As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Vítor Nogueira — Domingo

 

Acordámos com o céu encostado

no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam

o domingo, a partir do alto das montanhas.

E aqui continuamos, agarrados a nós próprios,

como dois miúdos que não têm para onde ir.

Estamos presos ao sofá unicamente porque sim,

nem tristes nem alegres, metidos no roupão

e nos chinelos, pequenos cadeados de trazer

por casa. O mundo, esse, vem buscar-nos

amanhã. Bate-nos à porta, à hora do costume,

palitando os dentes com a ponta da navalha.

 

Vitor Nogueira, in «Piolho 006 [REVISTA DE POESIA], Porto: Edições Mortas / Black Sun Editores, Setembro, 2011

 

«Couch Project 1», Jess © Jess, Deviantart (D. R.)

 

Blogue das Edições Mortas.

Sobre Vítor Nogueira (bibliografia).

Nuno Brito — Pink Cigarette

Nuno Brito (autor de Delírio Húngaro e Créme de la Creme, livros já referenciados e citados aqui) escreve este poema, que publica hoje, no seu recente blogue pequenos animais sem expressão. Poema para ler agora, para reler depois, na sua violenta linguagem profética.

Pink Cigarette

À Anezinha

 

Quero impregnar-me de gente, de paisagem portuguesa

 Luiz Pacheco

 

 

Nesta terra as mulheres crescem à sombra,

como os cogumelos, o musgo ou a razão,

em ponto de cruz a saudade vai sendo domesticada,

o mais honesto  e obediente animal  puxado por uma trela dourada

feita de medo e outras coisas que ligam

o seu viso tem a expressão de todos

e é nestas caras quentinhas que descem ainda as lágrimas de Eros

mudando por dentro o nome do continente, outra cara, possível Começo

sem nome, sem coisa nenhuma, é às vezes o sal

que cai destas caras que tempera o prato, porque todo o sal não chega

para compensar o amargo que veio morar para a boca

cansada de saber que a linguagem não chega

porque eles fugiram, cada um em seu barco:

os filhos

 

 

Nesta terra as mulheres crescem à sombra

E têm sombra nos olhos, que o eco veio pintar

a lápis de cor por cima da paisagem humana

que se aloja debaixo de tudo o que a alma espelha,

veias, artérias, vasos, curvas fininhas que o tempo vai moldando

A anatomia rasgando o cosmos à escala humana, soprando-o para longe

Transbordo que a sede cria,

E enquanto as filhas vão ao poço, sol, risos, perfeita anatomia

As sombras crescem. Pequeninas rendinhas em baús

Terços, santinhos, livros de areia, um dente de leite

o fio de ouro a que está ligado,

e são de sombra os seus gestos porque quando se movem

são os braços de outros que ganham vida e retiram à paisagem

a natureza para pôr nela a arte, a civilização, a linguagem e a vitória

a mais alemã invenção,

e o seu sorriso é uma espécie de Deus

e quanto mais se enrola na paisagem mais deus é

Até parece que a razão dorme dentro delas,

e a razão dorme dentro delas –  o capitão do navio dá-lhes duas opções

Ou embarcam no barco do amor ou embarcam no barco do amor

Mas vão ter ainda de o Criar para o atravessar, e partir as árvores, da madeira fazer o barco

e calafetá-lo e dar-lhe um nome, e baptizá-lo, porque tudo aquilo em que se toca também se é

A sede vai-lhes toda para os olhos,

Urgente era que as sombras saíssem, como o fumo adocicado dos pulmões

Para dentro doutros pulmões.

 

 

Estas mulheres seriam modelos se as estátuas de sono não dormissem dentro delas

Se não fossem só alma,

O planeta chama-as do centro, as rugas vão rasgando a sua pele

Mas elas riem pouco,

E há poucos jovens

Estão todos no meio da Europa, Lisboa, Porto

Em Lisboa está a arte e no Porto está a arte

E no Couço está a arte e em todo o lado está a arte

Se não fossem só alma teriam visto mais vezes o mar

Não são filhas da revolução nem são filhas de ninguém

os seus filhos estão todos na taberna e são mais  velhos que elas

À noite estas sombras limpam com um guardanapo o beiço dos velhos

Porque desce-lhes azeite pelos queixos, e esses guardanapos podiam ser a página 100

de uma História Contemporânea, edição de luxo, a meio da investigação os eruditos

folheavam o guardanapo em Lisboa onde está a arte ou no Porto onde está a arte.

