As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Conto

Alexandre O’Neill — O citadino Pipote (conto)

Ainda bem que Pipote não é judoca. Pipote não passa de Suspensório Lilás. Pipote judoca seria o fim. Pipote entra nos eléctricos a ombro. Diz com licença depois de ter passado. Cheira a cebola e a camisa de anteontem. Fala curto. Assim tem mais tempo para chupar os dentes. Pipote usa elástico de câmara-de-ar a envolver a carteira. Traz negócios de ferro-velho, traz os filhos nos estudos, traz uma viúva debaixo de olho. Agora que os móveis (quinanes, principalmente) estão a dar, Pipote vai comprar fragoneta. Já o vejo agarrado ao volante com medo que a fragoneta desalvore. Já o topo a fazer mudanças no joelho da viúva.

Contam-se muitas do Pipote. Parvenu, parvo nu, Piparote não é pior nem melhor, escusam de se estar a rir, que vocês. Piparote começou difícil. Vocês tiveram colégio, manteiguinha no pão, Bucha & Estica nas matinés de quinta-feira. Piparote teve cachações e casqueiro ao mata-bicho. Veio a pulso, Piparote — e com muita honra!

Das que se contam de Piparote, não sei ainda se conte a que me apetece contar. É que não é nada típica, sabem? Remonta aos 14 anos de Piparote, quando Piparote, quer dizer, ainda não era Piparote. Era o cédula Joaquim Serrano Deusdado — Quincarvoeiro para os inimigos.

Não me faço mais rogado.

DE COMO JOAQUIM SERRANO DEUSDADO, ALIÁS, QUINCARVOEIRO, ALIÁS PIPOTE, DEIXOU APODRECER OS DENTES TODOS MENOS UM.

Às 6 horas da manhã, chutaram Quimcarvoeiro para a consulta externa de Todos-os-Martírios. Questão dum obcesso bochechado a aguardente e a raiz de alteia com desinflamação subsequente e recidivas de ganir. Bochecha infla, bochecha desinfla, a cara do pobre já era como um cartucho e o misérias estava por tudo.

A quatro de frente, de cara amarrada, a bicha para os serviços de Odontologia consumia-se e refazia-se ao longo das horas e dum corredor conventual. Quando chegou à porta da sala dos alicates, Quincarvoeiro compreendeu, num ápice, a utilidade das bichas: terem cauda. Um menino que saía da sala segurava os queixos com a manita, vexado de todo, e dava pontapés de desespero na estúpida mãe caridosa.

Uma cigana (sedentária) apiedou-se do chavalito probecito e começou a desenrolar uma lamúria meio rezada entrecortada de cuspinhadelas raivosas para o lado. Um digno velho remendado e limpo reprovava mudamente tudo, não escondendo, na sua sobranceria, que só o mau destino fora responsável por ele se encontrar ali, misturado com a gentalha.

“Trezentos e quinze!”, disse uma voz entreportas que parecia mesmo a voz do creosote. Era a senha do Quincarvoeiro. Este deu um passo ao lado e uma grande coragem de fugir pôs-lhe as pernas em movimento. Pisgou-se para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço.

Ainda hoje o citadino Pipote fala com um dentinho de orgulho desse caso da sua vida de rapazelho. Aliás, é sempre com orgulho que Pipote se revê em Quincarvoeiro, seu querido filho na perspectiva do tempo. Espero que a vossa credulidade chegue onde chegou a minha, quando ouvi esta história do infeliz Pipote: três ou quatro vezes se atrasou para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço. Ao meio-dia, na derradeira repescagem de senhas não respondidas, a bicha era Quincarvoeiro. Até que um dentista, alicate em punho, se avantajou nos umbrais.

Foi apanhado.

Já na cadeira, já de boca ocupada pelos ferros, dedos, espelhinhos, o cédula Joaquim Serrano Deusdado tentou articular uma queixa, soprar uma indicação, subtrair-se o mais que podia à mordedura metálica dos alicates, que andavam, por ali, a planar de mão em mão. Os odontologistas trabalhavam rápida, firme, irrevogavelmente. Se os deixassem entregues à sua própria inércia, desdentariam o mundo real o apanhassem a bocejar de tédio. Três dores agudas, fininhas. Uma patada no estribo da cadeira. Um compasso de espera com ferros a retinir, torneiras a trepidar, desconhecidos cheiros violentos a subirem-lhe ao nariz. Depois, um ríspido «abre mais a boca»!. Abriu mais a boca. Não abriu os olhos. O alicate veio, entrou. Sentiu o choque no alto da cabeça, por dentro. O alicate mordeu. Queriam virar-lhe a caixa dos pirolitos do avesso?

