As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Assírio & Alvim

Al Berto — [os dias sem ninguém]

 

os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos

         foi bela a madressilva
         subindo pela noite da morada esquecida

pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço

luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho

restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar

 

Al Berto. O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

 

fotografia: Paulo Nozolino

Herberto Helder — O Extremo Poder dos Símbolos

 

 

«O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar.»

 

Herberto Helder. Photomaton & Vox, Lisboa: Assírio & Alvim, 1979.

 

monoceroi © by monoceroi, via Deviantart (D.R.)

Luiza Neto Jorge — Venho de dentro, abriu-se a porta…

 

Venho de dentro, abriu-se a porta:

nem todas as horas do dia e da noite

me darão para olhar de nascente

a poente e pelo meio as ilhas.

 

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo

de só imaginá-la a luz fulmina-me,

na outra face ainda é sombra.

 

Banhos de sol

nas primeiras areias da manhã

Mansidões na pele e do labirinto só

a convulsa circunvolução do corpo.

 

Luiza Neto Jorge, A Lume, Lisboa: Assírio & Alvim, 1989

 

«time», Magda Kołakowska, © Magda Kołakowska, via Deviantart (D.R.)

Luiza Neto Jorge no portal da D-GLB

Luiza Neto Jorge na página da revista Relâmpago

 

Fernando Assis Pacheco — Um Campo Batido pela Brisa

A tua nudez inquieta-me.

 

Há dias em que a tua nudez

 

é como um barco subitamente entrado pela barra.

Como um temporal. Ou como

certas palavras ainda não inventadas,

certas posições na guitarra

que o tocador não conhecia.

 

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo

para um lado misterioso e frágil.

Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe

contorno, peso. Destrói o meu corpo.

A tua nudez é uma violência

suave, um campo batido pela brisa

no mês de Janeiro quando sobem as flores

pelo ventre da terra fecundada.

 

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas

com o vocabulário da tua nudez.

Tenho «um pensamento despido»;

maturação; altas combustões.

De mão dada contigo entro por mim dentro

como em outros tempos na piscina

os leprosos cheios de esperança.

E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete

que lanço com mão tremente desastrada

para rebentar e encher a minha carne

de transparência.

 

Sete dias ao longo da semana,

trinta dias enquanto dura um mês

eu ando corajoso e sem disfarce,

iluminado, certo, harmonioso.

E outras vezes sucede que estou: inquieto.

Frágil.

Violentado.

 

Para que eu me construa de novo

a tua nudez bascula-me os alicerces.

 

 

Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.

 

 

«Corporality», Michal Huštaty © Corporality, via Deviantart (D.R.)

 

 

Fernando Assis Pacheco no portal da D-GLB

Al Berto — recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

in Horto de incêndio, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997

 

 

Herberto Helder — LEVANTO as mãos e o vento levanta-se nelas.

 

LEVANTO as mãos e o vento levanta-se nelas.

Rosas ascendem do coração trançado

das madeiras.

As caudas dos pavões como uma obra astronómica.

E o quarto alagado pelos espelhos

dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.

Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.

E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento

contra o terror que o arrebata. Os olhos contra

as artes do fogo.

Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.

 

Helder, Herberto, Ofício Cantante, Lisboa: Assírio & Alvim 2009

 

fotografia: «7_Troco de oliveira recolhido em Santa Bárbara de Nexe. Museu de Faro. 2005» — Duarte Belo

 

   Herberto Helder no site da DGLB

   Site do fotógrafo Duarte Belo

Helder Moura Pereira — Quando estamos assim

Quando estamos assim

deitados e nus, sem

a minha cara saber

se é a tua cara à frente

dela, parece-me bem

que o mundo é uma coisa

às escuras, sem importância

nenhuma. Dou a volta,

rodopio como um artista

de circo, estou dentro

de uma rotina, quando

lavo os dentes e visto

o pijama de flanela às riscas

sinto-me um miúdo pequeno

que desconhece o que é

morrer. Chamaste-me

sentimental, sentimental

é a tua tia.

 

Pereira, Helder Moura, Um Raio de Sol, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

 

«9.04», Antagonist © Antagonist, via Deviantart (D.R.)

 

Helder Moura Pereira no site da D.-G. L. B.

Fiama Hasse Pais Brandão — O Nada. Sobretudo na Fase de Exaltação

Os ramos de árvores despidos que nos lembram
o nada. Sobretudo na fase de exaltação
do espírito. Com a cabeça encostada
aos vidros altos.