 

 

Exportámos marmelada para a Austrália ou para os armazéns de retalho da capital

que importa se toda a geografia é interior? – Enquanto dormem até de deus são mães

E entre as suas pernas as almofadas (penas de pato, segredos ou outros novelos).

 

 

As suas casas são feitas de queda, de verticais os muros ganham contornos,

a mais cara renda que são os dias a vir

formas breves, novas formas, dias que incham

parecem areia soprada pelo fogo

com que se  faz o vidro e se embacia o espelho

um dia também ele será inventado pelas mãos quentes de um artesão etrusco

antes mesmo de haver as moedas para o comprar

e que levarão os nossos filhos para longe,

Para o Canadá, Luxemburgo, Cantões,

nos navios, nas bagagens, nos aviões, todos com o seu preço

calafetado por dentro e por fora, impregnado na paisagem,
claves de sol pontilham a paisagem, por cima do trigo, a picotado

 

As sombras destas mulheres são às vezes música, entra nos búzios

Não só por nos lembrarem que elas provêm do sol,

como tudo o que parte, mas por nos erguerem como o caule de um girassol

a sua voz é a sua seiva, está dentro da nossa espinha, é o nosso equilíbrio

uma balança onde se pesam as palavras que ficaram por dizer

 

 

Futura-te*

Também a rede quer dormir mas não é da natureza das redes dormirem

e a rede pede que lhe cortem as pontas, que tragam uma tesoura

E alguém corta as pontas, mas as pontas crescem com mais força, como uma estrela

-do-mar, a tesoura é também informação e acrescenta-se à rede, tudo é soma nesta nova

anatomia

Coisas que entram

Abre as portas, vem muita gente atrás e todos querem entrar em ti,

Entrar é ser gente, crescer é ser rede,

homens e redes nunca dormem verdadeiramente,

 

 

Em Manchester as fábricas enchem-se de música e no Couço

cresce o trigo dos latifúndios e todos estes homens precisam

de equadores ao mesmo tempo que precisam de pólos

E todas estas mulheres precisam um pouco mais de calor

Não só para deixarem de ser sombras

mas para saberem que de se descarrilarem se fazem novos caminhos

Nas carruagens vai este gado

Já não de ferro nem de vento são os caminhos em que é feita a viagem

Sem pontes de aço, betão ou de cimento, só ultrapassagem

 

 

No Portugal dos pequeninos os filhos que se vão perder em todos os continentes

das suas perdas novos filhos nascerão: Filhos da revolução. Qual?

Na natureza nada se apaga

Na natureza não existe amanhã

Mas o homem põe a manta da civilização por cima da natureza

e por baixo da manta fica o escuro e alguns animais sem expressão

às vezes fica também o riso,

a razão fica a sobrevoar a manta

e ficam mulheres debaixo da manta

danças primitivas, ecos, sonhos,

capitães de mar nenhum ficam também

debaixo da manta a razão de ser da literatura,

definir poesia é dar as mãos

Só a gente e paisagem não desce para baixo da manta da razão

E as mãos aquecem agora mais

Nuno Brito

«the future of the species», Alice Korvin © Alice Korvin, Deviantart (D.R.)

Nuno Brito no site Poems from the Portuguese

Blogue do autor, pequenos animais sem expressão

Rui Pires Cabral — «Do coração da noite vinham apelos e silêncios»

 

«Do coração da noite vinham apelos e silêncios»1

Para o João Menau

 

As cidades doem, estão dentro de nós

mantidas por laços de fumo e desejo,

têm muros úteis e portas escondidas

que dão para a noite, como certos livros,

e há amores que vivem a horas tardias

 

e outros que se cortam no fio da trama,

queimam paus de incenso para abrir

caminhos, remover obstáculos, há curvas

e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.

