As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: De Novo as Sombras e as Calmas

Helder Moura Pereira — Escrevias pela Noite Fora

 

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava

o que ia ficando nas pausas entre cada

sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,

faz de conta que não sei as coisas que não queres

que saiba, acabei por te pensar com crianças

à volta. Agora há prédios onde havia

laranjeiras e romãs no chão e as palavras

nem o sabem dizer, apenas apontam a rua

que foi comum, o quarto estreito. Um livro

é suficiente neste passeio. Quando não escreves

estás a ler e ao lado das árvores o silêncio

é maior. Decerto te digo o que penso

baixando a cabeça e tu respondes sempre

com a cabeça inclinada e o fumo suspenso

no ar. As verdades nunca se disseram. Queria

prender-te, tornar a perder-te, achar-te

assim por acaso no meu dia livre a meio

da semana. Mantêm-se as causas iguais

das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina

dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono

custa. Porque estou contigo e me deixas

a tua imagem passa pelas noites sem sono,

está aqui a cadeira em que te sentaste

a escrever lendo. Pudesse eu propor-te

vida menos igual, outras iguais obrigações.

Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

Helder Moura Pereira, De Novo as Sombras e as Calmas, Lisboa: Contexto, 1990

 

«reading», korlyuk © korlyuk, via Deviantart (D.R.)

Helder Moura Pereira — Por um Rosto Chego ao Teu Rosto

Por um rosto chego ao teu rosto,

noutro corpo sei o teu corpo.

Num autocarro, num café me pergunto

porque não falam o que vai

no seu silêncio aqueles cujo olhar

me fala da solidão.

Esqueço-me de mim. Tão quieto

pensando na sua pouca coragem, a minha

sempre adiada. Por um rosto

chegaria o teu rosto, mesmo de um convite

ousado fugiria, esta mão conhece-te

e desenha no ar o hábito

por que andou antes de saíres

do espaço à sua volta. Estás longe,

só assim podes pedir algumas horas

aos meus dias. Sem fixar a voz

a tua voz é uma corda, a minha

um fio a partir-se.

Helder Moura Pereira, De Novo as Sombras e as Calmas, Lisboa: Contexto 1990

 

«face to face», christiane © christiane [http://scheinbar.deviantart.com/]