As Folhas Ardem

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Etiqueta: Eleições E.U.A.

Obama – A vitória pós-racial

A vitória de Barack Obama não significa que a América ultrapassou a questão racial. Confirma que ela já estava ultrapassada. Obama não superou a questão étnica. Revelou que ela passou a ser secundária. Ele é o primeiro presidente americano pós-étnico.

As alterações sociológicas ocorridas nos Estados Unidos na última década são mais expressivas na vitória do candidato Democrata, se analisadas qualitativamente, que a avaliação quantitativa do impressionante resultado eleitoral. Quem votou maioritariamente em Barack Obama? Os seguintes grupos sociais: ‘menos de 45 anos’; ‘negros’; ‘hispânicos’; ‘independentes’; ‘moderados’; ‘maiores rendimentos’; ‘mulheres’; ‘mulheres brancas’ (há sondagens para todos os filtros!). Em que grupos perdeu?  Nos ‘homens brancos’ (por pouco, sendo que nunca algum candidato Democrata ganhou este grupo); ‘idosos’; ‘cristãos evangélicos’; ‘conservadores’, ou seja, a base mais profunda do partido Republicano. Talvez não seja possível, a partir de agora, falar em ‘estados vermelhos’ (R), ‘azuis’ (D) e ‘swinging states’. Há já quem fale em ‘purple states’.

O Colorado é um caso paradigmático. Tradicionalmente um sólido bastião republicano, deu a vitória a Obama. Pelo seu carisma? É possível. Mas, na última década, estabeleceram-se sólidas comunidades cosmopolitas em Denver, Boulder, Aspen e um pouco por todo o território. A população é constituída por 75% de brancos. So what? Este é o terceiro estado com maior crescimento populacional, em grande parte graças à migração da Califórnia (para fugir aos impostos) e à emigração, sobretudo hispânica.

Provavelmente a grande mudança política prometida por Barack Obama, o seu lema traduzido numa única palavra – change – já se dera no plano das mentalidades. Só faltava um catalisador. Nesse sentido, Barack Obama foi o homem certo num tempo histórico maduro para a sua mensagem. Talvez Obama tenha vencido tanto pela ‘questão Economia’ como pelas mutações sociológicas. Talvez o clamoroso fracasso de dois mandatos de George W. Bush seja o resultado inevitável de uma visão de um mundo que já é outro. E é esse mundo outro que vai exigir ao novo presidente um desígnio homérico: dar corpo aos seus sonhos.

'E agora? Grande sarilho!'

'E agora? Grande sarilho!'

The Great American Songbook (XVI) – It Might as Well Be Spring

A esta hora já os americanos estão a ocorrer às urnas – já o fazem desde há algum tempo, de resto, graças ao ‘peculiar’ sistema eleitoral norte-americano. Não restam grandes dúvidas que os índices de abstenção terão um mínimo assinalável, num universo em que apenas 75% dos cidadãos com capacidade eleitoral estão ‘registados’ como eleitores. Votarão com esperança, como dizia um comentador ontem, na All Jazeera, cadeia televisiva que tem feito uma notável abordagem da campanha, apanhando sempre os aspectos mais analíticos, não seguindo o modelo espectacular da CNN. A esta hora votam, repito, com esperança. Mais: com um desejo de salvação personificado num homem. Ora não será este homem – seja qual for o eleito – um fazedor de milagres. Esperam-no grandes trabalhos para corresponder minimamente ao que, maximamente, dele se aguarda. É um trabalho de elevado risco este: em pleno Inverno fazer aparecer a Primavera.

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It Might as Well Be Spring. Em 1945, ano de Primavera, após o longo Inverno da Guerra, a dupla Rodgers e Hammerstein escrevem esta canção para o filme State Fair, com ela ganhando o ‘Óscar para a Melhor Canção‘. Muitas versões, mas de novo Nina Simone arrebata o troféu do meu gosto. E de novo com uma imagem em still, o que pode até ser bom para apenas ouvir. Um ‘apenas’ que não é pouco.

The Great American Songbook (XV) – The Man I Love

Faltam menos de 24 horas para a grande nação americana começar a votar. Como sempre, parte de cada um, parte de cada uma, votará com a razão. A outra com a emoção. Desta vez, creio que a emoção ascenderá à paixão. À escolha do homem amado, idealizado, ‘salvador’.

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George e Ira Gershwin aqui de novo, com um dos mais belos temas que escreveram. The Man I Love (1927), passou rapidamente dos palcos da Broadway para a música popular. Ella Fitzgerald, já com o peso dos anos, mas com todos os recursos vocais que a singularizaram como uma das maiores intérpretes do século passado. Uma versão longa, jazzy, com um delicioso scat final.


