As Folhas Ardem

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«Do Lado Esquerdo» — nasceu hoje uma nova editora de poesia, com novo livro de Maria Sousa.

Do Lado Esquerdo

Do Lado Esquerdo


Nasceu hoje uma nova editora de poesia, em Coimbra. «Do Lado Esquerdo» é iniciativa de Maria Sousa e de Nuno Abrantes, co-editores da revista digital a sul de nenhum norteque já contabiliza sete edições. O nome da editora, certamente inspirado no poema de Carlos de Oliveira «sobre lado esquerdo», revela apropriadamente a intensidade afectiva que os seus autores empregam na actividade de editores. Apresenta, igualmente, um jogo de sentidos, tal como o poema de Carlos de Oliveira o fazia, em tempos muito duros de luta contra a censura (mas também não o serão estes, nomeadamente no que à censura económica diz respeito?).

É justamente com um título de Maria Sousa, o livro Mulher Ilustrada, que se inaugura o catálogo da editora. Que o editor assuma igualmente o papel de autor é tradição antiga, nada a obstar. Mesmo porque se aguardava, já, um novo título da autora, depois de Exercícios para endurecimento de lágrimas, («Edições Língua Morta», 2010). Maria Sousa, que se define de forma bem original, em nota biográfica elaborada para a sua apresentação no Ciclo de Leituras Encenadas «Da Voz Humana», que teve lugar no ano transacto, na companhia «Escola de Mulheres — Oficina de Teatro». Escreve a autora: «Coisas que me fazem bater depressa o coração* O Outono, o cheiro da terra molhada, o som das ondas, o estalar das folhas secas, a minha família, os meus amigos, as janelas, a luz a atravessar cortinas brancas, nuvens, as canções do Tom Waits, livrarias antigas, livros e caderninhos, um olhar, um rir, o som da chuva, os poemas da Alejandra Pizarnik, os da Anne Sexton, viajar, despedidas, ouvir poemas meus em lituano, falar em público, cafés vazios, cigarros. E melancolia. *(plágio descarado ao titulo de um um texto da Sei Shonagon)». Acrescenta-se que Maria Sousa participou em várias revistas literárias (Criatura, Sítio, Saudade, Umbigo) e num Seminário de tradução literária organizado pela L.A.F. (Literature Across Frontiers); e que é autora de um dos mais antigos e prestigiados blogues relacionados com a poesia: «there’s only 1 alice»

Sobre o primeiro livro, e já com alguns dos poemas que compõem o agora inaugural Mulher Ilustrada, escrevi, na ocasião, que estávamos perante uma autora que trava  uma duríssima luta contra a ausência, revelada no silêncio, na impossibilidade de dizer; a tremenda prova dessa ausência nos lugares habitáveis, no quotidiano — a casa, a cama, o corpo, a voz — lides íntimas que se travam apelando à memória, inevitavelmente sem resposta, que esta se esconde num esquecimento tornado apaziguador, resgatado pela possibilidade de uma sílaba, da palavra escrita; trabalho de equilíbrio do sentimento de si travado no fio de um arame. Na poesia de Maria Sousa o eu é um outro (uma outra), à procura do retorno ao eu outro. Poemas onde se experimenta um incessante labor de resgate, ainda que, para tal, se organize, sem concessões, no largo tempo espectral da noite, um movimento incessante de contenção. É como engolir um grito.

Mulher Ilustrada acentua claramente a voz da autora, ampliando os lugares simbólicos, refazendo e renovando a semântica que lhe é peculiar, acentuando de forma mais elaborada, num trabalho incessante de depuração, onde a ironia e a nostalgia estão presentes, numa permanente elegia de um eu idealizado, perdido no confronto com a sua realidade íntima.

O resultado merece a maior atenção para uma obra em sólida construção, já em plena maturidade, que se ergue com um saber laboriosamente tecido.
 

 

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

Aqui se deixa o díptico que encerra Mulher Ilustrada, livro que pode ser adquirido nos lugares indicados na página da editora «Do Lado Esquerdo», na rede social «Facebook».