As cidades cansam, estão nos nossos

 

dias, têm mil janelas de azul virtual

que nunca sossegam e nunca terminam

e há corpos que ensinam a temer a morte,

sombras que circulam nas redes do escuro

e homens que ferem para não chorar.

 

1Albert Camus, A Morte Feliz [tradução de José Carlos González], Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 102.

Cabral, Rui Pires, Oráculos de Cabeceira, Lisboa: Averno 2009

 

«Prey», Nuno Figueira © Nuno Figueira, via Deviantart (D.R.)

José Gil — Portugal, Hoje – O Medo de Existir (excerto)

“Entre as penas humanas, a mais dolorosa é a de prever muitas coisas e não poder fazer nada.” — Heródoto (1)

«É a Vida!» — José Rodrigues dos Santos (2)

Como convém televiver

«É a vida.» Esta frase com que o apresentador da RTP termina amiúde o Jornal da Noite dá o tema do ambiente mental em que vivemos. «Dar o tom» significa muito mais que «sugerir» ou «indicar» uma direcção de leitura. Na realidade, constitui por si só toda uma «visão do mundo» e, mais importante, toda uma visão de nós mesmos, da nossa vida enquanto (tele)espectadores do mundo.

Depois de assistirmos às notícias sobre raptos, assassinatos, acidentes de viação, mortos palestinianos e israelitas, descobertas de centenas de vítimas taliban asfixiadas em contentores no Afeganistão, surge uma notícia que, como uma luz divina, redime todo o mal espalhado pela Terra: nasceu um bebé panda no Zoo de Pequim! O apresentador sorri largamente, pisca mesmo um olho cúmplice aos telespectadores. Depois das imagens de futebol, remata enfim, com um tom sábio: «É a vida!»

É a vida, pois. Que mais quereis? É a vida lá fora, não há nada a fazer, é assim, vivei a vossa com paz e serenidade, não há nada a temer, é lá longe que tudo acontece e, no entanto, estou eu aqui para vo-lo mostrar inteiro, o mundo, ide, ide às vossas preocupações que a vida continua.

Com este tom destinado a sossegar os espíritos, o apresentador envia-nos várias mensagens bem precisas: 1. A vida é uma mistura de bem e de mal, o homem está entre a besta e o anjo, e isso constitui a essência do mundo, que foi, é, e será sempre feito dessa mesma massa; 2. A frase impõe uma norma: eis o que se pode, e portanto, deve pensar do que acabámos de ver em todo o planeta. Norma metafísico-moral, ou melhor, norma ligeiramente eivada de metafísica que assim recolhe e reúne num só, todo o tipo de reflexões pensamentos que as imagens televisivas suscitariam. É, pois, uma norma para o pensamento: diz-nos como e o que pensar do mundo: e segundo a maneira de pensar, pensamo-nos também a nós face ao mundo, mas como se estivéssemos dentro dele, como sua parte integrante. Cria-se aqui uma pequena transcendência, imperceptível mas indelével, que constitui o efeito profundo do imperativo metafísico-moral: o telespectador é colocado dentro do mundo mas ao mesmo tempo acima dele, como se o vivesse não o vivendo. «É a vida», a nossa, a de todos, aquela que vivemos — e, no entanto, a vida é um espectáculo de imagens a que vós acabais de assistir. De fora, porque ele está fora de nós.

Estamos fora da vida, dentro dela: «é a vida!…» É esta mistura confusa de transcendência-imanência da nossa vida à Vida que provoca um nevoeiro no espírito.

Um terceiro aspecto parece não menos importante: 3. A norma neutraliza quaisquer veleidades de um discurso que se desvie deste bom senso que ela irrecusavelmente revela. A norma impõe limites imperceptíveis (porque internos) ao pensamento e, certamente também, à acção. Tudo o que vimos, a barbárie, o excesso, a crueldade mais insuportável são compensados, reequilibrados pelo sorriso, e o golpe do panda: é o que nos diz o metadiscurso final (a frase) do apresentador. Ou seja, aquilo, o crime e o sangue, não é a vida ainda; só começa a pertencer à sua esfera com o surgimento do bebé panda.

