As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Créme de la Creme

Nuno Brito — Pink Cigarette

Nuno Brito (autor de Delírio Húngaro e Créme de la Creme, livros já referenciados e citados aqui) escreve este poema, que publica hoje, no seu recente blogue pequenos animais sem expressão. Poema para ler agora, para reler depois, na sua violenta linguagem profética.

Pink Cigarette

À Anezinha

 

Quero impregnar-me de gente, de paisagem portuguesa

 Luiz Pacheco

 

 

Nesta terra as mulheres crescem à sombra,

como os cogumelos, o musgo ou a razão,

em ponto de cruz a saudade vai sendo domesticada,

o mais honesto  e obediente animal  puxado por uma trela dourada

feita de medo e outras coisas que ligam

o seu viso tem a expressão de todos

e é nestas caras quentinhas que descem ainda as lágrimas de Eros

mudando por dentro o nome do continente, outra cara, possível Começo

sem nome, sem coisa nenhuma, é às vezes o sal

que cai destas caras que tempera o prato, porque todo o sal não chega

para compensar o amargo que veio morar para a boca

cansada de saber que a linguagem não chega

porque eles fugiram, cada um em seu barco:

os filhos

 

 

Nesta terra as mulheres crescem à sombra

E têm sombra nos olhos, que o eco veio pintar

a lápis de cor por cima da paisagem humana

que se aloja debaixo de tudo o que a alma espelha,

veias, artérias, vasos, curvas fininhas que o tempo vai moldando

A anatomia rasgando o cosmos à escala humana, soprando-o para longe

Transbordo que a sede cria,

E enquanto as filhas vão ao poço, sol, risos, perfeita anatomia

As sombras crescem. Pequeninas rendinhas em baús

Terços, santinhos, livros de areia, um dente de leite

o fio de ouro a que está ligado,

e são de sombra os seus gestos porque quando se movem

são os braços de outros que ganham vida e retiram à paisagem

a natureza para pôr nela a arte, a civilização, a linguagem e a vitória

a mais alemã invenção,

e o seu sorriso é uma espécie de Deus

e quanto mais se enrola na paisagem mais deus é

Até parece que a razão dorme dentro delas,

e a razão dorme dentro delas –  o capitão do navio dá-lhes duas opções

Ou embarcam no barco do amor ou embarcam no barco do amor

Mas vão ter ainda de o Criar para o atravessar, e partir as árvores, da madeira fazer o barco

e calafetá-lo e dar-lhe um nome, e baptizá-lo, porque tudo aquilo em que se toca também se é

A sede vai-lhes toda para os olhos,

Urgente era que as sombras saíssem, como o fumo adocicado dos pulmões

Para dentro doutros pulmões.

 

 

Estas mulheres seriam modelos se as estátuas de sono não dormissem dentro delas

Se não fossem só alma,

O planeta chama-as do centro, as rugas vão rasgando a sua pele

Mas elas riem pouco,

E há poucos jovens

Estão todos no meio da Europa, Lisboa, Porto

Em Lisboa está a arte e no Porto está a arte

E no Couço está a arte e em todo o lado está a arte

Se não fossem só alma teriam visto mais vezes o mar

Não são filhas da revolução nem são filhas de ninguém

os seus filhos estão todos na taberna e são mais  velhos que elas

À noite estas sombras limpam com um guardanapo o beiço dos velhos

Porque desce-lhes azeite pelos queixos, e esses guardanapos podiam ser a página 100

de uma História Contemporânea, edição de luxo, a meio da investigação os eruditos

folheavam o guardanapo em Lisboa onde está a arte ou no Porto onde está a arte.

 

 

Exportámos marmelada para a Austrália ou para os armazéns de retalho da capital

que importa se toda a geografia é interior? – Enquanto dormem até de deus são mães

E entre as suas pernas as almofadas (penas de pato, segredos ou outros novelos).

 

 

As suas casas são feitas de queda, de verticais os muros ganham contornos,

a mais cara renda que são os dias a vir

formas breves, novas formas, dias que incham

parecem areia soprada pelo fogo

com que se  faz o vidro e se embacia o espelho

um dia também ele será inventado pelas mãos quentes de um artesão etrusco

antes mesmo de haver as moedas para o comprar

e que levarão os nossos filhos para longe,

Para o Canadá, Luxemburgo, Cantões,

nos navios, nas bagagens, nos aviões, todos com o seu preço

calafetado por dentro e por fora, impregnado na paisagem,
claves de sol pontilham a paisagem, por cima do trigo, a picotado

 

