As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Barack Obama

Manter o inimigo à vista

“Uma das maiores subtilezas da arte militar é nunca levar o inimigo ao desespero” – Montaigne


Em Rafah, militantes do Hamas observam o discurso de Barack Obama, ontem, no Cairo.

Em Rafah, militantes do Hamas observam o discurso de Barack Obama, ontem, no Cairo.

Obama Presidente. Style it takes

“Let it be told to the future world … that in the depth of winter, when nothing but hope and virtue could survive… that the city and the country, alarmed at one common danger, came forth to meet [it].”

Excerto (citação de George Washington) do Discurso Inaugural de Barack Obama como 44º. Presidente dos Estados Unidos da América. ‘Style it takes‘ (Reed & Cale e parece que estamos a falar de outra era e estamos). Estilo tem o homem (até no discurso, cujo esboço foi escrito num Starbucks por Jon Favreau, um puto de 27 anos, que é o Ted Sorensen do novo presidente). Na era da imagem, esta não decide nada. Mas pode fazer toda a diferença. Adeus, George.

Barack e Michelle Obama ontem, antes de chegarem ao Capitólio

Barack e Michelle Obama ontem, antes de chegarem ao Capitólio.

Obama – os primeiros 100 dias

Na Salon de ontem, um notável exercício prospectivo de Thomas Schaller, a propósito dos primeiros cem dias do mandato de Barack Obama. Muito adequado àqueles que estão sentados à espera para ver, em vez de tentarem ver o que aí vem.

President Candidacy Announcement, Springfield, IL, 2/10/07

President Candidacy Announcement, Springfield, IL, 2/10/07

Fotografia do Dia (XXI) – Obama e a Secretary of State

'whispering & hoping'

'whispering hope'

The body language was friendly and appropriate, if not necessarily personal. Standing behind Mr. Obama during his remarks, Mrs. Clinton nodded as he spoke of the nation’s challenges; after the event ended, the two walked out of the room arm in arm, her hand gently patting his back.” – in The New York Times, ed. 02.01.2008

'watch your back'

'watch your back'

Não serão tanto as questões de política externa que os podem dividir. Serão os ressentimentos, a memória, a agenda de cada um, o cuidadoso estabelecimento de uma linha que dê a Clinton a visibilidade que deseja (e precisa) sem colidir com a liderança de Obama. Não podia haver melhor escolha para Secretary of State, conceda-se. Mas também não podia ser mais perigosa. Este é o primeiro desafio de Obama, ao chamar Clinton: a intimidade do inner circle. Por isso, mais que as palavras, Obama aproximou os corpos.

Obama – A vitória pós-racial

A vitória de Barack Obama não significa que a América ultrapassou a questão racial. Confirma que ela já estava ultrapassada. Obama não superou a questão étnica. Revelou que ela passou a ser secundária. Ele é o primeiro presidente americano pós-étnico.

As alterações sociológicas ocorridas nos Estados Unidos na última década são mais expressivas na vitória do candidato Democrata, se analisadas qualitativamente, que a avaliação quantitativa do impressionante resultado eleitoral. Quem votou maioritariamente em Barack Obama? Os seguintes grupos sociais: ‘menos de 45 anos’; ‘negros’; ‘hispânicos’; ‘independentes’; ‘moderados’; ‘maiores rendimentos’; ‘mulheres’; ‘mulheres brancas’ (há sondagens para todos os filtros!). Em que grupos perdeu?  Nos ‘homens brancos’ (por pouco, sendo que nunca algum candidato Democrata ganhou este grupo); ‘idosos’; ‘cristãos evangélicos’; ‘conservadores’, ou seja, a base mais profunda do partido Republicano. Talvez não seja possível, a partir de agora, falar em ‘estados vermelhos’ (R), ‘azuis’ (D) e ‘swinging states’. Há já quem fale em ‘purple states’.

O Colorado é um caso paradigmático. Tradicionalmente um sólido bastião republicano, deu a vitória a Obama. Pelo seu carisma? É possível. Mas, na última década, estabeleceram-se sólidas comunidades cosmopolitas em Denver, Boulder, Aspen e um pouco por todo o território. A população é constituída por 75% de brancos. So what? Este é o terceiro estado com maior crescimento populacional, em grande parte graças à migração da Califórnia (para fugir aos impostos) e à emigração, sobretudo hispânica.

