As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Tag: Assírio & Alvim

Herberto Helder — «Por isso ele era rei, e alguém (…)»

 

 

Por isso ele era rei, e alguém

se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra

súbdita: dá-me um nome, uma

baforada

desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver

uma constelação maior que onze varas,

enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto

na escuridão com toda a potência

dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens

do fogo,

bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze

varas de luz para os braços torcidos,

uma camisa aos rasgões brilhantes por força

da entrada e saída

do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca

petróleo a arder como no circo dos prodígios

fazem os reis terríveis,

por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício

desta magia: a realeza de uma combustão,

acto, verbo,

e em estado natural os elementos:

madeira, cristal e ouro, e o ar movendo

o poema número a número.


Helder, Herberto, Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

 

«Nebula», Cristina Romero Ríos © Cristina Romero Ríos, via Deviantart (D.R.)

Correntes d’Escritas — «Sondagem As Folhas Ardem» — Os resultados!

 

Tal como prometido, hoje divulgam-se os resultados da sondagem que lançámos há exactamente um mês, permitindo a todos que exprimissem a sua preferência sobre as obras a concurso. Contrariamente às expectativas, pronunciaram-se mais de cinco ou seis pessoas. Na verdade foram 102 votos expressos, que permitiram apurar os seguintes resultados:


 

(clique para ampliar)

O livro de José Tolentino Mendonça, «O viajante sem sono» (Assírio & Alvim) ganhou com um voto de vantagem sobre «A Inexistência de Eva», de Filipa Leal (Deriva). Um poeta muito justamente consagrado, com uma obra que se afirma na década de noventa, vence a votação com um voto mais que o livro magnífico de Filipa Leal, poeta surgida já na primeira década deste século sendo, para nós, o livro apresentado a concurso o melhor de todos os que escreveu (e são todos bons). Agora resta saber se a decisão do júri anda perto desta votação. O que é, de resto, irrelevante.

Obrigado a todos os que participaram. E boas «Correntes d’Escritas».

 

Bicicletas

Por muito tempo amarei casas que existam apenas

para guardar uma bicicleta ou os remos de um bote

As casas interessantes não têm pretensão nenhuma

Estão perto de nós na hora necessária

mas a qualquer momento

com mais clareza

afastam-se das certezas que perdemos

e da imensidão que se avista de lá

Um velho  provérbio diz:

Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo

de uma estação clemente

Mendonça, José Tolentino, O viajante sem sono, Lisboa: Assírio e Alvim, 2009, p. 42

 

António Franco Alexandre — Formoso amigo meu, podes cantar à lua

 

 
Formoso amigo meu, podes cantar à lua

e amar outros mais lestos do que eu.

roer um osso, admirar as estrelas,

seres sábio e humano, além de belo.

Já vi que escreves um diário, com

as patas firmes, o pêlo luzidio,

onde porém há sempre

uma sílaba a mais, presa por fios.

Pouco te importas se eu existo ou não,

e ignoras, das aranhas, o tormento

quando a teia se rasga e é urgente

tomar medidas, e tecer, à espreita

de alguma inócua presa imprevidente.

Voas tão solto, lá no firmamento,

que te tomam por pássaro ou cometa;

e meditas em vastos pensamentos… só não sabes

que ao rasgares o meu leito aqui deixaste

uma gota de sangue, a que estás preso.

Alexandre, António Franco, Aracne, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

via Deviantart (D. R.)

Helder Moura Pereira — Apagaram-se as luzes azuis da ambulância

 

Apagaram-se as luzes azuis da ambulância

e mais ficou na nossa imagem a cor do sangue.

No trajecto vi mais o teu ser do que à mesa,

na cama, no trabalho, o que vi deixou-me

descansado: humano, demasiado humano.

Tudo podia ter sido mais fácil, eis o que pode

dizer qualquer um, e mesmo que quase não

haja dinheiro para o táxi e te sintas à beira

do precipício, levanta a garganta e berra

para aí até já não haver quem te oiça.

Da missa metade não soube em tua história

e também não é preciso, todos nós já corremos

para um hospital e viemos de lá a cheirar

a doença e a morte. Por nós ou por outros,

nessa grande casa da tristeza e do alívio,

democracia total o acaso que dispara

e acerta ou não acerta em quem vai a passar.

