As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Daniel Faria — Amo-te no Intenso Tráfego

 

 

Amo-te no intenso tráfego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.

 

Faria, Daniel, Dos Líquidos, 2003: Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2003.

 

Daniel Faria (composição fotográfica)

Daniel Faria — Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo

 

 

Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo

De o transformar. Este é o dia transformado

Pelo modo como apoio este dia no chão.

Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra

Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo

Na atenção.


E fico atento, fico deitado porque não sei crescer

Num terreno que se levante.

Cresço na clareira de um homem que é uma palavra

Na sua túnica inteira

Porque este é o sítio do dia sem horário


Sem divisões


E ponho-me de frente no seu lado,

Nos seus braços abertos para me unir

E entro pelo lado aberto e ardo – como Elias

Em chamas subindo para o céu.


Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão:Quasi, 2003

 

 

Torrie © Torrie, via Deviantart (D.R.)

Daniel Faria – Um pássaro em queda mesmo

 

 

 

Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena

Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos

Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem

É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O cerco
Do voo é a pedra da idade

Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la

 

Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003

 

«5939», CiCe © CiCe, via Deviantart (D.R.)

“Morreste-me”

 

 

Socialmente a morte tem vindo a ser, no Ocidente, progressivamente escondida como acontecimento maior na experiência humana, ocorrência perante a qual se estruturam e organizam os comportamentos, os laços, a construção identitária, emocional, social; o confronto (encontro) espiritual que habitará em cada um. Por iniciativa da Pastoral da Cultura da diocese do Porto publicou-se e começou a ser distribuída hoje uma brochura com o título em epígrafe, que pretende, segundo Joaquim Azevedo, director do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, “ser um instrumento útil para cada pessoa promover a desocultação da morte e do seu sentido, nas suas vidas quotidianas”. Uma boa apresentação desta publicação pode ser encontrada aqui, mas realça-se o conteúdo, com cinco textos da autoria de António Filipe Barbosa, Fernando Rosas, João Duque, José Nuno Silva e José Pedro Angélico e três poemas, de Daniel Faria, Fernando Echevarría e José Tolentino Mendonça. Deste último, aqui se deixa, por já estar acessível online, o poema «Ilha dos Mortos».

 

Ilha dos Mortos

Enquanto iluminas a entrada do rio
o cobre emudece dinastias sem número
por degraus desiguais os mineiros,
os artesãos, as lavadeiras
lutam pela perfeição, lutam por Deus
em galerias remotas
as armas de caça vencidas
por ramos e arados

nenhuma morte é tão longa quanto a vida
diria quem pela primeira vez
visse debaixo de árvores sombrias
o sítio do mar, a porta das constelações
cem espantos possíveis
e no espanto uma esperança

o loureiro assinala a todos sua ciência negligenciada
címbalos, manuscritos e coroas
atiradas para o chão como vestimenta da batalha
insígnias do nosso posto de estrela em estrela

dão-nos sem nós pedirmos
ouvimos até sem querer
acima das arestas sombrias
a noite clara e os bosques

 

José Tolentino de Mendonça, in «Morreste-me», publicação do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura do Porto, 2010

 

«The Isle of the Dead» (“Basel” version) 1880, Arnold Boecklin

(clique para ampliar)

 

Daniel Faria – Ando um pouco acima do chão

 

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003

«Above it all», shueshine © shueshine, via Deviantart (D.R.)

 

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