Simultaneamente procurar o centro
da irradiação. O Sol matinal com os seus hiatos
preenchidos por casas. Ameias onde se
invertem os vértices do horizonte.
Sol magnânimo

fixo sobre as árvores abençoadas sem
folhas. Infinitos pormenores visíveis e
espaços audíveis preenchem a hora exaltada.
Ponto profusamente cheio. Um fino
silêncio exterior

sinal do nada circundante. Graveto
junto de graveto cruzados para além do fim
da perspectiva. Um significado diverso
naquelas ameias em outros planos. O nada
sempre coeso. Uma respiração intangível
e sem sombras.

Hasse Pais Brandão, Fiama, Três Rostos, Lisboa: Assírio e Alvim, 1989.

 

«Pollock Trees», Neptunia © Neptunia, via Deviantart (D.R.)

 

  página sobre Fiama Hasse Pais Brandão

Manuel António Pina — A ferida

 

A ferida

Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado. Mas onde encontrar um passado?

 

Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa – uma antologia pessoal, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011

 

«What time is it?» — Shutterbug © Shutterbug, via Deviantart (D.R.)

   Página da D.-G. L. B. que assinala a atribuição do Prémio Camões 2011 a Manuel António Pina, com hiperlink para página sobre o autor.

António Maria Lisboa — Rêve Oublié

 

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.

 

António Maria Lisboa, Poesia de António Maria Lisboa, Assírio & Alvim, Lisboa, 1980 (originalmente publicado em Ossóptico, 1952)

 

Desenho de António Maria Lisboa dedicado ao Mário Henrique (Leiria), Paris, 1949

 

   Página do Instituto Camões dedicada  a António Maria Lisboa

  «Do amor em vidro: António Maria Lisboa». — Estudo sobre o artista da autoria de Virgínia Boechat.

José Tolentino Mendonça — Versões do Mundo

 

Se tiveres de escolher um reino

escolhe o relento

a noite tem a brancura do alabastro

ou mais extraordinário ainda

 

Ao que vem depois de ti

cede o instante

sem pronunciar

seu nome

 

Mendonça, José Tolentino, O Viajante sem Sono, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

 

«at night», Loïc © Loïc, via Deviantart (D.R.)

Mário Cesariny — Uma Certa Quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Mário Cesariny, Pena Capital, Lisboa: Assírio e Alvim, 2004 (3.ª edição)

 

«Linha d`Água» (s/d), Mário Cesariny —óleo sobre madeira, colecção MAC

(clique para ampliar)

  Página sobre Mário Cesariny D.-G. L. B.)

  Página sobre Mário Cesariny enquanto artista plástico, artigo de Bernardo Pinto de Almeida, Agulha, Revista de Cultura.

Alexandre O’Neill — epitáfios

No dia 21 passaram 25 anos sobre a morte de Alexandre O’Neill. Passar é, no caso vertente, a palavra-chave, já que o escritor a ela se refere, em ligeira e divertida crónica a propósito de epitáfios. Uma vez que os textos elegíacos já estão todos (não) escritos, transcreve-se aqui o texto de O’Neill sobre epitáfios, assunto que, como se sabe, se presta a préstitos tanto quanto a humor.

   Coleccionar epitáfios pode muito bem ser uma suave tarefa estival. Além disso, avizinhando-se o Outono e, com ele, a rentrée (salvo seja), convém que se tenha à mão um sortido, tão variado quanto possível, dessas frases rotulares (rupturas…) que os vivos gostam de imaginar que vão ter na tampa depois de mortos… Incito, pois, os leitores — à falta de uma* Grande Concurso Nacional de Epitáfios, que a imprensa podia muito bem, e muito a tempo, promover — a demorarem-se na salutar meditação sobre a gravidade e a densidade dessas curtas frases definitivas que nos olham nos olhos e que, afinal, são de vivos que nos falam através dos mortos.

    Um, que não foi premeditado, antes produto do acaso objectivo, resume-se na palavra OSTRAS, aposta no vagão selado onde viajou de* Alemanha para a Rússia o cadáver de Tchecov. O supremo ironista não desdenharia uma cottage desta categoria…

    Num plano mais vulgar, temos aquele que podia muito bem ser criação nossa, mas que nos chegou do Brasil:

    Aqui jaz

    Bento Bexiga

    Que acendeu um fósforo

    Para ver se tinha gasolina

    No depósito do seu carro

    e… tinha mesmo!

E, requintando agora um pouco, aquela fustigação que a Igreja nos faz constantemente para que nos lembremos que não passamos de um barro vil:

    Nós, ossos que aqui estamos,

    Pelos vossos esperamos.