Alguém te segura à beira da derrocada

e te pergunta saberás se lá no fundo há

algo que valha a pena? Pode ser que sim,

pode ser que não, ninguém sabe.

Pereira, Helder Moura, Se as coisas fossem o que são, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010. via → Blogue da Editora Assírio & Alvim

«hospital», Mademoiselle Wunderlich © Mademoiselle Wunderlich, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

Alexandre O’Neill – Um poema que circulou na clandestinidade

 

Aqui há um par de dias referi a colecção Horas Extraordinárias – Série de Inéditos da Imprensa, a propósito livro Urzes, de Manuel Hermínio Monteiro, nela dado à estampa. Nesta iniciativa do semanário O Independente (em alguns títulos contando com a colaboração da Assírio & Alvim, que partilha, de resto, o copywright, assinando Vasco Rosa o prefácio) foi editado um título com inéditos e dispersos de Alexandre O’Neill posteriores à edição das Poesias Completas do autor naquela casa editora, em 2001. Coração Acordeão reúne, assim, textos que haviam «escapado» àquele volume, como conta Vasco Rosa, no prefácio. Pela sua variedade, diversidade e desigual interesse (desigualdade essa muito mais promissora que o termo especifica), aqui se deixa um deles, de carácter biográfico/literário. Foi quase escolhido abrindo o livro onde calhasse, porque este se lê de uma ponta à outra, em pulinhos de estilo, em saltinhos de gozo. Não foi assim tão «ao acaso»: é sempre fascinante ler um autor escrever sobre a génese de uma obra (um poema) ainda que eventualmente «menor», e confrontar o que nos conta com o resultado final.

Antecede o texto e o poema o prefácio, de Vasco Rosa, que ajuda a perceber a aventura deste livro.

«A segunda edição Assírio & Alvim das Poesias Completas tornou assaz evidente, já em Novembro de 2001, que chegara a hora de empreender uma demanda exaustiva aos Dispersos de Alexandre O’Neill (1924-86), a larguíssima parte das quais em papel de jornal, de modo a identificar e permitir publicar todos os seus escritos, reimprimindo, na passada, dois livros de crónicas há muito esgotados: As Andorinhas não Têm Restaurante, Dom Quixote, 1970, e Uma Coisa em forma de Assim, Presença 1985 (antes 1980).

À generosidade do editor Manuel Rosa devo a oportunidade de unir nessa campanha os meus esforços aos de Perfecto C. Cuadrado, Maria Antónia Oliveira e Luís Manuel Gaspar, tornando o livro que o leitor tem agora nas mãos — com a quantidade de textos «desconhecidos» que transporta — uma peça do puzzle o’neilliano, produzida , ademais, no contexto de uma colecção de autores da segunda metade do século XX em que, só por absurdo, ele poderia faltar.

Dentro de semanas, senão dias, sairá — autêntico verso ou reverso deste Coração Acordeão — uma reedição de Uma Coisa em forma de Assim.

A Afonso e Teresa Gouveia dirijo um aceno d’amigo. A Luís Manuel Gaspar agradeço todas as informações genuinamente partilhadas. Aos funcionários da Hemeroteca de Lisboa, a paciência de meses.»

VASCO ROSA

Três publicações recentes dedicadas aos escritor: o n.º 13 de Relâmpago. Revista de Poesia da Fundação Luis Miguel Nava; o Caderno 2 do Centro de Estudos do Surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda; Alexandre O’Neill: Passo tudo pela Refinadora, de Laurinda Bom.

«Morte de Catarina Eufémia», José Dias Coelho (D.R.)

Um poema que circulou na clandestinidade

Não sei se foi o Carlos Brito ou o Fernando Correia da Silva quem teve, primeiro, a ideia de «vingar» poeticamente a morte de Catarina Eufémia, que, por deficiência de informação, nós julgávamos, ao princípio, chamar-se Maria da Graça Sapinho. O nome de quem a metralhou, esse, parece não deixar lugar a dúvidas: Carrajola.

