As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Varia

Herberto Helder – “Quero um erro de gramática que refaça”


Quero um erro de gramática que refaça

na metade luminosa o poema do mundo,

e que Deus mantenha oculto na metade nocturna

o erro do erro:

alta voltagem do ouro,

bafo no rosto.

Helder, Herberto, “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

"the other side of the room" © Cyril Berthault-Jacquier & Mehmet Arslan (díptico) via Deviantart

(clique para ampliar)

João Almeida – “Em tempo de miséria”

Da selecção “Resumo –  a poesia em 2009“, edição da Assírio & Alvim.

Em tempo de miséria

desço por um jardim transparente

entre lodo e hortelã

andam assistentes sociais pelo bosque

à procura de pobres

agitam contas e berlindes

acaba aqui a rédea solta, há que escolher as armas

troco à sombra do derradeiro cipreste

dois versos e um dedo

por uma noite de sono e um detonador

dark forests, Husckarl © Husckarl, via Deviantart

in “RESUMO, a poesia em 2009″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010

originalmente publicado em: Almeida, João, “Glória e Eternidade”, Vila Real: Teatro de Vila Real, 2009

Zeinal Bava… uma aposta na portugalidade

No comments. Tenho um term of agreement, um mission statment para defender, uma joint venture com este senhor: a Portugalidade. Era o mínimo que se exigia: PORTUGALIDADE! Em doublespeak, em triplespeak, who cares… O nosso core business é a PORTUGALIDADE.

Olha que porra.

Finnegans Wake redux

"porra, onde é que eu ia?!"

(clique para ampliar)

Dois senhores pacientes, um linguista (Danis Rose) e um físico (John O’Hanlon), dedicaram 30 anos de vida a introduzir umas singelas 9.000 correcções e “pequenas” alterações ao original da célebre, polémica e problemática obra de James Joyce; nove milhares de pequenos nadas que, de acordo com os autores, conferem maior coerência e inteligibilidade ao texto: «Esta coerência foi restaurada por completo na nova edição e resulta no que se pode chamar a primeira edição definitiva da obra-prima de Joyce», afirmam, orgulhosos, os perpetradores.

Pois. Perante tanta confiança e júbilo, algumas perguntas se podem colocar:

Queremos ler o Finnegans Wake para o entender?

Queremos ler o Finnegans Wake?

Quereria o autor que a obra fosse arredondada e facilitada? Ou até simplesmente lida enquanto “leitura”?

Conseguiram Rose e O’Hanlon fazer mesmo alguma coisa de jeito, ou apenas usaram adoçante?

E pode plausivelmente acreditar-se que, agora-finalmente-até que enfim, com 9.000 pinceladas, a coisa fica assim “legível” e lobotomizada?

A avaliar por estas duas páginas dos apontamentos de Danis Rose, não creio. A quem se dispuser a gastar 900 libras na coisa (em edição especial) garanto que é uma arriscada decisão de investimento no mercado de bens culturais; aos outros, quase que afiançaria tratar-se de uma inutilidade.

Eyjafjallajökull

"sou um belo vulcão preguiçoso e traquinas"

Image courtesy Flickr user © orvaratli via CC (clique para ampliar)

Apresenta-se (aqui em relativo descanso) o vulcão islandês que provocou a pior restrição aérea de que há memória na Europa; que deixou centenas de milhar de passageiros em terra, incluindo Cavaco Silva em Praga e Angela Merkel  em Lisboa (sorte a dele, chatice a dela) e Fernando Pinto a fazer contas aos mais que improváveis bónus de 2010. Aqui se mostra o vulcão que tem este mimoso nome (com direito a link para se perceber a pronúncia da coisa e tudo); o mais engraçado é que o Eyjafjallajökull é conhecido, na Islândia como o “vulcão preguiçoso”. Nada de extraordinário: à velocidade com que as coisas se passam naquela ilha (a bancarrota, por exemplo), por que razão não há-de o Eyjafjallajökull acordar de repente?

Novos Poetas (52) – Vasco Gato

No peito, a manivela ferrugenta

que faz abrir a respiração

começou a emperrar

e o corpo aprendeu rapidamente:

o suor como se a roupa

fosse um antídoto.

O belo cavalo branco de cascos

impretéritos avançou

então

pelas vértebras

mas não impediu que a imagem

fosse real.

Cordas de piano

por onde trepam os assassinos

e onde por vezes

se enforcam

antes de alcançarem a janela,

o repto impune dos que dormem:

vela-me.

