As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Os ‘meus’ Blogues – Do trapézio, sem rede

(…) uma coisa que eu acho belíssima, essa ideia de que, quando nos confrontamos com um texto, olhamos e dizemos: «tenho aqui uma guerra». Ou seja, há uma opacidade original do texto original, opacidade não quer dizer que a gente não perceba a uma primeira leitura, há uma opacidade à tradução, há uma barreira à tradução, na qual depois aplicamos tudo isto que estamos a teorizar. Mas aplicamo-la como? Quando estamos a traduzir uma frase não estamos a decompô-la, pelo menos racionalmente. Há um mecanismo quase espontâneo, digamos, intuitivo.” – António Mega Ferreira, em “tradução: a panela, o cozido e o caldo”, debate sobre a Tradução, realizado em Março de 2004, publicado em “A Phala 1″ (segunda série, 2007, Assírio & Alvim).

No silêncio discreto, no anonimato das iniciais L.P., o autor do blogue Do trapézio, sem rede tem vindo a realizar um trabalho de grande valor e, por vezes, de descobertas inesquecíveis. Esta ‘poesia passada para português’ não nos oferece apenas, com uma regularidade de metrónomo, poemas de 130 autores (and counting…) vertidos para a língua portuguesa: tem a virtude de nos dar a conhecer muitos poetas que estão fora dos círculos do reconhecimento mais imediato; e o mérito de nunca omitir a fonte, numa atitude de honestidade e seriedade que se deve assinalar. Visito muitas vezes ao Do trapézio, sem rede – nome que, reportando-se à tradução, é já uma enunciação da percepção do autor sobre o seu trabalho. Vou lá muitas vezes, repito, jamais me desiludo. Nunca encontrei cedências de gosto. Antes uma criteriosa escolha de autores; de poéticas; e traduções que admiro. Agradeço muito. Recomendo muito o Trapézio, essa caixa de rebuçados da poesia universal.

Aqui se deixa o último poema que nos é oferecido em tradução – data de dia 18 -, com a respectiva indicação da fonte, cuidado que o autor infalivelmente não descura.

Vladimír Holan

Mãe

Alguma vez observaste a tua velha mãe
a compor a cama para ti,
a maneira como ela estica, endireita, aconchega e alisa os lençóis
para que não sintas um só vinco?
A sua respiração, o movimento das palmas das mãos
são tão ternos
que no passado apagam esse incêndio em Persepolis
e agora acalmam uma futura tempestade
nas costas da China ou em mares desconhecidos.

(versão minha [Nota: do autor do blogue, L.P.], a partir da tradução inglesa de Ian e Jasmila Milner, reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), 1993, p. 37).
'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online [D.R.]

'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online

(clique para ampliar)

Os ‘meus’ Blogues – irmaolucia

Escrever um blogue não será exactamente um exercício de verborreia regular, onde o autor ou autores desabafam pensamentos definitivos sobre questões muitas vezes excessivamente passageiras. Ou será. Não entendo assim, defeito meu. Tal como não compreendo bem a lógica de copy/paste, o exercício de partilha do diário que deveria estar fechadinho com um cadeado, a trincheira para guerrilhas pessoais com um vastíssimo número de interessados que se esgota nos próprios, o anonimato que tantas vezes esconde o faccioso. Na magnífica plataforma de expressões plurais que a blogosfera permite, muitas são as modalidades possíveis para os autores darem forma ao desígnio a que se propõem: fazer ouvir, num meio que tem recursos comunicacionais cada vez mais vastos, a sua singular (plural) voz,  para ser visto. Escutado. Lido. É essa a vontade que está na origem de um blogue. Mas a ideia de ter um auditório e correspondente público implica que se tenha uma ideia discursiva. Ou melhor, anterior a ela, uma identidade (mesmo que fragmentada, questão identitária que nos levaria longe).

Entendo o blogue que escrevo como um lugar de partilha das coisas que me espantam, dão prazer, gozo, ou suscitam por vezes a ironia. Mas sobretudo um lugar de encontros, onde se podem cruzar, casualmente (a norma é tantas vezes essa casualidade ter um sentido) a cintilação de um poema com o relâmpago de uma imagem; o fulgor de um texto com a doçura de uma alfinetada no traseiro da idiotice. Aqui é um lugar de conjugações, portanto. De acasos que não são por acaso. Lugar de partilha do prazer. Da uma ética da beleza (não escrevi ‘do bonito’, está bem?).