Não era o apelido (como ainda hoje não é) que queríamos vituperar, mas aquele seu infame portador. Fechei-me em casa. Meditei o trágico acontecimento e logo senti que, de certo modo, ele era «abstracto» para mim. Eu desconhecia o Alentejo e, embora identificado com a luta dos camponeses alentejanos, a realidade do caso não me «entranhava» por forma a que eu arrancasse bem de dentro o meu protesto.

Senti, ao mesmo tempo, que não me podia ficar por palavras, que era preciso experimentar amor ou ódio. Entrei pelo desprezo. Foi então que me surgiu, antes de qualquer verso, este: És como um percevejo num lençol! A partir daí, a linha de força do poema estava encontrada. A segunda estrofe, endereçada a Catarina, é algo convencional. O que a salva é o verso, que reutilizei noutro poema: Quando o Alentejo se puser a rir.

Esses meus versos, que transcrevo de cor, juntaram-se a outros de gente amiga, e assim surgiu, tirado do copiador, um pequeno cancioneiro clandestino em memória de Catarina Eufémia. Alguém o terá guardado? Será ocasião de abrir os arquivos ou puxar pela retentiva para que este e outros documentos possam finalmente ver a luz (livre) do dia.


À MEMÓRIA DE CATARINA EUFÉMIA

Podes mudar de nome, carrajola

pôr umas asas brancas, arvorar

um ar contrito,

dizer que não, que não foi contigo,

disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha,

podes mudar de nome, carrajola,

de aldeia, de vila ou de cidade

— és como um percevejo num lençol!


Quando tivermos Portugal nos braços

e pudermos amá-lo sem sofrer,

quando o Alentejo se puser a rir,

Catarina Eufémia, minha irmã,

então o teu filho há-de nascer!


O’Neill, Alexandre, Coração Acordeão, Lisboa: O Independente, 2004

(previamente publicado na Flama, 24 de Maio de 1974)


Nota: escolheu-se o justamente conhecido desenho de José Dias Coelho, artista plástico e militante do Partido Comunista Português, também ele assassinado pela polícia do regime do Estado Novo.

 

Links Relacionados:

Sobre Alexandre O’Neill

Uma (muito boa) página sobre José Dias Coelho

Manuel Hermínio Monteiro – Escritores que se suicidaram

Para a minha geração, o Manuel Hermínio Monteiro foi o herói dos editores. O seu amor pela literatura, particularmente pela poesia, levou-o a pegar numa casa descaracterizada, a Assírio & Alvim, fazendo dela a grande referência das editoras que investiam naquilo em que acreditavam (em que o Manuel Hermínio acreditava), construindo um fabuloso catálogo, em grande parte constituído por autores que ele mesmo descobria, “empolgado”, ou recuperava para o olhar mais desatento dos outros. Dois exemplos: nos antigos Pascoaes, nos modernos Cesariny. Nele habitava uma atenção e um afecto profundos a tudo o que fazia. E uma extrema humildade perante a grandeza da escrita e o talento dos seus autores, de que tanto gostava (quem, hoje, tem este amor pelos autores e pela sua obra?). Ser publicado na «Assírio» passou a ser uma espécie de porto de chegada para esses mesmos muitos autores. De editora nas margens do mercado, a «Assírio» ganhou o seu público a pulso; em poucos anos era uma editora de prestígio; poucos passariam até se tornar uma sólida editora independente; que dava lucro. Tudo isto ocorreu durante as décadas de oitenta e noventa do século passado. Com a prematura morte de Manuel Hermínio Monteiro (1952 — 2001) a Assírio & Alvim manteve, é certo, a aura de prestígio que adquirira. Porém, perdeu aos poucos, o golpe de asa. Vive actualmente, em grande medida, da exploração  do seu brilhante catálogo. Arrisca pouco. No ano da sua anunciada morte Manuel Hermínio Monteiro preparou, conjuntamente com uma grande equipa que reuniu, a edição de A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, monumental colectânea de poesia de todos os tempos e lugares, que viria a constituir legado e testemunho do que era, verdadeiramente, editar. Na humildade que lhe era tão própria, não reconheceria grande valor à sua escrita. Era, contudo, senhor de uma prosa cristalina e serena; escrevia num português suave, culto e discreto, onde as muitas leituras, o convívio assíduo com o processo de escrita dos outros, as raízes transmontanas, se sentem, mas nunca se impõem aos textos que, aqui e ali, publicava. Em 2004, o “Independente”, na colecção Horas Extraordinárias, edita «Urzes», colectânea de textos do editor. Tudo tem um fim: a vida de um homem grande, um projecto editorial que conheceu uma vitalidade de que agora apenas podemos sentir nostalgia. Deste livro referido (que se pode talvez ainda encontrar em venda nalgumas estações do metropolitano de Lisboa), transcreve-se um admirável texto de Manuel Hermínio Monteiro, que muito gostava das artes-plásticas, escrito a propósito de uma exposição de Fernanda Fragateiro, pano de fundo para uma bela alegoria da floresta como o lugar simbólico que guarda a «entrega» e e «espiral da queda» dos escritores.