GATO,  Vasco, “Omertà”, Famalicão: Edições Quasi, 2007

© Paulo Madeira, Olhares Fotografia Online (d.r.)

Ana Hatherly – Tisanas

28

Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.

HATHERLY, Ana, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)

ilustração infantil, inspirada no livro “T.J.’s Desert Surprise” de Emily A. York

O Hino da Monarquia

É irrelevante eu ser republicano, assunto que nem me preocupa por aí além. A verdade é que nunca gostei muito do hino nacional, o nosso, o da República. Nem da música, nem da letra (especialmente da letra, concordo com o António Alçada Baptista que, num 10 de Junho, propôs que a mesma fosse mudada, que se mandassem os canhões borda fora, para escândalo das alminhas). Depois de declarada esta heresia, deparei, por acaso, com o hino – monárquico e cartista – que vigorou até à implantação da República. Garanto-vos que, depois de ler a letra, que aqui deixo, o épico texto de Henrique Lopes de Mendonça me parece Shakespeare! Mesmo sem ouvir a música! Realmente…!

Hymno da Carta – Hino Monárquico (1834-1911)

1.
Ó Pátria, Ó Rei, Ó Povo,
Ama a tua Religião
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

2.
Ó com quanto desafogo
Na comum agitação
Dá vigor às almas todas
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

3.

Venturosos nós seremos
Em perfeita união
Tendo sempre em vista todos
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

4.
A verdade não se ofusca
O Rei não se engana, não,
Proclamemos Portugueses
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

hmf

Ruy Belo – Coisas de Silêncio

Impresso na Guide-Artes Gráficas, Lda. (com um fabuloso preto e branco que só a técnica de impressão de retícula estocástica permite), em Junho de 2000 a editora Assírio & Alvim dava à estampa ‘Ruy Belo – Coisas de Silêncio‘, livro onde a fotografia de Duarte Belo fixa o ‘mundo’ de seu pai, Ruy Belo. Estamos no lado oposto ao da fotobiografia. Duarte Belo capta ‘momentos’ – correspondentes à estrutura do livro – definidos textualmente pelos autores, (o fotógrafo e Duarte Belo): «O primeiro momento representa alguns lugares que foram habitados por Ruy Belo e que muitas vezes surgem nos seus versos»; (…) «Num segundo momento, passamos o nosso olhar por alguns objectos do quotidiano de Ruy Belo»; (…) «Depois, há um terceiro e último momento de alguns rostos de identidade de Ruy Belo».

Duarte Belo fotografa, com um grande sentido do discreto, uma ausência. E é essa ausência que confere à obra intensa espessura e um sentido de perda, de desolação se instala. Acompanhadas por excertos da obra do poeta, e um texto de Manuel Gusmão, “Para a Dedicação de um Homem – Algumas variações em resposta à poesia de Ruy Belo“, é contudo, o texto de Luís Miguel Cintra, que abre o livro, a melhor leitura para o indizível que estas fotografias encerram. O seu silêncio povoado de sombras.

[O livro foi reeditado em tempos recentes, em edição de capa dura. A minha sugestão para a Feira do Livro de Lisboa, este ano]

Reconhecemo-nos ainda. Gostamos do mar e da terra a céu aberto. Árvores, searas, pedras, montes. Da praia. Dos campos. Das igrejas. Das aldeias e das cidades com passado e com ruas muito grandes. Dos textos antigos. De cartas e postais. E dos livros. E do povo. Das procissões. Dos cafés. Do cemitério. De ir ao cinema. Ler o jornal. Mozart e Bach. Não sabemos pôr gravata. Ainda temos camisas aos quadrados e vestimos camisola. Não gostamos da manha e da astúcia. Somos pobres. Temos o sol e só o que nos toca o coração. Alguns amigos mais. E carregamos nos ombros o amor da vida toda e uma enorme saudade de Deus. Somos católicos. Acreditamos na alegria e na pureza. Sabemos que o homem é Deus feito carne.

Reconhecemo-nos. Somos assim generosos, é verdade. Sem esforço. E não vamos mudar. Não sei se somos um grupo nem seremos com certeza uma geração, somos uma maneira de ser. E na poesia do Ruy nos encontramos.

