As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Cavaco Silva

Eyjafjallajökull

"sou um belo vulcão preguiçoso e traquinas"

Image courtesy Flickr user © orvaratli via CC (clique para ampliar)

Apresenta-se (aqui em relativo descanso) o vulcão islandês que provocou a pior restrição aérea de que há memória na Europa; que deixou centenas de milhar de passageiros em terra, incluindo Cavaco Silva em Praga e Angela Merkel  em Lisboa (sorte a dele, chatice a dela) e Fernando Pinto a fazer contas aos mais que improváveis bónus de 2010. Aqui se mostra o vulcão que tem este mimoso nome (com direito a link para se perceber a pronúncia da coisa e tudo); o mais engraçado é que o Eyjafjallajökull é conhecido, na Islândia como o “vulcão preguiçoso”. Nada de extraordinário: à velocidade com que as coisas se passam naquela ilha (a bancarrota, por exemplo), por que razão não há-de o Eyjafjallajökull acordar de repente?

Parlamentarismo

Membros do Kuomitang, partido no poder em Taiwan, tentam impedir um deputado da oposição de subir ao pódio parlamentar e usar da palavra. As partes oponentes lutavam sobre uma Emenda a um Acto governamental local, com um dos elementos envolvidos na discussão a queixar-se de ter sido mordido.

O parlamentarismo na ilha tem, nos últimos anos, sido tão entusiástico como a sua capacidade exportadora. E calor humano não lhes falta.

(imaginemos, por um segundo, o Dr. Aguiar Branco às cavalitas, para botar discurso; e o Dr. Portas a queixar-se de uma trincadela; e o Dr. Louçã de uma canelada. Por menos o Dr. Cavaco dissolvia. Ai isso dissolvia)

[fotografia do incontornável The First Post, datada de 19/1. Clique para ampliar]

© The First Post (d.r.)

Cavaco e o BPN

Cavaco Silva é um Antigo. Anterior à consciência moderna da desordem íntima. Anterior a Pessoa. Anterior a Freud. Cavaco Silva foge dos estados de alma. Procura a organização racional e vigia, férreo, as emoções. É um homem em constante trabalho de agregação do Eu (a frase ‘nunca me engano e raramente tenho dúvidas‘ não era uma bravata, enunciava um programa de vida).

Por isso se estranha muito o Comunicado da Presidência da República, sobre a sua (não) relação com o BPN. Porque nele tudo é desordem. No plano institucional (público), comunica a partir da sua condição de Supremo Magistrado da Nação. Ora o Presidente da República não pode responder, em Comunicado Oficial, a ‘mentiras’, ‘insinuações’, de que tomou conhecimento por meio de ‘contactos estabelecidos por jornalistas’. Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Presidente da República.

Mas a desordem reside, mais concretamente, no facto de sermos confrontados com um Comunicado do ‘Prof. Cavaco Silva e a sua Mulher‘. Ou seja, uma declaração no âmbito do privado (onde a pequena minudência impera, com detalhes que são, de forma geral, desnecessários e, por isso, pela ideia implícita de ‘quem não deve não teme’, confrangedores). Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Cidadão.

O que terá passado pela cabeça do homem ao utilizar, de forma cristalina, o espaço comunicacional proporcionado pelo seu cargo para procurar a reposição de uma honra inquestionada, pertencente à sua vida privada?

Quem falou, neste comunicado? O Presidente Cavaco? O Prof. Silva? Em qualquer caso, seja bem-vindo aos pavores identitários do mundo pós-moderno.

'Estou a ver. Não quer deitar-se um pouco no divã?'

'Estou a ver... Não quer deitar-se um pouco no divã?'


Subconsciente monárquico

A situação não podia ser mais prosaica: sentado no sofá, lia o jornal enquanto ouvia as notícias, após o almoço. Ouvia, não via. E quem eu ouvia era, garanto, a voz de D. Duarte de Bragança, putativo herdeiro da coroa portuguesa (descontinuada). Contudo, atraído pelas palavras proferidas «Sabe, não me parece a ocasião oportuna para me pronunciar…» (citado de memória) levantei os olhos do jornal. Palavra de honra que era o Sr. Presidente da República que estava no ecrã. A voz, a voz de Cavaco Silva era, asseguro, de uma semelhança inquietante com a de Duarte Pio. No tom. No timbre. Na pausa. Na guturalidade. Devaneio imediato: terá a primeira figura da República um subconsciente monárquico?

onde estão os meus óculos?

onde estão os meus óculos?