As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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David Teles Pereira — Pequena elegia da memória

 

Não nego que me sinto vencido

pela tua distância,

uma pedra e um pouco de gelo no sangue

uma violeta na primavera desta morte em flor.

A aflição não passa,

ainda que eu permaneça na defensiva, dia após dia,

na retaguarda do teu afecto.

 

Tocar-te o músculo, tal como a um livro de biblioteca.

Mas agora, o que se mantém vivo e fresco

no teu estojo de ossos? Assim, dizem,

se retira aos nossos restos, ainda que dignos,

o nervo e a tentação do teu nome.

 

Não dizer o teu nome, nunca. Não pode dar-se

tesouro eterno assim a mãos que me recusaram.

Quanto mais morres, mais difícil é dizer-te,

 

mais fácil é dizer apenas… corpo.

 

 

David Teles Pereira, Resumo, a poesia em 2011, Lisboa: Documenta / FNAC, 2012. (originalmente publicado em Criatura/6, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope da A.A. da F. de Direito de Lisboa, 2011.)

 

«Flaming June», Sir Frederic Leighton, 1895

 

Nota biográfica do autor, no portal «Poems from the Portuguese» (onde é possível encontrar versão deste poema em língua inglesa)

David Teles Pereira — Biografia (A Terra)

 

BIOGRAFIA

(A TERRA)

 

Everything about you,

my life, is both

make-believe and real

Charles Simic

Há dias em que não penso uma só palavra

que queira dizer-te, dias em que as fronteiras entre os homens

se encontram permanentemente abertas ao estreitar de mãos,

como laços de gravata a fecharem-se sobre o colarinho da camisa.

Não penso sequer na tua nuvem a morrer todos os dias à minha porta,

mas diz-me, diz-me afinal de contas tudo o que quiseres.

É que eu, eu passei demasiado tempo na tua pele,

a sonhar os gregos com intenções de cerâmica e laser,

e agora é Outono a caminho do teu rosto,

resta-me passar a rua pelos olhos, pedir café e uma amostra de cinema

datado,

tal como a originalidade da nossa história,

entregue a amanuenses talentosos na hora de nos ortografar bem.

 

Não pareço feliz, mas pareço belo.

Terá de ser suficiente para agarrar pelos cabelos a onda

e fugir para tão longe da praia,

sempre a fingir esta versão super-heróica de mim próprio

de lábios, olhos e estômago pintados

ao jeito de uma obsessão ostensivamente recente:

tendências nunca reconhecidas nos séculos precedentes.

 

Admitir maternidade nestas putas de livros, à falta de linguagem feminil

que justifique a brandura da nossa crónica,

nunca como um truque, mas como uma tragédia,

enquanto dormes, a fazer de conta que estou aqui,

noite após noite, a tentar perceber porque é que a leitura conjugada

deste e daquele sentido é quase uma colagem

ao lastro de justiça daqueles que nos correm na família.

Escrever na terra prova uma série de coisas,

mas provas bem melhores surgem ao apagá-la,

porque a terra não se encontra com a terra, nem com o sangue.

Não somos pessoas agradáveis de conhecer.

 

David Teles Pereira, in criatura n.º 5, Outubro 2010.

 

(D.R.)

 

Novos Poetas (XXV) – David Teles Pereira

Por deferência de Beatriz Hierro Lopes, recebo este poema (assim como o anterior, de Diogo Vaz Pinto). David Teles Pereira num registo lírico desencantado, onde as marcas referenciais ao Livro Sapiencial ‘Cântico dos Cânticos’ são visíveis (por vezes muito). Porém, em confronto com o poema publicado em criatura 2 e aqui já editado (‘Carta de Amor‘), um surpreendente salto na desenvoltura, ampliando uma identidade de escrita e um domínio formal dos seus processos que faz esperar a emergência de um percurso poético maduro. O que se considera sobre este poema poderia, de igual forma, aplicar-se ao trabalho de Diogo Vaz Pinto.

(Nota do Autor: Uma versão mais curta deste poema foi publicada anteriormente no blogue {O Melhor Amigo]. Para além dos versos acrescentados e de algumas alterações nos versos da versão original, foi mudado o título do poema, o que, por si só, corresponde à alteração com mais significado. A versão original a que se deu o nome de Cântico Maior (furtado a Fiama Hasse Pais Brandão) pretendia ser uma adaptação, mudança ou variação da primeira parte do Cântico dos Cânticos atribuído a Salomão.


Cântico Menor

Negasses-me o incenso da tua pele as tuas rajadas Elevação
superior à morte.
Através do mar que em teus seios nasce Mar onde eu afogado
Sempre te amei.
Faz-se um cometa entre os teus dedos e a corrente impede-me
de avançar Fiquemos tristes, fiquemos
presos nas tuas rajadas Elevação
eu fantasma que sempre te amou.

