As Folhas Ardem

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Etiqueta: Dois poemas

João Miguel Fernandes Jorge — dois poemas

 

UM

Quieto nesta dor porque quieto e
não sabendo se na praia o mar sobe ou
o mar desce neste momento neste momento os olhos descem a
uma certa distância pela rua sobre o lado da igreja (azulejos
do segundo quartel de setecentos) — à mulher imóvel sob
a porta lateral. Os arcos os capitéis as colunas.
Onde queres ir? Se a minha própria casa está fechada. Onde
queres ir?
Ou sonhar por estas ruas desconhecidas?

Mas a criança sabe sempre o meio secreto de abrir a pequena porta
do quintal que os limoeiros têm agora flor e os coelhos coelhos
mais pequenos — e uma porta cede sempre a porta mais misteriosa — e
a criança segue imóvel o cheiro do limão a cabeça cinzenta do coelho —
um sentimento de força novo um sentimento sem limite
tudo começa como uma lâmpada acesa nitidamente num espelho.

Corpo corpo ou sonhar por estas ruas conhecidas?

 

«Stories from the city», BlackMamba © BlackMamba, via Deviantart (D.R.)

 

DOIS

Um dia entrou de cair a neve. Espaço relativo
que as pessoas nunca viram onde vão colocando
pensamentos nunca tidos. Mas um dia entrou de cair a neve
a neve que tanto comoveu o cavaleiro de Elvas tão cedo
da América me contou «Das cartas que tão ansiosamente esperei
durante as tuas férias e o período mais chato da minha
vida, nenhuma chegou. Foi pena, porque receber cartas origina
uma loucura tão grande como sair ao fim de semana e
ao fim da tarde». Contou. Da expiação. Porque daqueles que
expiam do corpo o simples movimento o espaço do nosso ar.

Infeliz sobre o rio?

Se o movimento é sempre relativo. E mesmo se fosse absoluto
podia mudar: o repouso. O repouso? É o caminho do finito ao
infinito. Nada mais. Assim o sei passado com aquela jovem oferecendo
perfumes a Afrodite e contigo preso a cartas que tão
ansiosamente não
escrevi.

Jorge, João Miguel Fernandes, Colóquio/Letras n.º 18, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1974

Inês Lourenço – (dois poemas)

 

 

De novo se volta a Inês Lourenço, que já foi referida e transcrita aqui, desta vez com dois poemas publicados na Colóquio Letras n.º 147/148, de Janeiro de 1998 (datados de 1997, muito anteriores, portanto ao seu último livro, Coisas que Nunca, de 2010, publicado na & etc.).

RUA DO BONJARDIM
I

Vindo do marquês, o autocarro

chiava na curva estreita, soltando

os seus vapores de gasóleo, e

num portal surgia um gato pardo

para o qual me inclinei, sabendo

que fugiria ao contacto

da minha mão, ou apenas ao

esboço de carícia, como fazem

os gatos, tão fugidios na presença

de estranhos. Mas o animal, no

instante do recuo, aceitou o

deslizar dos meus dedos,

em troca de amáveis energias. E

uma longa saudade subiu-me pelo

braço, no arquear festivo

daquele pequeno tigre.

RUA DO BONJARDIM
II

Ao entrar no quiosque,

nesta tarde de névoa, para

comprar um jornal qualquer, uma criança

pediu algo que não entendi. Seria

uma moeda para um chiclete? Perguntei

ao homem sentado atrás das

revistas do coração e dos diários

da bola de quem seria a criança, como

se pudesse ser de alguém um ser

tão súbito, nascido da genealogia

indecifrável da tarde.

Porto, 97

Lourenço, Inês, in Colóquio/Letras n.º 147/148, Janeiro de 1998, Fundação Calouste Gulbenkian

«Spirit of the child», Ciril Jazbec © Ciril Jazbec, via Deviantar (D.R.)

(clique para ampliar)

 

Links Relacionados:

(desactualizado, mas com referências bio-bibliográficas e alguns poemas da escritora:)

Inês Lourenço