Donde Mello e Castro, o mais importante, *não dizer o único, concretista português, podia muito bem tirar um grafismo eloquente:

    v’ossos

Sem cair no artificialismo da Antologia de Spoon River, mais jogo de comadres que jogo de epitáfios, acrescento a esta primeira amostragem o célebre:

    Aqui jaz

    Mark Twain

    Que sempre disse que isto havia de acontecer

E termino (por agora…) com o ainda mais célebre epitáfio stendhaliano, que um piedoso amigo romancista acabou por estragar com a mania da literatura:

    Arrigo Beyle

    milanês

    Escreveu. Viveu. Amou.

    Viveu, amou, escreveu — era a sequência pensada e escrita por Stendhal, grenoblês que, mesmo depois de morto, queria homenagear a cidade que mais amou: Milão. Porém, o primado da literatura viria, como sempre, deitar tudo a perder…

O’Neill, Alexandre, Luta, 3, Agosto, 1976, in Coração Acordeão, Lisboa: O Independente Global e Assírio & Alvim, 2004

ilustração de André Carrilho para a capa do livro


* transcrito como no original (prováveis erros tipográficos)

   página da D-G LB sobre Alexandre O’Neill

   página de André Carrilho

Al Berto — Corpo

 

Corpo corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo

Al Berto, O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

 

fotografia de Marta Streng (D.R.)

Herberto Helder — Engoli

 

Engoli
água. Profundamente:  a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.

 

Helder, Herberto, Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

 

«- glass -» Luthe, © Luthe, via Deviantart (D.R.)

António Franco Alexandre — Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

 

Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

e a água onde mergulhas logo encerra

em fresca e fina luva o corpo inteiro

e sem pudor algum te abraça e beija.

Mesmo o vulgar sabão, no tanque absorto,

pela nudez da carne se insinua

e entre as coxas flutua, como um peixe

mais branco, que outra sombra continua.

Mas eu, quando me cubro do teu rosto

e sou somente de água e fogo feito,

melhor ainda te conheço e quero,

e nada no teu corpo me é alheio:

em cada grão de pele te desejo,

em cada ruga leio o meu destino.

Alexandre, António Franco, Duende, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

«e-motion study», James Franco © James Franco via Deviantart (D.R.)

Armando Silva Carvalho — Antero, areia e água

O presente poema está evidentemente na origem e anuncia mesmo o livro  Anthero Areia & Água (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010),  trabalho de grande fôlego e intenso diálogo com a obra e a figura do poeta Antero de Quental, livro justamente reconhecido pela generalidade da crítica e distinguido com o Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, atribuído pela Câmara Municipal de Amarante. Neste longo poema, quase imediatamente publicado antes do livro referido, podemos encontrar já o âmago da poética deste: um largo e íntimo questionamento sobre Quental, que se traduz num questionamento sobre o próprio autor, a sua condição, a sua condição de poeta.

Antero, areia e água

 

 

Como todos acabamos, acabaste.

Mas não acabaste como quase todos acabamos.

Sentaste-te num banco de jardim,

Separado pelo mar,

Separado de ti, separado de separações

Que te obrigassem a unir

Os ossos redimidos, os músculos mentais

Desse palácio de ideias, no dizer de Sérgio,

Que durante tanto tempo construíste

 

E disparaste dois tiros.

 

Na boca,

Exactamente,

Sem qualquer espécie de retórica.

 

Na longa sucessão dos anos,

Há muitos que de ti se vão aproximando

Por dever de ofício, por exigência histórica,

Ou por outra natureza qualquer que não convém

Ou vem agora a lume.

 

Por mim, pois sou eu que estou aqui

Por trás da escrita,

Queria perceber — entre a leitura dos textos

E o que a invenção do tempo me faz chegar às mãos

Que ainda estremecem —

A estranha sedução que me provoca

O que ficou do corpo, que dizem que foi teu,

Impresso numa revista a meu lado

Sobre a secretária.

 

 

Um rosto, sobretudo o rosto, pintado por Columbano.

 

Devo, no fundo, ao pintor

O desejo de morte que me arrasta de súbito, numa carga

Erótica,

Para essa santidade por ti tão apregoada

Em falas sucessivas, em ondas de amor absoluto

E bem supremo.

 

O meu sexo sempre reagiu

à sublime inércia em que os corpos se expõem

Em mágoa, em desconforto,

E não surge da culpa, mas da ideia perversa

Duma serenidade casta,

Diva (ó tempos tão modelados na ópera)

E rediviva.

 

Mas não quero que estes versos

Sejam

Uma vez mais o leito onde a ironia corra

Dum suposto sémen

Derramado em vozes de castrados, solitárias farsas,

Preservados delíquios.

