As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Beatriz Hierro Lopes

É quase noite — Beatriz Hierro Lopes

Esta escrita organiza-se na construção de uma memória, constitui-se meticuloso inventário íntimo. Ficciona o tempo para obter matéria narrativa. Recusando a recordação nostálgica, estabelece-se como trabalho de arqueologia: procura em camadas, até achar o que já foi ouvido, herdado, roubado, esquecido. Esta escrita faz-se e refaz-se contra a morte:

«Das fotografias antigas, o que de mais terrível fica é saber-se o fim.»

Narrar é produzir o real, narrar resgata, redime.

«chegar ao passado e dizer, à menina das tranças: não chore, nós gostamos tanto de si, e abraçá-la, ocupar o lugar de uma boneca feia que ela agarra e chamá-la ao ouvido: minha princesa

Beatriz Hierro Lopes, É quase noite, Lisboa: Averno, 2013.

(Apresentação do livro em Lisboa: sábado, dia 12 de Outubro, às 22 horas, livraria Paralelo W.)

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Beatriz Hierro Lopes — «nas ruas» (texto inédito e nota de leitura)

Nas ruas há pássaros que me cobrem o caminho até casa. Fileiras de peitos brancos, de asas partidas, alimentando o alcatrão. Sem luz, são fios desavindos de algodão que a minha mãe alinha ao tranquilizar as noites no colo. Tocam-me. Não fogem do chão: eles lá em baixo e eu cá em cima; são ruas sobre ruas, que ditam a estratégia do espaço entre as avenidas. A morte dos pequenos bichos, dos pássaros, dos gatos, entupindo os escoadouros, mortes que são a resistência mais silenciosa que faz transbordar as ruas. E elas, as ruas, são fios de cabelo negro, convergindo até chegarem à altura das clarabóias, a testa deste mundo visto de cima. Que pedem mais luz. O interior de um corpo, visto de cima, guarda a escuridão das noites, antes que as clarabóias lhes purifiquem as articulações que garantem a altura. A casa é o interior do corpo no corpo. Um negativo em miniatura da imagem do mundo, à semelhança das casas de bonecas. Como todas, também esta contradiz a noite, usando um exército de funcionários públicos caiados a verde musgo, em cujas chagas de ferro a luz eléctrica se reflecte, os mais elevados entre o mobiliário urbano. Junto aos pontos de vigia, que tanto lhes imitam a cor como adoptam o beijo vermelho em que os namorados se encostam, tentando ver entre os reflexos o rosto que se adianta contra o seu. Que um beijo citadino é um beijo do mundo, do metro, apenas contado aos ouvidos das janelas, das portas, das grades, das clarabóias. Resta, da segurança da rua, a palidez monótona e geométrica com que se alinham regras de salvaguarda humana: passadeiras que não confundem homem por pássaro ou gato e que, por isso, fecham os olhos ao instante rotativo em que o corpo menor é moído estrada fora. Haverá mortos nos nossos jardins, e beijos que, à falta de destinatário, se cristalizam em magnólias e camélias tão alvas como a recriação do mundo em pés de raiz; são árvores, monstros protestando contra o contrato do tempo. Ninguém sabe das árvores que usam das raízes como nervos, uma espécie de corpo celeste desafiando a elasticidade da terra nos jardins onde se enterra a infância das bicicletas. Hábitos dos velhos sobre as mesas de jogo, em que as sombras das folhas proporcionam escuridão que chegue às unhas das mulheres que choram ali. As putas nunca foram crianças, apenas as bicicletas de velocidade sepultada entre as raízes das árvores. É fácil vê-las, junto ao lago, fechando os olhos gira ainda uma roda de metal que alguém pintou de vermelho para condizer com os bancos do jardim. Embora a cor se espalhe, com maior urgência, entre marcos de correio e postos telefónicos de graça londrina; outras vezes, porém, encostados aos caixotes de lixo, há demasiados sapatos vermelhos. De agulha ou rasos, elevando tornozelos, troncos, joelhos, bustos, rostos, ou alinhando o passo com as linhas do diário; mas vermelho, sempre vermelho. Todas as mulheres levam vermelho aos pés. Imitam as rodas de bicicleta ceifando invernos do chão. Os homens são negros, sapatos polidos pelo engraxador da avenida. Uns e outros espantam a morte nos intervalos do fumo, todos tem casacos compridos para que não se veja no corpo peito de pássaro ferido. Trazem asas partidas no rosto, penas antigas de pai ou de mãe ocupando o lugar das pestanas, olhos da cor dos botões das camisolas de outono que levavam à escola, mãos de lápis para as aulas de matemática, quando toda a matemática que lhes resta é a memória pronta dos vagares entre os horários dos comboios, do metro, dos autocarros; onde vestem as rugas dos domingos de seus avós; ou os maiores desgostos com que lavram as rotas à cidade, que se molda pelo peso das pequenas multidões que lhes imitam a respiração. A cidade é um enfisema pulmonar. Velhos, velhas, doentes, putas, crianças por morrer por suas mães não terem tido esperança de os deitar à marinha mal nascessem. Como pode esta cidade tão negra, tão vermelha, ainda assim abrir avenidas no céu e provocar derrocadas de nuvens sobre um rio? Como pode imitar o som da terra numa concertina, que ecoa desde santa catarina até à margem, e acordar veleiros fantasma de quando o rio era um peito mais habitado que todo este silêncio, em que apenas a solidão serve de moeda de troca para uma cama menos vazia? Ao longo de todo o trajecto há pássaros caídos. E este som, só meu, enchendo as ruas por onde passo com as palavras que não escrevi e que temo nunca escrever. Casa será sempre este espaço menor em que dou outros nomes à cidade, não vá a manhã surpreender-me e o espelho contar-me o número de paralelos com que o meu rosto foi reconstruído a partir desta noite.