Descomandou-se. Gritou… Mas já, triunfante, o diabo-dentista lhe mostrava o dente, que o alicate continuava a morder.

E Pipote, hoje, comenta, num sorriso de aqueduto em ruínas:

— Sôr Aníbal (eu já lhe disse que não era Aníbal, que era O’Neill…), Sôr Anibal, a vida é assim: o dente que me tiraram estava bom; o estragado cá ficou. Já passaram para cima de trinta anos e nunca mais voltei a esses diabos! Cá me vou governando com os dentes que tenho. Mas digo-lhe a verdade: o dente que me tiraram foi o único dente bom que tive.

E o aqueduto sorri, enquanto Pipote o vai chupando paulatinamente.

Alexandre O’Neill. «O citadino Pipote». in Ficções — Revista de Contos, Lisboa: Tinta Permanente, 2003.

crédito fotográfico: Ben Hickey

Agustina Bessa-Luís — Os Cinco Reis Mouros

ilustração de Ilda David © Ilda David (D. R.)

OS QUADROS deste diário que escrevo espelham para mim as glórias de Lisboa. Seu ar róseo e materno, seus ventos e sombras que Monsanto despede até às nuvens.

Começando pelo princípio, dentro dos campos de Ourique se deu um caso que nunca foi bem explicado. Tendo Afonso sido jurado rei pelos soldados, o que o fazia mais general deles do que príncipe de todos nós, teve por empreitada combater cinco reis mouros; havia-os aos bandos, e eram tão numerosos os califas e os sultões que a Espanha e os Algarves estavam cheios dos seus palácios aonde os reis cristãos mandavam os filhos como hoje se mandam às universidades. A cultura deles era formidável e nas matemáticas não havia quem os igualasse; nem na poesia, porque a sensibilidade extrema vai muitas vezes a par com a crueldade mais refinada.

O triunfo era duvidoso em batalha tão desigual. Cinco reis mouros não são cinco réis de gente; é muito mais. Afonso, muito calado com o seu escudo e cota de armas, viu Cristo na cruz, ao levantar os olhos para o lábaro que receava perder. E Cristo disse-lhe que havia de ter vitória sobre os infiéis. Afonso não se intimidou com a aparição e falou cara-a-cara com o Senhor:

— Não venhas a mim mostrar-te, porque eu creio e não preciso de milagres para crer. Mostra-te aos meus inimigos que, esses sim, precisam de te conhecer para nos temer a nós.

Esta fala, de tão arrojada, não foi muito do agrado dos catequistas e não se ensinou nas escolas. Eram tempos maravilhosos em que se começava a ser português, e para isso era preciso valor tão grande que os céus o recebiam como medida do homem. Que saudades dessa pátria inventada num milagre que se recusa! O povo miudinho corria ao lado dos grandes pecadores, que eram almas grandes também. Confiavam neles; com lágrimas e com juras, confiavam neles. Afonso mandou pintar na sua bandeira cinco escudetes azuis, em lembrança dos cinco reis vencidos. Ainda lá estão, reparem bem. Pensar nestas coisas distrai o coração de velhacarias, que foi o que se multiplicou passados tempos, e hoje não há mais lugar na terra para tanta instrução maliciosa.

A memória cativa as coisas num lugar fabuloso, que é onde mora a esperança. Mas é certo que os primeiros passos na ordem da pátria tinham que ser agigantados, não só pela fábula, que os serviu, também pela coragem que só protegeu. Afonso, que no ardor de vencer se esquece de se submeter ao milagre, é coisa digna de se ver e de recordar. Como se lá estivéssemos em carne e osso.

Agustina Bessa-Luís, Os Cinco Reis Magos, «Revista Kapa» nº 2, Novembro de 1990, p. 159. — ilustração de Ilda David, acompanhando o texto na publicação original.

