As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Cristiano Ronaldo

Portugal 7 – Coreia do Norte 0 – Um jogo que eu não queria

Não queria ter visto este jogo. Recordava-me bem do que escrevi aqui, do que a Helena Matos escreveu; eu não queria que a Selecção Nacional Portuguesa de Futebol Masculino escalão Seniores (a.k.a. «Portugal») ganhasse. Não queria ter visto, deitei-me para dormir uma hora, ideia impossível, inferno das vuvuzelas, não dormi, nem vi; não queria tantos golos, estes golos têm consequências. Chol Hyok, Kim Myong Won, Kim Kyong II e Pak Sung Hyok sabem-no, desapareceram em pleno Campeonato do Mundo; consequências que escapam à nossa lógica de felicidades efémeras, de «futebóis». A tristeza é antiga, na Coreia do Norte, a tristeza de quem tem uma imensa fome de pão, tanto quanto tem fome de liberdade, de palavra, de identidade; a tristeza de quem a fome é um mal menor que o medo.

Quando vejo as fotografias de Cristiano Ronaldo para a campanha da Armani, penso que este menino passou fome, uma fome envergonhada, uma fome de isolamento, uma fome Autonomia Regional, (podia ser da «interioridade» ou dos aglomerados suburbanos;) mas teve uma oportunidade e agarrou-a com os dentes, admiro-o por isso.

Perante aqueles que não têm sequer a oportunidade de pensar em oportunidades, aqueles rapazes que hoje, vestidos  com a camisola da República Popular da Coreia, encaixaram sete golos, (gostarão de montanhas?) e têm medo, eu nem queria, mas a minha afeição ficou do lado deles.  7 a 0 com eles. Eu não queria.

RI Myong Guk; CHA Jong Hyok; RI Jun Il; PAK Nam Chol; RI Kwang Chon; KIM Kum Il; AN Chol Hyok; JI Yun Nam; JONG Tae Se; 0HONG Yong Jo; MUN In Guk; CHOE Kum Chol; PAK Chol Jin; PAK Nam Chol; KIM Yong Jun; NAM Song Chol; AN Yong Hak; KIM Myong Gil; RI Chol Myong; KIM Myong Won; RI Kwang Hyok; KIM Kyong Il; PAK Sung Hyok. Não se esqueçam destes nomes. Porque já estarão votados antecipadamente ao esquecimento, o primeiro degrau de uma escada que os levará a um inferno selado pelo segredo e esquecido pelos jornais. A Armani não se pode preocupar com estas coisas; os tablóides também não, e a PETA dedica-se-se aos animais. E eu não queria.


Sentado sozinho

com um copo na mão

contemplo

os montes distantes


Nem que chegasse

a amada

sentiria

prazer maior


Mesmo que não falem nem riam

gosto mais

das montanhas

YUN SÓN-DO, (1587-1671), Coreia, in, A Rosa do Mundo, Lisboa: Assírio e Alvim, 2001

Portugal – Coreia do Norte e o sorteio.

Ontem realizou-se o sorteio dos grupos que vão disputar a fase final do Campeonato do Mundo de Futebol de onze (versão masculina), na África do Sul, em 2010. Ninguém parece ter ficado satisfeito com a nossa sorte. Cristiano Ronaldo queixa-se, Carlos Queirós diz que o primeiro jogo é decisivo (mas não são todos?); os comentadores torcem o nariz e, a esta hora, o site da FIFA aponta o “grupo” como o mais difícil, por larga margem sondada à boca do clique.

Pois eu acho o grupo lindo. Jogar contra o Brasil deveria ser encarado como uma festa, um feriado não-oficial; a Costa do Marfim surge-nos para recordar a nossa história, faceta descobridora, o pioneiro contacto de europeus com os litorais africanos para lá do Bojador, as traficâncias do ouro, do marfim, da pimenta; dos escravos. A Coreia do Norte… bem, a Coreia do Norte foi, em 1966, Inglaterra, o adversário digníssimo que permitiu à Selecção Nacional o jogo verdadeiramente épico da sua história. Em menos de nada estamos a perder 0-3. Então agiganta-se Eusébio e, com ele, uma equipa (e uma nação, colada aos rádios; e um Governo, atento à oportunidade de propaganda, ainda que em formas e modos rudimentares, pré-socráticos, digamos). O jogo, mais que o resultado final (5-3), entrou no domínio da lenda.

