As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Gonçalo M. Tavares — A Água

 

 
No café trazem-me um copo com água

como se ele resolvesse todos os meus problemas.

É ridículo – penso – não há saída.

No entanto, depois de beber a água

fico sem sede.

E a sensação exclusiva do organismo

acalma-me por momentos.

Como eles sabem de filosofia – penso –

e regresso, logo a seguir, à angústia.

 

Tavares, Gonçalo M.,  1, Lisboa: Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

 

«The Glass: Drowned» — Alberto Guerrero © Alberto Guerrero via Deviantart (D.R.)

 

  blogue de Gonçalo M. Tavares

 

Gonçalo M. Tavares — Atravesso em corrida as ruas

Atravesso em corrida as ruas

E tropeço: caio no chão.

            Levanto-me, chego a casa.

A minha mulher diz-me:

— Estás sujo.

            Respondo:

                        — De Deus.

 

Tavares, Gonçalo M., 1, Lisboa: Relógio d’Água, 2004, p.27.

«nuca», Gérard Castello-Lopes (D.R.)

  blogue de Gonçalo M. Tavares

   Gérard Castello-Lopes no blogue da «Associação Portuguesa de Photographia»

Poesia Portuguesa (XVI) – Gonçalo M. Tavares

1, editado em 2004, único livro de poesia do escritor (pelo menos que eu conheça) é, nas palavras inscritas no blogue do próprio autor, um “Livro de poesia que é uma espécie de antologia de oito pequenos livros bem distintos entre si.”

Aqui se deixa um poema e um excerto em prosa.

PALAVRAS, ACTOS


A ironia ensina a sabotar uma frase

Como se faz a um motor de automóvel:

Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres

No verbo ou numa letra do substantivo

A frase trágica torna-se divertida,

E a divertida, trágica.

Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,

Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar

A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo

Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita

Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida

Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero

Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.


*


«No mundo onde existem peixes e animais sólidos e altos como os grandes mamíferos, onde existem animais, como a borboleta, que parecem papel e não organismo, no mundo onde existem asas de cores diversas e cauda que se eleva ligeiramente para deixar espaço para os excrementos, no mundo onde o inesperado chega mais aos ricos que aos pobres, no mundo em que metade das coisas visíveis são cruéis e a outra metade é delicada por estratégia, no mundo tão vaidoso das suas cidades como da montanha que exibe na fotografia, no mundo soberbo e caridoso na forma como não mija demasiado sobre os que perderam, neste mundo, neste alegre mundo, como ocupará um poeta a sua manhã?»

Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

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