As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Rui Manuel Amaral – Doutor Avalanche

Foi lançado no dia 4 de Dezembro o novo livro de Rui Manuel Amaral, «Doutor Avalanche», edição da Angelus Novus. O livro tem um blogue próprio, onde se pode encontrar  exaustiva informação, bastante útil para um conhecimento adequado do título e do autor, incluindo notas críticas, onde se destaca a singularidade da escrita e do estilo de Rui Manuel Amaral no panorama da actual narrativa que se publica em Portugal. Várias são as referências a uma tradição (estribada em diversos autores), podendo ler-se: «(…) é exímio na arte do malogro. Usa de notas de rodapé que acrescentam vazio ao vazio das histórias, recorre ao humor e ao absurdo, por vezes ao puro nonsense leariano para desmontar chavões literários, frases feitas, clichés». Ao ler Rui Manuel Amaral, não me é possível deixar de pensar em Mário-Henrique Leiria como memória incontornável para a leitura da escrita deste autor.

o que os peixes decidiram fazer

Amaral, Rui Manuel, Doutor Avalanche, Coimbra: Angelus Novus, 2010

Capa do livro. Design de Sandra Roldão.

 

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Rui Manuel Amaral – dois textos

Com um percurso de escrita iniciado na poesia, Rui Manuel Amaral (Porto, 1973), tem vindo a desenvolver a sua escrita na peculiar forma do pequenos contos (ou micro-contos, ou micro-narrativas, as catalogações de nomes precisam, mesmo que imprecisos). O trabalho de Rui Manuel Amaral pode ser acompanhado no blogue dias felizes, ou no seu primeiro livro, Caravana (Angelus Novus, 2007), de que existem ainda exemplares disponíveis. Do seu novo livro, ainda sem título, programado para sair em Outubro, aqui se pré-publicam dois textos que nele serão incluídos, por graciosa cedência e anuência do autor. Textos num registo formalmente muito seguro, entre o absurdo, a ironia e uma narratividade que desconstrói os lugares comuns, os comuns lugares.

DIOPTRIAS

Havia um homem – chamemos-lhe Anke – que era muito míope. Tão míope que quando abria os braços deixava de ver as mãos. E dos pés tinha apenas uma nebulosa memória. Deixara de os ver há muito tempo. Ora, os pés tinham-se transformado em dois monstruosos peixes e o homem ignorava inteiramente esse facto. Quando caminhava, os peixes agitavam as barbatanas – plof, plof, plof –, balançando-se para a direita e para a esquerda, palmilhando a custo os caminhos. Era um espectáculo difícil de descrever.

Sem a consciência dos extravagantes “pés”, Anke era um homem feliz. Levava uma existência pacata e tão confortável quanto lhe permitiam as suas nutridas dioptrias. Um belo dia, porém, a miopia desapareceu num fulminante piscar de olhos (o que são as coisas). E o nosso homem, cheio de esperança, preparou-se para redescobrir as amplas formas do mundo.

Nisto, surgiram os infernais peixes, do fundo das sombras, em todo o seu esplendoroso horror. Anke não deu um passo, não fez um gesto, não mexeu um músculo sequer. O espanto tolhera-lhe a voz e os movimentos. Oh! visão terrível! Ali estavam eles onde sempre estiveram, a agitar nervosamente as barbatanas – plof, plof, plof. Era impossível imaginar algo que ofendesse mais o bom gosto e a decência.

Sentiu-se então invadido por um desalento muito, muito profundo. A sua tristeza e palidez metiam dó. Chegou a julgar mais de uma vez que morreria de desgosto. Mas não morreu.

*

O HOMEM QUE TINHA DOIS CORAÇÕES

Era uma vez um homem que a natureza dotara com dois corações. Ou seja, em cujo peito pulsavam dois corações. Ou seja, que viera a este mundo com dois desses maravilhosos órgãos. Tudo muito bem.

Certo dia, porém, um dos corações parou. Nada de muito grave, uma vez que o homem dispunha ainda do segundo. O problema é que a história não é assim tão simples. Esqueci-me de referir* que os dois corações dedicavam um ao outro uma paixão antiga, profunda e avassaladora. Como se costuma dizer, no coração daqueles corações ardia a chama do mais puro amor. Assim, quando o primeiro parou, o segundo derreteu-se em lágrimas e deixou de bater por causa do desgosto.

Concluindo, o homem não resistiu e morreu. Seja como for, a morte não resultou destes sobressaltos cardíacos, digamos assim. O homem faleceu na Arcádia em virtude de uma mordedura de serpente. E agora que está morto, a vida também não lhe tem sido fácil.

* Não é verdade. Estava assaz ansioso por escrever isto. Mas procuro ser um narrador competente e, por isso, esperei pela altura certa para fazer esta significativa revelação.

A escritora e o orgasmo

[Singelo preito à escritora, bióloga e modelo Clara Pinto Correia, por ocasião da inauguração da exposição Sexpressions.]

«Posso morrer porque amei e porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.»

LOPES, Adília, “Irmã Barata, Irmã Batata”, Braga: Angelus Novus, 2000. p. 13-14.

"A character made of polygons that I created a while ago. I tried to bring life to her by creating facial expressions." - Alex (3dsMax/2005) - © Tom, le RayonV

“I tried to bring life to her by creating facial expressions.”