This is the iron age
but let us take heart
seeing iron brake and bud
seeing rusty iron puff with clouds of blossom
D. H. Lawrence
O aguaceiro manso das jovens
passeia na sala tardia
(o pêssego de Lawrence amadurece
algures nas tuas mãos).
Ao longe nuvens de flores aparecem
raiando a costa do ferro e do gelo,
a ilha de Miranda sabe o caminho
para a casa da luz,
escrito no sangue do tigre
que nos livros
acende a temível simetria da noite:
sangue sujo de amor
na inocência
e na experiência.
Na sala tardia,
a polpa ferida de literatura inglesa,
o caroço preso à floração
do vestido de Ofélia,
que ouviu adagas
e medrou lilases da terra sem vida.
Espera a romã, os figos,
a nêspera: não esperes o enfarte,
acento agudo
na sílaba final do mais longo dos versos.
Rui Lage. Berçário, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2004.

Capa sobre sobre fotografia de Carlos Pinto Coelho.
Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo
De o transformar. Este é o dia transformado
Pelo modo como apoio este dia no chão.
Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra
Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo
Na atenção.
E fico atento, fico deitado porque não sei crescer
Num terreno que se levante.
Cresço na clareira de um homem que é uma palavra
Na sua túnica inteira
Porque este é o sítio do dia sem horário
Sem divisões
E ponho-me de frente no seu lado,
Nos seus braços abertos para me unir
E entro pelo lado aberto e ardo – como Elias
Em chamas subindo para o céu.
Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão:Quasi, 2003

Torrie © Torrie, via Deviantart (D.R.)
se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
mãe, valter hugo, Útero, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2003

«inner storm», jkemp © jkemp, via Deviantart, (D.R.)
Links Relacionados:
Vou de férias com um peixinho dourado e luminoso. O blogue fica em repouso.

Hope © José Pedro Sousa
ELOGIO DA LUZ
A luz invadiu uma porção da casa.
Depois foram as ancas e as vozes abraçando-se
o reconhecimento da música do outro lado da janela.
Nesse instante de todos os silêncios
foi afinal aquela porção da casa
que invadiu a luz.
Almeida, Catarina Nunes de, Prefloração, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2006.
Infância
Convoco a memória do espaço da infância
para com ela entender o esquivo sofrimento
se em finitude me leva à inquieta beira
a prosseguir temendo à revelia do tempo
Não são os segredos mas o sinal sem norte
transportando consigo transbordante e breve
o desacerto que a vertigem liga ao abandono
seduzindo-me menina entregue à sua sorte
Foge o encanto e ainda mais amargo
na maçã o veneno dói e reclina
em desmesura unindo a fera e o afago
Desamado afecto na turvação que ensina
ao punhal, a empurrar a ponta do cuidado
cruel e indiferente à própria estima
Horta, Maria Teresa. Inquietude. Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi. 2006.

© Alex, via Deviantart
No peito, a manivela ferrugenta
que faz abrir a respiração
começou a emperrar
e o corpo aprendeu rapidamente:
o suor como se a roupa
fosse um antídoto.
O belo cavalo branco de cascos
impretéritos avançou
então
pelas vértebras
mas não impediu que a imagem
fosse real.
Cordas de piano
por onde trepam os assassinos
e onde por vezes
se enforcam
antes de alcançarem a janela,
o repto impune dos que dormem:
vela-me.
GATO, Vasco, “Omertà”, Famalicão: Edições Quasi, 2007

© Paulo Madeira, Olhares Fotografia Online (d.r.)