«oporto» buri, via Deviantart (D.R.)

«oporto» buri, via Deviantart (D.R.)

Não acidentalmente, o texto que aqui se dá a conhecer, «das ruas», inicia-se com a frase: «Nas ruas há pássaros que me cobrem o caminho até casa». Encontramos aqui os elementos simbólicos fundamentais na composição: a rua, os materiais urbanos, os animais, os caminhos; o eu. Elementos de significação que se sucedem em personificações, metamorfoses, reificações, numa sequência narrativa em que a imagética se alarga, imensa, espalhando-se como um rio (para o rio) através de poderosas representações encadeadas que ampliam os campos de significação em contiguidades e analepses, numa tessitura milimetricamente urdida. O texto revela  um programa interno: a assunção da casa como a cidade, da cidade como uma extensão do eu ou, em sentido inverso, do eu como hipótese da cidade. É uma cidade doente: «A cidade é um enfisema pulmonar», de pessoas doentes: «todos têm casacos compridos para que não se veja no corpo peito de pássaro ferido»; uma cidade onde se adoece. Como um enfisema (essa lenta forma de ir sufocando), não há salvação perante esta eminência de morte. Não é de um queixume, de um lamento ou mesmo de uma  elegia que aqui se trata, mas de um vaticínio de morte: «A morte dos pequenos bichos, dos pássaros, dos gatos, entupindo os escoadouros, mortes que são a resistência mais silenciosa que faz transbordar as ruas». A ideia de resistência é consubstanciada no anseio da verticalidade da luz contra o negrume (percebe-se, assim, a importância dada aos altos candeeiros das ruas), na arquitectura erguida das casas por cair, das clarabóias que, organizando a luz como uma armadura, evitassem a derrocada do eu, o ruir da casa, a morte da cidade: «A casa é o interior do corpo no corpo». A esta quieta resistência se agarra o texto: «Resta, da segurança da rua, a palidez monótona e geométrica com que se alinham regras de salvaguarda humana». Uma contraposição perplexa: «Como pode esta cidade tão negra, tão vermelha, ainda assim abrir avenidas no céu e provocar derrocadas de nuvens sobre um rio?». Uma salvação improvável: «Casa será sempre este espaço menor em que dou outros nomes à cidade, não vá a manhã surpreender-me e o espelho contar-me o número de paralelos com que o meu rosto foi reconstruído a partir desta noite.» A casa como metáfora da cidade; esta como metáfora do eu. Uma identificação profunda produz-se, como um desejo intenso, nesta linha estreita à beira do abismo das águas do rio.

