As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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É quase noite — Beatriz Hierro Lopes

Esta escrita organiza-se na construção de uma memória, constitui-se meticuloso inventário íntimo. Ficciona o tempo para obter matéria narrativa. Recusando a recordação nostálgica, estabelece-se como trabalho de arqueologia: procura em camadas, até achar o que já foi ouvido, herdado, roubado, esquecido. Esta escrita faz-se e refaz-se contra a morte:

«Das fotografias antigas, o que de mais terrível fica é saber-se o fim.»

Narrar é produzir o real, narrar resgata, redime.

«chegar ao passado e dizer, à menina das tranças: não chore, nós gostamos tanto de si, e abraçá-la, ocupar o lugar de uma boneca feia que ela agarra e chamá-la ao ouvido: minha princesa

Beatriz Hierro Lopes, É quase noite, Lisboa: Averno, 2013.

(Apresentação do livro em Lisboa: sábado, dia 12 de Outubro, às 22 horas, livraria Paralelo W.)

Imagem

Marta Chaves — [Podias obedecer a um registo de perder]

 

 

Podias obedecer a um registo de perder

o respeito, levantar a saia se a tivesses,

alçar a perna se cão fosses, mandar à merda

quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

 

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,

o combate quase parece sereno. De vez em quando,

fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspira-me

e não queres saber muito mais do que isto.

 

Estás na vida como na montra alguns relógios,

parado, e pensas numa sepultura no mar, tudo

menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos

viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

 

Os dias sem prognóstico, vivendo apenas para

esperar a madrugada, e que ela venha como o cortejo

e aprendas a ficar.

Marta Chaves. Telhados de Vidro n.º 16 . Lisboa: Averno, 2012, p. 81.

 

«elevation», Vaughan © Vaughan, via Deviantart (D.R.)

Manuel de Freitas — III (Grande Hotel de Paris)

III (Grande Hotel de Paris)

para a Inês Dias

A morte, claro. Existem porém

dias grandes, irredutíveis a versos,

em que a indecisão da luz

nos açoita de felicidade.

 

São dias raros, futuras

imagens do nada, o suficiente

para que a palavra amor substitua

o primeiro cigarro da manhã.

 

Chegámos tarde. O quarto 203

trazia-me de novo o teu corpo.

E até a música dos sinos

vinha deitar-se connosco.

 

Manuel de Freitas. Telhados de Vidro n.º 3 [Último poema do tríptico Passeio Alegre]. Lisboa, Averno, 2004, p. 44.

 

 

Residencial Grande Hotel de Paris (Porto)

 

Manuel de Freitas no portal da D-GLB.

Rui Pires Cabral — A Vida Paralela

 

Nenhum comboio nos leva
tão longe: uma cidade morta

vive ainda na rara canção.
Escuta as palavras que ensina

e todas as coisas que volta
a mostrar: a noite, o regresso

ao quarto emprestado,
as caves com livros

de Charing Cross Road
e o tempo lá fora

tão frio.

Rui Pires Cabral. Ladrador, Lisboa: Averno, 2012.

 

«Train Ride», Alex © Alex, via Deviantart (D.R.)

A. M. Pires Cabral — Confesso que voei

Duarte Belo — Castro do Pópulo. Pópulo. Alijó. Vila Real. CMP 103 (série M 888) fi480912 04-07-2003

 

1

Mas, se nestas seis décadas e meia

eu fui capaz de algum voo

 

— concedo: semelhante ao das galinhas,

isto é, rudimentar, desgracioso,

com muitíssimo dispêndio de energia

para pouca ascensão, breve e apenas

em desespero de causa;

em todo o caso uma forma de voo

pelo qual me sustentei no ar

em horas de menos peso —

 

devo agora, fechado o ciclo do voo,

como os pássaros pousar.

E isto não é como uma loja

que muda de ramo

ou que em fins de Dezembro

fecha para balanço.

Nem como executar

um mandato de detença.

Nem expiar a desordem

de, sendo pedestre, ter voado.

Nem um remate compulsivo

à sedição.

 

Pousar, é tudo. Regressar

ao afago das coisas da terra.

A terra cobrar por fim o que lhe devo

e eu cobrar dela o que me move

desde a primeira hora.

 

Voei, está voado.

Nada de nostalgias.