Agora, que vamos encontrar de novo os norte-coreanos, fixem bem os nomes de todos e cada um dos seus jogadores. Talvez daqui a dez anos estejamos a subscrever abaixo-assinados da Amnistia Internacional. Se tivermos informações suficientes para. Futebol, política, afectos, heroísmo e direitos humanos. Uma combinação rara.

Pedindo indulgência ao jornal, e ao desaforo de abuso do direito de citação, transcreve-se aqui, integralmente, o artigo de Helena Matos, no Público de 19 de Novembro. Ganhou a matéria uma luz intensa, uma pertinência nova e urgente, com o sorteio de ontem à noite. Até parecia augúrio. Chapeau, Helena Matos.

Decorem-lhes os nomes, aos rapazes da Coreia do Norte que nos defrontarão na África do Sul. Ou apontem-nos num caderno, no pc, no diário. Para memória futura.

(continuará)

Eusébio acaba de marcar um dos seus quatro golos, num jogo histórico.

O que foi feito do homem que marcou golo no primeiro minuto?

“Agora que a propósito da queda do Muro de Berlim se faz ouvir a ladainha relativista sobre os novos muros – perguntem aos presos se um muro que impede a saída é igual a um muro que impede a entrada! – é ocasião para recordarmos um dos mais brilhantes jogos efectuados pela selecção portuguesa de futebol. Aconteceu em 1966. Portugal defrontou a Coreia do Norte, cuja equipa estava ainda embalada pela euforia da vitória sobre a Itália. Portugal chegou a estar a perder por três a zero. Como não sei nada de futebol, sou incapaz de explicar o que aconteceu, mas aos meus olhos leigos nessa matéria só parece que, a partir de dado momento, a bola e Eusébio se encontravam em perfeita sintonia no caminho para a baliza dos norte-coreanos. Portugal acabou por ganhar por cinco a três. Quatro dos golos foram de Eusébio. O resto foi o que se sabe. Para Portugal, evidentemente. No livro Os Aquários de PyongYang, do historiador francês Pierre Rigoulot e do refugiado norte-coreano Kang Chol-hwan, ficamos a saber que os jogadores norte-coreanos, uma vez regressados à Coreia do Norte, pagaram caro os resultados desse jogo: alguns foram expulsos dos locais onde viviam e outros acabaram nos campos de prisioneiros. Kang Chol-hwan, que foi internado aos nove anos por o seu avô ter sido considerado reaccionário, encontrou um desses jogadores no campo de Yodok. Mais precisamente encontrou Park Seung-jin, o jogador que marcou um golo a Portugal logo no primeiro minuto de jogo. Mas o Park Seung-jin detido em Yodok destacava-se entre os outros prisioneiros não pelo poder dos remates, mas sim pela sua capacidade de vencer a fome. Comia todos os insectos que encontrava e por isso chamavam-lhe “Barata”. Ainda estava vivo, mas já muito fraco quando, em Fevereiro de 1987, Kang Chol-hwan mais o seu pai, tio, irmão e avó foram autorizados finalmente a sair de Yodok.

O que é feito de Park Seung-jin?

O destino destes jogadores ou as tragédias pessoais de alguns dos heróis desportivos dos países socialistas têm matéria q.b. para reflectir sobre a diferente natureza dos muros. Desconheço se Park Seung-jin alguma vez voltou a saltar de alegria como fez quando enfiou a bola na baliza de Portugal em 1966. Mas sei que a força do futebol foi suficiente para que alguém, em 2002, se interessasse pelo destino desta equipa e conseguisse transformá-la em matéria de documentário. Pode ser que agora a pretexto do Mundial se fale outra vez destes homens e, quem sabe, se procure confirmar os relatos de refugiados norte-coreanos e declarações do Governo japonês que dão conta de raptos de mulheres em Macau pelos serviços norte-coreanos que usavam esta mirabolante técnica para, entre outras coisas, arranjarem professoras de línguas. Estes raptos tiveram lugar num tempo em que Macau era administrado por Portugal e até agora o desinteresse que os rodeia é para mim tão inexplicável quanto aquela revirvolta no resultado do Portugal-Coreia do Norte de 1966″

Helena Matos, in Público n.º 7170, 19 de Novembro de 2009

O spot falsificado, muito melhor que o original

É javardo, eu sei; é grosseiro, pois; é estúpido, claro. Mas tem muito mais piada que o original. E deixa clarinha a clivagem de que o rapaz nunca se vai livrar: entre o ‘génio nacional’ e o ‘grande maluco’.