De Beatriz Hierro Lopes são conhecidos os textos curtos que publica no seu blogue ao longe todos são pedras. Textos de múltiplas temáticas, diversas formalizações, mas sempre com uma voz tão própria na cadência, no ritmo, na riquíssima paleta imagética (tão cromática); na imensidão de recursos estilísticos e na singularidade da escrita, que mal esconde um mundo de feroz confronto com a temática da perda. E é nesse domínio que a escrita de Beatriz Hierro Lopes não encontra paralelo nos autores mais recentes.

Beatriz Hierro Lopes — «impressões» (antecedido de nota de leitura)

Emerge neste texto uma incompreensão fundamental: não tanto o modo como nos situamos perante a morte dos que amamos, mas como nos dispomos perante a sinalização da morte que a vida, os outros, nos forçam a lembrar, tendo a impressão que algo ocorreu, perguntando pelo ocorrido. A interrogação do texto é esta: como nos preparamos para que nos lembrem a morte, de repente e de surpresa, sendo sempre esta de repente e de surpresa, seja qual for a sua circunstância? A circunstância da perda perde, aqui, a gravidade da enunciação da mesma: é o descuido, a distração, que tocam com ferros a dor.

Nesse sentido, não é este um texto elegíaco dirigido à perda, mas uma elegia da vida que, não sabendo do saber cuidar da morte, morre por isso sem cura. Longe de um lamento, o texto propõe uma distância radical das incidências inúteis, daqueles que não promovem a reparação nem sabem reparar: têm impressões, curiosidades que poderão ser secamente satisfeitas («Passarei o resto do tempo a dar a notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida»).

É aqui que irrompe intensamente a oração, brilhantemente intercalada no texto, refúgio e prece, último gesto, aquele que já não se sabe fazer; é aqui que se  separam as impressões da impressividade, da funda marca deixada: a intimidade intransmissível e, nesse sentido, perto da indiferença, no interior de uma fadiga irremediável («Aos que me morreram devo a identidade. [Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte]. Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [Ámen].)

A Ave-Maria, a mais duradoura das orações por evocar a primordialidade da Mãe, é também aquela que mais duradouramente consola e redime. Não é uma oração de promessa e de devir, como o Pai-Nosso, mas uma súplica por atender: rogo ante a morte, é certo ([e na hora da nossa morte]); mas em primeiro lugar da vida: ([agora e  na hora]).

A morte não é temática alheia à obra de Beatriz Hierro Lopes, nem a elegia um registo que lhe seja estranho. Contudo, neste texto, onde uma oração cadenciada se musicaliza em fundo, há uma espécie de fadiga e de tédio perante os vivos que se aproxima de um desdém; ou de uma compaixão. Vão dar ao mesmo lugar vazio,

a ausência da palavra Jesus, deliberadamente retirada da oração. Sendo comum, entre os crentes, a concepção de que Jesus, na sua divindade, estabeleceu a radical irmandade entre os homens, a autora retira-o: e assim, na não enunciação do seu nome, fá-lo presente de forma brutal: aquele que se deu pelos vivos deles se tornou um sem nome. («E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver»).

Não estamos perante um texto de carácter religioso em sentido estricto; mas frente a uma milimétrica delimitação do que, no plano emocional, se revela como recusa e se escolhe como aceitação.

Recentemente publicada na revista Telhados de Vidro nº 16, (como já o fora na Criatura, na Cràse, na Inútil),  Beatriz Hierro Lopes é um dos autores maiores na recente escrita portuguesa ainda sem livro apenas seu. Não faltará muito.

«Orgão de tubos da Igreja da Lapa, no Porto», © Marisa Ferreira, via Olhares, fotografia online (D.R.)

«impressões»

Há coisas que o meu catecismo não soube explicar: o porquê das avé-marias serem maiores que os pais-nossos; o porquê de só as mães ensinarem a rezar [Avé-Maria cheia de graça o senhor é convosco]; antes da tabuada chegam as orações [bem-dita sois vós entre as mulheres]; aos cinco anos ninguém sabe muito bem o que são mulheres. Rezávamos em coro. Antes de saber que só os condenados ensinam a viver, como as mães a rezar [bem-dito é o fruto do vosso ventre]. Tenho a minha contabilidade em ordem: por cada justiçado, sentei-me um pouco mais. A reza, pelo contrário, não é coisa que pare, reza-se pelos mortos e eu já não sei rezar.

