemente, se não leva a sério, ou pelo menos ao trabalho poético. As aparências enganam. E falando de Hugo Milhanas Machado, o engano é rotundo. A ligeireza é, na verdade, uma intensa e vibrante leveza. O que torna tudo muito diferente. Não percebo, de resto, por que razão há-de ser matéria poética mais universal e relevante, digamos, um vómito solitário nas escuras ruas de Lisboa após um cigarro, após um copo, após um desencontro amoroso… ou a Volta a França em Bicicleta. Mas esta aparente falta de pathos poético levou gente a achar que a coisa oscilava entre o hipócrita e o parvo. Talvez tenha sido a leveza (provavelmente insustentável) da poesia de Hugo Milhanas Machado que orientou a não inclusão do seu trabalho no incontornável e meritório “RESUMO – a poesia portuguesa em 2009”. Escolhas.

Etimologicamente, parvo vem do étimo latino «pequeno». Ora pequena não é a plena alegria destes poemas, nem a sua sageza. As aparências podem iludir, claro. Mas, como dizia alguém nalgum lado, os poetas não são sempre infelizes.

[Ainda haverá alguns livros em venda na livraria Trama. A confirmar].

(nota introdutória)

Muito embora o que me pese nos textos seja encostar neles mesmos, dar mera notícia que a série de vinte e cinco poemas que se segue reporta-se aos meses finais do ano de 2007, partilhando papeis com os últimos que convocados para Clave do Mundo. Poemas estes, devo dizê-lo, entretanto pouco revistos e devedores de uma estranheza em que é complicado atalhar, ainda que apetecesse: poemas impetuosos, se lhes dou ar derrubam-se, e não sei dizer mais nada. Óbvias, claro, certas toadas peninsulares e muito concretamente galegas. Enfim, que a valha a nota, que este livro não é capricho nem sequer urgência.

Hugo Milhanas Machado, Salamanca, Abril de 2009

Meia-Lua

A criação da gente
foi bonita
tão bonita e tão potente
como uma rua cheia da gente

abria como flor

a baliza a porta da garagem
a bola sempre rente e o golo
sempre no pé da gente

moedas pelo Santo António
tarde que era da gente
a gente morava em frente

ia de frente

direitos no amor
e pastilhas no senhor Jaime
rima bonito mas é contente


***

Aportares

Uma colher dobrada
restinho de um vinho
noite de meigas
trovoada
que te vieram
a caminho

e do sono
lá ficou
num cantinho

aportado numa esquina
duas árvores
sete pedras
milhões de corpos

conhecidos
e a tua idade

***




A Juvenil Graça

Descalço vai
para o monte
asseguro que
rochoso
sem futuro

todavia
vai em pele
pé pequeno
poderoso

vai descalço
é para o monte
é sexta e hora
de ponta

vede o poeta
vai para o monte
vai descalço
tem patos e tem pintos
nos tornozelos

todavia traz pão
alimento humedecido
um saco que pende
da mão

algazarra de asas
e pão
o pé descalço
o monte
a passarada

o ritmo destroçado

hora de ponta
e onde ir
onde irão?

MACHADO, Hugo Milhanas, “Entre o Malandro e o Trágico”, Lisboa: Sombra do Amor edições, 2009.