I

vejo-te na soleira da porta

hesitas. em cena apenas estou eu

penso em mudar-me

mas, entre erros e desculpas

falta-me espaço

 

se contares histórias serão daquelas que

ninguém quer ouvir

relatos de passeios de domingo onde há sempre ruínas

sim, restaram apenas ruínas escavadas no interior dos olhos

 

II

entras, não tens medo

rodeado de olhares com sono que ainda não sabem

que as palavras são sempre as mesmas

(uma espécie de cerimónia onde te repetes para evitar a morte)

 

mentimos os dois sobre uma história feita de fragmentos

 

dizes que nem sempre o guião é o mesmo

mas repetes-me o teu monólogo ao ouvido

 

“deixa-me sair” vou abandonar a personagem

que balança no vazio

 

última tentativa: observo-te e tu já não me vês

conheces-me tão pouco, não, isto…

isto não é um dueto, é um duelo

 

friamente o silêncio cai sobre nós

não há vozes nem adereços

(a cena está vazia)

 

há apenas uma cortina de vento onde as palavras

nunca se moldaram

 

Sousa, Maria, Mulher Ilustrada, Coimbra: «Do Lado Esquerdo», Janeiro de 2013

 

Lígia Reyes — Real Love

 

Meu amor madre‐pérola, 

Olha‐nos, a desfazermos 

Em ponto caramelo o corpo 

Em nostalgia e folhas de Outono ‐ 

Rash‐Rash ‐ Como queimávamos os pés 

Nesses passeios ínfimos 

Pelas avenidas de uma cidade  

Que chora um Rio: Descosíamos 

Os botões, alinhavados às palavras 

Da poesia e construíamos pontes. 

Vamos remar a favor do mármore, 

Não tenhas medo: Mil suicídios 

Aconteceram quando eu parti, 

E agora sobram cartas para lermos 

Até ao fim da vida. Juntos 

Venceremos o flogisto, acolheremos 

Patriamente a vitória da cinzas, 

Manjaremos tenras asas de fénix 

Até nos esgotarmos num jardim belo 

E uma chávena de chá ao fim da tarde.

 

Lígia Reyes. in, a sul de nenhum norte n.º 6.

 

 

«i once loved you by the sea», IgnotoDeo © IgnotoDeo, via Deviantart, (D.R.)

Helena Carvalho — O pé da bailarina

Às vezes o mundo explode e insinua‐lhe o seu enigma. Revela pistas e mostra as peças que o compõem, ou parte delas. Nem o mundo foi o crime perfeito. Tenta encaixar as peças, mas elas faltam‐lhe sempre. As que não faltam descansam sobre as placas flutuantes que suportam tudo o que é do mundo e dos homens. Ondulando, cada peça é uma forma instável – ora redonda, ora obtusa – que vai regurgitando significados diferentes. E os seus olhos são servos enfeitiçados que lhes adivinham a secreta participação na ilusão que vela o sentido do mundo: umas vezes, esforçam‐se por captar o que fica da transfiguração das coisas e da sua aparição intermitente, outras, cerram‐se como punhos agastados para sossegar um estômago às voltas. O sentido é um sol quebrado.

Por vezes, quando os seus olhos abertos se perdem, há aqueles instantes plenos em que tudo se alinha perfeitamente, os momentos geométricos em que tudo se equilibra no fio de trapézio de uma palavra ou de um dia de chuva. E ela equilibra‐se também sobre um chão que plana despido de gravidade. Então é um corpo que roda sobre si mesmo com o mundo suspenso na ponta dos pés.

Helena Carvalho. in, a sul de nenhum norte n.º 6, p. 55

«Ballerina As Is», spinninghead © spinninghead, via Deviantart (D.R.)

 


Blogue da Revista A sul de nenhum norte (onde a revista online pode ser descarregada)

Miguel Pires Cabral — hoje chamei o teu nome

Último post em que destaco um autor  do terceiro número da revista online “a sul de nenhum norte”. Um poema de Miguel  Pires  Cabral que, de acordo com nota biográfica apresentada,

«nasceu  em  Macedo  de  Cavaleiros  a  27  de Março  de  1974. Escreve os seus primeiros poemas algures pela viragem do milénio; Lançou em Agosto de 2010 o seu primeiro livro  de  poemas  originais  intitulando  “Café  Solo”.  O  seu  primeiro  livro  conta  com  prefácio  de  Marta   Pessanha  Mascarenhas,  edição  de  LMOPC  –  Editores  ©  &  Impressão  pela  Dom  Texto  ‐  Vila  Real. Prepara  nesta  altura  um  segundo  livro  de  poemas  originais,  estando  a  sua  edição  prevista  para o verão de 2011.»