Ruiva e eterna escrava do Sinai de olhos
vazios como um diamante comprado na Pelikaanstraat.
Observa-me altíssima que rubros são teus filhos
do metal nascidos
contra o sangue que me corre nas veias revoltados
nunca escolhidos.

Tu aquela que sugou o meu astro, dá-me de beber
o que carregas na boca
por baixo da língua. Porque hei-de ser a expiação
o anjo caído no centro da terra onde se respiram as areias?
Sei que tens mau sangue ó mais dispendiosa das mulheres
não esperes por mim
perto dos rebanhos que enquadras como a morte
como o teu ciclo de sangue.

Tu demónio que puxa o carro do Portador como
demónio nascido dentro de mim te invoco.
Embelezam os teus dotes o fogo e o grifo que te adorna
como um rastro de medo.
Sangue real é servido em tua honra e as estrelas
rematam a minha derrota.
Quando a corrente desatar de nardo se vai adornar
o leito da tua brancura judaica.
Entre os meus dedos o sangue a linfa o vinho
e eu que sempre te amei não terei descanso.
Eu que sempre te amei hei-de semear a tempestade
e os pássaros de asas negras obedecerão a Azazel.
Ó meu inimigo assumido em silêncio suave é o toque
desta espécie de morte.
Vigia o meu templo sem paredes chamado Devoção.

Eu orquídea nascida nas areias do Negev de pétalas tatuadas.
Como a orquídea rodeada de sede assim me vês amante
cujos filhos fazem brotar da terra a própria luz.
Assim vês Teus filhos nascidos do metal irreverente
Elevação qual forma impura.

Tu sombra amaldicionada nos espelhos Escuro é o teu desejo
o canto O silêncio e o ciclo de sangue das tuas filhas.
Adormece-me pois que estou doente de amor
fraco da garganta em teu regaço. Ó essência de amêndoas
o meu fruto a minha tortura Sempre te amei e És tu.
Soubesse o amante erguer-me de entre as flores
e ser-me-ia possível possuir esta verdade
a história de como corpos se transformam em diferentes corpos.

Mulher nascida em Jerusalém num dia vermelho
pelos animais que cruzam o deserto todos as noites
não me envolvas eu que sempre te amei não me envolvas
em teus ébrios segredos Elevação qual forma impura.
O invernos vêm e vão sucedem-se Eterno é o frio
da tua ausência Salomé.
Brotam como nascidos da terra os teus seios eis que chegou
o tempo das rosas eis que o vento de Novembro sopra
desde as colinas de Baal-Hermon o lugar da transformação.
Deixo os meus olhos nos teus aí não teremos frio
neste corpo vive Lilith que brinca com espelhos
pede Pede que todos os dias dances para ela Salomé
e os teus filhos expiarão com sangue a tua altíssima culpa.

Negasses-me a tua essência
O vinho que me inicia nos mistérios de Hattin
Elevação na sua forma mais impura.
Eu que sempre te amei qual fantasma que habita
em silêncio as grutas do Negev seu Lírio dos Lírios.
Dança em meu redor Rosados são teus lábios
eis que chega a hora em que os surdos ouvem Dança
e rápido serás superior à morte Dança
Elevação qual forma impura.

David Teles Pereira(enviado por correio electrónico)

'deserto do mar vermelho © carlosmfernandes, olhares, fotografia online

'deserto do mar vermelho' © carlosmfernandes, olhares, fotografia online

Novos Poetas (XXII) – David Teles Pereira

A criatura 2, revista de poesia e prosa poética (seja lá o que isso for, vá lá meter-se em caixotinhos) já saiu há umas semanas. Embrulhadas várias transviaram-me o primeiro exemplar que comprei, pelo que, agora, só há 348 exemplares no mercado (dois estão cá em casa). Deste segundo número falarei aqui, em breve. Enquanto isso, atiço o apetite dos interessados, com um poema de David Teles Pereira, poeta já divulgado neste blogue, e que, numa primeira leitura, me parece uma das vozes mais altas no corpo da criatura. Salva-se da incipiência adolescente com o golpe de asa da ironia.


CARTA DE AMOR


Meu amor, és tão perfeita que por certo não

será um exagero comparar-te a Ofélia.

A água – pensava nela – não tem por que não ser a melhor

das fugas para quem sabe que a morte é um silêncio,

mas que vem de dentro.

Meu amor, diz-me se alguma vez vamos deixar de sonhar

com as sereias que compõem tranças em cabelos ondulados,

ou com rosas que só crescem na superfície lunar

e que não têm espinhos.

Meu amor, os meus cabelos não são de oiro nem de cinza,

são tão pretos quanto os do meu pai, quanto o meu esperma

invocado em sessões de sexo tântrico com as tuas borboletas.

Tenho tanto ciúme do silêncio e daquela vez que o

beijaste no rosto, quando ainda só tinhas vinte e um anos.