 

Por isso peço perdão ao leitor mal

(ou bem)

Intencionado.

 

Hoje entrego-me total e mentalmente a Antero.

Direi depois se puder

E em livro

As causas desta minha decadência

Já surda à voz das grandes multidões,

Cansadas também elas

Das palavras que lhes deitam por cima como bombas

Em árias suicidas

No palco da mentira universal.

Como ele também dizia.

 

Repito:

Entre a beleza funérea

E a pouca areia e água em que vejo afundar-se

A minha vida

Corre a extinta luz dum mundo

Já sem mundos.

 

E nessa cinza, como um desafio,

Consigo decifrar as pegadas de Antero

A caminho do supremo

Nada.

 

Carvalho, Armando Silva, Colóquio/Letras n.º 173, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro/Abril 2010

 

«Antero de Quental» [1889], Columbano Bordalo Pinheiro, Museu do Chiado, Lisboa

Link Relacionado

Sobre Armando Silva Carvalho

António Franco Alexandre — Debaixo do colchão tenho guardado

 

II

Debaixo do colchão tenho guardado

o coração mais limpo desta terra

como um peixe lavado pela água

da chuva que me alaga interiormente

Acordo cada dia com um corpo

que não aquele com que me deitei

e nunca sei ao certo se sou hoje

o projecto ou memória do que fui

Abraço os braços fortes mas exactos

que à noite me levaram onde estou

e, bebendo café, leio nas folhas

das árvores do parque o tempo que fará

Depois irei ali além das pontes

vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;

mas com cuidado, para não ferir

as minhas mãos astutas de princesa.

Alexandre, António Franco, Quatro Caprichos, Assírio & Alvim, 1999
(Prémio Luís Miguel Nava 2000)


António Ladeira — Há anjos

 

 

«where the angels float», Nuxk © Nuxk, via Deviantart, (D.R.)

 

Há anjos

à memória de Mário Cesariny

 

Há anjos

que não compreendem o que dizemos

que não compreendem o próprio sentido

das palavras que, incessantemente, repetem

da esperança universal de que têm de nos convencer diariamente.

 

Há anjos que ressonam como foles

que andam cansados porque estão acordados há séculos

que precisam de ser transportados às costas

alimentados intravenosamente

protegidos da ferocidade do mundo.

 

Há anjos que lêem livros

anjos que escrevem poemas.

 

Há anjos que deixaram crescer a barba

que gostam de se deixar adormecer pelo comovente murmurar

das barbearias.

 

Há anjos que acabaram de nascer

que têm nomes vulgares

que viajam de avião

que até gostam de aeroportos.

 

Há anjos secretamente apaixonados por fadas,

por longos rios cheios de luzes

por súbitos glaciares.

 

Há anjos que são subcutâneos.

 

Há anjos que estão sempre com febre

que são ingénuos como enigmas.

 

Há anjos que vivem em arranha-céus,

que trabalham em andaimes

de onde às vezes se precipitam de propósito.

 

E há anjos que são funâmbulos.

 

Há anjos que talvez nos surpreendam

que às vezes nos saúdam, disfarçadamente, por entre a multidão

que abrem os olhos de noite.

 

Que, na sua voz interrompida, mutilada,

pedem calma.

 

Pedem muita calma.

 

Ladeira, António, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, pp.19/20

[originalmente publicado em Relâmpago/26, Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2010]

 

«yesterday», Corbin K. Zahrt © Corbin K. Zahrt, via Deviantart (D.R.)

 

Links relacionados:

Sobre António Ladeira

José Tolentino Mendonça — Me and my brother

 

 

«Porque a experiência do divino não se dá exclusivamente em lugares dedicados à oração e em espaços que em gratuidade facilitam o silêncio, mas em plena 2ª circular em hora de ponta, nas rotundas onde o tempo é dobrado, e nas ruas cheias de encontrões de Álvaro de Campos» — Raquel Nobre Guerra

 

 

Me and my brother

 


Percorria os lugares daquela fotografia

a muralha de silvas, a quinta reencontrada

os finais de ano

e aquilo que depois não está

onde antes existiu

 


tinha esquecido para que serve

a infância

não é uma terra protectora

ao contrário do que dizem

com os seus céus que vemos cair

os fragmentos selvagens

em que mais tarde pensamos

vezes sem conta

o pudor já então reconhecível

que nos faz trair a vida

um pouco como tudo isto


Mendonça, José Tolentino, Baldios, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999

 

«twins», Kamila Czajkowska © Kamila Czajkowska, via Deviantart (D.R.)