Warsaw, Missouri

Timothy Garton Ash, notável cronista, escritor e pensador político contemporâneo (com a vantagem acrescida de escrever imaculadamente) publica ontem uma excepcional crónica a partir desta localidade (Warsaw, Missouri) no meio da América, onde a ‘grande questão’, aquela que as sondagens nunca conseguirão prever porque se esconde no mais íntimo de cada um, está bem viva na memória dos seus 2.000 e poucos habitantes: o racismo. Garton Ash não tece juízos de valor. Ouve as histórias das pessoas, lê os sinais. Simpatiza mesmo com as gentes e a paisagem. E coloca as questões que importam.  A memória; a história; os ressentimentos; os sentimentos que já não deste tempo mas são do tempo das pessoas concretas. Um artigo a não perder – até por revelar um episódio curioso: a intensidade desta campanha é tanta que um juiz do Ohio decidiu que os homeless podem registar-se como votantes dando como morada um banco de jardim.

Warsaw, Missouri

em Warsaw

The Great American Songbook (XII) – Someone to Watch Over Me

Quase tudo o que se diz, nesta altura, no final de campanha para as presidenciais dos E.U.A., é repetitivo, exaustivamente ‘martelado’, até produzir soundbites que se alojem no subconsciente do eleitor. Suspeito, aliás, que o ruído intenso da corrida eleitoral gerado pelas candidaturas, pelos media, seja menos importante para o americano comum que as incertezas do presente, do futuro próximo. Talvez McCain tivesse uma boa linha estratégica numa abordagem mais serena, securizante, mesmo paternalista. Infelizmente estava do lado contrário da vedação. Não podia nem pode dizer que vem tomar conta das pessoas.

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Someone to Watch Over Me. De novo a imparável dupla Gershwin, George e Ira, que escreve, em 1926 este standard para o musical Oh, Kay!. Uma canção memorável, que teve mais intérpretes consagrados que provavelmente qualquer outra do G.A.S.. Aqui é Frank Sinatra, no filme Young at Hearth, sentado ao piano, a cantar, a fazer olhinho a Doris Day. A representar com cada músculo do rosto. Raios partam tanto talento!

The Great American Songbook (XI) – Blue Moon

A pedido de algumas famílias (entendidas em modalidades várias), tentarei cumprir (parcialmente, agora) a promessa de associar diariamente o decurso da campanha eleitoral para a Presidência dos E.U.A. a alguns dos temas do Great American Songbook. Creio que, a 11 dias do acto eleitoral, a diferença (que oscila entre 7 e os 11 pontos, de acordo com as sondagens mais credíveis) já não deixa dúvidas. Só uma extraordinária ocorrência poderá impedir a eleição de Barack Obama. Um acontecimento raro, algo que ocorresse numa noite de Blue Moon.

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1934. Richard Rodgers e Lorenz Hart (já presentes nesta listagem evocativa) escrevem uma balada que se tornaria um standard do Jazz, e uma iguaria refinada por muitos intérpretes. Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Billie Holiday, Dean Martin, Django Reinhardt, Frank Sinatra. Até Amália Rodrigues a cantou, numa versão muito bonita. Porque não ouvi-la na voz (inesquecível, quando no auge, antes da fama o devorar) de Elvis Presley?

The Great American Songbook (X) – Over the Rainbow

Quase 48 horas após o último debate na corrida para as presidenciais americanas, já tudo foi escrito, ou dito. Não há fonte que não tenha dado a vitória a Barack Obama. Não há artigo, peça televisiva, coluna de opinião, blogue, que não se refira ao episódio ‘Joe the Plumber’, personagem trazida para o debate por John McCain de forma teatral (e melhor conseguida do que se pensa). Aliás, durante a primeira meia-hora, McCain esteve no seu melhor. E este foi o seu debate mais forte. To make or break, lembram-se? Mas, com o decurso dos minutos, tornou-se evidente a verdadeira vantagem de Obama: pode permitir-se a não dizer grandes coisas, pode dar-se ao luxo de apenas debitar, com estilo, as suas ideias. A diferença está toda na sua mais que convincente imagem, aliada às ideias, numa conjunção virtuosa. A diferença entre um tipo que faz a diferença e um tipo que se debate com a semelhança. Obama já está noutra esfera. A conjuntura económica faz o resto. No final, o director da campanha republicana abanava a cabeça. Perguntaram-lhe se a performance de McCain chegava para ganhar. «Sim», disse. E acrescentou, significativamente: «Chega para ganhar o debate». Nem isso. Para MaCain a vitória é, agora, um pote de ouro no fim do arco-íris.