Ontem editei um poema de Nuno Júdice. Apetece-me pensar que não foi por acaso que me chegou às mãos. Tal como não foi por acaso, que, mal o publiquei e dei uma última olhadela a alguns blogues, tenha ‘tropeçado’ neste post de um blogue que muito estimo, o irmaolucia (assim mesmo), um dos mais amados na blogosfera, aposto. O autor, Pedro Vieira, é um ‘blogger’ (como raio se escreve autor de blogue?) por definição. Ou seja, ele próprio se encarregou de alargar conceptualmente a ideia de blogue, com a mão notável para os títulos, para o post curto e tantas vezes letal, outras tantas paródico, intercalando o registo pessoalíssimo com um olhar ácido, irónico, terno sobre o quotidiano; concebendo as suas próprias ilustrações – que resultam, as dele, neste meio como em nenhum outro. Aliás, não imagino o irmãolúcia de Pedro Vieira fora da blogosfera, ao contrário de muitos que escrevem o blogue nosso de todos os dias a pensar na primeira edição em papel.

Ontem, dizia, editei o poema Lusofonias, de Nuno Júdice. Nem dez minutos haviam passado quando deparei com este post. Ora venham lá dizer-me se o acaso não produz o encontro. E se o resultado da simultaneidade não é poético!

*

bica a metro

Há um tipo de local que me repugna/fascina pela cidade fora, mais concretamente os quiosques/cafés da Sical, em tons de vermelho e ocres, mergulhados no metro/politano, cheios de gente mas tão vazios, corpos carentes de cafeína mas também de um ombro consolador que ali não se encontra. Incrível a quantidade de gente de cara fechada que ali ruma em busca do abatanado, da italiana, do galão claro e morno, há vidas assim, da bica cheia, do garoto, do diabo a sete e mais um queque de cujas moléculas suspeito imenso, as merendas que podem ser de maçapão ou folhadas na voz de uma especialista que ouvi aqui há dias, todas reluzentes debaixo da luz fluorescente do balcão, a natureza não produz coisas assim, que luzem e que se trinquem na companhia de cegos, migrantes, passeantes, aleijados e trabalhadores de outros comércios, executivos de casta baixa, mochileiros, e esfomeados de ocasião mortinhos por uma vida mista, o queijo e fiambre a desafiar pelo menos a penumbra dos dias. Nos quiosques/cafés da Sical há gelados da Maxibon, bolos instantâneos, empregados que enfiaram a palavra sorriso num paradeiro desconhecido, e sente-se um frio que as paredes decoradas em motivos quentes, africanos, não disfarçam, a preta ilustrada de lenço na cabeça e moldura de fancaria tem mais vida do que aqueles microscosmos em que até as migalhas brilham, ali, aos pés dos incautos. E as migalhas não é suposto brilharem, foda-se.


Leia-se o post na sua origem, com os comentários que suscitou. Para o caso de alguém não conhecer o irmaolucia, o que duvido.

'num café perto de si © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

'num café perto de si' © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

(não é Sical, mas não fica mal)

Gaja nua XXX – A Vitória!

No dia 18 escrevi aqui um post de ingénua (ou mesmo falsa) indignação. Julia Ormond suscitava seis vezes mais visitas que um belo poema de António Osório. Insatisfeito com a falta de uma justa paridade entre duas preciosidades – o olhar de Ormond, a poética de Osório – publiquei novo poema deste autor com o manhoso título ‘Gaja nua XXX‘ e uma série de tags destinados a excitarem os motores de busca. Prometi divulgar os resultados. Pois bem, 12 dias depois, venho clamar ‘vitória’.

Graças ao ardil, António Osório, clandestinamente divulgado com identidade forjada, foi visitado pelo triplo dos cultores da bela actriz britânica. Melhor ainda: graças à brincadeira, o primeiro poema de António Osório que aqui publiquei disparou nas visitas, multiplicando por dez a sua procura. É caso para pensar que, quem anda atrás de ‘gajas nuas’ tem também alma de poeta.

Apolo venceu Dionísio, com ajudinha de um Hermes malandro.