[Nota: na impossibilidade de conseguir obter  imagens digitais da exposição de Fernanda Fragateiro a que alude o autor, e não querendo ‘contaminar’ o espírito do texto e das obras nele referidas com outros trabalhos da artista, optei por utilizar fotografias que, entendo, se quadram em diálogo com o texto]


«Faded Intensity, Forgotten Life», Pagit, © Pagit, via Deviantar (D.R.)

Escritores que se suicidaram

Se o mar é buliçoso e falador, a floresta guarda melhor os seus e os outros segredos revestindo de calma a sua fúria. Mas ambos estão cheios de vozes. E se a profundidade do mar está preenchida de medos e de tesouros, os enigmas e os espíritos adensam a obscuridade da floresta. Fernanda Fragateiro, ao escolher a floresta como contraponto representativo dos livros e de escritores que se suicidaram sabe que esta é a casa imensa primordial de todas as bibliotecas, em cujos labirintos podemos perder-nos para sempre. E acontece que os mistérios das florestas dispõem de imperceptíveis tropismos, de uma sensibilidade selvagem e por vezes cruel, pelos quais sorvem os melhores espíritos, precipitando-os no vórtice de onde jamais sairão, a não ser pela glória da escrita. Eles são os mártires de um sacrifício tão empolgante como ignorado. Com um considerável susto, passamos ao lado do profundo escuro dos medos condensados. Ninguém pergunta se o direito que ainda temos a caminhos, a ar, à lua, ou ao adejar das ramagens não advirá do assumido martírio de uns quantos que nos deixaram, além da arquitectura e da beleza das suas palavras, um gesto radical indicativo. O que Fernanda Fragateiro mostrou na Livraria da Assírio & Alvim foi um diálogo silencioso, como acontece na melhor literatura. De um lado, inúmeras árvores em miniatura representavam uma floresta de aparentes repetições, organizando um espaço que valorizava os intervalos vazios entre as muitas árvores (são esses os nichos dos mistérios e dos sinais). Do outro lado, e na sequência da floresta de livros da livraria, uma prateleira com a indicação «Livros de autores que se Suicidaram». Poderiam constituir apenas uma especialização ou um assinalado segmento da livraria. A sinalética era exactamente igual à das outras secções. A artista, pelo contrário, diz que não. Os livros estão justamente no seu lugar próprio. Mas apesar das lombadas, das palavras impressas, eles agem num conjunto provocando uma energia que os destaca e os relaciona com os espíritos soltos da floresta. Os nomes de cada autor dão-se-nos pelos livros, mas, na verdade, pertencem a outra constelação nada doméstica e muito menos transaccionável. Vozes sopram do espírito da floresta e são tanto do óxido dos dias quanto os livros os livros que amarelecem têm em si o mais perdurável do corpo da floresta. E a floresta significa aqui o corpo da sociabilização, com as suas respectivas cedências e fracturas. À humanidade, estes escritores entregaram as palavras da criação para depois regressarem por conta própria ao Jardim Terreal. Depois de passarem os «claros del Bosque» (1) e as encruzilhadas várias, , de se afundarem na cinza escutarem provado as bagas e experimentado  o espinho. Depois de arrecadarem a aura das musas, a lenda dos gnomos e dos duendes e aspirando a Flor Azul, depois de terem entregue todas as palavras aos seus leitores, partem. Partem finalmente, directos à mão de Deus que, como reza o poeta suicida Antero de Quental, é onde repousa o coração dos que não se conformam  com o desleixo de um lugar  que primeiro foi paraíso deleitoso de homens e de árvores e do qual todos aceitámos, conformada e estuciosamente, ter sido definitivamente expulsos.»