Passarei o resto do tempo a dar a notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida. Afinal a morte dos outros é uma violação à nossa mortalidade [Santa Maria, Mãe de Deus]. Dá-se o rótulo da doença e conta-se o tempo passado. Numa simples frase, oração, tudo acaba. E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver. Abusamos da respiração, como de tudo o que é reprovável: contra a morte só o excesso é permitido; e quem nisso reprovação vê é porque desconhece o número de palmos de terra em que há-de enterrar a história.

A história, repito-me, a história que incorporamos na nossa história. A desalma do coveiro cria-nos repugnância que, sem saber, aceitaríamos no lugar da dor. Passados tempos, meses ou anos: — sim, morreu há dois anos, digo à pergunta: — é impressão minha ou morreu?

Quem têm a impressão da morte de outrem?

A impressão da morte como o registo identitário, a condição de se estar morto contra a memória. O cansaço. — Sim, morreu há dois anos. A frieza sem condição da oração determinativa. — Está morto, repito, desabitada. E digo-o num automatismo que me é natural, como poderia ter dito: quanto frio faz nesta primavera. Sou testemunha.

Aos que me morreram devo a identidade. [Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte]. Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [Ámen].

[Maio de 2012.]

Blogue de Beatriz Hierro Lopes.


Beatriz Hierro Lopes – Jardim de São Lázaro

(texto inédito)

O que fazemos aqui, todas as horas paradas, tu olhando a superfície da água, eu a estátua de quando os meus pés, no colo de minha mãe, não me chegavam para tocar o chão de mármore, o que fazemos aqui? E talvez nunca tenhamos feito nada, talvez não façamos nada, já viste como o mármore escureceu com os anos? De tantos pés a ser pisada, mármore cinza como os dedos que trocam de jornais, dá-me metade, peço-te, os meus dedos caminhando lentos sobre as dobras das páginas sujando-se de letras e, não percebo, que nunca percebi bem as letras e a visão do branco que se abre no fim delas, no centro delas, elas negras manchando o branco e o branco sem se esquecer que é branco espreitando por entre as grades. Cinza como os meus dedos, que guarda as memórias deste mármore. Que o sujo com os meus passos de quando ainda era menos do que o colo de minha mãe, tu à minha frente, que ando devagar, eu pedindo-te ensinando-te a curvatura imperfeita que os meus passos criam ao tocarem o chão, dizendo-te, – anda lento, e o lento, um pouco como o vento que sopra lamentos sobre o lago que vês. No centro da água, emergindo de um só trago, os braços o rosto, a nadadora de branco, petrificada desde o colo de minha mãe, e o que vês (sem saberes) são todos os anos que juntei para que pudesse estar aqui, neste banco vermelho de jardim, pedindo-te metade de um jornal que não é meu.

Do coreto em que nunca entrei, por não ser daquele coreto as brincadeiras de infância, só as escadas, eu sentada nas escadas, imaginando depois do colo de minha mãe, que a porta que dava acesso à cave debaixo do coreto se abria e que dela saíam as raízes de todas as árvores, porque as raízes das árvores têm nome e têm corpo, e era com elas que falava quando ainda era só eu e não existia mais ninguém para lá do fim dos meus pés. Dava-lhes voz e cores, que o sangue de cada árvore é diferente, e existiam as verdes as azuis as amarelas, com sabores de gelado e de fim-de-tarde de Agosto de quando o meu pai não trabalhava e me ensinava a andar de bicicleta. Mais tarde, eu tropeçando, a bicicleta que era branca como mármore sujando-se de terra porque as raízes das árvores, expondo as mãos ao sol como fios de cabelos agarrando-me os tornozelos, não gostaram que eu me esquecesse das escadas do coreto. Que agora, vendo bem, me parecem demasiado pequenas para as minhas pernas para os meus pés e a guarda que o fecha, pintada de verde, que por eu ter pernas longas e pés grandes poderia saltar e brincar no coreto, mas as brincadeiras as árvores estão mudas, que na minha cabeça já não existem árvores nem colo de mãe ou bicicleta cor de mármore. Só esta ideia estranha de que a minha estátua, busto de homem, se parece com uma lápide funerária. Não há aqui mortos, embora os haja debaixo do jardim, nesta terra que antes de ser terra de jardim foi cemitério de cidade. Talvez nas raízes das árvores cabelos mortos de mulheres feias, não mães que as mães só colo e cabelo castanho quase dourado e, quem sabe, talvez fossem elas fazendo-me tropeçar de bicicleta, os joelhos raspando na terra, manchando-a de vermelho que sou vermelho como os bancos deste jardim, onde nem o meu pai nem a minha mãe liam jornais, e não havia dedos cinzentos nem meninas de horas caladas presas ao lamento das águas.

