Fiama Hasse Pais Brandão — quatro poemas
A SÉPIA
Chegava no seu carro solar
ao meio-dia
o amolador rústico.
Com uma roda fruste que brilhava
e ressoava surda
no bater do pedal?
Com o assobio que modula
um ser perdido
na estrada da velha vila
esboçada na paisagem
por trás da vila de hoje?
SÃO JULIÃO DA BARRA
1
Sempre vão passando barcos
na Barra ao longe, na linha
de memórias ocas
e é oco o som cavo de apitos.
2
Há manchas de mar por vezes sobrepostas
à rusticidade doce da casa.
Mas um sentido rural que se demora
traz imagens tangíveis tão próximas
daquilo que para mim as coisas eram.
METAFÍSICA
Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.
Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo das flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.
ESTRADA DE FOGO
Pedra a pedra a estrada antiga
sobe a colina, passa diante
de musgosos muros e desce
para nenhum sopé;
encurva, na abstracta encruzilhada;
apaga-se, na realidade. Morre
como o rastilho de fogo,
que de campo em campo aberto
seguia, e ao bater na mágica cancela
dobrava a chama, para uma respiração,
e deixava o caminho do portal
incólume e iniciado.
1986
Brandão, Fiama Hasse Pais, Colóquio/Letras n.º 108, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1989.