 

2

Escolho o galho

mais ajeitado à minha condição

e, como a ave a quem o voo se esgota

temporariamente, apeio-me do voo.

E também como a ave que, acabada

de pousar, bate ainda as asas

por duas ou três vezes,

assim as bato eu.

Mas enquanto a ave as bate

como para sacudir delas

os resíduos do voo,

eu faço-o por exigência de equilíbrio:

o ramo verga, já não tenho

a agilidade doutros tempos,

cairia se não batesse as asas.

Isto é: bato-as da mesma forma que

o funâmbulo tenteia a vara

e o cego a bangala.

Para me acomodar mais facilmente

no exterior do voo.

3

Nem o meu pouso é passageiro

como o da ave. Daqui em diante

assistirei ao decurso dos dias

pousado definitivamente.

Eis-me pois pousado, procurando

ajeitar o corpo à nova condição.

Os olhos erguidos para o espaço

donde me escorracei

para saber se porventura risquei

o cristal do ar com o meu voo.

Um arranhão que fosse, que depois dele

o cristal já não fosse cristal.

Não risquei.

Louvado seja Deus.

Depois de tanto voo desastrado

deixo o ar nítido inteiro

como o encontrei.

(Não admira. Sempre tive o cuidado

de sacudir os pés à entrada do voo.)

4

Não. Não é por nostalgia,

que nesta hora extrema de pousar

me lembram as hábeis imprudências do voo,

as suas impudências, a tomada da luz.

Parece-me isto antes gratidão.

Voar foi sempre o mais útil

dos meus gestos inúteis.

A haste de feno ao canto da boca.

Um donativo à carne.

O orifício por onde

se escoavam as enxurradas.

Intensamente pousado,

é isto que me lembra.

A. M. Pires Cabral, Telhados de Vidro n.º 6. Lisboa, Averno, 2006, p. 11 – 15.

Duarte Belo — Santuário de Panóias. Vale de Nogueiras. Vila Real. Vila Real. CMP 115 (série M 888) nb2054-26 13-05-1996

Créditos fotográficos: Duarte Belo.

Blogue da Averno, editora da Revista Telhados de Vidro (o número 16 acaba de ser publicado)

A. M. Pires Cabral no portal da D-GLB.

 

(no segundo poema, antepenúltimo verso, surge impresso «e o cego a bangala». Optou-se por manter tal como está publicado.)

José Miguel Silva — Desculpas não faltam

(para ler em confronto e diálogo com o poema anterior, de Ana Salomé)

 

Uma casa junto ao Vouga,

rio de água suficiente,

onde apenas se mergulha

até à cintura, a pequena horta

de Virgílio, o amor robustecido

por nenhuma esperança

e tantos livros para ler

— que desculpa vou agora dar

para não ser feliz?

 

José Miguel Silva, Resumo, a poesia em 2011, Lisboa: Documenta / FNAC, 2012. (originalmente publicado em Serém, 24 de Março, Lisboa: Averno, 2011)

 

Fotografia: «Macinhata do Vouga», Rui Pedro Silva © Rui Pedro Silva, via Olhares, fotografia online

Rui Pires Cabral — «Do coração da noite vinham apelos e silêncios»

 

«Do coração da noite vinham apelos e silêncios»1

Para o João Menau

 

As cidades doem, estão dentro de nós

mantidas por laços de fumo e desejo,

têm muros úteis e portas escondidas

que dão para a noite, como certos livros,

e há amores que vivem a horas tardias

 

e outros que se cortam no fio da trama,

queimam paus de incenso para abrir

caminhos, remover obstáculos, há curvas

e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.

As cidades cansam, estão nos nossos

 

dias, têm mil janelas de azul virtual

que nunca sossegam e nunca terminam

e há corpos que ensinam a temer a morte,

sombras que circulam nas redes do escuro

e homens que ferem para não chorar.

 

1Albert Camus, A Morte Feliz [tradução de José Carlos González], Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 102.

Cabral, Rui Pires, Oráculos de Cabeceira, Lisboa: Averno 2009

 

«Prey», Nuno Figueira © Nuno Figueira, via Deviantart (D.R.)

Rui Miguel Ribeiro — XX Dias (dois poemas)

 

 

 

 

 

 

(post reeditado)

 

 

XII ∙ AS PALAVRAS

 

Escuto só as tuas palavras.

