As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Adília Lopes

Adília Lopes — Não gosto tanto de livros

 

Não gosto tanto

de livros

como Mallarmé

parece que gostava

eu não sou um livro

e quando me dizem

gosto muito dos seus livros

gostava de poder dizer

como o poeta Cesariny

olha

eu gostava

é que tu gostasses de mim

os livros não são feitos

de carne e osso

e quando tenho

vontade de chorar

abrir um livro

não me chega

preciso de um abraço

mas graças a Deus

o mundo não é um livro

e o acaso não existe

no entanto gosto muito

de livros

e acredito na Ressurreição

dos livros

e acredito que no Céu

haja bibliotecas

e se possa ler e escrever

 

//

 

Lopes, Adília, Obra, Lisboa: Mariposa Azual, Lisboa, 2000

 

Dimitri Caceaune ©Dimitri Caceaune,via Deviantart (D.R.)

Adília Lopes no site da D-GLB

Adília Lopes – Louvor do lixo

 

Louvor do lixo

 

para a Amra Alirejsovic
(quem não viu Sevilha não viu maravilha)

 

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão

Lopes, Adília, A mulher-a-dias, Lisboa: & etc, 2002

© Paulo César, via Olhares, fotografia online, (D.R.)

 

Links Relacionados:

O poema, lido pela autora:

Site sobre Adília Lopes (poemas, entrevistas, críticas, links diversos)

O (novo) blogue da & etc

 


© Capa de Bárbara Assis Pacheco

A escritora e o orgasmo

[Singelo preito à escritora, bióloga e modelo Clara Pinto Correia, por ocasião da inauguração da exposição Sexpressions.]

«Posso morrer porque amei e porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.»

LOPES, Adília, “Irmã Barata, Irmã Batata”, Braga: Angelus Novus, 2000. p. 13-14.

"A character made of polygons that I created a while ago. I tried to bring life to her by creating facial expressions." - Alex (3dsMax/2005) - © Tom, le RayonV

“I tried to bring life to her by creating facial expressions.”

Poesia Portuguesa (22) – Adília Lopes

Este poema conversa comigo, com a voz familiar do quotidiano. Os toques do quartel, os sinos dos Anjos, a Rua José Estêvão, ao pé do D.ª Estefânea, onde a pé passo, a caminho de. Vejo-a às vezes, à Adília Lopes. Olhos fixos no caminho, virados para dentro, um pouco rapariga, um pouco idosa. Palavra de honra se ela não ia a pensar exactamente neste poema, um destes dias de folhas de choupos caídas no chão. É meu vizinho de vida, este poema.

MÚSICA DA RUA JOSÉ ESTÊVÃO, EM LISBOA

O portão do Pátio do Duarte

Os toques do quartel

O sino dos Anjos

Os pardais

As folhas dos choupos

*
Foi bom não me ter casado. Não tenho cabeça para outra cabeça.

Adília Lopes, in Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

Largo de D.ª Estefânia, Lisboa

Largo de D.ª Estefânia, Lisboa


Novos poetas (V) Nuno Moura

(por conter incorrecções factuais, este post foi editado (rasurado é mais verdadeiro), e já se encontra rectificado no blogue.)

Pronto, estilhaçam-se definições sobre o que são os ‘novos poetas’. É Nuno Moura que me apetece convocar, mesmo com livros publicados na década de noventa, ele hoje já muito dentro dos trinta.  Autor de obra singular, voz torrencial, surrealizante, lírica e agónica, irónica e prenhe de doçura, por vezes visceral até ao osso (Calendário das Dificuldades Diárias, &etc, Setembro de 2002). A escrever como um condutor em contra-mão numa auto-estrada.

Lembro-me dos empenhos juvenis em que se meteu para publicar o seu primeiro livro – que pagou a uma fazedeira de edições, a Signo – Não saia nem entre após aviso de fecho de portas (1992, 1.200 exemplares!). Lembro-me do entusiasmo com que abriu uma pequena editora, a Mariposa Azual, (agora parece que gerida por Paulo Condessa, seu companheiro de aventuras) que cometeu a proeza de publicar a Obra de Adília Lopes (15 livros reunidos) e a proeza maior de conseguir para a mesma três ilustrações de Paula Rego. Lembro-me do seu afã em sessões de leitura de poesia, onde acontecia sempre algo de inesperado e surreal (e acabava por lhe acontecer sempre algo de surrealmente inesperado). Lembro-me do excesso, do compromisso feroz entre a vida e a poesia, tão anacrónico e comovente. Lembro-me do inacreditável nome – apenas o nome, este nome, é um acto poético – do livro Nuno Moura e Mariposa Azual apresentam os livros Hélice Fronteira – gosto dos mesmo livros que tu Regina Neri – o monstro do entrepernas Vasquinho Dasse – histórias muito pequenas e muito más Ivo Longomel – piudefule Adraar Bous – beauty conteste talcum powder Robes Rosa – teatro para cães Estevão Corte – estudo sobre a sexta-feira 13 Alexandre Singleto – relatório & contas (Mariposa Azual, 2000). Sei que está envolvido em nova aventura, o lançamento da Revista Índice, no dia 11 de Setembro (20.000 exemplares? 60.000 de ‘audiência’? Tão excessivamente típico que pode ser mais uma pirueta do ‘Comediante’.) Deixo um excerto de Calendário das Dificuldades Diárias, coisa que não se deveria fazer, por impossível de ser retirado do seu contexto, mas… É livro para se ler do princípio ao fim, de um fôlego, até nos faltar o fôlego. Onde andas, Nuno Moura?

(…)

Hoje é o dia dos teus anos e mais uma vez o dia dos teus anos é escuro e frio, chove no meu terraço, caem gotas de água grande ao meu lado, vou lá meter a cabeça? A chuva vai trazer-me paz e amor? A chuva vai lavar-me? Lava-me tu. Lava-me tu.

(…)

Nuno Moura, in Calendário das Dificuldades Diárias, Diário, p. 31, &etc, Lisboa, 2002.

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online