Inocula-se assim, no seio das imagens, uma outra dose de nevoeiro: o que vistes não é o que vistes, mas o que só agora estais a ver, que é o que vistes menos o que julgastes ver porque o bebé panda vo-lo retirou.

(…)

Gil, José,  Portugal, Hoje O Medo de Existir, (5.ª edição), Lisboa: Relógio D’Água Editores, Março 2005, pp. 7 – 9

«watching», droem © droem, via Deviantart (D. R.)

(1) — citação escolhida pelo autor do blogue, num gesto de diletantismo puro; visto que gosta muito deste excerto mas não preza particularmente filósofos franceses contemporâneos, não resistiu a uma pequena bicada.

(2) — José Gil não se presta a baixezas, mas é de José Rodrigues dos Santos a autoria da frase que constitui o leitmotiv do início do livro, feliz coincidência que aproxima manifestamente este post da grande literatura.

«Hard Times» rather than «Great Expectations»

Parece que banca europeia está descapitalizada, logo a economia fica sem crédito, logo descapitalizada. E não pode ser! Então a economia terá de recapitalizar a banca, descapitalizando-se. Uma quadratura do círculo? Não, há uma saída maravilhosa: milhões empobrecerão para salvar os seus salvadores. Esquerdismo radical? Leio a memória de Dickens e escolho: «Hard Times» rather than «Great Expectations».

«Hard Times», BBC Learning Zone (2011)

Rui Miguel Ribeiro — XX Dias (dois poemas)

 

 

 

 

 

 

(post reeditado)

 

 

XII ∙ AS PALAVRAS

 

Escuto só as tuas palavras.

Tenho o presente a partir

da minha fraqueza.

Chega até mim

quem me explica

a luz surda destes dias.

 

*

 

XVII ∙ O QUARTO

 

Neste quarto que me priva

da voz, visão e ouvido do mundo,

entre renúncias, sobrevive

a minha existência;

o que será uma memória

irrenunciável do vazio,

um trajecto deserto,

sem temperatura, até um desejo

de magoada serenidade.

De uma idade terminada.

 

Ribeiro, Rui Miguel, XX Dias, Lisboa: Averno, 2009

 

© Yesica, via Deviantart

Sobre Rui Miguel Ribeiro: «*Nasceu no Porto, em 1974. É Matemático e vive em Lisboa. Publicou os primeiros poemas com 24 anos e colabora, desde então, regularmente com algumas publicações, nomeadamente Criatura e Telhados de Vidro. Publicou os seguintes livros de poesia: Europa e mais três poemas, Letra Livre, Lisboa, 2007, XX Dias, Averno, Lisboa, 2009.» [informação recolhida aqui]

Gonçalo M. Tavares — A Água

 

 
No café trazem-me um copo com água

como se ele resolvesse todos os meus problemas.

É ridículo – penso – não há saída.

No entanto, depois de beber a água

fico sem sede.

E a sensação exclusiva do organismo

acalma-me por momentos.

Como eles sabem de filosofia – penso –

e regresso, logo a seguir, à angústia.

 

Tavares, Gonçalo M.,  1, Lisboa: Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

 

«The Glass: Drowned» — Alberto Guerrero © Alberto Guerrero via Deviantart (D.R.)

 

  blogue de Gonçalo M. Tavares

 

António Franco Alexandre — Acrilírico

as suas ágeis mãos sonharam tempo

quase entre os meus recados, os secretos

canais onde altos barcos, a

brancura,

sabia o som das vozes imortais.

juntou-me ao seu cabelo, à sua audaz

mudança de memória.

agora encosto os cantos nas esquinas

na prata enevoada dos seus dedos.

já me esqueci? não sei se me persiste

um duro chão, a escada

redonda onde nasci,

a breve idade.

estou no vento que escorre as suas águas

na barreira de incesto que nos move.

em suas mãos dissimulado

avança, entre clareiras, o roteiro

de nossas mansas aves.

aceito a sua água, o seu retrato

junto à ponte, no meio

de inúteis castiçais.

ouço-a, de noite, sussurrar as penas

que a língua não consente.