Provavelmente a grande mudança política prometida por Barack Obama, o seu lema traduzido numa única palavra – change – já se dera no plano das mentalidades. Só faltava um catalisador. Nesse sentido, Barack Obama foi o homem certo num tempo histórico maduro para a sua mensagem. Talvez Obama tenha vencido tanto pela ‘questão Economia’ como pelas mutações sociológicas. Talvez o clamoroso fracasso de dois mandatos de George W. Bush seja o resultado inevitável de uma visão de um mundo que já é outro. E é esse mundo outro que vai exigir ao novo presidente um desígnio homérico: dar corpo aos seus sonhos.

'E agora? Grande sarilho!'

'E agora? Grande sarilho!'

The Great American Songbook (XIII) – The Nearness of You

Ninguém pode negar a existência surda de um cenário transformado em private joke (mais correcto, deadly joke), que prevê o assassinato de Barack Obama antes das eleições presidenciais dos E.U.A., ou após as mesmas. O imaginário é poderoso, e Obama congrega, como talvez nenhum outro, os fantasmas de Robert Kennedy e de Martin Luther King Jr. Bem, nisto os americanos não brincam, quando se trata de coisas de estado (não leram os sinais que prenunciavam Columbine e outros acontecimentos deste calibre), mas aí o campeonato da vigilância era outro). Em qualquer dos casos, trata-se do mesmo padrão: adolescentes patologicamente investidos de ódio, organizam planos de mass murdering. Por vezes levam-nos a cabo. No caso concreto, a história reveste-se de contornos de um racismo sinistro, culminando com a morte do candidato democrata. Como sempre, lá estão os códigos dementes, os planos que obedecem a ‘sinais’ e ‘desígnios’ que só têm lugar em cabeças perturbadas. No imaginário colectivo, aposto que se formulam hipóteses de tentativas de assassinato organizadas por grupos ideológicos, poderes obscuros, poderosas forças que se sentiriam ameaçadas pelo ‘preto’. A realidade encarrega-se de desmentir estas ‘teorias da conspiração’. Importa não esquecer que não só os Kennedy e King foram mortos. Antes deles (e só invoco a memória) Lincoln, mas também, Gerald Ford (duas vezes), Ronald Reagan foram alvo de atentados. Em todos os casos estivemos perante actos isolados, perpretados por pessoas mentalmente doentes. Convém manter isto presente. Porque são os cenários mais improváveis, as pessoas mais anónimas, os mais capazes de causar estragos. Barack Obama deve ser mantido afastado das massas. O pior é que ele tem a obrigação – e neste momento da história essa obrigação é incontornável – de se manter próximo delas. Poque o povo, mais que nunca, deseja um Presidente próximo dele.

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The Nearness of You. Outra canção imortal, da autoria de Hoagy Carmichael e Ned Washington teve um ror de intérpretes a servi-la. Aqui, a grande Sarah Vaughan, numa interpretação contida, mas cheia de sentimento, que escorre pela sua voz, pelas maravilhosas cambiantes da interpretação.

The Great American Songbook (X) – Over the Rainbow

Quase 48 horas após o último debate na corrida para as presidenciais americanas, já tudo foi escrito, ou dito. Não há fonte que não tenha dado a vitória a Barack Obama. Não há artigo, peça televisiva, coluna de opinião, blogue, que não se refira ao episódio ‘Joe the Plumber’, personagem trazida para o debate por John McCain de forma teatral (e melhor conseguida do que se pensa). Aliás, durante a primeira meia-hora, McCain esteve no seu melhor. E este foi o seu debate mais forte. To make or break, lembram-se? Mas, com o decurso dos minutos, tornou-se evidente a verdadeira vantagem de Obama: pode permitir-se a não dizer grandes coisas, pode dar-se ao luxo de apenas debitar, com estilo, as suas ideias. A diferença está toda na sua mais que convincente imagem, aliada às ideias, numa conjunção virtuosa. A diferença entre um tipo que faz a diferença e um tipo que se debate com a semelhança. Obama já está noutra esfera. A conjuntura económica faz o resto. No final, o director da campanha republicana abanava a cabeça. Perguntaram-lhe se a performance de McCain chegava para ganhar. «Sim», disse. E acrescentou, significativamente: «Chega para ganhar o debate». Nem isso. Para MaCain a vitória é, agora, um pote de ouro no fim do arco-íris.

