As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Ana Salomé

Ana Salomé — Grandes poetas

Notável poema sobre antigo e assinalável dilema, nada novo, mas… Aqui esplêndido, na forma como é poeticamente exposto por Ana Salomé. Perante a idealização poética de uma realidade concreta (expressa nos poemas, no “antes”) e uma realidade concreta que se realiza de forma natural, aparentemente banal, mas tão mágica (como nos poemas), distancia-se este texto da finalidade poética, com traços marcados pela ironia, que o próprio título já enuncia, e paradoxalmente pela mais cortante definição de uma verdade que é sua, da autora. Alcança uma maravilhosa formalização, como seria de esperar da autora.

 

Grandes poetas

Agora talvez entendas porque não escrevo
entretida com a arquitectura volátil dos dias
com os afazeres esponsais e profissionais
a apanhar eléctricos em curto-circuitos
às voltas com este tumulto manso que abafo
porque, sejamos sinceros, só grandes tumultos
dão grandes poetas, de resto há a frieza
dos que se mentem a si próprios
e vão chamando a si os pássaros
quando o que deveriam era libertar os seus
numa torrente que não acompanham ortografias
nem radiografias sentimentais.

Desculpa se me tornei naquilo que queria ser
quando escrevia: amante e amada
de tal forma que se tocar em flores elas se multiplicam
se beber água nasce um caudal por entre milhares de minérios
se falar de estrelas um segundo demora anos-luz a passar.
À antiga pergunta se antes a vida que a escrita
melhor a primeira quando pior é a segunda
porque, mais uma vez a sinceridade,
só grandes vidas dão grandes escritas,
grandezas díspares, com certeza, mas grandezas, sem dúvida.

Assim chego eu a casa e faço o jantar
e lavo a loiça – quando não a acumulo em pilhas –
e leio livros – quando não me lembro da televisão –
e sou feliz quando enlaço as mãos na maresia
e vou ao cinema com amigos
e passeio de braço dado com a mamã.

Se isto dá uma grande poeta?
tenho-me perguntado, todos os dias,
e à noite uma cavalgada inquieta
dirige-se à região desamparada do cérebro
à côncava existência do corpo ainda insatisfeito
a essa solidão sublime que me levou em certos dias
aos Himalaias e noutros ao farol de Brest.
Nesses segundos que se dirigem a mim
Von Hofmannsthal volta ao esperma para não nascer
e tudo é possível desde amar mulheres até matar
e sobreviver ao crime limpidamente.

Nesses segundos os meus poemas poderiam ser grandes
e ser eu uma grande poeta
apascentando-me de folhinhas de louro
e para mim ter metros infindos de mundo por explorar.

 

Ana Salomé in «Pátio Alfacinha»— blogue da autora, 20.01.2012

 

«start», elojoizquierdo © elojoizquierdo, via Deviantart (D.R.)

 

Pátio Alfacinha, blogue de Ana Salomé.

[tendo deparado agora com este notável poema, quis trazê-lo para aqui, de imediato. À Ana Salomé peço indulgência pela transcrição, que não foi, em nenhum sentido, um copy/paste]

Catarina Nunes de Almeida – «Bailias» (apresentação e um poema)

 

 

Poema do novo livro de Catarina Nunes de Almeida, «Bailias» (após «Prefloração», Quasi, 2006 e «A Metamorfose das Plantas do Pés», Deriva 2008) , de novo com a chancela da Deriva, que persistentemente continua a apostar nos seus autores e na poesia. Antecedido pela sinopse de contracapa, da autoria de Ana Salomé. Na imagem, o programa de apresentação do Livro em Lisboa, no Teatro da Casa da Comédia, dia 11 de Novembro às 21.30h.

«Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico.» – Ana Salomé

 


Irei eu se ele for

na cavalgada.


Irei eu a galope em meus pés

veloz por entre as avezinhas

do fundo das águas-furtadas

em águas de lábios furtadas

veloz e espessa como a torrente

de um parto.


Irei eu em todas as minhas mãos

pégasos e ventanias

o corpo preso por um frio gentil

o corpo a tilintar de sonhos.


Serei eu o que ele for

na cavalgada.


Irei eu sem música sem mesa posta

dar-lhe prato verde

onde caibamos os dois dar-lhe

este emudecimento este abatimento cardíaco

da floresta.

Almeida, Catarina Nunes de, Bailias, Porto: Deriva Editores, 2010

 

Cartaz de apresentação do livro

 

Links Relacionados:

Catarina Nunes de Almeida

No blogue da Deriva

Bailias

Ana Salomé – “Escuto o bater da terra,”

Escuto o bater da terra,

o terceiro conto que minhas irmãs

leram antes de vir parar aqui.

Por diferentes casas nos dispersámos,

bebendo leite, ensinaram-nos as letras,

partimos a meio vermes, rasgámos photos,

perdemos a virgindade sobre mantas de zebra,

deixámo-nos morder pelas meias-noites centopeias.

Já não nos reconhecemos,

nem nos espelhinhos das carteiras,

mas eu amo minhas irmãs

que me colocaram numa noz de sangue,

que me embalaram no céu dos seus colos

como uma nuvem branca estendida ao sol.

Preciso delas, de saber que conto vem depois,

que passos se dão sobre a terra, que quarto alua,

que vestido escolher no dia do seu regresso.

Ana Salomé,  via Candeia, publicado com autorização da autora.