 

é o seu bafo que me aquece

as brilhantes retortas

o doce candelabro.

eis a sua pálida figura, o seu retrato

a giz nos vastos

armazéns do império.

és este cuspo de óleo, este ligeiro

verso da lembrança.

ou ficará de mim esse outro rastro?

no resto dos seus olhos

pousarei o lençol, lembrando

o ângulo das chuvas, e os brandos

meteoros.

passeio-me

de tranças, com um fio

azul por entre as franjas

flexíveis da memória.

encontro esse motivo nos teus dedos,

na sua carne de curtume branco.

deixa que viva nos seus olhos, rosto.

entornou-se no vento foi delgada

como as ruínas de uma

breve espera.

Alexandre, António Franco, Colóquio/Letras n.º 53, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1980

photographer: Jerrica Raglin — Via Deviantart (D.R.)

António José Maldonado — Dies Irae

Alguns poetas caíram num aparente esquecimento e é como em tudo, pouco haverá a fazer. A indignação apenas indicia que quem a exprime possui memória e possível pendor para a indignação. Não é o caso, apenas recentemente conheci alguma pouca obra deste autor. Como não acredito que os bons poetas (e mesmo os menos bons mas ainda assim bons) se desvaneçam no éter, não me preocupa muito recomendar a redescoberta de António José Maldonado. Cada um encontra, reencontra ou tropeça no que lhe calha. E, nestas coisas,  creio muito na causalidade dos acasos. De vez em quando, num dia feliz, achamos o que nos esperava.

[Nota biográfica singela, seguida de poema e hiperlink (satisfatório) para a entrada sobre o autor no portal da DGLB:]

«Poeta português nascido em 1924, em Bragança. Após ter terminado os seus estudos secundários, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas.
Deu então início a uma carreira docente, lecionando em escolas secundárias situadas em vários pontos do país, como por exemplo, Faro, Lisboa e a sua Bragança natal. Chegou também a ocupar o cargo de reitor em instituições de ensino em cidades da Angola colonial, como Lobito e Carmona.
Em 1951 fundou, em parceria com Jorge Nemésio, Fernando Guimarães e José Manuel Ferrão, a revista Eros. Estreou-se como poeta nesta publicação, que foi mantida até 1958, e na qual figuravam também ensaios.
Publicou o seu primeiro livro em 1960, uma coletânea de poemas intitulada Futuros ou Não. Com um intervalo de mais de duas décadas, seguiu-se Limite Cultivado (1984).
António José Maldonado foi inserido pela crítica na chamada “Geração de 50”, que se tornou célebre pelo seu inconformismo e revolta contra o regime salazarista. De entre os seus poemas destacam-se particularmente “Êxodo”, “Dies Irae” e “Os Fundadores de Cidades”.»

António José Maldonado. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-10-09].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$antonio-jose-maldonado&gt;.

 

DIES IRAE

 

Não me esqueçais

vós, coexistentes insectos, andados objectos da minha alma.

chão consultado por muito povo,

sala própria de todos os destruídos invernos.

Sob o sol, entregamos o chão da erva

e tu, arcanjo — cimento de luz —, unirás a agonia dos frutos

às raízes dos astros.

Rumor nenhum ultrapassará o fogo e a água

e demoradas cicatrizes continuarão o assombro da unidade.

Na baía mais larga, as línguas de Pentecostes instruirão

os ceifeiros para as espigas desta jornada.

Terminada a conjunção do tempo,

as primaveras expõem aos ombros sua nudez silenciosa.

Amanhã beberemos paciência,

amanhã será o homem encontrado no seu osso,

sua fala arredondada pelas marés,

seu dedo dócil — a medo pintado — sem título,

e tu, Senhor, desocupado de passado e de futuro,

cercado de altura e de provérbios.

 

Maldonado, António José, Colóquio/Letras n.º 33, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Setembro de 1976.

 

«Seven pomegranate seeds» — Franglais Photography © Franglais Photography, via Deviantart (D.R.)