Possidónio Cachapa — «O rio»

As águas subiram escuras. O homem estendeu o braço, o músculo amaciado sobre a carne sã e agarrou o pulso da mulher. Ela tinha nas mãos gordas um anel de noivado de onde a pérola desertara e uma aliança coberta de lama do rio.

— Agarra-me com mais força que tenho medo que escorregue.

Ele assentiu e estendeu mais a mão de modo a cobrir o braço da mulher de forma inabalável.

Do outro lado estava um homem magro a quem chamavam “Desconfiado”.

— Não se consegue…

Um murmúrio reprovador levantou-se entre os outros. Mas nessa severidade havia também a crença de que ele não falharia. Que não poderia falhar. A chuva começou a cair com mais força e as águas cresceram ainda um pouco mais.

Na margem, os filhos tremiam, abraçados uns aos outros. Tinham os cabelos espalhados pela cara, empurrados pelo vento e colados pela chuva e pelo medo. Havia, entre eles, um rapaz e uma rapariga muito altos. Não teriam mais de treze ou catorze anos mas a sua estatura elevava-se dos outros como um cacto se destaca das pedras. Olhavam-se de vez em quando. Desde o princípio que se olhavam. Sabiam mais do que os outros sobre o que poderia vir a acontecer. Eram demasiado novos para terem medo por mais alguém que por si próprios. Os sapatos enterrados na lama e tinham medo. Calçavam ainda os mesmos ténis com que tinham passeado entre as árvores, alguns dias antes, apenas. Não tinham tido medo ao dar as mãos, o céu a brilhar por cima deles entre árvores que davam frutos que ainda não se poderiam comer. Sorriam quando não imaginavam que o mundo se poderia transformar numa coisa realmente hostil e perigosa. Ouvia-se, nessa tarde, vozes de raparigas que passeavam, também elas, entre as dunas, descalças na areia quente, o chão uma lagoa imensa e dourada que não existia. Tinham agora na frente uma laguna concreta, movimentando-se incontrolável. E já não havia sol nem frutos nas árvores, nem vozes de moças ou andamentos de pássaros… Apenas os rios unidos a inundarem a terra inesperada, a desfazerem as dunas, a levarem as casas. E toda a alegria partira à medida que as vozes dos adultos se tornavam mais tensas e inquietas; que os braços dos adultos se fechavam uns sobre os outros; que os ombros começavam a configurar-se como uma ponte.

— Elias – disse o pai. E tudo nessa voz se partia ao pronunciar o nome do filho. Tudo nela se amaldiçoava por ter de chamar por ele, à medida que já não havia mais braços nem corpos de adultos para chamar. — Elias – repetiu o pai, do outro lado do círculo.

Ele olhou para ela durante um segundo, antes de entrar na água até à cintura. Abraçou-se aos que ainda havia pouco o passavam de colo em colo.

Melia hesitou um pouco. A mãe antecipou-lhe o gesto e gritou:

— Ainda não!

Mas já ela entrara nas águas, as saias curtas flutuando em redor. Os braços finos a sumirem-se entre os dos homens e mulheres. O rosto que procura sorrir para descansar a mãe. “Ainda não”, tinha dito esta.

As crianças pequenas começaram a subir pelo corpo dos mais velhos, agarrando-se-lhes aos cabelos e às orelhas, deixando marcas de unhas nas faces barbeadas, demorando-se tempo demais quando passavam pelos seus próprios pais e choravam. A tempestade aumentara a um ponto em que já quase não se respirava entre a chuva. E os meninos tentavam passar a um e um para a margem do rio que nunca tinha existido.

Mas o rio era longo e os adultos poucos. Foi o primeiro homem a perceber.

— Não nos salvaremos todos.

E toda a gente começou a gemer e a dizer os nomes das pessoas queridas. Ramos frágeis desprendiam-se das árvores e voavam em direcção às caras e às mãos que saiam das águas, ferindo. O rapaz e a rapariga tremiam, mas nem por um momento tentavam soltar as mãos. Nos ombros o peso das crianças pequenas que eram também elas embora não o parecessem.

— Façamos um círculo – disse o homem. —Uma pirâmide. As crianças mais pequenas que subam para as costas das que forem um pouco maiores e assim sucessivamente.

Por cima, Deus mandava as nuvens e a chuva e o vento e o frio e as trevas que cobriam o dia, enquanto por baixo tudo eram águas castanhas e revoltas, a terra desaparecida.

