As Folhas Ardem

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Agustina Bessa-Luís — Os Cinco Reis Mouros

ilustração de Ilda David © Ilda David (D. R.)

OS QUADROS deste diário que escrevo espelham para mim as glórias de Lisboa. Seu ar róseo e materno, seus ventos e sombras que Monsanto despede até às nuvens.

Começando pelo princípio, dentro dos campos de Ourique se deu um caso que nunca foi bem explicado. Tendo Afonso sido jurado rei pelos soldados, o que o fazia mais general deles do que príncipe de todos nós, teve por empreitada combater cinco reis mouros; havia-os aos bandos, e eram tão numerosos os califas e os sultões que a Espanha e os Algarves estavam cheios dos seus palácios aonde os reis cristãos mandavam os filhos como hoje se mandam às universidades. A cultura deles era formidável e nas matemáticas não havia quem os igualasse; nem na poesia, porque a sensibilidade extrema vai muitas vezes a par com a crueldade mais refinada.

O triunfo era duvidoso em batalha tão desigual. Cinco reis mouros não são cinco réis de gente; é muito mais. Afonso, muito calado com o seu escudo e cota de armas, viu Cristo na cruz, ao levantar os olhos para o lábaro que receava perder. E Cristo disse-lhe que havia de ter vitória sobre os infiéis. Afonso não se intimidou com a aparição e falou cara-a-cara com o Senhor:

— Não venhas a mim mostrar-te, porque eu creio e não preciso de milagres para crer. Mostra-te aos meus inimigos que, esses sim, precisam de te conhecer para nos temer a nós.

Esta fala, de tão arrojada, não foi muito do agrado dos catequistas e não se ensinou nas escolas. Eram tempos maravilhosos em que se começava a ser português, e para isso era preciso valor tão grande que os céus o recebiam como medida do homem. Que saudades dessa pátria inventada num milagre que se recusa! O povo miudinho corria ao lado dos grandes pecadores, que eram almas grandes também. Confiavam neles; com lágrimas e com juras, confiavam neles. Afonso mandou pintar na sua bandeira cinco escudetes azuis, em lembrança dos cinco reis vencidos. Ainda lá estão, reparem bem. Pensar nestas coisas distrai o coração de velhacarias, que foi o que se multiplicou passados tempos, e hoje não há mais lugar na terra para tanta instrução maliciosa.

A memória cativa as coisas num lugar fabuloso, que é onde mora a esperança. Mas é certo que os primeiros passos na ordem da pátria tinham que ser agigantados, não só pela fábula, que os serviu, também pela coragem que só protegeu. Afonso, que no ardor de vencer se esquece de se submeter ao milagre, é coisa digna de se ver e de recordar. Como se lá estivéssemos em carne e osso.

Agustina Bessa-Luís, Os Cinco Reis Magos, «Revista Kapa» nº 2, Novembro de 1990, p. 159. — ilustração de Ilda David, acompanhando o texto na publicação original.

Maria Velho da Costa — Maria Agustina, a trânsfuga

 

Não tem fito, não tem medo.

Vem em direcção ao olhar que a revê.

Pequena, cantarolante e abanando a saia, debaixo das estrelas que esmorecem. A lua desmaia, o alfange comido pelos rubores da aurora. Ela pára, aponta, abre a boca para dizer lua e vêem-se os dentes de rato, o riso de todas as palavras.

Tem quatro palmos de tamanhinha e vem só.

O vestido está desabotoado nas costas, os sapatos de verniz de presilha, os preferidos, vão soltas chancas a brilhar no relento da manhã. Atrapalham, mas não impedem. Os olhos apertados de botão-azeviche são só sorriso ufano, a quatro palmos do chão na cara cor de rosa-chá.

Tem três anos de idade e fugiu de casa.

Não é amuo, é o desconchavo do mundo o que a faz vir.

Diz ao sol subinte, esmerei-me, esmerei-me, ó medronho, ninguém me viu sair. Nem criada, nem ama, nem mãe.