As sombras destas mulheres são às vezes música, entra nos búzios

Não só por nos lembrarem que elas provêm do sol,

como tudo o que parte, mas por nos erguerem como o caule de um girassol

a sua voz é a sua seiva, está dentro da nossa espinha, é o nosso equilíbrio

uma balança onde se pesam as palavras que ficaram por dizer

 

 

Futura-te*

Também a rede quer dormir mas não é da natureza das redes dormirem

e a rede pede que lhe cortem as pontas, que tragam uma tesoura

E alguém corta as pontas, mas as pontas crescem com mais força, como uma estrela

-do-mar, a tesoura é também informação e acrescenta-se à rede, tudo é soma nesta nova

anatomia

Coisas que entram

Abre as portas, vem muita gente atrás e todos querem entrar em ti,

Entrar é ser gente, crescer é ser rede,

homens e redes nunca dormem verdadeiramente,

 

 

Em Manchester as fábricas enchem-se de música e no Couço

cresce o trigo dos latifúndios e todos estes homens precisam

de equadores ao mesmo tempo que precisam de pólos

E todas estas mulheres precisam um pouco mais de calor

Não só para deixarem de ser sombras

mas para saberem que de se descarrilarem se fazem novos caminhos

Nas carruagens vai este gado

Já não de ferro nem de vento são os caminhos em que é feita a viagem

Sem pontes de aço, betão ou de cimento, só ultrapassagem

 

 

No Portugal dos pequeninos os filhos que se vão perder em todos os continentes

das suas perdas novos filhos nascerão: Filhos da revolução. Qual?

Na natureza nada se apaga

Na natureza não existe amanhã

Mas o homem põe a manta da civilização por cima da natureza

e por baixo da manta fica o escuro e alguns animais sem expressão

às vezes fica também o riso,

a razão fica a sobrevoar a manta

e ficam mulheres debaixo da manta

danças primitivas, ecos, sonhos,

capitães de mar nenhum ficam também

debaixo da manta a razão de ser da literatura,

definir poesia é dar as mãos

Só a gente e paisagem não desce para baixo da manta da razão

E as mãos aquecem agora mais

Nuno Brito

«the future of the species», Alice Korvin © Alice Korvin, Deviantart (D.R.)

Nuno Brito no site Poems from the Portuguese

Blogue do autor, pequenos animais sem expressão

Nuno Brito — A insustentável leveza de quê?

Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É licenciado em História pela FLUP. Frequentou o Instituto de Estudos Medievais em Roma. Em 2008 foi seleccionado para o Concurso Jovens Criadores na categoria de Literatura. No mesmo ano obteve o primeiro Prémio no Concurso Literário da Faculdade de Letras da UP (Poesia) obtendo, no ano seguinte, o primeiro Prémio na categoria de conto.  Em 2009 publicou a obra Delírio Húngaro e em 2011 Créme de la Creme.

Autor já referenciado e transcrito neste blogue, Nuno Brito apresenta-nos neste último livro um conjunto de textos de surpreendente, riquíssima carga imagética, neles se produzindo inesperados significados que aproximam a obra de uma contiguidade surrealizante, nunca deixando contudo de se reconhecer uma voz absolutamente singular no panorama dos autores contemporâneos.

capa do livro "Créme de la Creme"

A insustentável leveza de quê?

Ao Gonçalo

“O poema não é mais verdadeiro nem mais consciente do que uma

teoria científica (provavelmente, é-o menos) o poema não contém atrito

por definir o mundo ou desvendar a metafísica. O atrito do poema tem

a ver com o corpo, a distância e a lentidão”

Pedro Eiras  – A Lenta Volúpia de Cair

 

Deixar cair uma maçã com toda a força,

Não estamos aqui pela gravidade, mas porque

Amamos o chão – a terra

Se possível, metemo-la toda na boca,

perdi um bloco de notas que me compraste no museu do Galileu, nele tinha notas sobre a aflição e o atrito – a ligação entre poesia e ciência, a Vontade de estar dentro de Ti. A maçã contínua cai – sem que Newton ou um poeta suicida – Esqueci-me do número do andar – tenham ainda o sabor da razão na boca, azedo e verde, sem ter asas, nem querer voar: A insustentável leveza de quê? O atrito do ar enquanto desces e perdes toda a poesia, a inocência, a vontade de cair naquilo que nunca será ciência – falo da razão está nos teus olhos, dentes e boca.

Brito, Nuno, Créme de la Creme, Porto: Planeta Vivo, 2011

Gordon McBryde © Gordon McBryde, via Deviantart (D.R.)