Talvez só estejamos aqui para eu te mostrar de que cor é a cor do branco das páginas que se fecham na minha mão.

 

Beatriz Hierro Lopes, Outubro de 2010

 

 

«Out in the garden», Ailera Stone © Ailera Stone, via Deviantart (D.R.)

 

Beatriz Hierro Lopes – “n.º 82”

[declaração de interesses: conheço pessoalmente a autora, sendo a estima que lhe tenho factor a considerar no que escrevo]

A produção escrita de Beatriz Hierro Lopes (Porto, 1985), embora recente e particularmente oculta (apenas publicada nos três primeiros números da revista criatura), organiza-se formalmente em pequenos textos narrativos que, não sendo fragmentos, ganharão muito com uma leitura sequencial, que pode em parte ser feita no blogue Klein, onde a autora edita alguma da sua melhor escrita. Tal leitura em sequência dos textos de B.H.L. terá duas linhas de interesse: desde logo a percepção de uma evolução evidente das competências de escrita, do alargamento do leque das suas ferramentas e da concomitante evolução para uma textualidade mais fluida e segura; mas também importa o jogo comparativo, no qual se pode identificar uma capacidade imagética de grande fôlego (associada a uma imaginação vibrante, o que não é a mesma coisa) que é evidente nestas narrativas, histórias que, partindo muitas vezes do episódico, do regresso de um passado clivado, quebrado, ascendem ao território da memória nostálgica, de uma aceitação do agora como uma inevitabilidade apenas aparentemente indiferente; nesta aparência tem origem a carga dramática dos textos de B.H.L., ainda mais acentuada pela personificação dos lugares, dos objectos, dos momentos, mesmo das cores ou das luzes, elementos que se instauram como personagens geradoras de uma incessante necessidade de apaziguamento. De perpétua insatisfação, portanto. Textos de fronteira entre a prosa, a prosa poética, a dramaturgia. Bons textos, de uma escritora que tem voz própria; e que, com ela, irá alcandorar-se a plano singular nos tempos mais próximos. Se não estou enganado.

B&W © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online (d.r.)

n.º 82

Perseguia a silhueta de ruas pouco conhecidas. À procura daquela rua em particular: a rua que reflectia o rosto das palavras e o paladar adocicado das histórias que ela ouvira um dia. Há muitos anos. Presa entre a estreiteza de todas as ruas que a separavam da Rua em que nunca vivera. Seria, talvez estranho o seu desejo de retornar a uma rua que nunca fora sua. Mas ela crescera assim: alimentada pelo açúcar escondido nas palavras sibiladas ao seu ouvido, pela sua mãe.

Todas as histórias de que se lembra – e lembrava-se, também, da textura empoeirada dos tapetes sobre os quais se deitava, apoiando o rosto entre as mãos. atenta ao som das frases – que se precipitavam, atropelavam, matavam, na pressa com que atingiam o ponto culminante da narrativa. Aí chegadas, calavam-se. Consoladas, entreolhavam-se as palavras, ao deleitarem-se com o vazio silencioso que entre elas se erguia para revelar o propósito obscuro da história – começavam na Rua. Só depois se adivinhavam as paredes da Casa.

