As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Delírios

São Valentim, o grande embusteiro

Raios abrasem o dia de São Valentim! A começar pelo bispo que lhe deu o nome: desde 1969 nem a Igreja Católica o reconhece, à falta de provas credíveis da sua lenda ou mesmo da sua existência. Embirro, porque tenho o Santo António, caso precisasse de um santinho que, por decreto de calendário, me levasse o coração a bater mais estremecido. Que não é o caso, que o coração não precisa de datas, como as datas não têm coração, o meu Banco que o diga. Que do Valentim façam festarola anglo-saxónica a escorrer para o nosso torrão, a pingar para o negócio, é dupla injúria. Meu pobre e desancado coração, que batas ao sabor dos dias, sem hora marcada; meu bom coração constante, pulsa-me aos minutos certos da incerteza; meu coração comovido de taquicardíaca beleza, recorda-te da mais bonita quadra popular que já li, escrita em letras azuis num prato de cerâmica rasca, numa tasca da EN1.

Sino, Coração da aldeia

Coração, Sino da gente

Um a sentir quando bate

O outro a bater quando sente

Perceberás, Valentim, que és detalhe de calendário, cúpido cupido sem préstimo que não seja enlevar basbaques? Pois és.

 (fotografia:«St. Valentine's Legacy», via Deviantart, (D.R.)

(fotografia:«St. Valentine’s Legacy», via Deviantart, (D.R.)

Diz-me o «Seringador» — Ao luar de Janeiro, vê-se a raposa no outeiro.

 

 

«2010 Brightest Moon», Joseph Choi © Joseph Choi, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

 

 

«Lua cheia às 21h e 21 m a 1 grau em Leão. Bom tempo. Procede-se à limpeza e adubação dos pomares. Adubam-se, podam-se e limpam-se as árvores, devendo tratar-se as fruteiras de modo a dispensar-lhes os precisos cuidados preventivos contra as doenças e parasitas animais. Procede-se à transfega do vinho, ou seja, à passagem do vinho novo de uma vasilha para outra com o fim de o separar do seu depósito (borras) localizado no fundo da vasilha. — Ao luar de Janeiro, vê-se a raposa no outeiro.»

Este mimoso naco de sabedoria é aposto ao dia de hoje, no «Seringador» que por desfastio substituí este ano ao habitual «Borda d’Água». Diz-me muito de um mundo que já me diz pouco: a infância e o campo. No campo, os velhos garantiam ser a lua de Janeiro a mais bonita do ano (e apetece pensar que, no campo, «os velhos» também tinham um sentido estético lá deles). Na linguagem urbana do almanaque a retórica maneirinha é suave; mas em Janeiro tudo era duro: «dispensar-lhes os precisos cuidados preventivos» era trabalho árduo, cortante; a trasfega não era um ritual, mas pedia força e experiência, coisa de homens. E o adágio, que deve ser muito antigo, decerto nortenho, é tão belo como esta noite em que podemos ver as raposas no outeiro.

*

O «Seringador» não nos actualiza, porque a sua função é que nos desactualizemos. Por isso não refere acontecimentos como a fundação do Sporting Clube de Braga (1921), meu sexto clube preferido e aquele que tem o estádio mais bonito do mundo, sem esquecer que ganhou uma Taça de Portugal (e a única Taça da Federação Portuguesa de Futebol; estou aliás convencido que a conquistou para a exterminar, num gesto que só revela a grandeza da agremiação).

Sporting Clube de Braga 2009 - 2010 (Sp. Braga 1 - F.C.Porto 0) © maisfutebol.iol.pt

O «Seringador» não nos actualiza, porque a sua função é que nos desactualizemos. Por isso não refere o aniversário do nascimento de Eugénio de Andrade (1923) e a passagem de quatro anos sobre a morte de Fiama.

A um poema

A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-lhe-ei
rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema.

Brandão, Fiama Hasse Pais, Três Rostos, Lisboa: Assírio e Alvim, 1989

diz-me o «Seringador»…

…que hoje é dia de São Pedro Tomás, Bispo e Mártir, precursor do ecumenismo, um tipo porreiro. Como hoje só se falou do sr. Cavaco, do sr. Alegre e do sr. Castro (RIP), é justo que alguém se lembre deste santinho carmelita descalço; e da bela pintura que o retrata, na Igreja do Carmo, em São Vicente, Braga, que aqui pode ser descomunalmente ampliada.

São Pedro Tomás

(clique para ampliar)

Pérolas (4)

(delírios dos dias febris)

“As repúblicas são contranatura. Excepto aquelas repúblicas muito tradicionais, como a Suíça, ou os EUA, onde, de algum modo, elegem um rei.”

– D. Duarte Nuno de Bragança, in Público (P2), 01.12.2008 –

'Sou tradicional na Suiça. Serei elegivel?'

‘Sua Majestade, El-Rei da Suíça (eleito)’

Suazo, o mais popular do mundo

(aviso à navegação: quem quiser ver, neste blogue, um post decente sobre o Cristiano Ronaldo, clique aqui)

No Record online (sim, confesso, acedi ao Record online!) noticia-se: Suazo é o mais popular do Mundo. Suazo… pois… pela fotografia é um jogador de futebol. Do Benfica. Pesquisando um pouco mais… é hondurenho. Já jogou em Itália. Já marcou dois ou três golos para o campeonato. Em 10 jogos. Está tudo explicado!

Daria vontade de rir, se não desse vontade de pensar.

A questão nem está na notícia, que apenas difunde os resultados de uma votação online organizada por uma críptica Federação Internacional de Estatísticas e História do Futebol (IFFHS), a qual, como sublinha o Record, é “uma entidade reconhecida pela FIFA” (Ah, assim a coisa fia mais fino!). O problema está no tratamento que é dado à notícia, ou melhor, a falta de tratamento. É que uma votação desta natureza não permite, em circunstância alguma, retirar qualquer espécie de conclusão decente. Ou, se dela se extrair inferência, a mesma deverá ser, obrigatoriamente contextualizada, relativizando (no mínimo) a coisa.

Mas o Record é um jornal desportivo. Português. Precisa de vender. Suazo, esse ídolo das massas, joga no Benfica (que deve estar a fazer fortunas a nível global com o merchandising desta super-estrela galáctica). É triste que sejam os leitores, na caixa de comentários à ‘notícia’, a extrairem as ilações que os jornalistas deveriam ter retirado, nem que fosse, como mandam as regras, em nota de opinião.

Eu também tenho um comentário a fazer: vou organizar uma votação online aqui no prédio para saber quem é o vizinho mais popular. Excluíndo a estimada Dª. Engrácia, do segundo andar, cuja idade lhe permite abstrair-se de minudências, tenho a certeza que uma tarde inteira a votar em mim mesmo vai esmagar os meus restantes quatro vizinhos.

(Para que conste: Cristiano Ronaldo, que ganhou hoje mesmo a Bola de Ouro, ficou em 20º lugar na referida votação de popularidade. E, dando natural continuidade à credibilidade da coisa, o segundo classificado foi o ‘imortal’ Mohamed Aboutreika – Egipto/Al-Ahly; para que conste: Ronaldo tem 14.800.000 link results no Google; Suazo 1.160.000).

'Gaita, quando eu for grande quero ser o Suazo'

'Gaita, quando eu for grande quero ser o Suazo'