"Detachment" © Sasha via Deviantart

Guta Naki

"Os Poetas da Meia Noite" - fotografia de Rita Nunes

Ainda ecos da sessão / evento / sei lá como catalogar, que teve lugar na noite de 20 para 21, no Teatro Casa da Comédia. Apresentados pelo anfitreão Filipe Crowford, nesta fotografia (descaradamente roubada no Facebook, da autoria de Rita Nunes), da esquerda para a direita: Miguel-Manso, Ana Salomé, Hugo Milhanas Machado, Filipa Leal, Vasco Gato e Catarina Nunes de Almeida. Seis autores com vozes poéticas muito distintas, mas tendo em comum uma maturidade e intensidade notáveis (aqui apenas o gosto determinará preferências). Manuel Cintra encerrou (ele que afirmou preferir abrir) a festa. Entre leituras, gostei particularmente de ouvir os Guta Naki, grupo que não conhecia. Entre textos de Álvaro de Campos e Henry Miller, pelo menos uma cantora de uma expressividade vocal e cénica surpreendentes.

Os Poetas da Meia Noite

De repente, com o início do ano, as iniciativas em torno da poesia e dos novos autores parecem multiplicar-se em Lisboa. Depois da Poesia em Vinyl ter surgido a 14 de Janeiro, ao que parece para continuar e bem, a criteriosa e imaginativa qualidade de programador de Filipe Crowford vai levar ao Teatro Casa da Comédia,  no  dia 20 de Março (entrando pela noite fora, trespassando assim o Dia Mundial da Poesia essa desnecessidade), o evento intitulado «Os Poetas da Meia Noite». Dos seis poetas convidados, cinco são muito da estima deste blogue, faltando inexplicavelmente saber por que raio nunca aqui se enroscou o Vasco Gato (salvo seja). Assunto a tratar em breve. Olhando para o programa, a coisa parece prometer muito. Ide, portanto.

O programa das festas:

TEATRO CASA DA COMÉDIA  Poetas da Meia-noite
Comemorações do Dia Mundial da Poesia (21 de Março).
” Há poetas que choram…
Há poetas que riem…Há poetas que cantam…
… mas, acima de tudo, há poetas que respiram a alma pela flor da pele, como suor, sangue ou lágrimas.
Descubra os Poetas da Meia-noite, dia 20 de Março, pelas 22h, no Teatro Casa da Comédia.
Venha desarmado… ”

Participação de: Ana Salomé, Catarina Nunes de Almeida, Filipa Leal, Hugo Milhanas Machado, Miguel Manso e Vasco Gato.Participação especial de: Manuel Cintra e Filipe Crawford.

Músicos: Lder, Nanu Figueiredo (mola dudle), Gutanaki, Gonçalo Miragaia e mais um convidado surpresa.

"venha desarmado"

TEATRO CASA DA COMÉDIA
Rua São Francisco de Borja, 22 – 1200-843 Lisboa
Tel.: 21 395 94 17/8 Fax: 21 395 94 19 Produção: 969826535
info@filipecrawford.com
teatro.casadacomedia@gmail.com
http://www.filipecrawford.com

Novos Poetas (49) – Ana Salomé

Do quarto número da revista criatura escolho, motivado pelo gosto, dois poemas de Ana Salomé, aqui colocados com graciosa permissão da autora. Dos autores publicados neste número da criatura um ou outro surgirão neste sítio, por escolha própria, necessariamente subjectiva.

Cristal

Levantámo-nos da cama,

arrastando os lençóis pelas ruas.

É urgente encontrar um café,

encontrar uma mesa a um canto no telheiro

e ter com quem não falar.

Daquela esplanada os monumentos são excessivos.

O barroco enche-nos a boca de pedras.

Para as árvores, cultismo, conceptismo, é brisa

e o sol encima-se na talha azul acordada.

Mais um, outro. A estatuária fonte não seca.

Evitamos a sentimentalidade do cristal,

a desusada lágrima pública,

para que caia no poema em segredo.

Vem enfim o café servido por anjos. O alívio.

Um cigarro que nos conte das cinzas pulmonares

em trabalhos de restauro e contrabando.

A paisagem é interior e facciosa em milhares de degraus.

Mesmo quando nos levantamos, descemos.

"que tenhas de mim o contorno incerto" © Carla Salgueiro, Olhares, fotografia online

Tela

Hoje sou eu que poso para o teu poema

Como uma modelo numa cama de flores

Que estaria

A vida inteira diante dos teus olhos

Até ser só ossos, ouro, palavras, rebentação.

SALOMÉ, Ana, in “Revista criatura n.º 4”, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

Novos Poetas (34) – Ana Salomé

Descoberto por indicação de pessoa amiga, o blogue O Cicio de Salomé reúne, entre um heterogéneo núcleo de escolhas e gostos pessoais, poemas da sua autora, Ana Salomé. Escolhe-se este, publicado hoje e edita-se a título de divulgação do seu trabalho poético.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para arranjar um motivo. Para.
Tens lume? Perguntei-te.
Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.
Engatilhaste o zippo. Todo prateado.
Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.
Eras canhoto, como o coração.
Agora. Disseste.
E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.
Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.
Não, claro que não. Claro que não.
Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.
O cigarro sempre aquece.
Sim. Tossi.
Estás bem? Perguntaste.
Estou muito bem.
Óptimo. Disseste. E sorriste.
Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?
Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.
Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.
Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida
Que correram mal, imediatamente mal.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para passar o frio.
Descobri que não viria a morrer
Nem de cancro pulmonar, nem de amor,
mas da própria morte, mal o lume se apagou
e o café fechou as portas. Para sempre.

Ana Salomé → via O Cicio de Salomé, 21 de Janeiro de 2009

'Smoking' © José M. S. A., Olhares, Fotografia Online

'Smoking' © José M. S. A., Olhares, Fotografia Online