Acrescento que é autor do blogue «Barbitúrico da Alma», onde se pode encontrar alguma da sua produção poética mais recente e / ou dispersa.

hoje chamei o teu nome

Hoje chamei o teu nome,
o teu dia cansado,
a tua ausência,
longo é o verbo da espera.

O dia também me fugiu,
foi um corrupio de ida em volta
ainda que breves tenham sido
as minhas conjugações.

Chegou ao fim o dia,
encontro‐me finalmente
de frente para este rosto
que também trago cansado.

São estes dias de suor
e esquecimento
que nos fazem esquecer
dos nomes, dos verbos,

de toda uma semântica
que nos aproxima – para além
de todo o esquecimento
que nos representa – assim.

 

Miguel Pires Cabral, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

 

«facing things», via DEviantart

 

   Blogue de Miguel Pires Cabral,  Barbitúrico da Alma.

Maria Sousa — «se para um corpo a insónia»

Maria de Sousa, editora, juntamente com Nuno Abrantes, da revista online de artes e letras a sul de nenhum norte, apresenta-se, na referida revista, de forma peculiar: «Maria Sousa é uma lebre que é uma Alice e gosta de passar as tardes no café Santa Cruz a ler e a escrever.  Gosta de revistas e já participou em algumas (Criatura, Sítio, Umbigo, Saudade). Escreveu Exercícios  para  endurecimento de lágrimas (Língua  Morta, 2010) mas ainda chora quando ouve a Lhasa e o Tom Waits. Não gosta de dar aulas e quando for grande quer ser livreira.»

Resta dizer que é uma das novas autoras de poesia de que mais gosto; e que o blogue da Maria Sousa é maravilhoso sendo, diversamente, uma notável obra de amor (e elevada fasquia qualitativa) a revista que edita, da qual já saíram 3 números. Do terceiro se retirou este poema.

 

 

se para um corpo a insónia
é uma palavra de olhos abertos

quando os dias ficam mais curtos
preparo o quarto para o rigor do inverno

não se trata de um vazio mas
de um lugar preparado para
todas as palavras que ficaram nas rugas

 

Maria Sousa in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

 

«falling red», Paty Sanchez © Paty Sanchez, via Deviantart (D.R.)

   blogue da revista «a sul de nenhum norte»

   blogue da autora, «there’s only 1 alice»

  blogue das «Edições Língua Morta»

Simone Tree — não me olhes de perto a pele curva

Foi colocado online, na madrugada de ontem, o terceiro número da revista de artes e letras «a sul de nenhum norte», magnífico objecto criado por Maria Sousa e Nuno Abrantes, gratuito e disponível para quem o queira descarregar. Desta terceira edição da “sul” falarei aqui, em breve. Para já, deixa-se um poema de uma autora de surpreendente segurança formal, pretexto para divulgar esta que talvez seja a melhor revista literária online que se produz, actualmente, entre nós [No terceiro número encontram-se os seguintes autores: Adolfo Luxúria Canibal, Beatriz Hierro Lopes, Catarina Nunes de Almeida, Enrique Vila-Matas, Jenna Cardinale, Joana Corker, José Emílio-Nelson, Leslie McGrath, Long Lim, Machado de Assis, Maggie Taylor, Maria Sousa, Maurice Mbikayi, Miguel Moreira, Miguel Pires Cabral, Nuno Abrantes, Ondjaki, Paulo Rodrigues Ferreira, Rosa Alice Branco. Simone Tree, Tatiana Faia, Teresa Andruetto].


não me olhes de perto a pele curva
do nariz que desce, perfeito, as sardas
e encontra o vício‐razão do toque
na dureza das costelas,
curva dos caracóis.

o mistério dos corpos
‐ tantos anos depois –
é que, mesmo paralelos
encaixam.

Simone Tree, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

clothless bodies and timeless, Utku Atalay © Utku Atalay, via Deviantart

  página da revista na rede social Facebook, onde se pode descarregar os três primeiros números da revista «a sul de nenhum norte»