Sou e quero ser irmão ou herdeiro dessa gente. Como o Duarte, legitimamente. E reconheço nas fotografias do Duarte, como na poesia do Ruy, a passagem das nossas vidas, os lugares, as nossas casas, os objectos a que nos afeiçoámos ou demos sentido, a memória dos nossos corpos, dos nossos encontros, dos nossos grandes amores ou da nossa paixão. A minha casa. Reconheço também o meu pai. Mas reconheço sobretudo o espaço. Ou o tempo. «O Tempo Sim o Tempo Porventura». Estas fotografias, o seu pudor, são o retrato de uma ausência. São fotografias da morte. Violentas. O que resta de um cidadão, a mudança das idades, as coisas que tinha, os lugares onde esteve ou onde estava, a roupa que vestiu, o que ficou do que escreveu. São o retrato do tempo que foge, imenso. Mas mais ainda, tanto, o retrato do que falta. Falta a vida neste vazio, neste espaço que vai da terra ao céu. E esse espaço, esse vazio, é exactamente o espaço das palavras do Ruy. O espaço do que vive. Perante a morte, constantemente, nesse único momento que se confunde com a solidão mas abraça o mundo inteiro e que nos dá a nós a dimensão da vida. Tão imensa diante do tempo que talvez nem na paixão possa encontrar a sua desejada desmedida. Tão grande que convoca Deus. E já não sabemos de que ausência falamos.

LUÍS MIGUEL CINTRA

 © Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]

© Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]


Novos Poetas (42) – Bruna Pereira

Alegro-me com a descoberta de um blogue, Poetas Portugueses do Século 21, para logo me entristecer com o seu (aparente) termo, em Dezembro de 2008. O trabalho dos seus criadores permitiu, ainda assim, juntar trabalhos de duas dezenas de autores, de diversa valia, quase todos muito novos. Por desfastio de uma inclinação para a ‘desconstrução egótica’ que muito se inscreve na actual produção poética, escolhe-se este poema (este enorme desejo de narrativa, formalizado em poema) de vincada face ‘neo-neo-realista’, versão actualíssima de um quadro que se julgaria passado e é tão de agora que até dói. A autora é Bruna Pereira (Ponte do Lima, 1983).

Lavara as mãos em sangue antes de jantar tremoços.

Era a educação dos limpos.

Dos Judas de espelho em casa e palito na boca.

Dos sem culpa numa vida de lavatório com germes.

Era fácil não querer saber dos outros.

Do gato, da mãe acamada, do filho sem papa e sem dentes ainda.

Do filho que dizia não ser seu enquanto se coçava e via o futebol.

– És uma puta! E tenho mais em que gastar o meu dinheiro.

E estava feita a oração antes da ceia.

E da varanda que é também sala de estar, subia o fumo da mulher do batom

[vermelho que aquecia a rua.

– Mas que caralho pensas que é isto?

E havia menos um prato inteiro que lavar.

Se a conta da água estivesse paga.

Se houvesse água em casa.

Choro, vidro, golo, menos outro prato, ralho, estalo, grito, copo voador, berro,

[copo partido no chão, tremoço,

vizinho apaga a luz, falta, casca de tremoço, murro, intervalo de jogo, outro

[vizinho finge que não está a ver

nada, resultado 2-1, pum, silêncio.

Sirene do INEM.

Quando alguém leva um tiro no meu bairro, aparece sempre a sirene do INEM

[apegada a uma ambulância amarela.

Depois volta a haver silêncio, fecha-se tudo em casa, os gatos esgueiram-se por

[entre os caixotes do lixo podre

que ninguém recolhe e a mulher do batom vermelho desaparece nuns mínimos

[que fogem de carro.

Eu vou lavar os dentes e tentar dormir.

Mas nem sempre consigo…

Bruna Pereira in → Poetas Portugueses do Século 21 (blogue)

Red pill Blue pill © Mário Leal, Olhares, Fotografia Online

Red pill Blue pill © Mário Leal, Olhares, Fotografia Online


Novos Poetas (37) – Jorge Reis-Sá

Mais uma vez recorro, sem pudor e com gratidão, à preciosa informação de Henrique Fialho, no seu blogue Insónia, para aqui deixar a breve nota biográfica que escreveu a propósito deste autor, de que me fizeram chegar A Palavra no Cimo das Águas, da Campo das Letras, edição esgotada, editora parece que também esgotada para sempre. «Jorge Reis-Sá nasceu em Vila Nova de Famalicão no ano de 1977. Estudou Astronomia e Biologia, dedicando-se posteriormente à edição. É responsável pelas Quasi Edições. Estreou-se na poesia com o livro à memória das pulgas da areia (1999). Tem colaboração dispersa por várias antologias e revistas literárias, tendo sido co-director da revista Apeadeiro. Além de poesia publicou obras de ficção e organizou algumas antologias, entre as quais o volume Anos 90 e Agora – Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa (2001), posteriormente revista e aumentada.»