  António José Maldonado no site da DGLB

Miguel Pires Cabral — hoje chamei o teu nome

Último post em que destaco um autor  do terceiro número da revista online “a sul de nenhum norte”. Um poema de Miguel  Pires  Cabral que, de acordo com nota biográfica apresentada,

«nasceu  em  Macedo  de  Cavaleiros  a  27  de Março  de  1974. Escreve os seus primeiros poemas algures pela viragem do milénio; Lançou em Agosto de 2010 o seu primeiro livro  de  poemas  originais  intitulando  “Café  Solo”.  O  seu  primeiro  livro  conta  com  prefácio  de  Marta   Pessanha  Mascarenhas,  edição  de  LMOPC  –  Editores  ©  &  Impressão  pela  Dom  Texto  ‐  Vila  Real. Prepara  nesta  altura  um  segundo  livro  de  poemas  originais,  estando  a  sua  edição  prevista  para o verão de 2011.»

Acrescento que é autor do blogue «Barbitúrico da Alma», onde se pode encontrar alguma da sua produção poética mais recente e / ou dispersa.

hoje chamei o teu nome

Hoje chamei o teu nome,
o teu dia cansado,
a tua ausência,
longo é o verbo da espera.

O dia também me fugiu,
foi um corrupio de ida em volta
ainda que breves tenham sido
as minhas conjugações.

Chegou ao fim o dia,
encontro‐me finalmente
de frente para este rosto
que também trago cansado.

São estes dias de suor
e esquecimento
que nos fazem esquecer
dos nomes, dos verbos,

de toda uma semântica
que nos aproxima – para além
de todo o esquecimento
que nos representa – assim.

 

Miguel Pires Cabral, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

 

«facing things», via DEviantart

 

   Blogue de Miguel Pires Cabral,  Barbitúrico da Alma.

Tomas Tranströmer — Prémio Nobel da Literatura 2011 (3 poemas)

(post reeditado)

Ao fim de quinze anos (Wislawa Szymborska foi distinguida em 1996), um poeta recebe o Prémio Nobel da Literatura! Saramago e Pinter escreveram poesia, mas não eram propriamente poetas. Um acontecimento, embora o nome de Tranströmer fosse desde há muito um dos apontados como possível laureado. Aqui se deixam 3 poemas do autor respigados online e uma belíssima fotografia do poeta (que pode ser muito ampliada).

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”

(Tradução de Vasco Graça Moura)

Tranströmer, Tomas, 21 Poetas Suecos, Lisboa, Vega, 1980.

Novembro

Quando o esbirro se aborrece, torna-se perigoso.
O céu constrói-se, em chamas.
Sinais de pancadas ouvem-se de cela em cela.
E do solo, coberto de neve, o espaço jorra.
Algumas pedras brilham como luas cheias.

(Tradução do alemão para português por Luís Costa)

A Neve Cai

Os funerais aproximam-se
cada vez mais densos
como placas da rua
quando nos aproximamos de alguma cidade.

O olhar de mil pessoas
na terra das longas sombras.

Uma ponte constrói-se
lentamente
sempre a direito no espaço.

(Tradução para português por Luís Costa)

tomas tranströmer

(clique para ampliar)

Herberto Helder — LEVANTO as mãos e o vento levanta-se nelas.

 

LEVANTO as mãos e o vento levanta-se nelas.

Rosas ascendem do coração trançado

das madeiras.

As caudas dos pavões como uma obra astronómica.

E o quarto alagado pelos espelhos

dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.

Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.

E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento

contra o terror que o arrebata. Os olhos contra

as artes do fogo.

Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.

 

Helder, Herberto, Ofício Cantante, Lisboa: Assírio & Alvim 2009

 

fotografia: «7_Troco de oliveira recolhido em Santa Bárbara de Nexe. Museu de Faro. 2005» — Duarte Belo

 

   Herberto Helder no site da DGLB

   Site do fotógrafo Duarte Belo

Daniel Jonas — Trabalho e trabalho

Trabalho e trabalho

para dar à luz um pai

na minha solidão de depauperado

arado que nada sulca

porque como um comboio a que faltaram carris

prévios ao meu arado são seus sulcos.

