As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Editorial Presença

Ruy Belo — Missa de Aniversário

Há um ano que os teus gestos andam 

ausentes da nossa freguesia 

Tu que eras destes campos 

onde de novo a seara amadurece 

donde és hoje? 

Que nome novo tens? 

Haverá mais singular fim de semana 

do que um sábado assim que nunca mais tem fim? 

Que ocupação é agora a tua 

que tens todo o tempo livre à tua frente? 

Que passos te levarão atrás 

do arrulhar da pomba em nossos céus? 

Que te acontece que não mais fizeste anos 

embora a mesa posta continue à tua espera 

e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez 

                                                                  florido? 

 

Era esta a voz dele assim é que falava 

dizem agora as giestas desta sua terra 

que o viram passar nos caminhos da infância 

junto ao primeiro voo das perdizes 

 

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos 

onde deixaste a marca dos teus pés 

Apenas na gravata. A tua morte 

deixou de nos vestir completamente 

No verão em que partiste bem me lembro 

pensei coisas profundas 

É de novo verão. Cada vez tens menos lugar 

neste canto de nós donde anualmente 

te havemos piedosamente de desenterrar 

Até à morte da morte 

 

Belo, Ruy, «Obra Poética de Ruy Belo — volume 1, livro “Aquele Grande Rio Eufrates”», Lisboa: Editorial Presença, 1981

Duarte Belo— «páginas literárias de jornais, coleccionadas por Ruy Belo» © Duarte Belo (D.R.).

Duarte Belo— «páginas literárias de jornais, coleccionadas por Ruy Belo» © Duarte Belo (D.R.).


• Uma boa nota de leitura deste poema pode ser encontrada aqui.

• Fotografia: Duarte Belo, «O Núcleo da Claridade — fotografias sobre “objectos directamente ligados à vivência de meu pai (…)”, «páginas literárias de jornais, coleccionadas por Ruy Belo»

 

 

 

 

João Miguel Fernandes Jorge — O Melro de Mazagão (poema e apontamento)

Era um corpo feito às mãos caía-lhe pó dos dedos

era dos meus amigos o mais propenso à ilusão.

E eu estava ali quieto sobre a casa, a alma

pode ser muitas vezes uma pedra

eu estava ali quieto isto é o mais importante: era

um corpo feito às mãos.

Ia por um caminho de palmeiras

aquele que procura o meio-dia e o encontra

era um homem entre uma rua da Nazareth e a rua do Celeiro

de espírito orgulhoso: esses tempos já lá vão

se quisermos aprender alguma coisa

dos pedreiros escrevendo a estrela e o

crescente

Mazagão é a miragem de portos barcos e reinos.

Para que serve? Preferia ficar a bordo onde podia trabalhar

sem interrupções e onde várias vezes me senti inspirado

como nunca tinha estado antes nem voltei a estar depois.


Eu por mim sou assim quando chego aos portos embarco.

E sonho um país onde nunca acabam as casas

porque as casas são para não ter fim: «já não

tenho pressa agora já não quero chegar a lado algum».

e que mais hei-de fazer deste terreiro de favas e papoilas?

A matéria não podia já mover-se por si própria ou

se movia ao acaso. Era uma ponte em vão.


Era um mar de dragões e solitários espíritos esse

onde navega o melro de Mazagão

as coisas que se transformam em função das suas paixões,

um melro canta sempre de determinada maneira

avisando contra toda a espécie e fortuitos acontecimentos.

Era da família dos amarílis

e se o não era ele, era o seu canto.


Pois quando volvemos o olhar enfrentando este terror

insinuando a dúvida pela fugaz economia

e dizendo ecce ancillla domini

semelhante ao desprezo de Platão,

disto estou certo: era um corpo feito às mãos.

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética Volume 3, Lisboa: Editorial Presença, 1988

dante gabriel rossetti «ecce ancilla domini!» Óleo sobre tela montado em painel, 41.9 x 72.7 cm. Tate Gallery, Londres, Reino Unido

Dante Gabriel Rossetti «ecce ancilla domini!» Óleo sobre tela montado em painel, 41.9 x 72.7 cm. Tate Gallery, Londres, Reino Unido