Lá vem ela, no carreiro ermo, no plaino pedregoso, a que não terá contemporâneos.

Move-a o amor frio, a cabeça quente do poderio da terra. Não traz cuecas. Abre as pernas, ainda de roscas roliças, para uma pocinha escura. Triunfa, menina total e raciocinante.

Vibra e caminha, humaníssima.

Diz ao céu que se acende: amaldiçoa-me, mas deixa-me ser livre. E assim foi.

 

Costa, Maria Velho da, in, «Egoísta n.º especial», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Fevereiro 2007

 

Agustina Bessa-Luís © Correio do Porto (D.R.)

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(links relacionados)

Maria Velho da Costa — Página com biografia, bibliografia, textos online e links adicionais.

Agustina Bessa-Luís — Página com biografia, bibliografia, textos online e links adicionais.

Agustina Bessa-Luís — Talento

A minha amiga L… (não se cansem a imaginar quem será; não é Lúcia, nem Laura, nem Leonarda) tinha dois contras na vida dela: a falta de dinheiro e a infidelidade do marido. Queixava-se amargamente de ambos, mas, por fim, já tomava as coisas com uma grandeza à grega. Um poeta que a estimava muito perguntou-lhe porque não enganava o marido.

— Com quem? Só se fosse com Alexandre da Macedónia.

Era uma resposta que requer talento, e ela tinha-o. Era uma snobe da Grécia e o que não sabia é que Alexandre também era um snobe. O seu tutor, Aristóteles, tinha-lhe incutido a admiração pela alta condição intelectual dos gregos, e acho que tudo aquilo que ele fez e as glórias que atingiu tinham muito que ver com essa inferioridade ou limitação face à civilização grega.

Alexandre era um génio, ou apenas um rapaz de talento?

São coisas diferentes. Não sei se a educação dum jovem deve ser entregue a um homem tão superior como Aristóteles. Forçosamente o génio causará um complexo avassalador sobre o aluno que, como Alexandre, estava mimado por um augúrio da sua divindade.

A própria mãe, a indomável Olímpia, achou por bem atribuir a paternidade de Alexandre a um deus, Zeus, e não a Filipe, seu marido. Além disso, era inclinada a superstições e coisas de magia. Quanto a Aristóteles, um filósofo e um génio da filosofia, foi o primeiro homem de pensamento a conceber um mundo global. Vivia em Estagira, cidade grega próxima da fronteira com a Macedónia; e o seu pai tinha sido o médico pessoal do rei Amintas. O gosto de Alexandre pela medicina vinha daí. Aristóteles foi perceptor de Alexandre durante três anos, o que bastaria apenas para lhe dar o verniz grego e a reputação de ter sido seu aluno. Mas não é de crer que lhe transmitisse o fulgor do seu génio nem sequer a síntese da sua sabedoria. Os talentos de Alexandre, a começar por uma forma física impressionante, são inegáveis. Mas foi ele um estratega consumado ou só um rapaz fogoso e apaixonado por uma ideia: a de superar o mestre e tudo o que se lhe deparasse como valor reconhecido; superar o mito grego, sobretudo?

Os gregos mereciam bem a sua celebridade. Tinham descoberto a natureza heliocêntrica do universo e a estrutura atómica da matéria. Ao átomo, o Oriente opunha Deus. E assim continua a grande oposição dos dois espíritos. Alexandre nasceu quando esta tensão estava formada. Não estava em vista a confrontação entre as duas civilizações mas a fusão das duas, complementares como os homens são uns dos outros. Esta ideia, vinda¹ dos segredos só contemplados  pelo génio, teria que ser posta em prática pelo talento. Alexandre foi um motor desse talento necessário à execução das grandes ideias. 

Digamos que venceu e fracassou ao mesmo tempo. Tinha trinta e dois anos e era senhor do Universo. Mas a sua capacidade de curiosidade e inovação esgotara-se. Já não comunicava espontaneamente com o seu exército; os antigos amigos estavam sombrios, preparavam-se as sedições.