(1) Aparente referência ao livro com o mesmo nome, de Maria Zambrano, autora de que M.H.M. muito gostava e editou. Excerto aqui.

Monteiro, Manuel Hermínio, Urzes, Lisboa: O Independente, 2004

(previamente publicado em A Phala, n.º 54, Março 1997.)

«Bench», Ilco Trajkovsky © Ilco Trajkovsky, via Deviantart (D.R.)

Links relacionados:

Manuel Hermínio Monteiro aqui, aqui e aqui

Sebastião Alba – Ninguém Meu Amor

 

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-lo a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

vendando-nos os olhos

Alba, Sebastião, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.

«Death of a paper boat», CuPlinio © CuPlinio, via Deviantart (D.R.)

 

Links Relacionados:

Sobre a singularíssima vida e obra de Sebastião Alba

A. M. Pires Cabral – O Triunfo dos Insectos

 

 

 

O TRIUNFO DOS INSECTOS

Nem todos os insectos atingirão Novembro.
Em Dezembro se verá ainda alguma asa
tentando seu tardio, resignado
golpe de breve alcance, e acaso na cortina
sobreviverá algum retardatário
menos exposto ao clima. E Janeiro
mal guardará memória da vida pequenina,
tenaz e resistente ao calendário,
por fêmeas diligentes algures depositada.

Terei eu, entretanto, resistido ao frio,
talvez escarnecido a morte intercalar
de tanto corpo humilde
dado ao rio.

Mas quando Maio enfim rufar o seu tambor,
soprar o seu clarim,
as asas engelhadas se desenrugarão,
o céu será pequeno, as flores escassas.
E os insectos vis triunfarão
dos gelos e de mim,
minhas desgraças.

Que são sessenta anos
mais do que um ano só?
Que é uma semana
mais que um dia?

Só que nenhum insecto se agonia
das crises do inverno – enquanto eu
manejo estas palavras de esconjuro,
estes laboriosos dialectos,
e a face não escondo, que não posso,
do rosto violento
do grande inverno duro
que está por vir por via dos insectos.

Cabral, A. M. Pires, O Livro dos Lugares e Outros Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006

«Housefly», Josgoh © Josgoh. via Deviantart (D.R.)

Marguerite Yourcenar – Cantilena para um tocador de flauta cego


Cantilena para um tocador de flauta cego


Flauta da noite que se cerra,

Presença líquida de um pranto,

Todos os silêncios da terra

São as pétalas do teu canto.


Espalha teu pólen na alfombra

Do catre que por fim te acoite

Mel de uma boca de sombra

Como um beijo na boca da noite


E pois que as escalas que cansas

Nos dizem que o dia acabou,

Faz-nos crer que os céus dançam

Porque um cego cantou.

Tradução de Mário Cesariny

Yourcenar, Marguerite, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.

«Shakuhachi Player», Alessandro © Alessandro, via Deviantart, (d.r.)*

(poema original)

Cantilène pour un joueur de flute aveugle


Flute dans la nuit solitarie

Presence liquide d’un pleur,

Tous les silences de la terre

Sont le pétales de ta fleur.


Disperse ton pollen dans l’ombre,

Ame pleurant, presque sans bruit,

Miel coulant d’une bouche sombre,

Comme un baiser fait à la nuit.


Et, puisque tes lentes cadences

Rythment le pouls des soirs d’été,

Fais-nous croire que les cieux dansent

Parce qu’un aveugle a chanté.

Ligações relacionadas:

Marguerite Yourcenar (Wikipedia)

Alguns poemas de Marguerite Yourcenar (em língua francesa, traduzidos para castelhano)

Entrevista a Marguerite Yourcenar na The Paris Review, 1988 (em língua inglesa, pdf. descarregável)

* Na fotografia: um Shakuhachi

Luiza Neto Jorge – A Magnólia

A MAGNÓLIA

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem a forma

o meu resplendor.


Um diminuto berço me acolhe

onde a palavra se elide

na matéria — na metáfora —

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.


A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,


um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

Jorge, Luiza Neto, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.