Os que estavam mais para a frente recuaram e, virando o corpo, deram as mãos aos primeiros. E sobre as suas cabeças, as crianças um pouco mais velhas puxavam para as costas as mais pequenas, as que mais choravam.

E as águas subiram e tocaram nas primeiras bocas que eram as das mulheres mais velhas. E a da rapariga que um dia tinha passeado com um rapaz por entre árvores de frutos verdes. E os últimos queixumes calaram-se, para ficar apenas o silvo da respiração que saía pelas narinas em pânico. Fecharam os olhos os filhos e esperaram que a água de baixo se unisse à que caía do céu.

E então, a chuva começou a decrescer. O vento diminui de intensidade. As nuvens mais escuras afastaram-se e a luz iluminou de novo o mundo que se esperava submerso. Deus recuou para a sua caverna do alto. Um pássaro apareceu a rasar as águas e desviou-se a tempo de chocar contra uma pirâmide de homens e mulheres que levantavam os filhos acima de si. E ao passar muito perto de uma menina que havia muito pouco começara a falar viu no reflexo dos seus olhos a história da sua própria vida. E só então se afastou, na direcção de um monte onde as águas começavam lentamente a baixar.

Cachapa, Possidónio, in «Contos que Contam», Lisboa: Centro Colombo, 2005

 

(colectânea de contos, “um projecto do Centro Colombo a reverter para o Instituto de Apoio à Criança”)

 

«monitoring the flood», christian © christian, via Deviantart (D.R)

Dulce Maria Cardoso – Dois Homens

 

 

À Marlise Vaz Bridi

Chamou-me, aqui estou, disse o filho. O pai olhou para o filho como se o tivesse visto no dia anterior. Sem reparar nos sinais de ausência de mais de vinte e sete anos, os olhos mirrados que a custo se percebiam azuis, a pele velha, os dentes rombos e amarelados.

Estavam sentados na varanda contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, muito laranja. As gaivotas gritavam à procura de comida. O filho não sabia que se lembrava tão bem da fome das gaivotas.

Chamou-me, repetiu o filho.

O pai ficou calado uns segundos.

Amanhã, disse lentamente.

Os olhos azuis do pai fugiram dos olhos azuis do filho para o azul do céu que o fim da tarde envelhecia. O filho olhou para a ria e depois para o sapal. Já que nunca nada mudava, também eles deveriam ter continuado iguais. Mas não.

No dia seguinte o filho acordou tarde com o cheiro a comida e o barulho na cozinha. De olhos fixos no tecto o filho tentou identificar as vozes das mulheres. Em vão. Eram-lhe totalmente desconhecidas.

Reconheceu o cheiro da carne no forno. Como antigamente, pensou. Depois o cheiro a café e a caramelo. O pudim de café. Como nos domingos de festa. Antes de o pai ter dito que preferia que ele não tivesse nascido.

Olhou para as paredes do quarto que tinham sido pintadas de cor diferente. Reparou na mobília que era nova. A cama era mais larga e o guarda-fatos tinha agora um espelho que o reflectia no desconforto de ali estar.

Na cozinha o barulho crescia misturado com passos que iam e vinham. Punham a mesa na sala grande. A mesa comprida com a toalha de linho branco. E o padre numa das cabeceiras:

Ninguém se esconde dos olhos de deus. Muito menos um pecador. Um justo talvez. Um pecador nunca.

O pai bateu à porta do quarto do filho com os nós dos dedos. A comida está pronta, disse.

Sentaram-se nos lugares habituais, como se da vez anterior, antes do grande silêncio, o pai não tivesse repetido ali os mesmos nomes que lá fora chamavam ao filho.

Estou velho, disse o pai. Não queria ir deste mundo sem comer mais uma vez contigo.

As mulheres foram pondo na mesa travessas cheias de comida.

O pai serviu-se e mandou o filho servir-se. A sala cheirava bem. A rosmaninho. Pai e filho comeram. E tornaram a servir-se. E comeram mais ainda. Comeram muito e com verdadeiro prazer. Sobre isso também não trocaram uma palavra.

Quando a refeição acabou levantaram-se da mesa. Caminharam devagar, de tão cheios que estavam. Lado a lado.