Os soldados estavam cansados das imparáveis marchas, da fome e das exaustivas campanhas. À borda do Ganges amotinaram-se e Alexandre teve de ceder. Um ano depois estava morto. Morto como um negociante no seu quarto de cama, devorado² pela malária ou talvez envenenado, que e a primeira suspeita que derruba a alma antes da vida. Estava desiludido ou apenas enfraquecido para fazer frente à doença, de resto agravada pelas contínuas bebedeiras e excessos de ambição. Ele sabia que a maior parte da terra lhe era desconhecida e que não a podia atingir nem juntar à sua glória. Perguntei à minha amiga L…:

— O talento foi o maior vício de Alexandre. Até hoje ninguém o superou. Mas, como dizia Platão, “as pessoas de bem não querem governar nem pelas riquezas nem pelas honras”. Isto põe Alexandre fora da lista dos homens de bem?

— Quem diz que eu o amava por ser um homem de bem?

— Era por ser visionário?

— Era porque havia nele bondade; provou-o muitas vezes. É o talento maior que alguém pode ter.

— Isso é — disse eu. Não me ocorreu dizer mais nada.

Bessa-Luís, Agustina, in, Autêntica n.º 7, Leça do Balio-Matosinhos: Unicer, 2007

¹ — «vindo», no texto impresso, provável erro tipográfico.

² — «devotado», no texto impresso, provável erro tipográfico.

Nota: a paginação do texto torna quase indiscernível a separação dos parágrafos. Seguiu-se um critério o mais próximo possível da estrutura do texto para a definição dos mesmos.

"Era porque havia nele bondade"

Agustina Bessa-Luís – As Fúrias (excerto final)

(de volta)

Virtualidades das redes sociais: uma página dedicada à escritora acende como um rastilho a memória que do seus livros tenho. Procurando dar contributo para a referida página, acabo com As Fúrias na mão, e mesmo antes de o começar a reler já, deixa-se aqui o fragmento com que o romance termina. Falta um par de dias para que se cumpram 33 anos sobre a sua publicação.

«As traseiras da Rua do Almada ... e da Praça Filipa de Lencastre», Carlos Romão © Carlos Romão, via «A Cidade Deprimida», blogue

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(…) Uma das vezes em que esteve na casa paterna ouviu falar na moradia da Foz, que ia ser vendida para dar lugar decerto a novas garagens e super-mercados. Os seus habitantes tinham sido desalojados, e para evitar outros intrusos, as janelas foram estilhaçadas e parte do telhado arrancado. A escada até ao primeiro andar foi destruída. Aguardava assim o braço do ‘caterpillar’, com uma energia que a fazia parecer ainda um belo modelo de metrópole passada. Pedro Rondom não foi lá; seria demasiado romântico uma visita dessas, e sobretudo o tempo não estava distraído no sentido dessas cogitações. Mas pensou com amargura que nada restava de Virgínia, que a marca da sua mão não ficara na balaustrada da entrada onde muitas vezes a vira, o tronco inclinado para fora como o de uma estátua prestes a precipitar-se. O cabelo, delgado, escondi-lhe a face; mas ele adivinhava-lhe o movimento dos lábios, a pálida boca que resumia uma passividade da razão que ele quisera explicar. Por fim, pelo que tinha de irremediável, isso fizera com que a amasse.

Uma família de ciganos instalou-se no jardim, mas foi expulsa logo a seguir; as rãs continuaram a coaxar tranquilamente no lago cuja podridão fazia rebentar bolhas de gás à superfície. Talvez a salamandra negra existisse ainda como um pequeno monstro dos abismos que dorme e desperta sem ética possível e sem transcendência. Era eterna por isso mesmo. Pois o que toda a inteligência ilumina é mortal. Doutro modo, a vida tornava-se insuportável.

Porto, 28 de Setembro de 1977.

Luís, Agustina Bessa, «As Fúrias», Lisboa: Guimarães e C.ª, Editores, 1983