As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Colóquio Letras

Fiama Hasse Pais Brandão — quatro poemas

«Between the trees», Petitescargot, © Petitescargot, via Deviantart (D.R.)

 

A SÉPIA


Chegava no seu carro solar

ao meio-dia

o amolador rústico.

Com uma roda fruste que brilhava

e ressoava surda

no bater do pedal?

Com o assobio que modula

um ser perdido

na estrada da velha vila

esboçada na paisagem

por trás da vila de hoje?

 
SÃO JULIÃO DA BARRA

1

Sempre vão passando barcos

na Barra ao longe, na linha

de memórias ocas

e é oco o som cavo de apitos.


2

Há manchas de mar por vezes sobrepostas

à rusticidade doce da casa.

Mas um sentido rural que se demora

traz imagens tangíveis tão próximas

daquilo que para mim as coisas eram.

 


METAFÍSICA


Todas as árvores apaziguam

o espírito. Debaixo do pinheiro bravo

a sombra torna metafísica

a silhueta de tronco e copa.

Em volta da ameixoeira temporã

vespas ensinam aos meus ouvidos

louvores. As oliveiras não se movem

mas as formas da essência desenham-se

cada dia com o vento.


Na sombra os frémitos

acalentam o pensamento

até ao não pensar. Depois

até sentir a vacuidade

no halo das flores que o envolve.

Sob as oliveiras, por fim,

que não se movem contorcendo-se,

concebe o não conceber.


ESTRADA DE FOGO
Pedra a pedra a estrada antiga

sobe a colina, passa diante

de musgosos muros e desce

para nenhum sopé;


encurva, na abstracta encruzilhada;

apaga-se, na realidade. Morre

como o rastilho de fogo,

que de campo em campo aberto


seguia, e ao bater na mágica cancela

dobrava a chama, para uma respiração,

e deixava o caminho do portal

incólume e iniciado.


1986

 

Brandão, Fiama Hasse Pais, Colóquio/Letras n.º 108, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1989.

Between the trees chapter II, Petitescargot © Petitescargot, via Deviantart (D.R.)

Inês Lourenço – (dois poemas)

 

 

De novo se volta a Inês Lourenço, que já foi referida e transcrita aqui, desta vez com dois poemas publicados na Colóquio Letras n.º 147/148, de Janeiro de 1998 (datados de 1997, muito anteriores, portanto ao seu último livro, Coisas que Nunca, de 2010, publicado na & etc.).

RUA DO BONJARDIM
I

Vindo do marquês, o autocarro

chiava na curva estreita, soltando

os seus vapores de gasóleo, e

num portal surgia um gato pardo

para o qual me inclinei, sabendo

que fugiria ao contacto

da minha mão, ou apenas ao

esboço de carícia, como fazem

os gatos, tão fugidios na presença

de estranhos. Mas o animal, no

instante do recuo, aceitou o

deslizar dos meus dedos,

em troca de amáveis energias. E

uma longa saudade subiu-me pelo

braço, no arquear festivo

daquele pequeno tigre.

RUA DO BONJARDIM
II

Ao entrar no quiosque,

nesta tarde de névoa, para

comprar um jornal qualquer, uma criança

pediu algo que não entendi. Seria

uma moeda para um chiclete? Perguntei

ao homem sentado atrás das

revistas do coração e dos diários

da bola de quem seria a criança, como

se pudesse ser de alguém um ser

tão súbito, nascido da genealogia

indecifrável da tarde.

Porto, 97

Lourenço, Inês, in Colóquio/Letras n.º 147/148, Janeiro de 1998, Fundação Calouste Gulbenkian

«Spirit of the child», Ciril Jazbec © Ciril Jazbec, via Deviantar (D.R.)

(clique para ampliar)

 

Links Relacionados:

(desactualizado, mas com referências bio-bibliográficas e alguns poemas da escritora:)

Inês Lourenço

Luís Miguel Nava – Retrato

RETRATO


A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.

Há quem, tendo-a metida

num cofre até às mais fundas raízes,

simule não ter pele, quando

de facto ela não está

senão um pouco atrasada em relação ao coração.

Com ele porém não era assim.

A pele ia imitando o céu como podia.

Pequena, solitária, era uma pele metida

consigo mesma e que servia

de poço, onde além de água ele procurara protecção.

Nava, Luís Miguel, in Colóquio/Letras n.º 104/105, Julho de 1988, Fundação Calouste Gulbenkian

«Skin Moans», Ali Khatib © Ali Khatib, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

David Mourão-Ferreira – Matura idade

Os dois sonetos com que David Mourão-Ferreira se estreia na publicação de poesia na Colóquio / Letras (n.º 2, Junho de 1971, publicação de que viria a ser marcante director); poemas  mais tarde integrados no livro com o mesmo título (1973).