Era assim na Rua da Picaria. Uma rua que não é especialmente bonita. Uma rua embrenhada numa luminosidade que apenas é visível à noite, quando as janelas embaciadas respiram o calor que se liberta de dentro delas. Nessa rua, as casas não são casas: são pessoas. E as pessoas são casas vazias que o tempo se esqueceu de demolir. Todo o comércio da rua respeitava a solenidade da mesma. Vendiam-se móveis. Estantes de carvalho, sólidas o suficiente para suportarem o peso incalculável das bibliotecas particulares; camas de casal, camas de criança, berços de bebés, suaves como a mão que, ao embalar a vida, concede-lhe o peso do fim; mesas grandes, mesas pequenas, para albergar famílias inteiras ou pequenas confissões sussurradas entre o ouvido da empregada e a boca da senhora; secretárias de tampos largos, que sustentariam o peso dos cotovelos de quem, ocasionalmente, fosse privado do sono.

Era à noite que ela perseguia a rua. Atravessando todas as vias estreitas que a distanciavam dela. O som da sua passagem pelas ruas sem nome, era idêntico ao som aguçado de uma faca prestes a enterrar a vida. Rápida. Velozes, os seus passos matavam a longitude das ruas. Deixava os cadáveres – alguns ainda quentes – para trás, na sede assassina com que escalava uma nova rua; acreditando sempre que aquela seria a última. A última baixa nessa guerra que é retornar à Casa. Voltar ao princípio que se erguia ainda antes, do seu nascimento.

Não conhecia a casa. Nunca entrara dentro dela. Nunca sentira o frio gélido das paredes de granito do hall de entrada; nunca correra pela escadaria que conduzia os seus habitantes a cada um dos quatro andares; nunca tocara no veludo azul da sala de piano ou se perdera no salão vermelho, onde todos os sofás eram um convite ao silêncio; nunca, mas, nunca, se sentara à secretária do velho Senhor, que morrera sem aviso prévio. Nunca brincara com o sinete que ele deixara sob o tampo daquela mesa e que hoje repousa sobre o tampo da sua secretária. De pinho, demasiado frágil para suster o peso dos cotovelos dela, em noites de insónia.

Mas aquela casa, que nunca viria a conhecer, pertencia-lhe. Era sua por direito de sucessão emocional. Herdara-lhe as memórias. Fizera suas, cada uma das lágrimas, cada um dos sorrisos, cada surto de felicidade e dor, que nela se protegiam das intempéries do tempo. Não é disso que são feitas as paredes? Seriam suas, então. Despidas de recordações, as paredes nunca seria capazes de suportar o peso daquela casa. A casa que, no n.º 82. se abre ao mundo que a espreita do Largo de Montpellier – serena, da cor do sol quando se abate sobre o horizonte marítimo.

A Casa n.º 82 da Rua da Picaria tem a cor de uma mulher. Uma Mulher como jamais deveria ter existido. Uma mulher cujos cabelos não eram da cor do ouro – eram antes, negros como a penugem dos corvos ao anunciarem um mau presságio –; cujos olhos, nada deviam à translucidez desse Atlântico tão português – eram antes, de um castanho lamacento que recordava o cansaço das terras outrora férteis em países distantes –; cuja boca não era espessa como os lábios das mulheres que, em si, escondem uma promessa de vida – eram antes, firmes e tensos, como as bocas femininas cansadas de reproduzirem em palavras o vendaval que lhes assola o espírito. E, no entanto, era ela, a Dourada.

O centro secreto de toda aquela imensa rede que, à sua volta, crescia. Velha. Terrivelmente velha. Esta seria a sua última imagem: cinco crianças ao redor da sua cama; sufocadas pelo ruído da sua morte – sim, a morte é um grito de revolta contra a respiração do corpo – perplexas com a possibilidade da sua não-existência.

Muitos anos depois, era a sua vez de, do outro lado da rua, contemplar a Dourada. Alta. Altíssima. Como o são as casas que se fundem na intimidade das mulheres. Sabia que haviam destruído o miolo da casa. Que não haveria nenhum vestígio da escadaria em madeira. Que o hall de granito se convertera em matéria humana, fria, ignóbil, funcional. Sim. Tornara-se numa casa funcional. Quatro ou cinco escritórios de advogados povoavam-na. Instalaram-se ali como parasitas. Era, talvez, a modernidade que expatriava as histórias que aquelas paredes ainda guardavam.