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Over the Raibow. Somewhere, no final dos anos 30, Harold Arlen e E.Y. Harburg escreveram o tema para o filme O Feiticeiro de Oz, um clássico que vingou na voragem do tempo para chegar ao que hoje todos sabemos: uma conjunção virtuosa de história, encantamento, música e muita Judy Garland. E esta é a canção dela, tal como ela é, em certa medida, esta canção.

The Great American Songbook (IX) – Ev’ry Time We Say Goodbye

O terceiro e último debate entre os candidatos às Eleições Presidenciais dos E.U.A. é amanhã à noite. Para muitos comentadores, John McCain tem aqui a sua última oportunidade para subir nas sondagens. É um debate ‘make-or-break‘, para os candidatos, dizem eles, ‘ou vai ou racha’, dizemos nós. Uma forma de McCain começar a dizer adeus, digo eu, que tomo partido.

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Ev’ry Time We Say Goodbye. Cole Porter ainda aqui não tinha chegado, mas entra pela porta grande, com uma canção imortal (1944), amada desde os modestos ouvintes de rádio dos fifties até aos mais apurados gostos ‘jazzísticos’. Para todos os gostos. Sem desprimor para outras versões, aqui fica a mais que lenta e vil solidão que só Nina Simone podia conferir à canção. (não há nada para ver, apenas um still com o que parece ser a capa de um disco. Melhor. Ouça-se, apenas. Não é pouco.)

The Great American Songbook (VIII) – Ol’ Man River

John McCain é, certamente, uma boa alma. E um valente. O facto de pensar o futuro com as ferramentas do século XX não belisca em nada a sua integridade. Com um partido Republicano cada vez mais acossado, assustado e com vontade de ‘sangue’, McCain fez o que outros não fariam. Defendeu a honra (e, de passagem, o patriotismo) de Barack, perante um grupo de apoiantes que, evidentemente, o assobiaram. Ganhou pontos na consideração de muitos. Vão servir-lhe no futuro, quando Obama mostrar que (também) vai precisar que sirva a nação. E ‘servir’ sempre foi um código de honra na vida do velho Senador.

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Em 1927, os grandes Jerome Kern, e Oscar Hammerstein II escrevem Ol’ Man River para o musical Show Boat. Ironia: é o cantar de um velho negro, melancólico com a dureza e as agruras da vida. Aqui o temos, na interpretação de Paul Robeson, no filme musical de 1936. Tocante.

Fotografia do Dia

Nas Primárias do partido Democrático, Hillary Clinton teve de provar que sabia jogar bowling. O dia-a-dia impunha-se aos candidatos e pedia-lhes provas de ‘identificação’. Agora é a política que se impõe ao dia-a-dia do homem comum. Palin já não precisa de atirar umas bolas para as câmaras. Aparece nos ecrãs dos recintos de jogos. (No The First Post, edição de dia 3)

The vice presidential debate is shown at a bowling alley in Miami Beach, Florida

The Great American Songbook (VI) – At Last!

Carregando a fundo no único tema que agora centraliza o debate político entre as candidaturas, a Economia, Barack Obama proferiu, na quarta-feira, declarações surpreendentes. Não pelo conteúdo, mas pela firmeza e agressividade. Não mandou recados, falou ele mesmo, em Dayton. De acordo com a CNN, «Sen. Barack Obama on Thursday slammed Sen. John McCain’s new mortgage plan as “the latest in a series of shifting positions” and evidence of “erratic and uncertain leadership.». Finalmente Obama entra em território de combate com a faca nos dentes. At last.

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1941. Mack Gordon e Harry Warren escreviam At Last!, para o filme musical Orchestra Wives. Tornada num enorme êxito e num standard intemporal por Glenn Miller, é porém a interpretação de Etta James que vai conferir contornos imortais ao tema, levando ao limite o carácter romântico da canção. As gravações ao vivo existentes mostram James já longe das suas capacidades vocais (mas ainda com muito soul a percorrer-lhe as veias). Aqui fica, portanto, a gravação original, embora visualisada num slide show. Tem a vantagem de mostrar como esta americana branca era bela e como cantava com uma alma negra.

