As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Hugo Milhanas Machado — «Uma pedra parecida» (cinco poemas e prefácio do livro)

(fotografia: «Sea's Ghost», )

(fotografia: «Sea’s Ghost», <http://triodante.deviantart.com/&gt;)

Segundo livro da chancela «do lado esquerdo», Uma pedra parecida surge, numa tiragem tão exígua como rara é a cintilação desta obra de Hugo Milhanas Machado, autor de trabalho poético já considerável e senhor de uma linguagem e voz tão próprias que se poderiam tomar por galhardias, facilidades ou divertimentos. Longe disso, como tentei enunciar no prefácio e, melhor que eu, de si mesma dá conta a obra do autor, que se contrói em refutação de aparente desembaraço. As fascinantes ocupações o livro são um desafio, desde logo no entendimento do jogo da sua sintaxe, linguagem, voz que se faz em si mesma, autor sem epigonismo. A título de divulgação e conhecimento, aqui se deixam os cinco primeiros poemas do livro, pertencentes ao corpo «viragens, entusiasmos», que inaugura a obra.

 

Atrás de imagem

Quando és tu e por trás

em fila os barcos

guardei fundo muito

tu e o mar aqui parados

Eu visto um agasalho

entrego abrigado o café

à boca e entusiasmo

contigo assim

*

Em estar aqui

Está aí um tempo que

nem deitados às dunas

corpos são grandes como foles

e ver neste ficar pesadão

O fado só pode ser isto

ver os outros a cantar

é o bater da luz

na gente lascada e doida de sal

Vestir um agasalho

chegados à frente

pôr mais um bonito

e ruço agasalho

*

A propósito de safios

Mais de manhã e apressando

tornam marítimos em pé traçado

e outras vezes são dedos e

são dois três quatro e meios dedos

nessa vez e para sempre

É de se perder dentro

como numa dessas muitas palavras

que de longe vemos montadas

abocanhado metade do corpo fora

em brutal fola de boca

E deve tudo deve ser

lancha e seda e o peixe

não tarda muito ali morto

e depois deitado à água

*

Frases

É o vento a comer mais

e uma flor que não dá a pôr

Um silêncio daqueles e à borda

onde braços e limo vêm arrimar

Vai bonito o que a gente diz

olha ali aquela terra mete pedra

Vai fundo repara o pé que

aqui ancora eu não saio daqui

E o azar era o recorte dos barcos

quando éramos mais

*

Os pavilhões

Sentar à praia em

dia nesta tarde que fresca

põe o corpo nos emblemas

toalha espelho o favo solto

Não é a mesa que escondida

é donde se te vê passar nem

o sol que em frente deve descer

alumia e fala noutras línguas

Resolvo o nó porque insisto

na dobra azul e amarela ao alto

que ali deve ser o tecto do barco

e desfraldada tanta confusão

Aparece giro meu nome dito por ti

«Uma pedra parecida» — capa

«Uma pedra parecida» — capa


(prefácio do livro, revisto para edição no blogue)

Perante a matéria-prima do trabalho poético que surge frente aos nossos olhos, não se afigura a possibilidade uma leitura limpa, completamente inocente, isenta de contaminações, salvaguardada de apropriações tendencialmente analíticas, de juízos valorativos.

Não há leituras ingénuas, nem elaborações do gosto específico por um livro, por um autor, em pleno gozo da liberdade. E, contudo, a escrita poética de Hugo Milhanas Machado convida-nos permanentemente ao abandono dos crivos analíticos, às medições, a um julgamento que envolva qualquer classificação categorizada, como aquelas que, agora, até os jornais de referência utilizam: bolas e estrelinhas vermelhas, valham-nos os céus.

Desde logo, a singularidade da voz poética do autor, já patente nas suas obras anteriores (particularmente em Entre o Malandro e o Trágico, Lisboa: «Sombra do Amor edições», 2009), conhece, neste seu novo livro, a expressão de uma identidade particularíssima, que se configura visível em duas vertentes, que devem ser identificadas e destacadas.