Claude Monet, «Nymphéas» (detalhe de tela da série com o mesmo nome) © Musée de l’Orangerie, Paris (d.r.)

(clique para ampliar em alta resolução)

English translation by Richard Zenith:

Exaltation of the minimal
and the magnificent lightning
of the master event
restore to me my form
my splendor.

A tiny crib cradles me
where the word elides
into matter – into metaphor –
as needed, lightly, wherever
it echoes and slides.

Magnolia,
the sound that swells in it
when pronounced,
is an exalted fragrance
lost in the storm,

a magnificent minimal entity
shedding on me
its leaves of lightning.


Ligações relacionadas:

Luiza Neto Jorge

Rodrigo Leão – A Magnólia

Claude Monet – Nymphéas (Water Lilies)

Musée de l’Orangerie

Rui Almeida – um poema

Última escolha da escolha “Resumo, a poesia em 2009”. Outros autores ou poemas gostaria de deixar aqui (todos os de Luís Filipe Parrado, ou de David Teles Pereira, de Rui Pires Cabral ou de Ana Salomé, apenas para falar dos mais novos ou ainda menos conhecidos, mas cujos trabalhos estão mais acessíveis online). Escolhe-se o belíssimo poema de Rui Almeida.

O homem que se olha ao espelho sabe

Que vai morrer. Não sabe quando ou como,

Mas reconhece a finitude da vida

— Da sua vida, de cada vida.


Contempla o processo biológico

E admira-se perante o zelo do tempo

A modelar-lhe a velhice no rosto.

Dino Valls, "Las tentaciones de San Antonio", 1991, Têmpera de ovo e óleo © Dino Valls (D.R.)

in “RESUMO, a poesia em 2009″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010

originalmente publicado em: Almeida, Rui, “Lábio Cortado”, Torres Vedras: Livro do Dia, 2009

José Tolentino de Mendonça – “Para ler aos Noviços”

Colecta da selecção “Resumo –  a poesia em 2009“, edição da Assírio & Alvim. Um poema de José Tolentino de Mendonça, um dos quatro escolhedores que organizaram o volume.

Para ler aos Noviços


Deus não aparece no poema

apenas escutamos a sua voz de cinza

e assistimos sem compreender

a escuras perícias


A vida reclama inventários e detalhes

não a oiças

quando inutilmente perscruta as sequências do seu trânsito


Só há um modo verdadeiro de rezar:

estende o teu corpo ao longo do barco

que desce silencioso o canal

e deixa que as folhas mortas dos bosques

te cubram

Fisherman biplavC © biplavC via Deviantart

in “RESUMO, a poesia em 2009″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010

originalmente publicado em: Mendonça, José Tolentino de, “O Viajante Sem Sono”, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

Bénédicte Houart – um poema

Poema de Bénédicte Houart escolhido para integrar a colectânea “Resumo –  a poesia em 2009“, edição da Assírio & Alvim com o apoio da FNAC.

jaz viva e adormece

a menina de sua mãe

os caracóis soltos na almofada

os braços a bacia os pés partidos

o corpo pousado na cama articulada

as flores murchando na jarra improvisada

sentada numa cadeira a seu lado

a mãe descose as suas camisas de dormir

o corpo danificado

inchou de dor de nada

politraumatizada

jaz viva e anoitece

a menina de sua mãe

"Deep deep sea", © Sugarock via Deviantart

in “RESUMO, a poesia em 2009”, Lisboa: Assírio & Alvim,2010

(originalmente publicado em:) Houart, Bénédicte, “Aluimentos”, Lisboa: Livros Cotovia, 2009.

Manuel António Pina – As Vozes


AS VOZES


A infância vem

pé ante pé

sobe as escadas

e bate à porta

– Quem é?

– É a mãe morta

– São coisas passadas

– Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!

E se somos nós quem está lá fora

e bate à porta? E se nos fomos embora?

E se ficámos sós?

PINA, Manuel António, Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999

© Débora Klempous, Olhares, Fotografia Online

A. M. Pires Cabral – A Um Galo

Um poema de A. M. Pires Cabral, recentemente galardoado com o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava (2009). Pode encontar-se uma excelente entrevista de Carlos Vaz Marques ao escritor, publicada nas páginas da revista LER.