Voltamos ao Direito de Mentir (1978, 7.º livro do autor) e, talvez por acidente, ao quase caricato episódio que o autor relata, na reedição da Obra Poética, da Editorial Presença: «no dia em que ficou pronto e em que fui à editora buscar o primeiro exemplar, ao abri-lo, vi com grande espanto que os poemas não eram os que eu tinha escrito. O Direito de Mentir trazia o miolo do livro Voo Doméstico de António Manuel Couto Viana. Houve que proceder à sua troca, pois os tão conseguidos poemas de Couto Viana sobre Luanda e o fim do Império não me pertenciam. Tudo acontecia como uma pequena ironia movida no cumprimento do título, já por si tomado a partir do texto «Sobre um pretendido direito de mentir por humanidade», de Kant.». Ironia que tem, como ponto de legitimação uma verdade intrínseca, íntima, que atravessa o poema e o livro como evidência e proclamação do olhar do autor perante os acontecimentos do mundo, permitindo-lhe o Direito de Mentir, de afirmar a sua própria percepção do real contra a «verdade» das evidências (aquilo que, carecendo de demonstração, se configura como revelação: «ecce ancilla domine» Lc: 1,38). Joaquim Manuel Magalhães escreverá, a propósito do livro, ser este: «expressão duma paz contemplativa de sucessivas paisagens perturbadas (…) num plano que não é o da confissão linear de sentimentos, mas que é duma afirmação emocional tensa, ora carregada de paixão, ora de euforia irónica, ora de puro registo sensorial.» (Magalhães, Joaquim Manuel — Os Dois Crepúsculos, Lisboa: «Na Regra do Jogo», 1981, p. 243).

[Nota: Este poema teve uma publicação prévia na revista «Raiz & Utopia», números 3-4, Outono/Inverno de 1977.]

Ruy Belo — Uma Vez Que Já Tudo Se Perdeu

 

(em modo de paixão por um livro)

 

UMA VEZ QUE JÁ TUDO SE PERDEU

 

Que o medo não te tolha a tua mão

Nenhuma ocasião vale o temor

Ergue a cabeça dignamente irmão

falo-te em nome seja de quem for

 

No princípio de tudo o coração

como o fogo alastrava em redor

Uma nuvem qualquer toldou então

céus de canção promessa e amor

 

Mas tudo é apenas o que é

levanta-te do chão põe-te de pé

lembro-te apenas o que te esqueceu

 

Não temas porque tudo recomeça

Nada se perde por mais que aconteça

uma vez que já tudo se perdeu

 

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 164

 

«lost», Kristyan @ Kristyan, via Deviantart, (D.R.)

 

 

Ruy Belo — As Grandes Insubmissões

Alguns dias atrás, a transcrição de um poema de António Gregório neste blogue recordou-me, memória longínqua mas muito presente, um texto de Ruy Belo, que li ainda na primeira edição da Dom Quixote, ainda na primeira edição da minha vida. Relendo-o, relendo integralmente Homem de Palavra(s), retomo o grande gozo que a sua leitura repetidamente me deu e a admirável modernidade (também se poderia falar de contiguidade no tempo, contemporaneidade) do livro. O texto transcreve-se agora, sabendo que todo este livro deveria ser lido como algo «canónico», que estabelece uma voz intocável a abordagens, ideologias, perspectivas que o possam menorizar; que desafia e vence o tempo.

AS GRANDES INSUBMISSÕES

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.

Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

— Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.

Tocou para a aula das dez.

— Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.

Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 181

«basketball hoop», Arevik © Arevik, via Deviantart (D.R.)

Ruy Belo no portal da D-GLB

Ruy Belo no portal do Instituto Camões

Carlos Queiroz — Libera Me

 

Livrai-me, Senhor,

De tudo o que for

Vazio de amor.

 

Que nunca me espere

Quem bem me não quer

(Homem ou mulher).

 

Livrai-me também

De quem me detém

E graça não tem,

 

E mais de quem não

Possui nem um grão

De imaginação.

 

 

Carlos Queiroz. Poesia de Carlos Queirós, Lisboa: Editorial Presença, 1966.

 

desenho de Almada Negreiros

 

Nota biográfica e dois poemas de Carlos Queiroz no Projecto Vercial.

João Miguel Fernandes Jorge — Este é o Papel Singular da Alegria

(para o meu amigo Rui Almeida)

 

Este é o papel singular da alegria
a lei errante do país
é o maior dos silêncios.

Caminhei por entre rios pontos de água
estações de novembro
pequena razão dos ventos da manhã.

Não trafiquei não porque seja forte
mas porque falo da alegria do estar sobre vós
nestes pontos de água
na acidez da flor
neste país frequentado

algumas coisas nunca mudarão. O rigor
da luz torna invulnerável o desejo de perder
esta pressa de verão.