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Over the Raibow. Somewhere, no final dos anos 30, Harold Arlen e E.Y. Harburg escreveram o tema para o filme O Feiticeiro de Oz, um clássico que vingou na voragem do tempo para chegar ao que hoje todos sabemos: uma conjunção virtuosa de história, encantamento, música e muita Judy Garland. E esta é a canção dela, tal como ela é, em certa medida, esta canção.

The Great American Songbook (VIII) – Ol’ Man River

John McCain é, certamente, uma boa alma. E um valente. O facto de pensar o futuro com as ferramentas do século XX não belisca em nada a sua integridade. Com um partido Republicano cada vez mais acossado, assustado e com vontade de ‘sangue’, McCain fez o que outros não fariam. Defendeu a honra (e, de passagem, o patriotismo) de Barack, perante um grupo de apoiantes que, evidentemente, o assobiaram. Ganhou pontos na consideração de muitos. Vão servir-lhe no futuro, quando Obama mostrar que (também) vai precisar que sirva a nação. E ‘servir’ sempre foi um código de honra na vida do velho Senador.

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Em 1927, os grandes Jerome Kern, e Oscar Hammerstein II escrevem Ol’ Man River para o musical Show Boat. Ironia: é o cantar de um velho negro, melancólico com a dureza e as agruras da vida. Aqui o temos, na interpretação de Paul Robeson, no filme musical de 1936. Tocante.

The Great American Songbook (VI) – At Last!

Carregando a fundo no único tema que agora centraliza o debate político entre as candidaturas, a Economia, Barack Obama proferiu, na quarta-feira, declarações surpreendentes. Não pelo conteúdo, mas pela firmeza e agressividade. Não mandou recados, falou ele mesmo, em Dayton. De acordo com a CNN, «Sen. Barack Obama on Thursday slammed Sen. John McCain’s new mortgage plan as “the latest in a series of shifting positions” and evidence of “erratic and uncertain leadership.». Finalmente Obama entra em território de combate com a faca nos dentes. At last.

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1941. Mack Gordon e Harry Warren escreviam At Last!, para o filme musical Orchestra Wives. Tornada num enorme êxito e num standard intemporal por Glenn Miller, é porém a interpretação de Etta James que vai conferir contornos imortais ao tema, levando ao limite o carácter romântico da canção. As gravações ao vivo existentes mostram James já longe das suas capacidades vocais (mas ainda com muito soul a percorrer-lhe as veias). Aqui fica, portanto, a gravação original, embora visualisada num slide show. Tem a vantagem de mostrar como esta americana branca era bela e como cantava com uma alma negra.

The Great American Songbook (IV) – The Way You Look Tonight

Body Language. Mesmo não levando em linha de conta uma maior solidez no capítulo da Economia, e consistência nas questões de política externa (leia-se Defesa), Obama venceu o debate de ontem à noite pela abissal diferença na sua linguagem corporal. Estas coisas notam-se. Esteve smooth & stiff, olhou diversas vezes o oponente nos olhos, apontou o dedo quando queria marcar um ponto. McCain mostrou, pelo modo errático como se movimentou, olhou para as câmaras, interagiu com Obama, a sua idade (teve um belíssimo momento, quando tocou com imensa ternura um veterano da US Navy presente na assistência). As câmaras de televisão podem ser muito cruéis, e os planos ligeiramente picados mostravam um McCain com todos os seus 72 anos. Estas coisas notam-se. Mais que as divergências – neste debate melhor definidas e marcadas – quanto aos grandes temas. Visto na CNN (muito melhor que na SIC Notícias, onde afinal estava Luís Costa Ribas e o tal senhor que é muito digno e conhecedor e continuo a não me lembrar do nome dele, mas prometo referir aqui), com um painel de cerca de 12 comentadores, basicamente unânimes. Vencer pode ser um verbo excessivo para o desempenho de Obama. Mas perder adequa-se ao que aconteceu ao senador Republicano. E (quase) tudo se resumiu a uma questão. O modo como os candidatos ‘pareceram’, esta noite.

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The Way You Look Tonight. Em 1936 ganhava o Óscar da Academia para a melhor canção original. A excepcional melodia de Jerome Kern inspirou a letra de Dorothy Fields. O incontornável par Astaire/Rogers deu-lhe merecida fama em Swing Time. Mas é a versão do ‘Old Blue Eyes’, essa sim, cheia de swing, que me faz cócegas. Fique-se com a música, numa ‘original’ forma de a ouvir e ver não vendo’.