A UM GALO


Aquele que injuriava a madrugada

com ácida, assídua voz.

O que tinha esporões por baioneta,

o do ciúme em brasa.


O galo. Um osso dele

ainda no quintal.

CABRAL, A. M. Pires, “O Livro dos Lugares e Outros Poemas”, Lisboa: Assírio & Alvim, Lisboa, 2006

Mosaico da série "Árvore do Paraíso" © Brooklyn Museum

Cenas da “Árvore do Paraíso”. Colecção de mosaicos judeus romanos, datados do século III, recuperados da antiga sinagoga de Naro, Tunísia.

(clique para ampliar)

Al Berto – notas para o diário

“Aterrador foi ter-me apercebido o que havia neste livro de premonitório («Horto de Incêndio»). A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. “Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque.”Al Berto

notas para o diário


deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


AL BERTO, “Horto de Incêndio”, Lisboa: Assírio & Alvim, 3.ª Ed., Dezembro 2000. p. 38-39

fotografia de Paulo Nozolino (pormenor da imagem de capa de "Horto de Incêndio")

Poesia Portuguesa (35) – Carlos de Oliveira

Carlos de Oliveira escritor e poeta ‘neo-realista’? Os rótulos, os rótulos. Também se pode afirmar que os dentes não são matéria erótica. Também é uma questão de rótulos!


Dentes

Os dentes, porque são dentes,

iniciais. Na espuma,

porque não são saliva

estas ondas

pouco mordentes; este

sal que sobe quase

doce; donde?


Numa espécie

de fogo: amor é fogo

que arde sem se ver;

porque não é

de facto fogo este frio aceso;

da saliva à lava

passa pela espuma.


Só os dentes.

Duros, ácidos, concentram-se

tacteando a pele,

tatuando signos sempre

moventes

de fúria. Mordida

a pele cintila; espelho

dos dentes, do seu esmalte voraz;

suavemente.

OLIVEIRA, Carlos de, Trabalho Poético, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 2003 (Obra reunida, o poema foi publicado originalmente em Pastoral, 1977)

'Boca de canela na boca.' © Isabela Daguer, Olhares, Fotografia Online

'Boca de canela na boca.' © Isabela Daguer, Olhares, Fotografia Online


Até já, senhor João Bénard da Costa

Agora que já toda a gente falou bem, falando bem, e justamente bem, de João Bénard da Costa, é fútil dizer seja o que for. Mas apetece-me muito citar as últimas linhas do livro onde se reúnem as suas crónicas n’ O Independente:

(…) Também, por isso não me despeço. Vou ficar por aqui enquanto gostar e sei que hei-de gostar enquanto cá estiverem as pessoas por causa de quem gosto. Vou só descansar um bocadinho e voltar com fato novo. Feito de fitas, feito de mim. Também nisso não vou mudar. Não sei fazer ou falar de outra coisa. Até já.

BÉNARD DA COSTA, João, Os filmes da minha vida/Os meus filmes da vida, p. 268, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 1990.

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

Ruy Belo – Coisas de Silêncio

Impresso na Guide-Artes Gráficas, Lda. (com um fabuloso preto e branco que só a técnica de impressão de retícula estocástica permite), em Junho de 2000 a editora Assírio & Alvim dava à estampa ‘Ruy Belo – Coisas de Silêncio‘, livro onde a fotografia de Duarte Belo fixa o ‘mundo’ de seu pai, Ruy Belo. Estamos no lado oposto ao da fotobiografia. Duarte Belo capta ‘momentos’ – correspondentes à estrutura do livro – definidos textualmente pelos autores, (o fotógrafo e Duarte Belo): «O primeiro momento representa alguns lugares que foram habitados por Ruy Belo e que muitas vezes surgem nos seus versos»; (…) «Num segundo momento, passamos o nosso olhar por alguns objectos do quotidiano de Ruy Belo»; (…) «Depois, há um terceiro e último momento de alguns rostos de identidade de Ruy Belo».