Tenho o presente a partir

da minha fraqueza.

Chega até mim

quem me explica

a luz surda destes dias.

 

*

 

XVII ∙ O QUARTO

 

Neste quarto que me priva

da voz, visão e ouvido do mundo,

entre renúncias, sobrevive

a minha existência;

o que será uma memória

irrenunciável do vazio,

um trajecto deserto,

sem temperatura, até um desejo

de magoada serenidade.

De uma idade terminada.

 

Ribeiro, Rui Miguel, XX Dias, Lisboa: Averno, 2009

 

© Yesica, via Deviantart

Sobre Rui Miguel Ribeiro: «*Nasceu no Porto, em 1974. É Matemático e vive em Lisboa. Publicou os primeiros poemas com 24 anos e colabora, desde então, regularmente com algumas publicações, nomeadamente Criatura e Telhados de Vidro. Publicou os seguintes livros de poesia: Europa e mais três poemas, Letra Livre, Lisboa, 2007, XX Dias, Averno, Lisboa, 2009.» [informação recolhida aqui]

A.M. Pires Cabral — Motes e Voltas

Festeja-se hoje o aniversário de A. M. Pires Cabral com a transcrição desta suite, que tem como referência um poema de Rilke, do qual que se apresenta alheia proposta de tradução no final do post.  Questionar o absoluto do tempo, definir uma ética sem cedências perante as contingências do tempo.

Herbsttag

Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren laß die Winde los.

Befiel den letzten Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süße in den schweren Wein.

Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.*

Reiner Maria Rilke

1
Senhor, vão sendo horas.
Sei bem que o teu relógio
não tem de regular-se pelo meu
nem a tua vontade pela minha.

Mas é justo que seja aquele que sofre
do tempo os enxovalhos
a dizer quando vão sendo horas —

e não tu, Senhor, com quem
o tempo não colide
(decerto porque tu mesmo és o tempo
ou a ausência dele,
e não podes portanto avaliar
quando se nos torna o peso do Verão
desmedido, funesto, vexatório.)

2
Como foi longo o Estio. Como se demorou
o Sol nas coisas com cínica indiferença
própria dos deuses.
Como o Sol crestou a erva, a pele.

É tempo de vento à solta nas campinas.
Entorna, Senhor, o bálsamo das sombras
sobre o quadrante dos relógios de sol
e sobre tudo o mais que o Verão escaldou.

Que vigorem as trevas, chuva e frio
com que se tece
o branco lenço da melancolia.

3
Estão colhidas, derramadas
na sua cama de palha,
as maçãs que hão-de perfumar a casa
no Inverno avesso a cheiros.
O vinho já ganhou
doçura e perfídia quanto baste.

Estas são, Senhor, as minhas provisões
para os dias de Estio que aí vêm.

4
Eu fiz a minha casa com uma pedra
que me deste. Usei a tua madeira,
os teus metais. Posso dizer:
tenho uma casa, eu não sou daqueles
para quem o Verão não foi mais que um embuste.

Mas sei de muitos a quem o Sol cegou
e já não podem ver
o esplendor das trevas.
Isto é: já não podem construir
casa nenhuma.

5
Não estou só
Recrutei companheiros para o Inverno
que não o temem como se teme um lobo,
mas apenas como é justo que se tema
o desdobrar das páginas do tempo:
com decoro. Então
aconchegados a mim, e eu a eles.
Somos uma parede.

Mas há quem esteja só
e assim deva ficar.

A esses, tudo aquilo que o nocivo
Inverno lhes trouxer
recordará o que ficou retido
nas levianas demasias do Verão.

As cartas que usarão como recurso
contra a ausência do Sol
ninguém lhas lerá, ser-lhe-ão devolvidas
com um carimbo maquinal: «Desconhecido
neste endereço». Cartas descompostas
de terem ido e voltado.
Cartas que em boa verdade
escreverão a si mesmos
sob outros nomes e moradas. Cartas
semelhantes a ardilosos bumerangues
ou a cães ensinados a voltar para nós,
trazendo na boca, molhado de saliva,
o pau que arremessámos.

6
Mas possa eu, Senhor, não perder nunca
os olhos com que ao frio me enamoro
das folhas que se movem casuais
ao vento outonal das alamedas.