Pai, a Minha Sombra és Tu


a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma

e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida

o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face

pai, digo-te
a minha sombra és tu

Jorge Reis-Sá, in A Palavra no Cimo das Águas, Colecção Campo da Poesia, Campo das Letras, Lisboa, 2000

'Memories of My Father', Jonathan Cox

'Memories of My Father', Jonathan Cox

Novos poetas (XX) – Diogo Vaz Pinto

Diogo Vaz Pinto, poeta, director da criatura (com Ana M. P. Antunes e David Teles Pereira), já tinha captado atenção com os seus poemas, publicados naquela revista. Uma voz que parte de uma feroz  enunciação do real para a procura de uma ascensão, de uma realidade outra, que se sugere em torno da Poiesis, da luta por uma ‘imortalidade’ alcançável na beleza, através da possibilidade da escrita. Mas esta acaba por ser questionada enquanto locus salvífico, numa tonalidade irónica, mordaz, como se, entre a realidade e a idealização, se ficasse sempre a meio caminho. Este poema parece particularmente seguro e conseguido, no contexto e na definição do trabalho do autor (que pode ser lido, entre outros autores, no blogue que dinamiza colectivamente, O Melhor Amigo).

Nevralgias

Quero uma poesia que mate.

LeRoi Jones


Estamos a dormir e a sonhar que acordámos
com os nervos ligados
a uma bateria de imagens coléricas,
pólvora enrolada na língua
e dedos recriminadores apontando tudo,
dedos enfiados bem fundo na garganta, nessa ferida absurda.

Já tive oportunidade de dizer-te que sou um animal obcecado,
que faço o olhar descer como a noite pelas costuras
no vestido de senhoras sentadas a uma hora destas,
lendo bestsellers nos cafés mais demorados
de Lisboa. Posso agora acrescentar que perdi toda a esperança
de vir a ser recolhido nas suas mãos e de ser acarinhado
nesses regaços, a não ser
que sejam elas a mudar de ideias,
que lhes suba ao espírito um fervor demencial
e rasgando o ventre dêem à luz um eloquente suicida.

Estamos eu, tu, estamos todos à espera
de uma criança em chamas que venha fazer letra morta
dos discursos que nos afogam, de todos os poetas já nacionalizados
e da exausta metafísica que nos gela o sangue.
Essa criança tarda em vir, se calhar calou-se à nascença,
seja como for
não nos resta outra coisa senão chamar mais alto.
Enquanto não vem
vamos nós saindo de chinelos para o cosmos,
em busca desse electro-choque experimental, o texto-motor
que nos vai servindo de exercício e passatempo.

À noite deixo a luz do corredor acesa e a porta do quarto
entreaberta,
não por medo do escuro, mas para conduzir
os demónios aos meus sonhos.
Quero acordar inspirado, há que erguer uma obra
nem que seja só para depois vê-la arder.
Morrer para ela – ainda que vivas –,
ainda que depois de estar escrita a última linha,
permaneças à margem e não te deixes convencer.

Diogo Vaz Pinto, in blogue ‘O Melhor Amigo’ (http://omelhoramigo.blogspot.com/), Segunda-feira, Novembro 03, 2008


le poids de l'innocence © honey, Olhares, Fotografia online

le poids de l'innocence © honey, Olhares, Fotografia online


Nacionalização do BPN

O governo anunciou, hoje, que irá propor a nacionalização do BPN (Banco Português de Negócios). Lá, no lugar onde se encontrar, Vasco Gonçalves deve ter soltado uma gargalhada sobrenatural.

'força, força...'

'força, força...'

Fotografia do Dia (X) – A China e Hu Jia. Ainda.

Em homenagem, a Hu Jia, a metafórica imagem de como deve ser a vida, o estado de espírito, o ‘abismo’, de quem luta pelos Direitos Humanos na República Popular da China. A fotografia, repito, é uma metáfora. A realidade nem sequer convoca sinais de beleza.

(fotografia publicada no inevitável The First Post).

Shall I overcome?'

Shall I overcome?