 

Sou um filho circular. Como um signo

zodiacal sou um filho circular, requer o que faço

aquilo em que me movo

que é aquilo em que me movo

o que faço e como fazê-lo

se não tenho já em que me mova? O que faço

é o que me fez.

 

Sou comboio e arado e um rodado

sem discos. Sem paralelo em círculos

rotunda tristeza propago

de vertiginosa incubação de vórtices

que ajudo a solidificar: outra vez a sólida

solidão: é fácil a primeira imagem do comboio:

 

insta à compaixão. E são pesados os bois

circulares que o meu arado

entontece, em vão o rodado

sem discos. Quanto pesarão

bois entontecidos? Como ser pai

quando se é filho?

 

Jonas, Daniel, Os Fantasmas Inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

 

«Perfect Intersection», bulent © bulent, via Deviantart (D.R.)

 

Página sobre Daniel Jonas no site da D.-G.L.B.

Helder Moura Pereira — Quando estamos assim

Quando estamos assim

deitados e nus, sem

a minha cara saber

se é a tua cara à frente

dela, parece-me bem

que o mundo é uma coisa

às escuras, sem importância

nenhuma. Dou a volta,

rodopio como um artista

de circo, estou dentro

de uma rotina, quando

lavo os dentes e visto

o pijama de flanela às riscas

sinto-me um miúdo pequeno

que desconhece o que é

morrer. Chamaste-me

sentimental, sentimental

é a tua tia.

 

Pereira, Helder Moura, Um Raio de Sol, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

 

«9.04», Antagonist © Antagonist, via Deviantart (D.R.)

 

Helder Moura Pereira no site da D.-G. L. B.

Miguel-Manso — STATUS REPORT

 

sou comarca onde parou de chover

e quem não se lembra da sanguechuva

que foi em tempos este coração

 

já não tenho a vida toda (faço trinta

o mês que vem) e a verdade é que nem

na morte se pôde alguma vez confiar

 

muito mal contado isto da morte

 

Miguel-Manso, Santo Subito, Lisboa: Os Carimbos de Gent, Março de 2010 (edição de autor)

 

«life and death», via Deviantart (D.R.)

 artigo na Visão Online sobre o autor.

Ana Luísa Amaral — Ritmos

 

 

E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:

a prosódia da mão, a ervilha dançando

em redondilha.

Misturar ritmos em teia apertada: um vira

bem marcado pelo jazz, pas

de deux: eu, ervilha e mais ninguém

 

De vez em quando o salto: disco sound

o vazio pós-moderno e sem sentido

Ah! hedónica ervilha tão sozinha

debaixo do fogão!

 

As irmãs recuperadas ainda em anos 20

o prazer da partilha: cebola, azeite

blues desconcertantes, metamorfose em

refogados rítmicos

 

(Debaixo do fogão

só o silêncio frio)

 

Amaral, Ana Luísa, Minha Senhora de Quê, Lisboa: Quetzal  Editores, 1999

«I can feel you all around me», Adour © Adour, via Deviantart (D.R.)

Fiama Hasse Pais Brandão — O Nada. Sobretudo na Fase de Exaltação

Os ramos de árvores despidos que nos lembram
o nada. Sobretudo na fase de exaltação
do espírito. Com a cabeça encostada
aos vidros altos.

Simultaneamente procurar o centro
da irradiação. O Sol matinal com os seus hiatos
preenchidos por casas. Ameias onde se
invertem os vértices do horizonte.
Sol magnânimo

fixo sobre as árvores abençoadas sem
folhas. Infinitos pormenores visíveis e
espaços audíveis preenchem a hora exaltada.
Ponto profusamente cheio. Um fino
silêncio exterior

sinal do nada circundante. Graveto
junto de graveto cruzados para além do fim
da perspectiva. Um significado diverso
naquelas ameias em outros planos. O nada
sempre coeso. Uma respiração intangível
e sem sombras.

Hasse Pais Brandão, Fiama, Três Rostos, Lisboa: Assírio e Alvim, 1989.

 

«Pollock Trees», Neptunia © Neptunia, via Deviantart (D.R.)

 

  página sobre Fiama Hasse Pais Brandão

Nuno Brito — A insustentável leveza de quê?

Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É licenciado em História pela FLUP. Frequentou o Instituto de Estudos Medievais em Roma. Em 2008 foi seleccionado para o Concurso Jovens Criadores na categoria de Literatura. No mesmo ano obteve o primeiro Prémio no Concurso Literário da Faculdade de Letras da UP (Poesia) obtendo, no ano seguinte, o primeiro Prémio na categoria de conto.  Em 2009 publicou a obra Delírio Húngaro e em 2011 Créme de la Creme.

Autor já referenciado e transcrito neste blogue, Nuno Brito apresenta-nos neste último livro um conjunto de textos de surpreendente, riquíssima carga imagética, neles se produzindo inesperados significados que aproximam a obra de uma contiguidade surrealizante, nunca deixando contudo de se reconhecer uma voz absolutamente singular no panorama dos autores contemporâneos.

capa do livro "Créme de la Creme"

A insustentável leveza de quê?

Ao Gonçalo

“O poema não é mais verdadeiro nem mais consciente do que uma

teoria científica (provavelmente, é-o menos) o poema não contém atrito

por definir o mundo ou desvendar a metafísica. O atrito do poema tem

a ver com o corpo, a distância e a lentidão”

Pedro Eiras  – A Lenta Volúpia de Cair

 

Deixar cair uma maçã com toda a força,

Não estamos aqui pela gravidade, mas porque

Amamos o chão – a terra

Se possível, metemo-la toda na boca,

perdi um bloco de notas que me compraste no museu do Galileu, nele tinha notas sobre a aflição e o atrito – a ligação entre poesia e ciência, a Vontade de estar dentro de Ti. A maçã contínua cai – sem que Newton ou um poeta suicida – Esqueci-me do número do andar – tenham ainda o sabor da razão na boca, azedo e verde, sem ter asas, nem querer voar: A insustentável leveza de quê? O atrito do ar enquanto desces e perdes toda a poesia, a inocência, a vontade de cair naquilo que nunca será ciência – falo da razão está nos teus olhos, dentes e boca.

Brito, Nuno, Créme de la Creme, Porto: Planeta Vivo, 2011

Gordon McBryde © Gordon McBryde, via Deviantart (D.R.)

Maria Sousa — «se para um corpo a insónia»

Maria de Sousa, editora, juntamente com Nuno Abrantes, da revista online de artes e letras a sul de nenhum norte, apresenta-se, na referida revista, de forma peculiar: «Maria Sousa é uma lebre que é uma Alice e gosta de passar as tardes no café Santa Cruz a ler e a escrever.  Gosta de revistas e já participou em algumas (Criatura, Sítio, Umbigo, Saudade). Escreveu Exercícios  para  endurecimento de lágrimas (Língua  Morta, 2010) mas ainda chora quando ouve a Lhasa e o Tom Waits. Não gosta de dar aulas e quando for grande quer ser livreira.»

Resta dizer que é uma das novas autoras de poesia de que mais gosto; e que o blogue da Maria Sousa é maravilhoso sendo, diversamente, uma notável obra de amor (e elevada fasquia qualitativa) a revista que edita, da qual já saíram 3 números. Do terceiro se retirou este poema.

 

 

se para um corpo a insónia
é uma palavra de olhos abertos

quando os dias ficam mais curtos
preparo o quarto para o rigor do inverno

não se trata de um vazio mas
de um lugar preparado para
todas as palavras que ficaram nas rugas

 

Maria Sousa in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

 

«falling red», Paty Sanchez © Paty Sanchez, via Deviantart (D.R.)

   blogue da revista «a sul de nenhum norte»

   blogue da autora, «there’s only 1 alice»

  blogue das «Edições Língua Morta»

Manuel António Pina — A ferida

 

A ferida

Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado. Mas onde encontrar um passado?

 

Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa – uma antologia pessoal, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011

 

«What time is it?» — Shutterbug © Shutterbug, via Deviantart (D.R.)

   Página da D.-G. L. B. que assinala a atribuição do Prémio Camões 2011 a Manuel António Pina, com hiperlink para página sobre o autor.