Por um lado, a destreza na elaboração de uma variação formal que separa os três corpos de poemas que compõem o livro, exercício que, paradoxalmente, reforça a unidade que o mesmo nos propõe; por outro, a desenvolta quebra das regras supostas de gerar aquilo a que chamaríamos o verso apurado. Estamos no domínio do espanto, da licença poética a que o autor se permite, liberdade maior da ars poetica. Versificação no limiar do surpreendente, sem falhas, desarmante, aquela que aqui encontramos. De que nos desarmam eles, os versos, as estrofes, os poemas de «Uma Pedra Parecida»? Das certezas da leitura confortável, da inclinação para o adquirido, da interrogação (por vezes perplexa) sobre a sua essencialidade.

É aqui que Hugo Milhanas Machado evidencia com maior relevo a originalidade da sua obra, rompendo exultantemente e com (aparente) agilidade as convenções da sintaxe (questão que chegou a ser inutilmente utilizada para debater os seus poemas).

Temeridade do autor? Ao lê-lo, percebe-se a deliberação tenaz, a mão e o ofício, a voz e uma lírica tão própria que requereria uma linguagem que lhe fosse inerente. É essa uma das maiores virtudes do livro e dos poemas que nele encontramos: a capacidade de criar uma formalização que serve a intencionalidade poética do autor como se a única possível fosse.

Que desígnio é este? Na primeira parte do tríptico, «VIRAGENS, ENTUSIASMOS », é toda a memória convocada que irrompe, celebrando o júbilo íntimo dos dias solares, dos elementos, da natureza e do corpo, num conjunto onde o campo da semântica se rarefaz para melhor dar lugar à enunciação de uma emocionalidade grandemente contida, ao ponto de se encobrir deliberadamente em pequenos episódios, passagens enunciadas como constatações, formulações que simulam acasos, pequenas contingências. Um jogo excepcionalmente visual ocorre e se estabelece na trama dos poemas; parada quase impressionista, permitindo, por vezes, a identificação do traço fino do real, outras largando grossas manchas de simulação. Minucioso trabalho, este; mas é outra a musicalidade que ouvimos: o poderoso apelo da memória em torno da alegria do corpo e da vida. Uma intensa digressão aos referentes de um tempo recente e não maculado ainda pela sombra do esquecimento. Poemas solares, portanto, tanto mais expressivos quanto o poeta se adianta a esconder-lhes as marcas. Poemas do eu em graça, aparentando distância, um pudor finamente urdido; mas que nos deixam todas as pontas por onde lhe pegar: a evidência da felicidade.

E é a memória nostálgica de um referente temporal feliz que se desenvolve na segunda parte, «DECORAÇÃO DE INTERIORES», não por acaso iniciada com o poema «Fim de férias». Um corpo de poemas onde o itinerário rumo à cidade, ao quotidiano, se sublima no acto da escrita como possibilidade de preservação, de redenção. A recusa de um trabalho de luto estabelece-se aqui, através de uma firme protecção do vivido, da obstinada fixação do real, essa passagem perdida, resgatada pelo modo como se vai «Desfazendo viagem»: [«Embrulhada / a mão alcança / as melhores palavras / como se em casa / passando por elas / e muito mordido / o fundo da esferográfica»]. Muito mordido o sujeito que muito morde a esferográfica. Não é sem esforço que guardamos os restos da memória exultante.

Memória recente, que convoca a memória antiga: a terceira parte, «20 E TANTAS BUCHAS COM PIRATAS» encaminha-nos para uma galeria de personagens vindas do lastro do universo das reminiscências do autor, homenagem aos homens e ao lugar com os quais e onde se conheceu o espanto da infância, agora cristalizada e brilhando na imagem dos outros, tão reais, tão ficcionados pelo tempo; figuras que adquirem, pela sua idiossincrasia, uma aura mítica, ganhando dimensão de grandeza, mesmo onde o mais raso e o mais elevado do humano se encontram, como no poema «Zé Mergulhão, Camarão»: [«Assim falando parece até / que são pedras grandalhonas / olha a separar o mar / e gastas as letras no verdete // É um nome pequenino / arrancado a navalha / e nestes dedos todos espatifados // tá claro que o amor é assim / cravado de algas»].