Cabral, A. M. Pires, Telhados de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004

 

 

«Cadernos, Trás-os-Montes, 1993, 01_ Amarante» Duarte Belo © Duarte Belo (D.R.)

 

*Dia de outono

Senhor, foi um verão imenso: é hora.
Estende as tuas sombras nos relógios
de sol e solta os ventos prado afora.

Instiga a sazonarem, com dois dias
a mais de sul, as frutas que, tardias,
conduzes rumo à plenitude, e apura,
no vinho denso, a última doçura.

Quem não tem lar já não terá; quem mora
sozinho há de velar e ler sozinho,
escrever longas cartas e, a caminho
de nada, há de trilhar ruas agora,
enquanto as folhas caem em torvelinho.

Reiner Maria Rilke

poema «Herbsttag» traduzido por Nelson Archer, transcrito no blog «Acontecimentos», de António Cícero.

   página sobre A. M. Pires Cabral

   página da editora Averno (revista Telhados de Vidro)

   página do fotógrafo Duarte Belo

Rui Pires Cabral – A Nossa Vez



A NOSSA VEZ


É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia

a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar


e entram clandestinas no poema.

São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos

atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera

e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva

nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer

a nossa vez.

Cabral, Rui Pires, Longe da Aldeia, Lisboa: Averno, 2005

«Not Quite There», Bogdan Stefanescu © Bogdan Stefanescu, via Deviantart (D.R.)

Rosa Maria Martelo – A Porta de Duchamp

Editado pela Averno, infatigável oficina editorial que, pelo labor de Manuel de Freitas, tem proporcionado, com persistente rigor, alguma da melhor poesia contemporânea, acaba de sair, no final de 2009, A Porta de Duchamp, de Rosa Maria Martelo. O livro reúne pequenos textos em prosa, forma que se vai generalizando em cada vez mais autores, sem que daí venha mal ao mundo, parece que sedento de “romances” de fundo. Mas basta ler A Porta de Duchamp para notar que, pelo rigor formal desta escrita de amadurecida capacidade narrativa (por vezes com alguns traços de pendor quase ensaístico), na sua discreta revisitação aos territórios da arte, no incisivo apontamento intimista (como no belíssimo “fragmento” Sombras), nos desfazermos facilmente da noção, possivelmente estimulada pela instâncias da crítica e encorajada pelos departamentos de marketing, de que apenas prosa de largo calado alcança valor literário. Leia-se o primeiro texto do livro. Nele se condensa, no seu diálogo com a obra de Marcel Duchamp, a partir de um “episódio” ficcionado com mestria, mais prazer de leitura que muitos romances que inundam as montras pelo natal.

A PORTA DE DUCHAMP

Quando vivia em Paris, no pequeno apartamento da rue Larrey, n.º II, Duchamp fez instalar dentro de casa uma porta que não podia estar nem aberta nem fechada porque estava sempre aberta e fechada ao mesmo tempo. Uma porta que ele abria quando a fechava (fechada mesmo aberta, como alguém disse acontecer com os livros) e que descolava da sua função de porta, como a palavra porta descola de qualquer porta se a dissermos duas vezes: uma porta-porta. A dele rodando entre dois umbrais e, por isso, incapaz de preencher um vazio sem abrir outro vazio. Duchamp tinha-a colocado ali para não esquecer que há em tudo uma parte de nada, um vão impossível de preencher sem que logo se abra outro mesmo ao lado. Mas desde então dormia mal, por causa dos gritos dessa porta, ao mesmo tempo concreta e abstracta, deslocada e infeliz como uma alegoria sem propósito. E quando não conseguia dormir, e se levantava às escuras para ir beber um copo de água, acontecia-lhe hesitar diante da sua invenção: «aberta, fechada?». Nessas alturas, se via que Duchamp ia enganar-se outra vez, a porta-porta mudava de posição e empurrava-o docemente para o lado do vazio. Além de gritar e ser didáctica, que mais pode uma porta para se fazer entender? Duchamp desaparecia então no fundo escuro da cozinha, e sempre dava consigo a pensar sem saber muito bem porquê que, talvez por estarem tão cheios de nada, os gritos da sua porta-porta lhe faziam afinal fraternamente companhia. Depois, no regresso ao quarto, hesitava novamente – «aberta, fechada?» – mas, com os braços um pouco adiante do rosto, atravessava agora o vazio a passos mais decididos.