Algumas coisas serão sempre as mesmas: manhã
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello
longínquos.

(Profanamos a casa não o corpo
esta forma desenhada ruga a ruga
esta cor amarela sobre a praia.)

João Miguel Fernandes Jorge, Obra Poética Volume 3, Lisboa: Editorial Presença, 1988

«spirit of the child», Ciril Jazbec © Ciril Jazbec, via Deviantart (D.R.)

Jorge de Sena — As Quatro Estações eram Cinco

O verão passa e o estio se anuncia

que o outono se há-de ser e logo inverno

de que virá nascida a primavera.

Mais breve ou longo se renova o dia

sempre da noite em repetir-se, eterno.

Só o homem morre de não ser quem era.

Jorge de Sena, Exorcismos, 1972. Republicado na compilação Poesia III, Lisboa: Editorial Presença, 1989.

«seasons II», tom © tom, via Deviantart (D.R.)

Ruy Cinatti — Tentação

 

«Segundo dos inéditos de Ruy Cinatti publicados após a sua morte em 1996, Tempo da Cidade data provavelmente dos anos 60. (…)» — Início do prefácio de Peter Stilwell ao livro.

 

TENTAÇÃO

A noite incandescente e turva

de luzes de néon, de portas que se abrem

e penetram o escuro de uma noite

que julga estar subindo escadas,

afigura-se-me oculta

como tantas outras infinitas coisas

— vozes vindas dos corredores da infância.

 

Cinatti, Ruy, tempo da cidade, Lisboa: Editorial Presença, colecção forma, 1996

 

© Luísa Branco, via Olhares, fotografia online

Ruy Cinatti no site da D-GLB (biografia, bibliografia, excertos, links, traduções, etc.)

Irene Lisboa – Chuvoso maio!

Chuvoso maio!


Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade …
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

 

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa…
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa…
e sempre assim!

 

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água…

 

LISBOA, Irene, org. pref. de Paula Morão – Poesia I, Um dia e outro dia…outono havias de vir. 1ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 1991. (Obras de Irene Lisboa, 1), p. 191- 192

 

 

«Tears and Rain», kyokosphotos © kyokosphotos, via Deviantart (D.R.)

Mário Cesariny – Pastelaria

À Helena Amaral, que em 1986 me ofereceu o meu primeiro livro de poesia. Este, onde se encontra o poema transcrito.


Pastelaria


Afinal o que importa não é a literatura

nem a crítica de arte nem a câmara escura


Afinal o que importa não é bem o negócio

nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio


Afinal o que importa não é ser novo e galante

— ele há tanta maneira de compor uma estante


Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos

frente ao precipício

e cair verticalmente no vício


Não é verdade rapaz? E amanhã há bola

antes de haver cinema madame blanche e parola


Que afinal o que importa é não haver gente com fome

porque assim como assim ainda há muita gente que come


Que afinal o que importa é não ter medo

de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita

gente:

Gerente! Este leite está azedo!


Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo

à saída da pastelaria, e lá fora — ah, lá fora! — rir

de tudo


No riso admirável de quem sabe e gosta

ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Cesariny, Mário, burlescas, teóricas e sentimentais, Lisboa: Editorial Presença, 1972

«A Brasileira», Stuart Carvalhais, Tinta-da-china s/ papel (s.d.), espólio Museu da Cidade (D.R.)

Ruy Belo – Na morte de nicolau

Em celebração de Sérgio Paulinho, ciclista, filho de Jacinto Paulinho, ciclista também ele. O Sérgio ganhou uma etapa da Volta a França (uma enorme proeza), dizendo a si mesmo, quando arrancou para o sprint, que «era mais forte que o outro». Pensamento humilde, porque simples conhecimento de si.

José Maria Nicolau

NA MORTE DE NICOLAU


José maria nicolau fugiu. Quem o apanha?

Nunca ele pedalou tanto como agora

Decerto vai chegar antes da hora

A etapa era decisiva e está ganha


Ele que várias vezes deu a volta a portugal

deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida

A alguns anos já da primeira partida

fugiu. Tudo se torna agora mais real


Que média fez num terreno tão mau

É tudo serra custa tanto subi-la

Deixem que eu vista a camisola amarela

ao grande corredor josé maria nicolau

Belo, Ruy, Obra Poética (volume 1), Lisboa: Editorial Presença, 1981