As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Sophia de Mello Breyner Andresen — Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

 

Andresen, Sophia de Mello Breyner, O Nome das Coisas — Obra Poética III, Lisboa: Editorial Caminho, 1991

 

kparks © kparks, via Deviantart

 

 

Biografia, bibliografia e outras ligações sobre Sophia de Mello Breyner Andresen no site da D-GLB

Frederico Lourenço — Rua do Século, 79

 

 

Rua do Século 79


Os gradeamentos das janelas

negam a quem os contempla da rua

qualquer sugestão de vida

a ser vivida por trás das grades.

Os caixilhos de ferro forjado

sugerem locutórios de um convento

da mais ascética austeridade,

como se o espaço (cujo acesso

as grades peremptoriamente vedam)

fosse votado por inteiro a extremos

exacerbados de misticismo e de penitência.

Mas também se pressentem salões escuros,

onde paira sempre o cheiro fresco a encerado,

ou a perfume de rosas e noz-moscada;

paredes revestidas de damasco,

cobertas de grandes telas,

paisagens campestres e naturezas mortas.

Medalhões de talha dourada, segurados

por fitas de seda listrada a duas cores;

silhuetas de damas coroadas de peruca,

fantasmas da corte da Rainha Louca,

móveis nas suas molduras de tartaruga e charão.

 


Lourenço, Frederico, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.53

[originalmente publicado em Santa Asinha e Outros Poemas, Lisboa: Editorial Caminho, 2010]

 

 

Rua do Século

Manuel Gusmão — morreremos repetidamente sobre esta praia, nas margens da luz.

 

 

morreremos repetidamente sobre esta praia, nas margens da luz.

A rosa declina a sua autobiografia, obliquamente caindo

sobre quilómetros e quilómetros de florestas insistentes,

sobre a sombria arquitectura desta terra longamente apaixonada,

sobre a rosa que sobe até à aérea metalurgia das nuvens.

Gusmão, Manuel, Dois sóis, A Rosa / a arquitectura do mundo, Lisboa: Editorial Caminho, 1990

 

Hind alNuaimi © Hind alNuaimi, via Deviantart (D.R.)

 

Links Relacionados:

Recensão crítica ao livro, por Maria Aliete Galhoz, na Revista Colóquio/Letras 129/130 (2003)

Manuel Gusmão — A Velocidade da Luz

 

(à Sofia Moura. obrigado)

Há uma rotação do teu corpo

ou de uma parte dele que está pelo todo

e fora dos eixos do mundo.

Rodas a partir da cintura, estendes um braço,

há um músculo que se ilumina, uma onda

vertical em que tu própria te subisses;

então uma perna flecte-se, e o outro pé fica em ponta

oblíquo sobre o mundo que nesse instante

se suspende.

 

Há uma rotação do teu corpo –

Andas pela casa: és um leve rumor sob o silêncio

um rumor que alumia a sombra silenciosa;

na sala, o homem quase surdo quase cego

ouve-te, julga reconhecer-te: vens aí.

 

Estás aqui. O intervalo de tempo já começou:

há uma rotação no teu corpo

que me exclui do mundo e

entretanto é feita para mim; atinge-me

à velocidade da luz.

E eu o homem quase surdo quase cego

sou tomado pelo vento do fogo que me consome

até ser apenas a última brasa: pequenas ravinas de luz

o incêndio restante sob a exausta crosta da terra

 

Estavas, estiveste ali.

O tempo recomeça.

Apareces e desapareces.

Como a luz do farol disparando no céu sobre as casas

ou como o anúncio luminoso do prédio em frente

que varre intermitente a obscuridade do quarto no filme.

Quando voltará?

 

É como se soubesses

que voltará, sim, e que não, não poderá voltar.

Quando, e se voltar, serei eu talvez

quem já lá não está. Quando

é quando?

Quanto tempo ainda poderá o mundo voltar

à possibilidade dessa forma?

 

 

Estes corpos que somos são estranhas

invenções delirantes: tu não tens rodas e contudo

rodaste como se uma hélice te elevasse

só de um lado, te aspirasse até um outro estrato

aéreo, ou como se tu própria, folha aérea,

folheasses o ar e o mundo estremecesse

fora dos eixos.

 

Isso imprime-se nas areias do cérebro.

 

Depois, viesse um vento

e desfaria as dunas desse mapa:

a impressão ondula, muda de lugar, mas

resiste. É uma fotografia desfocada

uma tatuagem a outra sobreposta

uma cicatriz que esqueceu a ferida.

 

 

Interrompe-se aqui e ali

deixa de ser uma linha fina, um risco

no mundo, para ser uma corda que se entrança

e entrança o mundo.

Há qualquer coisa de movente fixo:

por mais que o tentes, o programa não deixa

que se apague toda e para sempre.

Desligas a máquina, mas o sulco permanece

no écran. Escreves-lhe em cima:

não desaparece, mas troca automática

mente algumas letras;

Encharcas-te em álcool, tabaco e comprimidos

mas a coisa insiste movida pelo fluxo

e refluxo das imagens, das águas, das areias, das sombras.

 

 

Há, houve uma rotação do teu corpo

e há qualquer coisa de irreparável

que me fizeste quando rodaste no mundo –

o quase homem aposta tudo em que voltará.

Joga tudo em que o mundo regressará

a essa forma de uma onda suspensa na música

a essa rotação fora dos eixos.

 

Porque é que dizes então «irreparável»?

Irreparável aponta para onde?

 

Irreparável é o mesmo que antiquíssima

e não idêntica?

A cicatriz é irreparável porque a ferida é perpétua,

esquecida e perpetua?

Tocas-lhe a milímetros de distância,

como quem não quer

a coisa,

e tu devias dar e não dar por isso.

Dir-se-ia que o ar se moveu, que uma coluna

do tempo se deslocou, dançou como a luz por entre nuvens

na parede verde de um canavial.

 

 

Há uma rotação irreparável do teu corpo

irreparável quer dizer que já não a podes parar

irreparável é alumbrada a alegria

o ar fugindo todo o mar subindo até ocupar

todo o campo do céu e

contudo

pudesses respirar o ar irrespirável.

Contra todas as evidências em contrário, a alegria

Gusmão, Manuel, Teatros do Tempo, Lisboa: Editorial Caminho, 2001

«Light Storm», Miniminory © Miniminory, via Deviantart (D.R.)

Poesia Portuguesa (37) – Manuel Gusmão

Uma pedra na infância


Põe uma pedra

uma pedra sobre a infância


Para que de vez se cale essa respiração

contida suspensa no escuro


Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre

essa infância essa fala ininterrupta essa


falagem que falha e promete e inventa

os sonhos e as promessas e o riso sem porquê


Para que de vez se interrompa a esperança esse

mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:


Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa

que é a infância, as vozes da noite no poço.


Apaga a infância isso que falta sempre à chamada

e para sempre trocou já os desejos e os medos.

GUSMÃO, Manuel, Migrações do Fogo , Editorial Caminho, Lisboa, 2004.

© Daniela Rodrigues, Olhares, Fotografia Online

© Daniela Rodrigues, Olhares, Fotografia Online

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