MARTELO, Rosa Maria, “A Porta de Duchamp”, Lisboa: Averno, 2009. p. 7-8.

Marcel Duchamp, "The Bride Stripped Bare by her Bachelors, Even"


Novos poetas (XXIX) – José Miguel Silva

Terceiro e último poema de José Miguel Silva, publicado na Telhados de Vidro (número 10), sob o título Volta ao Mundo (o primeiro pode ser encontrado no arquivo do blogue, em 27 de Outubro, o segundo a 14 de Novembro).

3.

Não sei que horas são no teu relógio.

No meu é cedo/tarde – está parado

há bem mais de vinte anos.


Não importa, pois as coisas vão e vêm,

e de novo se levanta o mês de Março

nesta era da ironia, com seus truques

estafados e promessas desfolhantes.


Juntamente, tudo passa e tudo volta,

mas diverso – só por isso, justamente,

tem piada estar aqui, abrir os olhos,

conferir ainda e sempre, na vitrina

da manhã, a produção da Primavera.


José Miguel Silva, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 25, Averno, Lisboa, Julho de 2008

'luminus' © Carlos Tavares, olhares, fotografia online

'luminus' © Carlos Tavares, olhares, fotografia online

Novos poetas (XIX) – José Miguel Silva

Segundo poema de José Miguel Silva, publicado na Telhados de Vidro (número 10), sob o título Volta ao Mundo (o primeiro pode ser encontrado no arquivo, em 27 de Outubro). Poema sobre a possibilidade de uma voz. Delimitação de um território poético. Proposição e afirmação. E recusas, para serem entendidas. Atendidas.

2.

Mas que resta para ver ou comentar

nesta feira pecuária, perguntas,

recordando como tudo já foi dito

vinte vezes por cabeça, e repetir

repetições é engodar ritualmente

a esperança. Mas o próprio silêncio

é uma pose, e bem pouco original.

De resto, quem da poesia colhe

o benefício do lamento ou esconjuro,

tem direito à inestética dum «foda-se!»

sonoro quando a sanha do martelo

lhe desaba em pleno dedo. Que querias?

Que calasse o prejuízo na cordura

dum esgar arranjadinho, decoroso?

(Ou pior: que adubasse num sim-sim

de pechisbeque o subarbusto da penúria?)

Que diabo, mas será que só os ricos

é que podem vestir mal?

José Miguel Silva, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 24, Averno, Lisboa, Julho de 2008

Profecy © Rui V., Olhares, Fotografia online

Profecy © Rui V., Olhares, Fotografia online

Novos poetas (XIV) – José Miguel Silva

Enquanto absorvo a chegada do número zero da Índice, e o segundo número da criatura, das quais falarei em breve, retoma, ainda, a Telhados de Vidro (o seu décimo número) e o primeiro de três poemas de José Miguel Silva (1969) que nela se publicam, sob o mesmo título (Volta ao Mundo).

VOLTA AO MUNDO

1.

Voltemos a isto, ao cálculo dos danos

na máquina do mundo, à impotência do riso

contra tudo o que não sabemos mudar:

a morte, o egoísmo, o levadiço coração

humano. Porque não há mais nada (ok,

há o amor – vai-te foder) e nos negócios

da razão o pessimismo é a moeda

do momento. Regressemos ao ruído,

à sombria comissão liquidatária

desta fábrica de trapos coloridos.

Se não há melhor emprego para a culpa

e os domingos custam dias a passar.

José Miguel Silva, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 23, Averno, Lisboa, Julho de 2008

CÓDIGOS © Paulo Madeira, Olhares, Fotografia online

CÓDIGOS © Paulo Madeira, Olhares, Fotografia online

Novos Poetas (XI) – Rui Pires Cabral

Nesta procura de novas vozes poéticas, já se esbateram os limites etários, geracionais, editoriais (é novo porque não tem livro editado?). Importa mais ir descobrindo ou revelando autores cujo tempo de trabalho poético está ainda a entrar no alvor, ou dele acabou de sair para ganhar esplendor. Na número 10 da revista Telhados de Vidro, de Julho de 2008, editada pela Averno, Rui Pires Cabral (1967) surge, com quatro poemas, sob o título Oráculos de Cabeceira II, cada um deles com número remissivo junto ao título, para uma referência bibliográfica final, titulada ABERTOS AO ACASO. O autor está bem identificado no blogue Volumen, e vale a pena ir lá, perceber melhor. Um poeta só se percebe com o tempo da sua escrita. A sua escrita só se contrói no tempo.