Na varanda onde se sentaram outra vez contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, amarelo-esbranquiçado, o pai disse:

Agora já podemos terminar o que começámos. Dois homens não se despedem sem terem comido uma boa refeição em paz.

E ali ficaram. O sol alaranjou-se outra vez e as gaivotas gritaram novamente por comida.

Cardoso, Dulce Maria, Contos (colectânea), Leya, 2010

[Originalmente publicado em Até Nós, Edições Asa II, 2008]

"Is it strange to dance so soon?", futurowoman © futurowoman, via Deviantart, (D.R.)

Links relacionados:

Sobre Dulce Maria Cardoso aqui, aqui e aqui.

Mário Cláudio — Improviso para duas estrelas de papel

[conto integrado no livro Do Conserto do Mundo [contos], com textos da autoria de Ana Paula Tavares, Arnaldo Santos, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Isabel Zambujal, João de Melo, Lídia Jorge, Mários de Carvalho, Mário Cláudio, Miguel Real, Patrícia Ferraz, Pedro Sena-Lino, Ricardo Cabaça, Ricardo Miguel Gomes, Richard Zimler, Rui Zink, Urbano Tavares Rodrigues. Coordenação de Ana Maria Martinho. Uma edição da Imprensa Nacional-Casa da moeda, de Outubro de 2010, iniciativa editorial integrada no âmbito do Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social.]

Improviso para duas estrelas de papel


São estrelas construídas sem paciência nem esperança, tão dadas às espirais da tormenta como ao toque silícico das longas línguas de saibro.

 

No chão articulam o catre-de-campanha, estremecem no abraço pelo trepidar do autocarro, erguem-se na madrugada para o duche repentino. Despertam o filho de bruços no beliche inferior, retiram-lhe o pijama, vestem-no para a escola. Saem para a rua onde rompe acarvoada a manhã, e os jornais pendem lívidos dos escaparates, e longas fileiras se cerram compactas nas paragens hirtas. Na chuva escalam o casario azul, com uma catedral sombria dominando vidas, varandas deitadas para vielas escorregadias, paredes de seminários e palácios transidas de invernia e musgo esfarelado. Exercitam a ternura contra uma e outra perspectiva de clarabóias e miradouros, telhados e escadórios, fachadas de azulejo e mercados marginais. Ficam sem escuna que os receba, Simões Botelho por sentenciar, os dentes cerrando todos os desafios, resignados às mãos entre mãos. A si mesma se cerca a cidade, exterminando o espaço em seu redor, concentrada lei que nenhuma infracção humaniza.

 

Começam insofridas por ensaiar o voo muito junto à terra, entre a extensão das searas e a cúpula aberta e translúcida.

 

Deixam um automóvel arfante, invadem o jardim dos organismos públicos, cortam a compósita flor que para sempre enquadra o dia. «É preciso morrer», dizem, encostando à boca o espelho dos moribundos; «é preciso beber», dizem, descobrindo países. Pernoitam em hospedarias clandestinas, com telefones desligados de medo, ramas de pinheiro, marcas de cerâmica, lâminas. Para eles se aparta o reposteiro escarlate, se lhes deparam os retratos régios, estáticos de veludos e carbúnculos, a história se entorpece de minúsculos canteiros interiores e de buxo.

 

No rasto das estrelas, pelos sulcos da fome, se abandonam guiados, tranquilos e loucos, Joana perseguindo o cadáver do homem pelas estradas de Espanha adustíssima, entre chufas de canalha e excrementos de mula.

 

O filho relata a estranha genética, reclama o direito de resultar, como todos os filhos que se sabem, do ventre virgem do pai. Divide a giz brinquedos e cobertores, fábulas e passeios de domingo.

 

Como diferem das estrelas as estrelas, rochas de fogo que nunca se cruzam, seguem além de além, trajectória que não se interrompe nem altera!

 

Realizam assim seu contrabando de violetas bravas, à revelia de mulheres legítimas e amigos estatutários. Dormem pelas valetas, acordam sacudidos de riso, a bombazine das calças tingida do amarelo poeirento das mimosas. Alimentam-se de pão e de queijo e de vinho clarete. Descansam a sesta contra a nave dos conventos galegos, com seus retábulos de oiro e seus palmares, trazidos ambos de uma América que os olhos de um nos olhos de outro já não precisam de alcançar. Adormecem de novo entre textos rascunhados, rápidas passagens do Requiem. Decifram quase o mistério dos alfabetos ibéricos, no vestíbulo do sono onde vogam hipocampos atónitos, perpassam esteiras súbitas de submersos meteoritos.