Matura idade


I

Um silvo Um baque Um cheiro a gasolina

Esse que fui e nunca mais retrato

tão à beira do rosto e do regato

onde tudo por fim não se ilumina


Ó deusa Ó cabra Ó mãe Ó assassina

À dúzia tive o lote mais barato

Cada rosto uma ruga no meu fato

cada voz uma ruga uma ruína


E este avião em chamas no deserto

longe tão longe cada vez mais perto

E a gasolina agora já nas veias


Olha o museu de súbito incompleto

Perdeu-se o rasto a quem roubou o feto

O regato esvazia-se às mãos cheias

II

Às mãos cheias esgota-se o regato

Mas que mão Mas que bêbeda assassina

as águas poluiu de gasolina

e manchou para sempre o meu retrato


O osso a carne a pele o pêlo o fato

O que estiver mais perto da ruína

é que neste momento me ilumina

pra que o rasto se venda mais barato


Verei por fim dentro de mim o feto

Sufocarei no cais do Incompleto

o silvo que antecede as marés-cheias


Julgava-me tão longe E tão perto

vem do deserto o eco do deserto

que se prolonga ao fim das minhas veias

Mourão-Ferreira, David, Matura Idade, Lisboa: Arcádia, 1973

"Deserted Men" © Nesten (polaroid dessaturada) via Deviantart


Colóquio/Letras – In memoria æterna erit justus

Não quero saber dos detalhes, da teia de desentendimentos, de ressentimentos, de zangas, que deram origem à suspensão preventiva de funções e instauração de um processo disciplinar tendo em vista ‘o despedimento com justa causa’ da Directora da revista Colóquio/Letras, Joana Morais Varela.

Antes quisesse. Antes me embrenhasse nesses meandros, para de novo encontrar motivos de vergonha pelo meu país, triste forma de estar alerta. É um sentimento estranho este: doer-nos de vergonha uma entidade abstracta, um país. Um sentimento absurdo, também: porque, se algum motivo de orgulho nos redimia da triste vida cultural portuguesa, ele tinha casa e morada na Fundação Gulbenkian. Em outros lugares, decerto. Mas era aqui o seu castelo. Uma torre alumiada em pleno turvo charco salazarista.

Na Fundação fazia-se a única revista literária inquestionável em Portugal. Abdique-se dos adjectivos, por ser substantivo o assunto: não conheço nenhum paralelo editorial comparável à Colóquio/Letras. Em lugar nenhum em civilizadíssimas nações. Tenho, aqui atrás de mim, as 14 caixas da Colóquio (1959-72), publicadas antes da cisão que deu origem à defunta Colóquio/Artes e à agora condenada Colóquio/Letras, também ela atrás de mim. E posso avaliar. Posso e devo dizer que era com grande alegria que o meu tio, João Bação Leal, (pai do José Bação Leal, poeta de quem um dia falarei) a comprava, lia cuidadosamente – e com cuidado – para não estragar. (Já quando só era Colóquio se lhe acusava o ‘luxo’, as impressões a cores especiais, como o dourado, uma luxúria numa revista, os tempos  convidavam a mostrar austeridade). Do meu tio herdei a Colóquio. Eu continuei com a Colóquio/Letras. Porque me ajudava a perceber o essencial: a literatura como um território outro, pregnado da experiência humana nas suas infinitas, incomensuráveis, improváveis e maravilhosas expressões.

*

A Colóquio/Letras era uma revista desmesuradamente ‘luxuosa’? Era, claro que era. Tinha de ser! Porque nada naquele ‘luxo’ se revelava deslocado ou gratuito; correspondia integralmente à liberdade editorial, ao crescente impulso para os números temáticos que faziam literalmente conhecer de novo autores e passar a amá-los só porque assim nos eram apresentados; conjugava-se com o ‘luxo’ de um editing anormalmente rigoroso, sem tradição no nosso país.

À minha frente está o duplo número 145/146, Julho – Dezembro 1997. Infinito Pessoal homenagem a David Mourão-Ferreira 1927-1996. Eram precisas fotografias tão boas? Eram necessários extra-textos tão raros, perfeitos, caros? Tantos papeis diferentes? Tão boa impressão e acabamento? Era indispensável que até a Bibliografia Activa do autor fosse ilustrada? Era! Por muito que alguém gostasse do escritor, aquela revista permitia ‘estar com ele’. Conhecer-lhe o corpo. A mão. A caligrafia. Os olhos cansados de bondade. Cansados de alegria.

Ah, mas em Portugal a competência também cansa. Com um processo disciplinar e uma ‘justa causa’ despede-se a competência. Essa raridade, que deve andar com trela. Essa lebre a abater.

Joana Morais Varela.

(Nota: para acompanhar mais de perto esta triste história, nada como aceder ao blogue Da Literatura, onde Eduardo Pitta tem vindo a dar um destaque maior ao caso que grande parte da comunicação social. E onde se pode também encontrar um link para um texto aberto à subscrição, da autoria do grupo “Amigos da Colóquio”. Junte o seu nome, se atribuir importância ao assunto (eu detesto abaixo-assinados. Assinei. • De igual forma, merece ser lido, por muito mais significativo, informado e certeiro que estas linhas, o texto de Osvaldo Manuel Silvestre, no blogue Os Livros Ardem Mal).

Colóquio Letras - 'Infinito Pessoal'. Número 145/146, 1997, Homenagem a David Mourão-Ferreira

Colóquio Letras nº 145-146, 1997