The Great American Songbook (IV) – The Way You Look Tonight

Body Language. Mesmo não levando em linha de conta uma maior solidez no capítulo da Economia, e consistência nas questões de política externa (leia-se Defesa), Obama venceu o debate de ontem à noite pela abissal diferença na sua linguagem corporal. Estas coisas notam-se. Esteve smooth & stiff, olhou diversas vezes o oponente nos olhos, apontou o dedo quando queria marcar um ponto. McCain mostrou, pelo modo errático como se movimentou, olhou para as câmaras, interagiu com Obama, a sua idade (teve um belíssimo momento, quando tocou com imensa ternura um veterano da US Navy presente na assistência). As câmaras de televisão podem ser muito cruéis, e os planos ligeiramente picados mostravam um McCain com todos os seus 72 anos. Estas coisas notam-se. Mais que as divergências – neste debate melhor definidas e marcadas – quanto aos grandes temas. Visto na CNN (muito melhor que na SIC Notícias, onde afinal estava Luís Costa Ribas e o tal senhor que é muito digno e conhecedor e continuo a não me lembrar do nome dele, mas prometo referir aqui), com um painel de cerca de 12 comentadores, basicamente unânimes. Vencer pode ser um verbo excessivo para o desempenho de Obama. Mas perder adequa-se ao que aconteceu ao senador Republicano. E (quase) tudo se resumiu a uma questão. O modo como os candidatos ‘pareceram’, esta noite.

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The Way You Look Tonight. Em 1936 ganhava o Óscar da Academia para a melhor canção original. A excepcional melodia de Jerome Kern inspirou a letra de Dorothy Fields. O incontornável par Astaire/Rogers deu-lhe merecida fama em Swing Time. Mas é a versão do ‘Old Blue Eyes’, essa sim, cheia de swing, que me faz cócegas. Fique-se com a música, numa ‘original’ forma de a ouvir e ver não vendo’.

The Great American Songbook (I) – Someone to Watch Over Me

A partir de hoje, dia 5 (na verdade já entrámos em 6), faltam 30 dias para a realização da eleições presidenciais nos E.U.A., que terão lugar a 4 de Novembro. A coisa em si nunca me comoveu muito (apesar de ter apreciado os mandatos Clinton). Democratas ou Republicanos nunca divergiram muito no melhor e no pior que a América deu a si mesma e ao mundo. Os tempos estão diferentes, porém. Aquilo que se poderia tomar como simples alternância de poder assume, porém e agora, um carácter fracturante (expressão tão na moda, tão politicamente correcta, que me arrependo já de a ter escrito). E a escolha de um dos lados pode significar (ou não) a travessia do Rubicão do século XXI. A mudança.

Tomo, pois, partido. E, enquanto roo as minhas muito brancas unhas, colocarei aqui diariamente, em  louvor e esperança pelo destino da nação americana, um tema musical do Great American Songbook que se poderia balizar, de forma simplista, como o conjunto de temas musicais populares ‘clássicos’ criados entre os anos 20 e os anos 60 do século passado. Entre o Tin Pan Alley de New Orleans, os musicais da Broadway, os grandes temas musicais do cinema, até à fulgurante irrupção da pop music na cultura popular.

Os temas clássicos, que deram origem à fixação de muitos dos melhores standards do Jazz e ainda hoje são referenciados (e reverenciados) pelo escol dos melhores intérpretes e conhecedores. A selecção de cada interpretação é necessariamente arbitrária. Minha, portanto. Fiquemos com a primeira. Que passem ligeiros estes 30 dias, onde todas as esperanças são possíveis.

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Someone To Watch Over Me (1926), de George e Ira Gershwin, aqui na interpretação memorável de Ella Fitzgerald (mas com mais de uma centena de versões para todos os – bons – gostos).

Palin vs. Biden

Informa-nos a Globo, via EFE (as notícias correm agora, no mundo, como há um século na aldeia: de boca em boca) que o Partido Republicano dos E.U.A. está ‘aliviado’ com o desempenho da Governadora do Alaska, Sarah Palin, face ao veterano político democrata Joe Biden, no debate que opôs os dois candidatos à Vice-Presidência. No lugar deles eu não estaria. É verdade que a senhora não meteu os pés pelas mãos (o que seria uma ideia muito interessante) nem bolsou nenhuma bacorada fatal. Biden, de resto um modelo de cortesia digno de um vendedor de automóveis topo de gama, teve apenas, numa ocasião, de lhe recordar amavelmente os limites do poder executivo impostos aos Vice-Presidentes: entusiasmada com a sua experiência nos destinos de Anchorage, Palin esticava-se no que iria fazer ao lado do “Senator McCain“. No mais, o alívio dos republicanos não me parece ter grande fundamento. Palin foi simpática, familiar. Mas não chega para ser uma candidata credível. Cada vez que a graciosa senhora falava, lembrava-me, sem remédio, as reuniões de vendas de Tupperwares na casa da minha tia, na Avenida de Roma. Que eu saiba, os americanos não andam lá muito compradores.

Amiguinhos, aqui até os ursos bebem petróleo!

Amiguinhos, aqui até os ursos bebem petróleo!