 

O movimento das estrelas acontece ainda em quartos de tecto baixíssimo, onde os cinzeiros se entornam, as bofetadas estalam, o choro rebenta.

 

Na destrambelhada noite do equinócio escolhem a forca dentro de casa, dobram-se de angústia sobre a estopa da otomana, evadem-se vomitando entrechos avulsos pelo veloz labirinto dos faróis. Assim se lhes tocam os dedos nos mamilos das raparigas de mármore, ou de cerosas folhas de camélia se lhes cobrem, descerrando os cadernos nas margens do lago. Os cães ladram no faro da senda que levam, e um noitibó lhes indica o atalho da saída.

 

Atrás das estrelas correm, por elas arrastados, a vontade no sentido delas transpondo abismos, peregrinando por capelas de seu culto, a que outras pombas se abrigam sempre que chove. No sol se confundem, nas esferas de refulgência, fazendo crepitar as pontas nas trevas de uma íris igual.

 

As crónicas antigas jazem arquivadas nas gavetas dos contadores de marfim, nas prateleiras dos imensos copeiros espanhóis, nas vitrines iluminadas de faces que o bafo embacia. Ora se lhes repousa a cabeça no ombro um do outro, ora se cortam os laços, ajoelhados e acenando na aresta mais fria da cama.

 

Fatigadas as estrelas se esfarrapam, tombam em pedaços de enfolipado papel-de-seda, e a armadura das asas é uma caveira de arames e madeira e cola ressequida. Mas os longes duram sempre, sempre duram, para quem quer que retenha os fios enredados.

 

Este título elegemos: Improviso para Duas Estrelas de Papel.


Cláudio, Mário, Do Concerto do Mundo [Contos], Lisboa: Imprensa-Nacional-Casa da Moeda, Outubro de 2010

Hopeless Homeless, Lia Sáile © Lia Sáile, via Deviantart

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Vergílio Ferreira – «Carta» (um conto)

Agora que na Quetzal se procede à reedição da obra e à publicação de inéditos de Vergílio Ferreira, lê-se de novo o volume que reúne os Contos do escritor, e aqui se deixa um deles, na íntegra.

«flames», maria © maria, via photobucket (d.r.)

CARTA


Eis que te procuro agora como nunca, te espero agora como nunca. Se tu visses… A casa fica no meio das oliveiras e de um quintal de verdura. O tempo não passa por ela distraído, e demora-se sempre um pouco. Quando é pela primavera, há flores nas macieiras e pintainhos novos pelo pátio. E quando é o Verão, há as manhãs solenes, e quando é o Outono, o ouro das colheitas. Lembro essas manhãs e o brilho fresco da água pelas noites sufocantes de Julho, e o frémito da terra na hora do recomeço. Meu pai, quando parti, disse-me:

— Volta.

Minha mãe olhava-me em silêncio, dorida, e todavia serena como se detivesse o fio do meu destino, ou soubesse, da sua carne, que tudo estava certo com a vida: o nascer, o partir, o morrer.

— Volta — repetiu ainda meu pai.

Eis que volto, enfim, nesta tarde de Inverno, e o ciclo se fechou. Abro as portas da casa deserta, abro as janelas e a varanda. No quintal as ervas crescem com as sombras, as oliveiras têm a cor escura do céu. Em baixo, no chão húmido ao pé da loja, há restos de ferragem enferrujada: um sacho sem cabo, um aro de pipa, um regador. Meu pai amava a terra. Lembro-me de o ajudar a podar o pequeno corrimão de videiras, de lhe ir encher o regador para o cebolo novo. Minha mãe olhava-nos da varanda e os três sabíamos uns dos outros no silêncio dos corações. Pensei, sofri, lutei. Mas de tudo o que aconteceu é como se nada me tivesse acontecido. Alguém me incumbiu do que fiz, muito antes de eu nascer, quando outros homens, outra gente, acabavam a tarefa que eu havia de começar. Essa tarefa deixo-a aos que vierem depois. De tudo, ficou-me apenas esta voz humilde que ouço, que ouço.