The Great American Songbook (III) – Cheek to Cheek

Esta madrugada, em Nashville, Tennessee, Barack Obama e John McCain defrontam-se num segundo debate (transmissão directa na SIC Notícias a partir das 01h30m, com tradução simultânea competente e, se for como no primeiro debate, comentários de Nuno Rogeiro e de um outro senhor de que nunca me lembro o nome, apesar do ar tão respeitável e hei-de referi-lo aqui).

As coisas mudaram muito, desde o primeiro debate. Como referi ontem, a McCain não lhe resta senão uma estratégia de confronto directo, eventualmente agressivo para os padrões americanos (quem viu o debate entre Berlusconi e Prodi nas últimas eleições italianas, o debate entre Sarkozy e Segolène Royal nas presidenciais francesas, tem uma ideia mais clara sobre as ‘boas maneiras’ de que os europeus tanto se orgulham, em comparação com os ‘grunhos’ americanos).

De resto, a CNN dá-nos conta que: “At a campaign event in Denver, Colorado, last week, a voter asked McCain when he was going to “let the gloves come off and go after” Obama. McCain’s response: “How about Tuesday night?” Esperam-se, portanto, punhos em riste. E, se bem aconselhado, um estratégia de elegantes esquivas por parte de Obama, pontuadas por uppercuts clarificadores. O que é certo é que estarão, como nunca, face com face. No Tennessee, outra terra seminal da música americana.

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Face a Face. Cheek to Cheek. A canção (1935) foi composta por Irving Berlin, imortalizada em Top Hat por Fred Astaire. Não será a melhor interpretação, sob o ponto de vista musical. Mas como esquecer a dança, a insustentável leveza da conjugação dos corpos de Astaire e Ginger Rogers? Clássico entre clássicos, Cheek to Cheek conheceu uma carreira fulgurante na história da música. Como o comprova a lista de intérpretes que dela se apropriaram. Agora, depois de colocar este post, vou tranquilamente assistir ao debate. A CNN, na sua Pool of Polls, deu ontem pela primeira vez, 50% a Obama. “Heaven, I’m in heaven, and my heart beats so that I can hardly speak...”

Yes, they can’t…

A falência do banco norte-americano Lehman Brothers, e o iminente colapso – muitíssimo mais preocupante – da AIG, a maior seguradora dos EUA (que necessita de reunir 80 mil milhões de dólares ainda hoje para evitar que lhe suceda o mesmo) vem clarificar muito as eleições americanas. Questões como a experiência, a capacidade de liderança (sobretudo no âmbito militar), a credibilidade, são de repente secundarizadas pela economia. Os candidatos têm cerca de 50 dias para centrarem todas as suas baterias naquilo que agora realmente importa. Já ouvimos isto: It’s the economy, stupid!. Nunca a frase fez tanto sentido, para as gerações do após-guerra. E nenhum dos runners é estúpido. Ambos se apressaram a apresentar um conjunto de medidas que prefiguram um programa. Bastante contrastantes, por sinal. Obama intervencionista, vai meter o bedelho em tudo o que o Estado puder regular (pelos padrões americanos, é certo). McCain preconiza uma linha oposta, acentuando ainda mais a liberalização da economia, reduzindo os impostos sobre o lucro das empresas, das grandes fortunas (vai ao detalhe dos impostos sucessórios). A enunciação do que cada um preconiza pode ler-se neste artigo, cuja fonte é a France Presse.

Não haverá gente mais avessa aos impostos que os americanos. Porém, possivelmente Obama vai sair a ganhar com uma situação que já ultrapassa a definição de instabilidade. Porque McCain pretende aplicar, na essência, o programa de Bush W, aggiornato e com carácter de urgência. Ora, quem mudou para o Oeste quando a vida ficou dura, atravessando um continente à procura de terras (e de ouro), pode não gostar de impostos. Mas sabe quando é preciso mudar. Nos E.U.A. o povo pode ser ‘estúpido’ (os europeus, pelo menos, têm a certeza disso). Mas tem memória, uma memória bem fresca e vincada por ideais. Ainda é poderoso o mito da América como a Terra Prometida. É muito provável que seja Barack Obama, o idealista racional, aquele que os americanos acabarão por ver como o portador de uma bandeira de esperança. Subsiste apenas um pequeno senão. A realidade já não comporta personagens salvíficas.

Eu não sei que tu não sabes que eu não sei que tu não podes...

(¨Eu não sei se tu não sabes se eu não sei se tu não podes...¨)