As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Tag: Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral — Ritmos

 

 

E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:

a prosódia da mão, a ervilha dançando

em redondilha.

Misturar ritmos em teia apertada: um vira

bem marcado pelo jazz, pas

de deux: eu, ervilha e mais ninguém

 

De vez em quando o salto: disco sound

o vazio pós-moderno e sem sentido

Ah! hedónica ervilha tão sozinha

debaixo do fogão!

 

As irmãs recuperadas ainda em anos 20

o prazer da partilha: cebola, azeite

blues desconcertantes, metamorfose em

refogados rítmicos

 

(Debaixo do fogão

só o silêncio frio)

 

Amaral, Ana Luísa, Minha Senhora de Quê, Lisboa: Quetzal  Editores, 1999

«I can feel you all around me», Adour © Adour, via Deviantart (D.R.)

Ana Luísa Amaral — Biografia (curtíssima)

Biografia (curtíssima)

Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!

Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas

(mas hoje penso
que se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)

Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:

pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão

Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?

O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:

vestidos por tirar,
camadas por cumprir:

e mais:
imperfeição

 
Amaral, Ana Luísa, Inversos, Poesia 1990-2010, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010

 

«Good Appetite», saabie © saabie, Deviantart (D.R.)

   Página sobre Ana Luísa Amaral

Poesia Portuguesa (38) – Ana Luísa Amaral


METAMORFOSES

Faça-se luz

neste mundo profano

que é o meu gabinete

de trabalho:

uma despensa.


As outras dividiam-se

por sótãos,

eu movo-me em despensa

com presunto e arroz,

livros e detergentes.


Que a luz penetre

no meu sótão

mental

do espaço curto


E as folhas de papel

que embalo docemente

transformem o presunto

em carruagem!

AMARAL, Ana Luísa, Minha Senhora de Quê, Fora do Texto, Coimbra, 1990, reed. Lisboa, Quetzal, 1999

[poema ‘pilhado’ no blogue Poesia & Lda., de João Luís Barreto Guimarães e Jorge Sousa Braga, com análise textual da autoria de Barreto Guimarães. Como aqui não é hábito ‘pilhar’, pede-se indulgência e agradece-se muito]

@ Jaime Tiago, Olhares, Fotografia Online

@ Jaime Tiago, Olhares, Fotografia Online