— Se voltares — tu o dizias.

Aqui estou. Acendo lenha no fogão e as chamas crescem como uma memória antiga. Silêncio bom. Como outrora. Como quando nada tínhamos já a dizer, e estávamos cheios, todavia, da presença um do outro. Estendo as minhas mãos ao calor, e olho, e escuto. O lume enche-as de sangue, acende-as por dentro como brasas. Tu dizias:

— Ninguém conhece as suas mãos. Só talvez as dos outros. É bom ter as tuas aqui, com os dedos todos submissos.

Estranhas noites estas de Inverno, sem um rumor. Só os cães ladram das quintas. Discutem pela noite fora até adormecerem. Ouço um já rouco, lá nos confins da noite, agora a falar sozinho, decerto para ter a última palavra. Houve um cão outrora cá em casa. Numa manhã de chuva, achámo-lo à porta da cozinha, todo ensopado, a tiritar. Minha mãe não gostava de cães.

— Sujam tudo, roem tudo.

Enxuguei-o, dei-lhe pão, pus-lhe um nome. Minha mãe resignou-se. Os caçadores levavam-no à caça porque tinha bom faro. Um dia, não sei como, mataram-no com um tiro. Era um cão perdigueiro. Tinha um olhar humano.

A chama apaga-se, a pirâmide de carvões desmorona-se. Os cães adormecem enfim, sob o grande céu de estrelas. Não há lua. Nem vento. Só as estrelas vibram no céu negro de veludo. Se tu viesses. Eu te imagino, desde o fundo do meu cansaço, silenciosa e grave como esta hora final, como um apelo obscuro vindo do abismo do tempo. Um halo de sombra coroa o teu olhar, a tua presença é quente como o fluido da ternura. Tudo em vão, tudo em vão. Ou não bem isso, não bem isso. Alguma coisa me ficara esperando talvez, desde antes e antes, qualquer coisa que eu trazia do lado de lá da vida. Eis que a encontro e me fala e floresce no sangue e procuro reconhecê-la na tua face. Aqui ao pé do fogão há uma cadeira de braços. Minha mãe sentava-se nela, meu pai nesta em que escrevo. Pelas noites de vento, olhavam o lume, deixavam-se adormecer… Tu dizias:

— É bom terem já dito tudo e reconhecerem-se ainda.

Abro de novo a varanda para a noite, o ar gela-me a face como um espelho. Ao fundo do quintal havia uma figueira grande. Minha mãe franjeava xailes e cintas para fora. E eu atava as cintas e balouçava-me na figueira.

— Ah, tu acabas por deitar a figueira abaixo. E já rompeste duas cintas.

Numa noite brava de Inverno, a figueira caiu. E minha mãe dizia sempre, daí em diante, que fora de eu me balouçar…

Tanta coisa aconteceu e eu recordo e eu recupero não talvez na lembrança, não talvez, mas num apelo indistinto e longínquo e angustiante como o silêncio desta noite. Olho ainda o frémito das estrelas sobre a aridez fria da terra. E penso: «Qualquer coisa vai acontecer de misterioso e grande, qualquer coisa miraculosa se anuncia como a vinda de um Deus.»

— Sim, a esperança é talvez a melhor parte da vida.

Tu o dizias. Eis que porém a minha esperança tem agora a cor do cansaço e da resignação. E de tudo o que pensei e quis que brotasse da terra, de tudo o que foi novo e me comoveu, da agitação do meu sangue, do clamor com que fiquei rouco, da fúria, do choro, da alegria, de tudo o que me deu a conhecer os meus dentes, os meus ossos, as minhas pobres vísceras — a forma que se desenha e que me envolve agora tem o volume quente do seio da piedade. Se amanhã quando me erguesse e pensasse que havia ainda um dia árido a vencer, e outra noite, e outro dia, e quantos dias e quantas noites o tempo guarda para mim, eu de manhã te encontrasse preparando o fogão e o aroma da casa, e te sentasses nesta cadeira ao lado, e os dois nos esquecêssemos de falar, até um dia, até um dia, e nos deixássemos enfim adormecer…

Ferreira, Vergílio, Contos, Lisboa: Bertrand Editora, 2008.