Duarte Belo fotografa, com um grande sentido do discreto, uma ausência. E é essa ausência que confere à obra intensa espessura e um sentido de perda, de desolação se instala. Acompanhadas por excertos da obra do poeta, e um texto de Manuel Gusmão, “Para a Dedicação de um Homem – Algumas variações em resposta à poesia de Ruy Belo“, é contudo, o texto de Luís Miguel Cintra, que abre o livro, a melhor leitura para o indizível que estas fotografias encerram. O seu silêncio povoado de sombras.

[O livro foi reeditado em tempos recentes, em edição de capa dura. A minha sugestão para a Feira do Livro de Lisboa, este ano]

Reconhecemo-nos ainda. Gostamos do mar e da terra a céu aberto. Árvores, searas, pedras, montes. Da praia. Dos campos. Das igrejas. Das aldeias e das cidades com passado e com ruas muito grandes. Dos textos antigos. De cartas e postais. E dos livros. E do povo. Das procissões. Dos cafés. Do cemitério. De ir ao cinema. Ler o jornal. Mozart e Bach. Não sabemos pôr gravata. Ainda temos camisas aos quadrados e vestimos camisola. Não gostamos da manha e da astúcia. Somos pobres. Temos o sol e só o que nos toca o coração. Alguns amigos mais. E carregamos nos ombros o amor da vida toda e uma enorme saudade de Deus. Somos católicos. Acreditamos na alegria e na pureza. Sabemos que o homem é Deus feito carne.

Reconhecemo-nos. Somos assim generosos, é verdade. Sem esforço. E não vamos mudar. Não sei se somos um grupo nem seremos com certeza uma geração, somos uma maneira de ser. E na poesia do Ruy nos encontramos.

Sou e quero ser irmão ou herdeiro dessa gente. Como o Duarte, legitimamente. E reconheço nas fotografias do Duarte, como na poesia do Ruy, a passagem das nossas vidas, os lugares, as nossas casas, os objectos a que nos afeiçoámos ou demos sentido, a memória dos nossos corpos, dos nossos encontros, dos nossos grandes amores ou da nossa paixão. A minha casa. Reconheço também o meu pai. Mas reconheço sobretudo o espaço. Ou o tempo. «O Tempo Sim o Tempo Porventura». Estas fotografias, o seu pudor, são o retrato de uma ausência. São fotografias da morte. Violentas. O que resta de um cidadão, a mudança das idades, as coisas que tinha, os lugares onde esteve ou onde estava, a roupa que vestiu, o que ficou do que escreveu. São o retrato do tempo que foge, imenso. Mas mais ainda, tanto, o retrato do que falta. Falta a vida neste vazio, neste espaço que vai da terra ao céu. E esse espaço, esse vazio, é exactamente o espaço das palavras do Ruy. O espaço do que vive. Perante a morte, constantemente, nesse único momento que se confunde com a solidão mas abraça o mundo inteiro e que nos dá a nós a dimensão da vida. Tão imensa diante do tempo que talvez nem na paixão possa encontrar a sua desejada desmedida. Tão grande que convoca Deus. E já não sabemos de que ausência falamos.

LUÍS MIGUEL CINTRA

 © Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]

© Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]


Poesia Portuguesa (24) – Gastão Cruz

Fora de tempo (parece ‘estatuto editorial’), aqui se refere que na quarta-feira, dia 11, Gastão Cruz venceu o Prémio Literário Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa, este ano dedicado à poesia. Aqui se deixa um poema do livro a que foi atribuído o galardão, A Moeda do Tempo. E o link para o evento literário, que este ano comemora a sua 10ª Edição, e adquire, na Póvoa de Varzim, uma importância muito significativa no panorama dos eventos literários em Portugal.

NO SOL

Irás achar que foi um erro e foi

um erro, que nada se passou

e na verdade nada acontece nunca

de verdade: a verdade seria


eterna e o acontecido pertence

aos eclipses do tempo precipícios

em que depois da morte ficam vivos,

como se o não estivessem, os momentos


caídos;

foi isso um erro porque nada existe

nem nós, já ao império das vagas

submetidos,


porém na praia oblíqua onde estivemos

permanecer no sol foi tudo o que quisemos


Gastão Cruz, A Moeda do Tempo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006.

Por do Sol Praia Faro © Paulo Alexandre, Olhares, Fotografia Online

Por do Sol Praia Faro © Paulo Alexandre, Olhares, Fotografia Online