A latere: pedi o número 10 da revista na Fnac do Chiado. Amabilíssima, a funcionária informou-me que estava esgotado, mas possuía 23 exemplares do número 11! Estranhei muitíssimo. Tanta estranheza levou a senhora à investigação in loco (nas prateleiras da ‘Poesia’). Voltou muito animada, de livro na mão, chamou uma colega e informou-nos aos dois: “tem graça, temos imensos números 10, o sistema é que deu entrada do número 11, que não existe”. Entregou-me o exemplar. Paguei e olhei para a incómoda etiqueta que colam na contra-capa dos livros, neste caso ainda mais irritante por estar ‘peganhentamente’ aposta sobre um material translúcido, o papel vegetal, que faz parte integrante do grafismo da revista (na capa, tem a função de deixar entrever e despertar a curiosidade para o desenho de Jorge Feijão, impresso na primeira página de papel opaco). De facto, na referida etiqueta, lá está – Telhados de Vidro N11, com código de barras e tudo. Gostava que as FNAC’s do mundo deixassem de colar vinhetas nas capas dos livros. Gostava, também, que todas fossem tão optimistas que anunciam já, num número acabado de sair, a existência do que há-de vir.

ORÁCULOS DE CABECEIRA II

«Are others happier?»¹

para a Helena Gaspar

Quando se sentam a ler

nos grandes átrios da noite

entre mil luzes, jogos de água,

escadas que rolam ainda

sob cúpulas de betão –

são mais felizes?


Quando saem do trabalho

acossados pelo vento

de meados de Fevereiro

e é sempre segunda-feira

nas paragens do eléctrico –

são mais felizes?


Quando se cruzam connosco

no remanso dos jardins

e encontram outro caminho

de mistério, de desejo

na nossa imaginação –

são mais felizes?


Quando os vemos mais

pequenos, mais ao longe,

nas esplanadas sobre o mar

e por momentos nos lembram

que tudo se há-de perder –

são mais felizes?

ABERTOS AO ACASO:

¹ Derek Jarman, Modern Nature, Vintage, Londres, 1992, p. 138.

Rui Pires Cabral, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 35, Averno, Lisboa, Julho de 2008

ponto cruz © Maria São Miguel, Olhares, fotografia online

ponto cruz © Maria São Miguel, Olhares, fotografia online

Novos Poetas (VII) Renata Correia Botelho


é sempre a mesma curva

cega, neste troço de pedra lascada,

não há como escapar

às primeiras chuvas

ao piso escorregadio dos olhos,

despiste, falésia mortal,

o coração não entende

sinais vermelhos.

Renata Correia Botelho, in revista Telhados de Vidro nº 2, p. 39, Averno, Lisboa, Maio 2004

Os dias corriam com a água... © Maria José Amorim, Olhares, fotografia online
Os dias corriam com a água… © Maria José Amorim, Olhares, fotografia online

Novos poetas (IV)

Manuel de Freitas


NADA DE NADA

para o José Carlos Soares

Um dia, logo de manhã, entraremos

num cemitério e perguntarás a Antonia

Pozzi se estar morto é mais ou menos

triste do que estes dias arduamente sepultados.

Receando que saibas a resposta, beberei

com Lowry a primeira ou a última tequila,

na certeza de que ambos os adjectivos estarão

certos (um pouco, talvez, demasiado certos).


Assim possa a chuva apagar todos

os versos que escrevemos

para nada, sobre nada, contra nada,

à sombra imensa dos jacarandás

que floriam – distraídos, quase por engano –

no Rossio. E inundavam de luz (nunca

vi uma luz tão escura) as portas

e os umbrais deste cemitério assim.

Manuel de Freitas, in revista Telhados de Vidro nº 7, p. 47, Averno, Lisboa, 2006

a slaughter of roses © rattus, Olhares, fotografia online

a slaughter of roses © rattus, Olhares, fotografia online