Aparentemente distanciado dos dois primeiros corpos de poemas, «20 E TANTAS BUCHAS COM PIRATAS » torna-se a marca de contraste, a procura mais longínqua, o teste das possibilidades de resgate, que permite ler a obra como um todo, na qual a preservação da memória é um trabalho primordial para a objectivação do seu desígnio.

A ultrapassadíssima questão da poesia como instância expressiva de um eu melancólico exposto no e ao mundo (mesmo que ao mundo interior) é totalmente estilhaçada na poesia de Hugo Milhanas Machado. Ao resgate do passado não corresponde uma epifania por algo perdido. Antes uma laboriosa e discretamente urdida tessitura de uma formulação tão pouco comum como incomum é a sua formalização: a possibilidade de um poema que guarde a felicidade. A exultante alegria de ter vivido muito; tão pouco ainda, perante o que virá.

Ao ler o autor, diziam-nos que, de um inscrito subtexto, emanava uma imensa ternura. Seja. Mas é da memória da existência feliz, e da sua celebração, que estes poemas nos falam. E batem muito forte, ondas na rocha. Que se saiba, não é proibida a felicidade na poesia; que se saiba, a poesia pode ter, como matéria, o real; que se saiba, a realidade, por vezes, acontece ser feliz. Num tempo em que as correntes, as tendências, as escolas e as capelas literárias tendem a desaparecer e os poetas ascendem, autonomizados e livres do peso dos mestres e do lastro dos epígonos; num tempo, coincidente com a viragem do século, muito fértil no que à poesia diz respeito, a marca distintiva e a potência da voz poética de Hugo Milhanas Machado é esta: o elementar, firme, despretensioso labor de desconstruir a língua para refazer uma sintaxe ao serviço de um território seu, no qual pode, ele mesmo, soltar uma gargalhada. Com um verso. Com a vida.

Hugo Milhanas Machado

Hugo Milhanas Machado

Bibliografia de Hugo Milhanas Machado:

Poema em forma de nuvem – Torres Novas, Ed. Gama, 2005

Masquerade – Lisboa, Sombra do Amor, 2006

Clave do mundo – Lisboa, Sombra do Amor, 2007

Entre o malandro e o trágico – Lisboa, Sombra do Amor, 2009

As junções – Lisboa, Ed. Artefacto, 2010

Buchas – plaquette, Lisboa, ed. autor, 2010

Folas – plaquette, Salamanca, ed. autor, 2011

Plato chico – plaquette, Valencia, ed. autor, 2012

Parrillada – plaquette, Morille, ed. autor, 2012

Orla – plaquette, Salamanca, ed. autor, 2012

Pancartas – ebook, Salamanca, 2012

Uma pedra parecida – Coimbra, Do Lado Esquerdo, 2013

(Os 100 exemplares do livro devem esgotar rapidamente. Mas vale a pena tentar encomendá-lo aqui, recomendação para a qual não fui, evidentemente, «encomendado».)

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«Do Lado Esquerdo» — nasceu hoje uma nova editora de poesia, com novo livro de Maria Sousa.

Do Lado Esquerdo

Do Lado Esquerdo


Nasceu hoje uma nova editora de poesia, em Coimbra. «Do Lado Esquerdo» é iniciativa de Maria Sousa e de Nuno Abrantes, co-editores da revista digital a sul de nenhum norteque já contabiliza sete edições. O nome da editora, certamente inspirado no poema de Carlos de Oliveira «sobre lado esquerdo», revela apropriadamente a intensidade afectiva que os seus autores empregam na actividade de editores. Apresenta, igualmente, um jogo de sentidos, tal como o poema de Carlos de Oliveira o fazia, em tempos muito duros de luta contra a censura (mas também não o serão estes, nomeadamente no que à censura económica diz respeito?).