Samat Hasan, walks a tightrope in Zhangjiajie, Hunan province, China

The Great American Songbook (VIII) – Ol’ Man River

John McCain é, certamente, uma boa alma. E um valente. O facto de pensar o futuro com as ferramentas do século XX não belisca em nada a sua integridade. Com um partido Republicano cada vez mais acossado, assustado e com vontade de ‘sangue’, McCain fez o que outros não fariam. Defendeu a honra (e, de passagem, o patriotismo) de Barack, perante um grupo de apoiantes que, evidentemente, o assobiaram. Ganhou pontos na consideração de muitos. Vão servir-lhe no futuro, quando Obama mostrar que (também) vai precisar que sirva a nação. E ‘servir’ sempre foi um código de honra na vida do velho Senador.

*

Em 1927, os grandes Jerome Kern, e Oscar Hammerstein II escrevem Ol’ Man River para o musical Show Boat. Ironia: é o cantar de um velho negro, melancólico com a dureza e as agruras da vida. Aqui o temos, na interpretação de Paul Robeson, no filme musical de 1936. Tocante.

The Great American Songbook (VI) – At Last!

Carregando a fundo no único tema que agora centraliza o debate político entre as candidaturas, a Economia, Barack Obama proferiu, na quarta-feira, declarações surpreendentes. Não pelo conteúdo, mas pela firmeza e agressividade. Não mandou recados, falou ele mesmo, em Dayton. De acordo com a CNN, «Sen. Barack Obama on Thursday slammed Sen. John McCain’s new mortgage plan as “the latest in a series of shifting positions” and evidence of “erratic and uncertain leadership.». Finalmente Obama entra em território de combate com a faca nos dentes. At last.

*

1941. Mack Gordon e Harry Warren escreviam At Last!, para o filme musical Orchestra Wives. Tornada num enorme êxito e num standard intemporal por Glenn Miller, é porém a interpretação de Etta James que vai conferir contornos imortais ao tema, levando ao limite o carácter romântico da canção. As gravações ao vivo existentes mostram James já longe das suas capacidades vocais (mas ainda com muito soul a percorrer-lhe as veias). Aqui fica, portanto, a gravação original, embora visualisada num slide show. Tem a vantagem de mostrar como esta americana branca era bela e como cantava com uma alma negra.

Fotografia do Dia

No The First Post, edição de dia 8.

"Know thyself? If I knew myself I would run away" - Goethe

«John McCain waits backstage before the presidential debate with Democratic presidential candidate Senator Barack Obama»

Dia Mundial…

É já no Domingo. Informa-se que dia 28 se ‘celebra’ o “Dia Mundial do Coração”. Acho bem. Aguardo o Dia Mundial dos Rins. Espero o das Varizes. E do Cólon, tão esquecido que anda. Évora foi convidada pela Fundação Portuguesa de Cardiologia para acolher este ano as ‘comemorações’ (ah, pérola de retórica)! E vai proporcionar mais ao povo sofredor: a “Feira da Saúde e da Actividade Física” (em cada autarca há um poeta, comprova-se). Levado pela inspiração destes auspiciosos sucessos, apetece-me propor uma alternativa metafórica ao pobre e estafado coração. O ‘Dia Mundial dos Sentimentos’. Os Sentimentos têm sido muito desprezados. As pessoas brincam com eles e depois queixam-se, e depois é tarde. Um ataque de ciúmes acumula plaquetas nas artérias do sangue quente. Um acesso de paixão aumenta perigosamente o colesterol emocional. Lamber um líquido pescoço amado pode levar ao suicídio, caso o episódio passe da púrpura possibilidade à negra memória. Deveria haver um Fernando Pádua dos Sentimentos. Sugiro, neste dia que virá, muito exercício físico entre frescos lençóis (Évora pode ser muito quente em Setembro). E uma ‘Feira da Saúde Sentimental’, com carrossel e tudo, que eleve os amantes a voos inesquecíveis. Nos céus do Alentejo.

Anda mori, vamos sarar a Évora...

Anda môri, vamos sarar a Évora...

Renúncias

No Público de Quinta-Feira, 4 de Setembro, caderno P2, coluna “Frases de ontem”, item “Escrito na pedra”: «Uma pessoa pode abdicar de sexo, mas o sexo não abdica da pessoa» – Gabriel García Márquez. Está certo (embora tenha dúvidas que o colombiano escrevesse uma frase destas na pedra). Parafraseando-o, talvez o Público pudesse também escrever numa lápide, colocada à porta das suas instalações: «Um jornal pode abdicar do lucro, mas o lucro não abdica do jornal».

Abdico do sexo, pronto. Mas nunca do meu jornal preferido!

Abdico de sexo, pronto. Mas nunca do meu jornal favorito! © Roy Lichtenstein