Meu amor, o teu crime foi cometido em Lisboa e, por isso,

nunca hás-de ser um Anjo a atravessar os portões do Céu.

Mas não te preocupes,

tenho vários amigos no Inferno, já lá estive um par de vezes,

e, quando voltar, havemos de arranjar forma de nos divertir.

Meu amor, sei que sonho contigo porque o faço

em eclipse total.

Meu amor, faz-me tanta falta a primeira luz do dia.

Quem me dera ter-te para a procurarmos juntos. Acho que me

vou transformar em cisne e chorar a tua queda.

Meu amor, meu amor, as nossas mãos só não estão entrelaçadas

porque tu estás morta. Mas o amor, esse sereno amor, nunca acaba.

David Teles Pereira, in revista Índice nº 2, p. 73, Lisboa, 2008

Ophelia, de John E. Millais

Ophelia, de John E. Millais

Novos poetas (XVI) – David Teles Pereira

Enquanto não trago aqui a ‘leitura’ do segundo número da criatura, deixo este recentíssimo poème à clef, estabelecendo um jogo pessoal e críptico com o título do livro novo de Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo. Bravata geracional, sentido de desafio, de demarcação? Seja como for, nele encontramos formulações surpreendentes.

Eu oiço os anjos cantar uns para os outros,
os demónios gritar uns contra os outros.
Eu vejo a limpidez do poema ou a sua completa
aniquilação de estrela fracturada pela
metamorfose cósmica.
E tudo isso me parece tão naturalmente
aborrecido quanto ver uma criança
a ser carbonizada.
Eu sou um colóquio de assassinos e
os verdadeiros assassinos usam facas,
porque é melhor matar por partes.
O fogo não consome o meu fogo,
pelo menos enquanto ele se chamar faca.
E se a faca não corta o fogo…

chega para matar um incendiário.

David Teles Pereira, in blogue ‘O Melhor Amigo’ (http://omelhoramigo.blogspot.com/), Quinta-feira, Outubro 16, 2008


'fire' © Marco Negrinho, Olhares, Fotografia online

'fire' © Marcos Negrinho, Olhares, Fotografia online

Novos poetas (III) – criatura

Já referi que a razão desencadeadora da divulgação, aqui, da poesia ‘nova’ que se vai produzindo, teve como ponto de partida o pertinente artigo de capa da Ípsilon de 12 de Setembro (“Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?“), que credito agora, agradecido, a Luís Miguel Queirós, autor do(s) textos(s), acompanhados por ilustrações de João Fazenda. Em caixa, assinala-se o nascimento de uma nova revista de poesia: criatura, lançada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Parece que algum entusiasmo se gerou em torno da mesma, até por publicar trabalho de criadores que ainda não têm edição da sua obra em livro. Quer a matéria sobre a revista, quer o próprio artigo de fundo levantam múltiplas questões. Uma delas é a possibilidade de se ir validando a existência de uma ‘diferença’, uma ‘corrente’ emergente de poetas que, no seu conjunto, permitiriam que se falasse de uma ‘nova geração’. Lendo o primeiro número de criatura (mas também a Telhados de Vidro, a Magma), não creio que se possa ser categórico. Nem vejo, de resto, grande problema no facto. Se, numa década, aparecer um par de bons poetas, óptimo. Se aparecer apenas um que se vá afirmando pela excepcionalidade, fantástico. Pressentem-se, porém, traços identitários que são comuns à escrita de muitos dos autores publicados na revista. Uma focalização no ‘Eu’ enquanto matéria poética, a partir de uma perspectiva niilista; um regresso ao lirismo e à temática amorosa numa abordagem onde o corpo se instaura como lugar central e de angústia, de incomunicabilidade; a percepção do sem sentido do espaço social como território de redenção (é flagrante a ‘despolitização’ da generalidade do trabalho poético que vai surgindo). Talvez tudo isto se perceba melhor num belíssimo texto Beatriz Hierro Lopes (“Geração do Silêncio“) que encontramos neste primeiro número e que pode ser lido no blogue da autora (At the Still Point). Concluindo: não encontrei nenhuma pepita de ouro. Mas materiais de nobreza vária, inevitavelmente irregular. Aqui destaco um poema de David Teles Pereira.

A TUA CASA

A tua casa solta um suspiro de ouro.
Eu espero, num lugar entre a porta e o meu medo,
Que à janela venhas sacudir o teu amor.

Aqui na rua as vizinhas olham-me das suas varandas,
Recolhem os filhos para dentro das saias,
Escondem-se a sussurrar a minha desgraça.

À minha janela espreita melancólica uma casa.
Eu sempre esperei, sem ver outro dia,
Que espreitasses enquanto me crescem as asas.

David Teles Pereira, in revista criatura nº 1, p. 46, Núcleo Autónomo Calíope da F.D.L, Lisboa, 2008

criatura - anúncio do lançamento.

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