CR7

Um homem não é um sigla

e contudo inspira

e tudo se concentra

a trinta e cinco jardas da baliza

uma explosão

incendeia

o ar  mais que o olhar

condensa.

Cristiano Ronaldo prepara a marcação do segundo golo do Man United

Cristiano Ronaldo prepara a marcação do segundo golo do Man United © Tom Jenkins, The Guardian

(clique para ampliar)

Cristiano Ronaldo – uma outra perspectiva

Eu, num restaurante, à espera de uma amiga, almoço de trabalho. Pego numa revista tipo “news magazine” que agora nenhum sítio que é sítio dispensa. Entretenho-me com uma matéria sobre Cristiano Ronaldo, abundantemente ilustrada, a propósito de o rapaz ter ganho o prémio de “melhor jogador do mundo”. A minha amiga chega. O diálogo que se segue, é tão fiel quanto a memória me permite. Ou seja, reproduz-se aqui, na íntegra, com as palavras todas:

Amiga – Não sabia que gostavas de futebol.

Eu – Gosto um bocado. Mas é para me entreter.

Amiga(mirando, indolente, com olhos falconídeos, as páginas da revista) – Esse tipo é assim tão bom?

Eu – É. Com 18 anos já era um sobre-dotado. Depois foi para Inglaterra e aprendeu a juntar o talento com o sentido táctico, o jogo de equipa… (pausa enfática) De qualquer modo, se está em dia sim, ainda é capaz de agarrar na bola e ‘comer’ a equipa contrária.

Amiga(pausa enfática) – Pois. Se eu tivesse menos dez anos, quem o comia todo sei eu quem era.

O almoço, entretanto, começou.

'eu cá sou bom'

'eu cá sou bom'

Suazo, o mais popular do mundo

(aviso à navegação: quem quiser ver, neste blogue, um post decente sobre o Cristiano Ronaldo, clique aqui)

No Record online (sim, confesso, acedi ao Record online!) noticia-se: Suazo é o mais popular do Mundo. Suazo… pois… pela fotografia é um jogador de futebol. Do Benfica. Pesquisando um pouco mais… é hondurenho. Já jogou em Itália. Já marcou dois ou três golos para o campeonato. Em 10 jogos. Está tudo explicado!

Daria vontade de rir, se não desse vontade de pensar.

A questão nem está na notícia, que apenas difunde os resultados de uma votação online organizada por uma críptica Federação Internacional de Estatísticas e História do Futebol (IFFHS), a qual, como sublinha o Record, é “uma entidade reconhecida pela FIFA” (Ah, assim a coisa fia mais fino!). O problema está no tratamento que é dado à notícia, ou melhor, a falta de tratamento. É que uma votação desta natureza não permite, em circunstância alguma, retirar qualquer espécie de conclusão decente. Ou, se dela se extrair inferência, a mesma deverá ser, obrigatoriamente contextualizada, relativizando (no mínimo) a coisa.

Mas o Record é um jornal desportivo. Português. Precisa de vender. Suazo, esse ídolo das massas, joga no Benfica (que deve estar a fazer fortunas a nível global com o merchandising desta super-estrela galáctica). É triste que sejam os leitores, na caixa de comentários à ‘notícia’, a extrairem as ilações que os jornalistas deveriam ter retirado, nem que fosse, como mandam as regras, em nota de opinião.

Eu também tenho um comentário a fazer: vou organizar uma votação online aqui no prédio para saber quem é o vizinho mais popular. Excluíndo a estimada Dª. Engrácia, do segundo andar, cuja idade lhe permite abstrair-se de minudências, tenho a certeza que uma tarde inteira a votar em mim mesmo vai esmagar os meus restantes quatro vizinhos.

(Para que conste: Cristiano Ronaldo, que ganhou hoje mesmo a Bola de Ouro, ficou em 20º lugar na referida votação de popularidade. E, dando natural continuidade à credibilidade da coisa, o segundo classificado foi o ‘imortal’ Mohamed Aboutreika – Egipto/Al-Ahly; para que conste: Ronaldo tem 14.800.000 link results no Google; Suazo 1.160.000).

'Gaita, quando eu for grande quero ser o Suazo'

'Gaita, quando eu for grande quero ser o Suazo'