Terei forçosamente, a benefício de inventário e satisfação das almas, de publicar aqui as palavras e combinações de busca que conduziram quase uma centena de portugueses ao post. Enganados, é certo. Mas felizes. Afinal, cumpri o que prometera. Mostrei mesmo uma ‘gaja nua’.

gajas nuas (várias pesquisas)
gaja nua
(várias pesquisas)
parodias (várias pesquisas)
xxx
(várias pesquisas)
gajas nuas xxx (várias pesquisas)
xxx gajas nuas (várias pesquisas)
http://www.gajas nuas xxx (um internauta menos habilitado)
parodias (um bacano)
feitiço de amor queria ver o episodio d (uma velhinha que acompanha novelas, decerto)
parodias de portugues (um bacano patriótico)
gajas nuas portuguesas (patriótico plural)
gaja portugal nua (patriótico singular)
portuguesa nua (à procura de sua dama, este)
luisa do portugal no coracao nua
(Grande Prémio ‘fixação de carácter obsessivo’)


Em homenagem a todos aqueles que, de ‘gaja nua’, passaram directamente à poesia, resta-me assegurar-lhes que são a prova do Portugal país de poetas. E oferecer-lhes mais uma gaja nua!


Vénus de Milo - Museu do Louvre

Vénus de Milo - Museu do Louvre

Blog Digest (2)

Alguns posts, recolhidos esta semana na blogosfera, que pedem atenção e gratidão.

No Provador de Venenos, (creio que publicado originalmente no Jornal de Negócios) João Pinto e Castro desenvolve opinião tão estimulante como polémica sobre a questão, incontornável nestes dias, da avaliação dos professores. Obrigado por ir contra a corrente.

Ana Cristina Leonardo, no seu Meditação na Pastelaria, escreve um post delicioso, com dois links que seriam hilariantes, não fossem também tristes. Crie-se algum suspense: sob o título E ninguém os interna…, aborda as directivas comunitárias sobre espécies hortícolas e frutícolas; e a notícia da proibição de distribuir frutas e legumes, imposta ao Banco Alimentar contra a Fome, em nome dos ‘parâmetros da U.E.’. Obrigado pelas gargalhadas. Tristes gargalhadas, é certo.

Quem diria que Barack Obama escreveu poemas na juventude? Claro, todos escrevemos, por que não ele? Certo é que foram ‘encontrados’ pela New Yorker, que os publicou e comentou. Atento, Eduardo Serra Lopes deles dá notícia no Casa dos Poetas, e edita-os em português, com tradução de Tiago Nené. Ainda por cima não são nada ‘beras’, os dois poemas. Obrigado pela descoberta.

Rui Bebiano dá conta da morte de João Martins Pereira, no Caminhos da Memória, em notável artigo (Uma Lição de João). Conheci a obra de João Martins Pereira naturalmente mal, na juventude borbulhenta, mas ainda comprei No reino dos falsos avestruzes, na pequenina livraria da Assírio, no defunto Terminal – quem se lembrará? – Li o livro e só pesquei perplexidades, claro. Mas percebi que  era pessoa com pé na realidade, e outro na utopia. Uma raridade, portanto. Alguém ter-se lembrado de registar dignamente o óbito deste pensador de esquerda, que, apesar da heterodoxia (ou por causa dela) era muito estimulante, deve ser assinalado. Obrigado pela memória.

Lutz Brückelmann, autor do excelente quase em português, também tem memória. Num post datado de 11 de novembro, recorda a passagem dos 90 anos sobre o fim da I Guerra Mundial, a drôle de guerre. O texto é breve, contundente e introduz uma impressionante (adjectivo de Lutz, que subscrevo, acrescentando que estamos perante uma obra que espelha magistralmente a tragédia da guerra) galeria de desenhos de Otto Dix, soldado sobrevivente ao conflito, que pode ser descarregada em pdf. a partir do post. Obrigado pelo achado, e por tê-lo partilhado.

Termine-se com um post que, não sendo desta semana (é de Agosto e, aparentemente, o último do Letra de Forma) dá gosto, pela forma apaixonada como Augusto M. Seabra fala de um disco. Neste caso as Sinfonias nº38 “Praga” & nº41 “Júpiter”, de Mozart, interpretadas pela Freiburger Barockorchester, dirigida por René Jacobs, em edição da Harmonia Mundi. Obrigado pela contagiante paixão.

desenho nº 26 do álbum Der Krieg, de Otto Dix

desenho nº 26 do álbum Der Krieg, de Otto Dix


Blog Digest

Alguns posts, editados esta semana na blogosfera, que alimentaram a atenção e a gratidão.

No refogado & hortelã, um médico contraria a ideia que (por generalização estúpida) temos da classe. Um olhar duro e desolado sobre a morte comum, a morte corrente, anónima, hospitalizada. Obrigado pela compaixão.

Eduardo Pitta, no Da Literatura, dá-nos conta de uma querela, da qual deixa perceber os alarmantes contornos e, acima de tudo, a tremenda consequência: o possível desaparecimento da Colóquio-Letras, paixão grande  e antiga, alimentada e aumentada por Joana Morais Varela. Obrigado pela denúncia.