Sentou-se na soleira da porta. Quieta, fumando um cigarro. Imaginando como seria bom tocar à campainha e ser acolhida pelas paredes daquela casa. Aceitar num único gesto a herança das dores hereditárias que lhe corrompiam o espírito: tão novo e tão velho. Que existir seja a soma de tudo o que antes de nós outros foram, era-lhe compreensível. Incompreensível era a impotência. O não poder retornar ao que, antes dela, era já o seu início.

Vivera o primeiro riso ali – Seria bom voltar a ele. Seria terrivelmente bom, retornar à gargalhada primordial – vivera ali, também, o peso da primeira morte. Uma morte que se funde no seu reflexo todas as manhãs. Enquanto penteia o seu cabelo asa de corvo; enquanto pinta os seus olhos feitos a partir de punhados de terra; ou passa os dedos pelos lábios cansados de pensar.

Tudo seria assim: restar-lhe-ia uma casa adulterada, vazia, cujas paredes mantinham ainda o clarão das palavras há muito ditas. Restar-lhe-ia a Casa onde nunca poderia entrar. Soube-o aí. Soube que há demasiadas casas no seu sangue que nunca voltariam a ver a luz do dia. Soube que ela seria sempre a memória de uma Casa vazia.

Soube. E, aceitou-o.

No fim de contas, teria sempre a Rua. E o seu lugar vigilante à soleira de uma porta.

Lopes, Beatriz Hierro (texto inédito)

Máscaras © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online

Novos poetas (III) – criatura

Já referi que a razão desencadeadora da divulgação, aqui, da poesia ‘nova’ que se vai produzindo, teve como ponto de partida o pertinente artigo de capa da Ípsilon de 12 de Setembro (“Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?“), que credito agora, agradecido, a Luís Miguel Queirós, autor do(s) textos(s), acompanhados por ilustrações de João Fazenda. Em caixa, assinala-se o nascimento de uma nova revista de poesia: criatura, lançada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Parece que algum entusiasmo se gerou em torno da mesma, até por publicar trabalho de criadores que ainda não têm edição da sua obra em livro. Quer a matéria sobre a revista, quer o próprio artigo de fundo levantam múltiplas questões. Uma delas é a possibilidade de se ir validando a existência de uma ‘diferença’, uma ‘corrente’ emergente de poetas que, no seu conjunto, permitiriam que se falasse de uma ‘nova geração’. Lendo o primeiro número de criatura (mas também a Telhados de Vidro, a Magma), não creio que se possa ser categórico. Nem vejo, de resto, grande problema no facto. Se, numa década, aparecer um par de bons poetas, óptimo. Se aparecer apenas um que se vá afirmando pela excepcionalidade, fantástico. Pressentem-se, porém, traços identitários que são comuns à escrita de muitos dos autores publicados na revista. Uma focalização no ‘Eu’ enquanto matéria poética, a partir de uma perspectiva niilista; um regresso ao lirismo e à temática amorosa numa abordagem onde o corpo se instaura como lugar central e de angústia, de incomunicabilidade; a percepção do sem sentido do espaço social como território de redenção (é flagrante a ‘despolitização’ da generalidade do trabalho poético que vai surgindo). Talvez tudo isto se perceba melhor num belíssimo texto Beatriz Hierro Lopes (“Geração do Silêncio“) que encontramos neste primeiro número e que pode ser lido no blogue da autora (At the Still Point). Concluindo: não encontrei nenhuma pepita de ouro. Mas materiais de nobreza vária, inevitavelmente irregular. Aqui destaco um poema de David Teles Pereira.

A TUA CASA

A tua casa solta um suspiro de ouro.
Eu espero, num lugar entre a porta e o meu medo,
Que à janela venhas sacudir o teu amor.

Aqui na rua as vizinhas olham-me das suas varandas,
Recolhem os filhos para dentro das saias,
Escondem-se a sussurrar a minha desgraça.

À minha janela espreita melancólica uma casa.
Eu sempre esperei, sem ver outro dia,
Que espreitasses enquanto me crescem as asas.

David Teles Pereira, in revista criatura nº 1, p. 46, Núcleo Autónomo Calíope da F.D.L, Lisboa, 2008

criatura - anúncio do lançamento.

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