As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Ana Cristina Leonardo

Pérolas (16) – A DREN não tem o exclusivo

Se julgavam que só os mais altos palonços do Ministério da Educação tinham direito a escrever estuporadamente, como é o caso da Directora Regional de Educação do Norte, Margarida Moreira – veja-se, entre o desgosto e o gáudio, este exemplo e mais este, ambos pescados pela atentíssima subversiva Ana Cristina Leonardo, autora do blogue Meditação na Pastelaria –  estão enganados. Entidades com responsabilidades na estrutura educativa portuguesa (como a Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto, via Gabinete de Relações Públicas) vão à liça e esforçam-se por fazer pior. Eu sei que é difícil, mas estão lá perto. Pergunta-se: não se pode avaliar a iliteracia desta gente? De alto a baixo? Da DREN aos Auxiliares de Acção Educativa? E classificá-los em função da capacidade de redigir? E dar responsabilidades a quem saiba, pelo menos, exprimir-se por escrito num português limpo, escorreito? Era um começo. Ser burocrata é fácil. Já escrever uma simples carta, um singelo e-mail…

Exmo (a) Sr. (a),
Agradeçemos a vossa colaboração para a divulgação desta informação por todas as escolas do agrupamento vertical, bem com, escolas básicas do 1º ciclo.
Agradeçendo a atenção dispensada.
A Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto (ESE) abre 5 novos cursos de Mestrado.

(…)

[Nota: este excerto de e-mail foi recebido por pessoa amiga. Por razões de confidencialidade posso apenas asseverar que a fonte é fidedigna, uma vez que tive acesso ao e-mail enviado pelo Gabinete de Relações Públicas (palavra de honra) da ESE do Politécnico do Porto]

'Sei que é difícil, mas hei-de chegar a Relações Públicas'

'Sei que é difícil, mas hei-de chegar a Relações Públicas'

O meu post favorito de 2008

Não, não será o melhor post escrito na blogosfera em 2008; nem o mais pertinente; nem o mais incisivo; nem o mais luminoso; nem o mais… mas também quem definirá estas coisas? Li alguns blogues no ano que passou (digamos que gastei o dobro do tempo que devia com o assunto, facto de que não me arrependo nadinha) Quando li este post, da Ana Cristina Leonardo, no seu blogue Meditação na Pastelaria, a palavra mais exacta que me ocorreu foi júbilo. Numa penada absolutamente fulgurante, onde se passa de J. M. Cotzee a Kant, a Lewis Black, a Buñuel, a Machado de Assis, a Richard Dawkins (não necessariamente todos, nem por esta ordem) começando logo, à cabeça, por acertar o alvo bem no meio da testa – José Sócrates, who else?Ana Cristina Leonardo produz uma das mais inteligentes e hilariantes peças de retórica que li em muito tempo. Todo o post é tóxico para o alvo, o resultado absolutamente assassino (até pelo tom aparentemente negligé). Quando eu for grande gostava de escrever com este desfastio letal. Autorizado pela autora, aqui deixo o texto do post e o respectivo link. Já que é obrigatório ler duas vezes, ao menos que se leia a segunda no seu contexto primitivo. Obrigado, Ana Cristina Leonardo. Abriu todo um Freeport para nós. Absolutamente :-)

*

«Ao vencedor, as batatas»

“Vou ser absolutamente pueril. E, sim, gosto de advérbios de modo. Ao invés, aborrece-me Sócrates, o primeiro-ministro. Tudo nele me aborrece. O curso, o inglês, as casas (ah, como me aborrecem as casas!), os livros que finge ter lido, os esgares, o perfil e os lugares-comuns, até os fatos me entediam de tão óbvios. E por falar em fatos abrevio: repugna-me a enfatuada ignorância.
Citando de novo esse génio do humor que dá pelo nome de Lewis Black, José Sócrates é a prova de que o americano estava universalmente certo quando disse: In my lifetime, we’ve gone from Eisenhower to George W. Bush. We’ve gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we’ll be voting for plants.
Da política tive eu, em pequenina, sem naturalmente o saber que não venho para aqui armar-me em génio, uma visão pré-maquiavélica. Resume-a muito bem J.M.Coetzee em Diário de um Mau Ano: A posição pré-maquiavélica era a da supremacia da lei moral. Se acontecesse a lei moral ser por vezes infringida, era uma infelicidade, mas no fim de contas os governantes eram apenas humanos. A nova posição, a maquiavélica, é que a infracção à lei moral se justifica quando necessária.
De Maquiavel, que era esperto, fomos andando até chegarmos às plantas que, como é fácil entender mesmo sem ter lido Kant, escapam à lei moral.
Um pragmatismo alucinado invadiu a política. A presente crise internacional, nascida disso mesmo, não teve como resultado nenhuma discussão séria. Comemos mais do mesmo. Não que eu me encontre ainda na fase anal pré-maquiavélica ou tenha qualquer ilusão sobre o «homem novo» (neste capítulo estou com o Viridiana do Buñuel). Apesar disso, as Luzes continuam a pestanejar a espaços no trapézio do meu cérebro, como diria Machado (e, já agora, diga-se que o título deste post também é do brasileiro).
Tudo isto me foi gerundicamente ocorrendo (eu avisei que gosto de advérbios de modo), após ler estas declarações de José Sócrates a respeito do próximo ano, chamado pelo próprio (ou pelos assesores de agit-prop) o «cabo das tormentas»: É preciso agir sem ortodoxia e sem ideias feitas (…) É preciso estar com a mente aberta para responder aos problemas e não para responder às necessidades da nossa ideologia. Precisamos de ter mente aberta e não ficarmos reféns da ideologia ou das respostas clássicas, porque problemas novos exigem respostas novas.

Ou seja, e sem lembrar agora a frase de Richard Dawkins: There’s this thing called being so open-minded your brains drop out. Ou lembrando-a. Pronto. Esqueçamo-nos por uns segundos que o iluminado engenheiro se refere à actual crise. Façamos de conta que fala durante os heróicos tempos do boom financeiro que acabou como se sabe. Sublinhem-se as diferenças. Zero! Ideias novas? Zero. O mesmo ódio ao pensamento (entendido pejorativamente como “respostas clássicas”), a mesma crença no fim das ideologias (depois ― ou antes? ― foi ― ou fora? ― o fim da História), o mesmo credo pragmático. O paleio é decalcadinho… como decalcadinho de outras matrizes se mostra o paleio de Alegre. É o cabo das tormentas: estamos entregues às plantas.” – Ana Cristina Leonardo, in Meditação na Pastelaria, 21-12-2008
'realmente, exactamente, optimisticamente, exigentemente'

'pois, realmente, exactamente, optimisticamente, exigentemente'

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