A emotiva leitura que António Barreto faz, no Jacarandá, do livro Cidades Sem Nome – Crónica da Condição Suburbana (Edições Tinta da China), da autoria de Fernanda Câncio. Obrigado pela revelação.

Rui Bebiano consegue encontrar uma história que desmente a minha convicção de ser Portugal o crónico ‘Campeão Mundial do Ridículo’ (como ainda ontem desabafava em ‘Patetices’). Em Espanha passou-se este episódio delicioso (por patético), que pode ser lido no blogue A Terceira Noite. Obrigado pela trouvaille.

António Godinho Gil prova, no Boca de Incêndio, que ainda podemos apaziguar o desejo de uma escrita maior. Também nos blogues, essa imaterialidade. Obrigado pelo golpe de asa.

un mare di ricordi2 © Roberto Cicchine, Olhares, Fotografia Online

un mare di ricordi2 © Roberto Cicchine, Olhares, Fotografia Online


Welcome to Elsinore – cinco anos

Parabéns à Carla Carvalho, A.K.A. Carla de Elsinore, pelo quinto aniversário de um blogue que merece respeito pelo prazer que nos dá. Welcome to Elsinore. Onde o que mais admiro será a dimensão autoral. Depois a irreverência e a juvenil idade, o jogo entre o lúdico, o estético, o peso e a leveza. É há coisas tão bonitas como esta, que não resisto a ‘gamar e copiar’. Sim, vou publicar um post de outro blogue, em vez de fazer um hiperlink. É contra as regras? Estou-me nas tintas. Espero que a autora não me leve a mal. Porque é uma forma de dizer: gostei tanto que o achei como meu.

(publicado em 11 de Outubro no blogue Welcome to Elsinore)

Procrastinação

© Carla de Elsinore (Alentejo, AGO/2008)

© Carla of Elsinore (Alentejo, AGO/2008)

Pela manhã sentava-me nas tábuas frias da ponte observando o espectáculo das trutas a engolirem libelinhas coloridas, duas a duas, em dia de acasalamento. De um golpe, sem compaixão. Ploc. A puta da máquina estava outra vez avariada depois de ter passado um mês de férias na Canon. Who gives a fuck? Era Outubro e haveríamos de passar o resto do dia na nossa praia, adormecendo ao sol e bebendo caipirinhas – que não é tempo de morangos – antes de anoitecer, no barzinho escondido. O mar grande era todo meu e nem a gruta parecia um lugar estranho. Tudo distante agora e, afinal, nem passaram os dias suficientes para o gajo que dizem que fez o mundo repetir a proeza.

Fica claro porque trouxe este post para as folhas ardem? Porque tinha de ser.

Rectificação

Entendo os blogues como um meio de expressão (singular, colectiva) com características únicas, onde múltiplas vozes, a transversalidade social em todos os azimutes, encontra um espaço e um tempo de manifestação próprios, marcados em norma por factores identitários e por uma grande amplitude na liberdade de ‘dizer’.

Liberdade essa que conduz, a alguma responsabilidade, a uma ética que confira credibilidade à voz que se exprime. As palavras pesam. Mesmo na blogosfera. Sobretudo na blogosfera (mais que no “24 Horas“, garanto).

Por isso, desde que iniciei este blogue, tenho procurado, o melhor que sei, encontrar a linha do rigor. Eis senão quando sou confrontado com o facto de ter escrito informação grosseiramente errada no post onde invocava Nuno Moura. Reponham-se já os factos.

A editora Mariposa Azual é propriedade de Helena Vieira, que é fundadora da casa. E não de Paulo Condessa, como referi. De igual forma, foram Helena Vieira e Nuno Moura (fundador da ‘Mariposa’ e, na altura, ainda ligado a ela) os responsáveis pela proeza – o adjectivo ajusta-se a um projecto que afirma “a literatura é uma potência muito pequenina” – de ter publicado a “Obra” de Adília Lopes, com ilustrações de Paula Rego. E é a Mariposa Azual (e, portanto, Helena Vieira, em conjunto com um grupo de ‘cúmplices’) que está na origem da Revista Índice.

Vale a pena visitar o site da Mariposa. E da Índice, cujo número Zero já foi editado e com número Um marcado para Dezembro. Darei também notícias aqui, à medida que as for tendo. É que a infelicidade do erro trouxe a felicidade de um reencontro. Há males que vêm por bem.

Agora o blogue pode continuar.