As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Edições Quasi

Fiama Hasse Pais Brandão — Lisboa sob névoa

 

(ao N.)

 

Na névoa, a cidade, ébria

oscila, tomba.

Informes, as casas

perdem o lugar e o dia.

Cravadas no nada,

as paredes são menires,

pedras antigas vagas

sem princípio, sem fim.

 

Fiama Hasse Pais Brandão. As Fábulas, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002.

 

fotografia: kramsay © kramsay (D.R.)

 

 

 

Rui Lage — Birds, Beasts, and Flowers

 

This is the iron age
but let us take heart
seeing iron brake and bud
seeing rusty iron puff with clouds of blossom
D. H. Lawrence

 

 

 

O aguaceiro manso das jovens

passeia na sala tardia

(o pêssego de Lawrence amadurece

algures nas tuas mãos).

 

Ao longe nuvens de flores aparecem

raiando a costa do ferro e do gelo,

a ilha de Miranda sabe o caminho

para a casa da luz,

escrito no sangue do tigre

que nos livros

acende a temível simetria da noite:

sangue sujo de amor

na inocência

e na experiência.

 

Na sala tardia,

a polpa ferida de literatura inglesa,

o caroço preso à floração

do vestido de Ofélia,

que ouviu adagas

e medrou lilases da terra sem vida.

 

Espera a romã, os figos,

a nêspera: não esperes o enfarte,

acento agudo

na sílaba final do mais longo dos versos.

Rui Lage. Berçário, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2004.

 

Capa sobre sobre fotografia de Carlos Pinto Coelho.

Daniel Faria — Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo

 

 

Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo

De o transformar. Este é o dia transformado

Pelo modo como apoio este dia no chão.

Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra

Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo

Na atenção.


E fico atento, fico deitado porque não sei crescer

Num terreno que se levante.

Cresço na clareira de um homem que é uma palavra

Na sua túnica inteira

Porque este é o sítio do dia sem horário


Sem divisões


E ponho-me de frente no seu lado,

Nos seus braços abertos para me unir

E entro pelo lado aberto e ardo – como Elias

Em chamas subindo para o céu.


Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão:Quasi, 2003

 

 

Torrie © Torrie, via Deviantart (D.R.)

valter hugo mãe – se o vento é a ignição

 

 

 

 

se o vento é a ignição

das árvores venha o

temporal, elas ateadas sobre

as nossas cabeças, desmembradas

da terra como voadores desajeitados, meu pai

já conheço o vão da tua fome, peço-te,

faz de mim uma colher

divina

mãe, valter hugo, Útero, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2003

«inner storm», jkemp © jkemp, via Deviantart, (D.R.)

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valter hugo mãe

Catarina Nunes de Almeida – Elogio da Luz

Vou de férias com um peixinho dourado e luminoso. O blogue fica em repouso.

Hope © José Pedro Sousa

ELOGIO DA LUZ


A luz invadiu uma porção da casa.

Depois foram as ancas e as vozes abraçando-se

o reconhecimento da música do outro lado da janela.

Nesse instante de todos os silêncios

foi afinal aquela porção da casa

que invadiu a luz.

Almeida, Catarina Nunes de, Prefloração, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2006.

Maria Teresa Horta – Infância


Infância


Convoco a memória do espaço da infância

para com ela entender o esquivo sofrimento

se em finitude me leva à inquieta beira

a prosseguir temendo à revelia do tempo


Não são os segredos mas o sinal sem norte

transportando consigo transbordante e breve

o desacerto que a vertigem liga ao abandono

seduzindo-me menina entregue à sua sorte


Foge o encanto e ainda mais amargo

na maçã o veneno dói e reclina

em desmesura unindo a fera e o afago


Desamado afecto na turvação que ensina

ao punhal, a empurrar a ponta do cuidado

cruel e indiferente à própria estima

Horta, Maria Teresa. Inquietude. Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi. 2006.

© Alex, via Deviantart

Novos Poetas (52) – Vasco Gato

No peito, a manivela ferrugenta

que faz abrir a respiração

começou a emperrar

e o corpo aprendeu rapidamente:

o suor como se a roupa

fosse um antídoto.

O belo cavalo branco de cascos

impretéritos avançou

então

pelas vértebras

mas não impediu que a imagem

fosse real.

Cordas de piano

por onde trepam os assassinos

e onde por vezes

se enforcam

antes de alcançarem a janela,

o repto impune dos que dormem:

vela-me.

GATO,  Vasco, “Omertà”, Famalicão: Edições Quasi, 2007

© Paulo Madeira, Olhares Fotografia Online (d.r.)