As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Daniel Jonas — Trabalho e trabalho

Trabalho e trabalho

para dar à luz um pai

na minha solidão de depauperado

arado que nada sulca

porque como um comboio a que faltaram carris

prévios ao meu arado são seus sulcos.

 

Sou um filho circular. Como um signo

zodiacal sou um filho circular, requer o que faço

aquilo em que me movo

que é aquilo em que me movo

o que faço e como fazê-lo

se não tenho já em que me mova? O que faço

é o que me fez.

 

Sou comboio e arado e um rodado

sem discos. Sem paralelo em círculos

rotunda tristeza propago

de vertiginosa incubação de vórtices

que ajudo a solidificar: outra vez a sólida

solidão: é fácil a primeira imagem do comboio:

 

insta à compaixão. E são pesados os bois

circulares que o meu arado

entontece, em vão o rodado

sem discos. Quanto pesarão

bois entontecidos? Como ser pai

quando se é filho?

 

Jonas, Daniel, Os Fantasmas Inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

 

«Perfect Intersection», bulent © bulent, via Deviantart (D.R.)

 

Página sobre Daniel Jonas no site da D.-G.L.B.

Daniel Jonas — São tristes os meus dias com pedras

 

 

 

São tristes os meus dias com pedras

em lugar de mãos

ou a cabeça funda na brancura

de través do travesseiro

e o corpo depresso em moles guindastes.

São dias de chorar por menos

ou teimar queixoso com um crânio polido,

batuque convexo

no muro demorado.

Ficar a ouvir o sangue,

o som tubular do sangue. Ao vale seco

da clavícula atrair a água, o sangue

e sorver a sopa intestina

ou se o líquido escapa à boca

tantálica, calar com argila

o que me pede água.

Ficar a palpar os buracos

da ausência, as ligas

da ausência, as ribanceiras

a que caem os pensamentos, a cor

dióspiro que banha a enfermidade

e em seguida tomar o pulso

evadido, travar o touro, o soco da dor,

o infinito infinitivo presente.

Uma amálgama de alma

migra no fôlego de modorrento

pregão de dor, o condor

passa e anda andino e é uma

traça asfixiante: faço um céu rarefeito,

a dispneia é um felino

que arranha céus

e a boca rebuliço espúmeo

expele o sabor da morte

e o que mais consiga cuspir

por entre ovéns e enxárcias

e traves quebradas.

É uma desilusão com as coisas,

uma desilusão funda com as coisas,

com o vazio meio-cheio das coisas.

Meu fôlego um fólio cheio

de silêncio, uma catástrofe natural

um vulcão: no meu pulmão pôr lava

e no trovão treva.

Jonas, Daniel, Os Fantasmas Inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

«desolation», Eray Eren © Eray Eren, via Deviantart, (D.R.)

 

Daniel Jonas – Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias



Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias

chegaríamos a iguais resultados

pelo que de nada adianta imaginar um almagesto

ou tabelas de paralaxe para isto

a que convencionalmente chamamos amor,

nem calcular o ângulo

entre nós e o centro da terra,

de nada nos aproveitara, tu e eu

centros escorraçados de irregular gravitação.


Porém, isso não me impediu de ver plêiades

cada vez que surgias (só

não te dizia nada) plêiades iluminando

meu Hades

com suas cabrinhas coruscantes

pascendo

o vale da sombra da morte.


E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?

quando o melancólico transístor

destila também outras perguntas, mas nenhuma

tão dura quanto essa,

por exemplo: porque é que a água tem mais tendência

a subir em tubos estreitos

ao contrário do mercúrio?

Isto é view-master e são coisas que faço

na tua ausência.

Jonas, Daniel, Os fantasmas inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

Sacred Geometry © phidelity.com

Novos Poetas (XIII) – Daniel Jonas

Contagioso. Sonótono é contagioso. Depois do primeiro poema do livro, aqui deixo o segundo (ciente de que não os deverei divulgar todos, por muitos serem, e haver direitos de autor, e ser sempre melhor ler o livro, no livro, no papel, com as folhas na polpa dos dedos). De novo os 14 versos do soneto, sendo que, neste belíssimo poema, o título é já verso. E que verso, interpolando, a partir da casualidade fonética, a semântica que decorre dos nomes da Lisnave, de Luís Miguel Nava, explorada com destreza e brilho.

Os dois últimos versos são recolhidos (tal como em todos os poemas do livro, falhou aqui a formatação, no poema anterior).

COMO UM METALÚRGICO DA LUÍSNAVA

Que uma musa metálica redime

E faz dum vulcão cama e os lençóis lava,

Soldo a métrica, malho p’ra que rime.

Toco a afiada lira, tanjo o meu aço,

Na homérica bigorna chispa e liça.

Silvam sereias, chamam-me ao regaço,

Ítaca estanca a dor, Ática atiça-a.

Como operário do verso blindo a nave

Que ao leme outro almirante levará;

Levo-me a mim à vela, o argueiro é trave:

Neste solo outro mastro cantará.

E se o cálamo às vezes carpe as bulhas

Das carúnculas saem-me faúlhas.

Daniel Jonas, in Sonótono, p. 12, Cotovia, 2007

'Não sei do que é que estou à espera' © Mariah, Olhares, fotografia online

'Não sei do que é que estou à espera' © Mariah, Olhares, fotografia online

Novos poetas (XII) – Daniel Jonas

Prémio Pen Clube de Poesia ex-aequo para Sonótono, de Daniel Jonas (Cotovia) e Segredos do Reino Animal, de Hélder Moura Pereira (Assírio). Já havia encontrado Daniel Jonas (1973) em Os Fantasmas Inquilinos (Cotovia, 2005). A impressão que me causou foi maior. Agora, com Sonótono, este cuspidor do fogo das palavras, que sopra a Língua como quem desfaz dentes-de-leão, espalhando as suas sementes pelos ares, vê o seu trabalho justamente premiado, em conjunto com um poeta já consagrado. Não tenho mérito para tecer juízo crítico. Gosto muito. Outros o fazem, com maior competência, em lugares afectivos e noutros mais críticos (no sentido de crítica literária, entenda-se). O melhor é ler. De preferência acompanhar a obra. Aqui fica um poema de Sonótono, que tem 14 versos. Como um soneto. Mas é um soneto que habita nele, ou é ele que invade o soneto e o desmantela?

BENGALEIRO OU HORACIANAS

Físico o tractor quente arremessou
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
Entrar nesta pintura eu queria
Se à entrada não pedissem a poesia.

(Daniel Jonas, in Sonótono, Cotovia, 2007)

campo © Pedro Ferreira, Olhares, fotografia online

campo © Pedro Ferreira, Olhares, fotografia online