As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Do trapézio sem rede

David Ignatow — Para a minha filha em resposta a uma pergunta

 

 

 

No dia do Pai. Sara. Clara, João.

 

Para a minha filha em resposta a uma pergunta

Não vamos morrer,

havemos de encontrar uma solução.

Respiraremos fundo

e teremos cuidado com a comida.

A nossa mente estará concentrada em vivermos.

Nenhum dos dois desaparecerá.

Seremos os primeiros,

nunca nos riremos de nós mesmos

e os teu filhos serão os meus netos.

Nunca nada mudará

a não ser por adição.

Não haverá nunca ninguém como tu

e ninguém nunca como eu.

Nunca ninguém te confundirá

ou me confundirá com outro.

Não seremos nunca esquecidos e ultrapassados

e enterrados sob os nascimentos e as mortes por vir.

 

 

(Versão de L.P. publicada no blogue Do Trapézio sem Rede. Agradeço ao autor deste muito valioso blogue, também ele notável presença na poesia portuguesa actual, a transposição do poema, sabendo de antemão que a sua elegância me autoriza a fazê-lo.)
«Fathers and Sons», Cahilus © Cahilus, via Deviantart (D.R.)
Links relacionados:

Carol Ann Duffy, ‘poet laureate’

Desde o primeiro dia de Maio, Carol Ann Duffy (1955 – ) é oficialmente a ‘poet laureate‘ do Reino Unido. Trata-se da primeira mulher a ocupar o ‘cargo’, do primeiro poeta de origem escocesa, do primeiro poeta assumidamente bissexual. Estas singularidades não deveriam merecer a relevância que os media lhes tem conferido, face à qualidade e consistência da obra da autora. Mas, ao assumir o lugar desta peculiar tradição (não exclusiva, mas eminentemente britânica), que remonta pelo menos a Ben Jonson, nomeado pelo rei Jaime I em 1617, e foi servida por nomes como John Dryden, Alfred Tennyson, Ted Hughes, Duffy torna-se agora notória para o grande público, ‘para além’ da sua obra. Na história da incumbência, uns recusaram (Philip Larkin) ou demitiram-se. Não espanta: o cargo é perpétuo, a remuneração anual ascende à astronómica soma de £5750 libras e é suposto que se escreva alguma poesia por encomenda ‘oficial’! O ‘The Guardian” tem um excelente dossiê online sobre o assunto, que inclui um poema recente (Premonitions) e uma selecção de poemas de autoras contemporâneas, feita pela própria ‘poet laureate‘.

Em ‘piloto-automático’, dirijo-me ao blogue Do Trapézio Sem Rede; um cão sabe sempre onde pode haver um osso escondido. Encontro, sem espanto, dois poemas de Carol Ann Duffy, traduzidos por L.P.. Aqui deixo um deles, pedindo muita licença e de ‘chapéu na mão’, em sinal de respeito; e perguntando aos meus botões, sem respeito nenhum, como seria a guerra de ‘capelas’, ‘capelinhas’, castelinhos’, ‘feudos’ e ‘quintais’, se tal função existisse em Portugal; e uma escolha tivesse de ser feita.

'A menestrel oficial sou eu'

'A menestrel oficial sou eu'

Carol Ann Duffy

Educação para o ócio

Hoje vou matar alguma coisa. Qualquer coisa.
Estou farto de ser ignorado e hoje vou
representar o papel de Deus. É um dia vulgar,
uma mistura de cinzento e tédio arrebatador pelas ruas.

Esmago uma mosca contra a janela com o polegar.
Fizémo-lo na escola. Shakespeare. Foi noutra
língua e agora a mosca mudou-se para outra língua.
Expiro talento no vidro para escrever o meu nome.

Sou um génio. Poderia ser o que quisesse, com metade
da sorte. Mas hoje vou mudar o mundo.
O mundo de qualquer coisa. O gato evita-me. O gato
sabe que eu sou um génio, e escondeu-se.

Deito pela sanita os peixes dourados. Puxo o autoclismo.
Vejo como isto é bom. O periquito está aterrorizado.
De quinze em quinze dias, faço três quilómetros até à cidade
por causa de uma assinatura. Eles não gostam do meu autógrafo.

Não há nada para matar. Telefono para a rádio
e digo ao homem que está a falar com uma super-estrela.
Ele desliga. Pego na nossa faca do pão e saio.
O piso resplandece de súbito. Toco no teu braço.

(versão minha [N.R.: de L.P.]; o original pode ser lido aqui)


Os ‘meus’ Blogues – Do trapézio, sem rede

(…) uma coisa que eu acho belíssima, essa ideia de que, quando nos confrontamos com um texto, olhamos e dizemos: «tenho aqui uma guerra». Ou seja, há uma opacidade original do texto original, opacidade não quer dizer que a gente não perceba a uma primeira leitura, há uma opacidade à tradução, há uma barreira à tradução, na qual depois aplicamos tudo isto que estamos a teorizar. Mas aplicamo-la como? Quando estamos a traduzir uma frase não estamos a decompô-la, pelo menos racionalmente. Há um mecanismo quase espontâneo, digamos, intuitivo.” – António Mega Ferreira, em “tradução: a panela, o cozido e o caldo”, debate sobre a Tradução, realizado em Março de 2004, publicado em “A Phala 1″ (segunda série, 2007, Assírio & Alvim).

No silêncio discreto, no anonimato das iniciais L.P., o autor do blogue Do trapézio, sem rede tem vindo a realizar um trabalho de grande valor e, por vezes, de descobertas inesquecíveis. Esta ‘poesia passada para português’ não nos oferece apenas, com uma regularidade de metrónomo, poemas de 130 autores (and counting…) vertidos para a língua portuguesa: tem a virtude de nos dar a conhecer muitos poetas que estão fora dos círculos do reconhecimento mais imediato; e o mérito de nunca omitir a fonte, numa atitude de honestidade e seriedade que se deve assinalar. Visito muitas vezes ao Do trapézio, sem rede – nome que, reportando-se à tradução, é já uma enunciação da percepção do autor sobre o seu trabalho. Vou lá muitas vezes, repito, jamais me desiludo. Nunca encontrei cedências de gosto. Antes uma criteriosa escolha de autores; de poéticas; e traduções que admiro. Agradeço muito. Recomendo muito o Trapézio, essa caixa de rebuçados da poesia universal.

Aqui se deixa o último poema que nos é oferecido em tradução – data de dia 18 -, com a respectiva indicação da fonte, cuidado que o autor infalivelmente não descura.

Vladimír Holan

Mãe

Alguma vez observaste a tua velha mãe
a compor a cama para ti,
a maneira como ela estica, endireita, aconchega e alisa os lençóis
para que não sintas um só vinco?
A sua respiração, o movimento das palmas das mãos
são tão ternos
que no passado apagam esse incêndio em Persepolis
e agora acalmam uma futura tempestade
nas costas da China ou em mares desconhecidos.

(versão minha [Nota: do autor do blogue, L.P.], a partir da tradução inglesa de Ian e Jasmila Milner, reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), 1993, p. 37).
'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online [D.R.]

'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online

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