As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Tomas Tranströmer — Prémio Nobel da Literatura 2011 (3 poemas)

(post reeditado)

Ao fim de quinze anos (Wislawa Szymborska foi distinguida em 1996), um poeta recebe o Prémio Nobel da Literatura! Saramago e Pinter escreveram poesia, mas não eram propriamente poetas. Um acontecimento, embora o nome de Tranströmer fosse desde há muito um dos apontados como possível laureado. Aqui se deixam 3 poemas do autor respigados online e uma belíssima fotografia do poeta (que pode ser muito ampliada).

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”

(Tradução de Vasco Graça Moura)

Tranströmer, Tomas, 21 Poetas Suecos, Lisboa, Vega, 1980.

Novembro

Quando o esbirro se aborrece, torna-se perigoso.
O céu constrói-se, em chamas.
Sinais de pancadas ouvem-se de cela em cela.
E do solo, coberto de neve, o espaço jorra.
Algumas pedras brilham como luas cheias.

(Tradução do alemão para português por Luís Costa)

A Neve Cai

Os funerais aproximam-se
cada vez mais densos
como placas da rua
quando nos aproximamos de alguma cidade.

O olhar de mil pessoas
na terra das longas sombras.

Uma ponte constrói-se
lentamente
sempre a direito no espaço.

(Tradução para português por Luís Costa)

tomas tranströmer

(clique para ampliar)

Reinaldo Ferreira – Se eu nunca disse que os teus dentes

Reinaldo Fereira (autor desconhecido)

Não é agora ocasião para falar de Reinaldo Ferreira, uma das personalidades mais fascinantes que atravessaram o século XX português, amplamente desconhecido hoje, bastante subestimado sempre. A ele se dedicará, quando o tempo o permitir, um post com alguma da informação que se foi juntando por via do fascínio pessoal pelo homem e pela irregularíssima, por vezes desconcertante, por vezes excepcional obra que deixou. Deixe-se, então, um poema do autor, por razões de memória instante.

 

Se eu nunca disse que os teus dentes

São pérolas,

É porque são dentes.

Se eu nunca disse que os teus lábios

São corais,

É porque são lábios.

Se eu nunca disse que os teus olhos

São d’ónix, ou esmeralda, ou safira,

É porque são olhos.

Pérolas e ónix e corais são coisas,

E coisas não sublimam coisas.

Eu, se algum dia com lugares-comuns

Houvesse de louvar-te,

Decerto que buscava na poesia,

Na paisagem, na música,

Imagens transcendentes

Dos olhos e dos lábios e dos dentes.

Mas crê, sinceramente crê,

Que todas as metáforas são pouco

Para dizer o que eu vejo.

E vejo lábios, olhos, dentes.

Reinaldo Ferreira, Poemas, Lisboa: Editorial Vega, 1998