É justamente com um título de Maria Sousa, o livro Mulher Ilustrada, que se inaugura o catálogo da editora. Que o editor assuma igualmente o papel de autor é tradição antiga, nada a obstar. Mesmo porque se aguardava, já, um novo título da autora, depois de Exercícios para endurecimento de lágrimas, («Edições Língua Morta», 2010). Maria Sousa, que se define de forma bem original, em nota biográfica elaborada para a sua apresentação no Ciclo de Leituras Encenadas «Da Voz Humana», que teve lugar no ano transacto, na companhia «Escola de Mulheres — Oficina de Teatro». Escreve a autora: «Coisas que me fazem bater depressa o coração* O Outono, o cheiro da terra molhada, o som das ondas, o estalar das folhas secas, a minha família, os meus amigos, as janelas, a luz a atravessar cortinas brancas, nuvens, as canções do Tom Waits, livrarias antigas, livros e caderninhos, um olhar, um rir, o som da chuva, os poemas da Alejandra Pizarnik, os da Anne Sexton, viajar, despedidas, ouvir poemas meus em lituano, falar em público, cafés vazios, cigarros. E melancolia. *(plágio descarado ao titulo de um um texto da Sei Shonagon)». Acrescenta-se que Maria Sousa participou em várias revistas literárias (Criatura, Sítio, Saudade, Umbigo) e num Seminário de tradução literária organizado pela L.A.F. (Literature Across Frontiers); e que é autora de um dos mais antigos e prestigiados blogues relacionados com a poesia: «there’s only 1 alice»

Sobre o primeiro livro, e já com alguns dos poemas que compõem o agora inaugural Mulher Ilustrada, escrevi, na ocasião, que estávamos perante uma autora que trava  uma duríssima luta contra a ausência, revelada no silêncio, na impossibilidade de dizer; a tremenda prova dessa ausência nos lugares habitáveis, no quotidiano — a casa, a cama, o corpo, a voz — lides íntimas que se travam apelando à memória, inevitavelmente sem resposta, que esta se esconde num esquecimento tornado apaziguador, resgatado pela possibilidade de uma sílaba, da palavra escrita; trabalho de equilíbrio do sentimento de si travado no fio de um arame. Na poesia de Maria Sousa o eu é um outro (uma outra), à procura do retorno ao eu outro. Poemas onde se experimenta um incessante labor de resgate, ainda que, para tal, se organize, sem concessões, no largo tempo espectral da noite, um movimento incessante de contenção. É como engolir um grito.

Mulher Ilustrada acentua claramente a voz da autora, ampliando os lugares simbólicos, refazendo e renovando a semântica que lhe é peculiar, acentuando de forma mais elaborada, num trabalho incessante de depuração, onde a ironia e a nostalgia estão presentes, numa permanente elegia de um eu idealizado, perdido no confronto com a sua realidade íntima.

O resultado merece a maior atenção para uma obra em sólida construção, já em plena maturidade, que se ergue com um saber laboriosamente tecido.
 

 

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

Aqui se deixa o díptico que encerra Mulher Ilustrada, livro que pode ser adquirido nos lugares indicados na página da editora «Do Lado Esquerdo», na rede social «Facebook».

I

vejo-te na soleira da porta

hesitas. em cena apenas estou eu

penso em mudar-me

mas, entre erros e desculpas

falta-me espaço

 

se contares histórias serão daquelas que

ninguém quer ouvir

relatos de passeios de domingo onde há sempre ruínas

sim, restaram apenas ruínas escavadas no interior dos olhos

 

II

entras, não tens medo

rodeado de olhares com sono que ainda não sabem

que as palavras são sempre as mesmas

(uma espécie de cerimónia onde te repetes para evitar a morte)

 

mentimos os dois sobre uma história feita de fragmentos

 

dizes que nem sempre o guião é o mesmo

mas repetes-me o teu monólogo ao ouvido

 

“deixa-me sair” vou abandonar a personagem

que balança no vazio

 

última tentativa: observo-te e tu já não me vês

conheces-me tão pouco, não, isto…

isto não é um dueto, é um duelo

 

friamente o silêncio cai sobre nós

não há vozes nem adereços

(a cena está vazia)

 

há apenas uma cortina de vento onde as palavras

nunca se moldaram

 

Sousa, Maria, Mulher Ilustrada, Coimbra: «Do Lado Esquerdo», Janeiro de 2013