As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Bénédicte Houart

Bénédicte Houart — são as mulheres que

 

 

são as mulheres que

fazem chorar as cebolas

como se descascassem a própria vida

e, arredondando-se então, descobrissem

um corpo, o seu

uma vida, a sua

e, no entanto, nada que de verdade

pudessem seu chamar

ou talvez sim, mas só

aquela gota de água salpicando

um canto do avental onde

desponta uma flor de pano colorida que

ainda ontem ali não ardia

 

Bénédicte Houart, julho de 2010 © Bénédicte Houart; poema inédito, traduzido no portal «Poems from the Portuguesese» (D.R.)

<http://www.poemsfromtheportuguese.org/»

 

Girls and Dogs suite, Paula Rego © Paula Rego, (D.R.)

Bénédicte Houart — Dilúvio

 

 

Dilúvio

Chove. As ambulâncias já ligaram as suas sirenes. O acidente ainda não aconteceu, mas com certeza não vai tardar. E, por isso, quando chove, penso na morte. Na morte daqueles que amo e de todos aqueles que deveria ter amado se soubesse como. As ambulâncias desligam as sirenes. Levo a mão ao sexo. Modo de chorar. Modo de despedida.

Chove. Cheira a narcisos no centro da cidade. As velhas estão dentro de casa aconchegando o tempo às pernas exangues. O sangue teima em circular embora a cabeça descaia vezes de mais. As velhas estão dentro de casa, salvo aquela que aquece sempre os pés na calçada. Percorre as ruas da cidade faça sol faça chuva. E nos seus cabelos compridos a chuva deixa gotas que parecem pérolas.

Chove. Nos centros comerciais, há homens sentados junto às escadas rolantes. Estão pensativos. De vez em quando, esticam o pescoço, giram-no para a esquerda para a direita, movem-no para cima para baixo. Pensam na vida. Ela corre dentro deles como se fosse explodir dentro de segundos. E vai. Não estes segundos, mas outros, os próximos, talvez. Agora, ela chega-lhes em catadupa, escorre para fora deles.

A chuva parou. As putas animam os passeios trocando receitas de cozinha. Riem mostrando os dentes negros. Nascem, estão a nascer, novos clientes. Hão-de crescer depressa. Hão-de levar as mãos aos bolsos. Quanto a elas, é certo que não morrerão nunca.

Uma mulher está sentada a uma mesa. Leva de vez em quando o cigarro aceso aos lábios. Observa discretamente quem passa, não vá pensarem… Não tem importância, ela pensa por eles. Pensa com tanta força que parte a caneta contra a página. Ou então pára de escrever. Risca a página como se mudasse de vida.

Recomeça a chover. Calo-me. Por que não chove ininterruptamente durante um século? Criámos um deus de amor, mas não fazemos a menor ideia do que seja amar.

Texto publicado na revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

«Shadows», Hugo Colares Pinto, © Hugo Colares Pinto (D.R.)

(clique para ampliar)

Links Relacionados:

Artigo sobre a autora no D.N. (por Isabel Lucas)

Alguns poemas (traduzidos para inglês, com a versão original)

A autora no catálogo da «Livros Cotovia»

Revista Inútil

Portfólio online de Hugo Colares Pinto

 

Bénédicte Houart – um poema

Poema de Bénédicte Houart escolhido para integrar a colectânea “Resumo –  a poesia em 2009“, edição da Assírio & Alvim com o apoio da FNAC.

jaz viva e adormece

a menina de sua mãe

os caracóis soltos na almofada

os braços a bacia os pés partidos

o corpo pousado na cama articulada

as flores murchando na jarra improvisada

sentada numa cadeira a seu lado

a mãe descose as suas camisas de dormir

o corpo danificado

inchou de dor de nada

politraumatizada

jaz viva e anoitece

a menina de sua mãe

"Deep deep sea", © Sugarock via Deviantart

in “RESUMO, a poesia em 2009”, Lisboa: Assírio & Alvim,2010

(originalmente publicado em:) Houart, Bénédicte, “Aluimentos”, Lisboa: Livros Cotovia, 2009.