As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Varia

Rui Caeiro | Um Gato no Inferno (quatro poemas e nota de leitura)

Refastelado no veludo negro
do inferno, um gato
espera por mim
*
Espera por mim, negro
e macio, confortável-
mente sentado à porta do inferno
*
Desde sempre à minha espera
aconchegado no veludo negro
do inferno
*
Resignadamente sentado
à porta do inferno
à espera de quê ou de quem
— ou de mim? — o gato

Há um longo poema contido neste livro, dividido em pequenas construções de três/quatro versos, funcionando como peças de dominó que, ligando-se entre si, se desdobram em formulações novas. O gato espera o homem que por ele se interroga sem cessar.

O gato desperta perguntas elementares, que se desenroscam em novas questões essenciais, primitivas, afastadas de razão ou metafísica (Para não pensar / excessivamente / passo a mão, devagar, / no seu dorso morno). Apenas o gozo de perguntar, que encontra resposta na temperatura, na macieza, no conforto, no desejo do gato; no que é primordial. Que as coisas do mundo ocorram e se convulsionem (sucedendo por Frielas ou por [Fernando] Pessoa) é, para o gato, para o homem, na tranquila incógnita que organiza o poema, indiferente.

Escrever simples não é fácil. Já que nos aborrecemos de vez com as tentativas sobre a forma haikai que abundam por aí, é dobrado o prazer de ler e interpretar (divagar sobre) os significados sugeridos pelo delicioso livro de Rui Caeiro.

Depois o prazer disto: os desenhos da Inês Caria (como este do extra-texto, que aqui se reproduz), os cadernos por abrir, o toque dos tipos, as gralhas rasuradas à mão pelo autor, o cólofon a informar: «Este livro é uma edição de autor, com arquitectura de Luís Gomes, foi composto em chumbo com caracteres Futura, por Eugénio Palma e impresso numa Minerva Heidelberg por António Trovão, em Lisboa no mês de Julho de 2013.»

CAEIRO, Rui, Um Gato no Inferno, Lisboa: Edição do Autor, Julho de 2013

Rui Caeiro | Um Gato no Inferno (ilustação de Inês Caria)

É quase noite — Beatriz Hierro Lopes

Esta escrita organiza-se na construção de uma memória, constitui-se meticuloso inventário íntimo. Ficciona o tempo para obter matéria narrativa. Recusando a recordação nostálgica, estabelece-se como trabalho de arqueologia: procura em camadas, até achar o que já foi ouvido, herdado, roubado, esquecido. Esta escrita faz-se e refaz-se contra a morte:

«Das fotografias antigas, o que de mais terrível fica é saber-se o fim.»

Narrar é produzir o real, narrar resgata, redime.

«chegar ao passado e dizer, à menina das tranças: não chore, nós gostamos tanto de si, e abraçá-la, ocupar o lugar de uma boneca feia que ela agarra e chamá-la ao ouvido: minha princesa

Beatriz Hierro Lopes, É quase noite, Lisboa: Averno, 2013.

(Apresentação do livro em Lisboa: sábado, dia 12 de Outubro, às 22 horas, livraria Paralelo W.)

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São Valentim, o grande embusteiro

Raios abrasem o dia de São Valentim! A começar pelo bispo que lhe deu o nome: desde 1969 nem a Igreja Católica o reconhece, à falta de provas credíveis da sua lenda ou mesmo da sua existência. Embirro, porque tenho o Santo António, caso precisasse de um santinho que, por decreto de calendário, me levasse o coração a bater mais estremecido. Que não é o caso, que o coração não precisa de datas, como as datas não têm coração, o meu Banco que o diga. Que do Valentim façam festarola anglo-saxónica a escorrer para o nosso torrão, a pingar para o negócio, é dupla injúria. Meu pobre e desancado coração, que batas ao sabor dos dias, sem hora marcada; meu bom coração constante, pulsa-me aos minutos certos da incerteza; meu coração comovido de taquicardíaca beleza, recorda-te da mais bonita quadra popular que já li, escrita em letras azuis num prato de cerâmica rasca, numa tasca da EN1.

Sino, Coração da aldeia

Coração, Sino da gente

Um a sentir quando bate

O outro a bater quando sente

Perceberás, Valentim, que és detalhe de calendário, cúpido cupido sem préstimo que não seja enlevar basbaques? Pois és.

 (fotografia:«St. Valentine's Legacy», via Deviantart, (D.R.)

(fotografia:«St. Valentine’s Legacy», via Deviantart, (D.R.)

Nuno Brito — «Duplo Poço». Excerto e Nota de Leitura.

Nuno Brito

Nuno Brito


(excerto)


OUTRA FORMA DE MENTIR

I. 

Sou a verdade, uso uma mini-saia vermelha,

Vejo os homens masturbarem-se nas sua varandas enquanto me olham,

passo nas ruas de Alexandria, Berlim, Tóquio, Budapeste,

Bernini esculpiu-me, Whitman descreveu-me

mas nunca nenhum homem me possuiu

Por mim correrão futuros antiquários ainda por nascer

Afundo-os de desejos, mutilo-lhes os sonhos

Sou múltipla e tudo acendo sobre a forma de calor,

Quem tem medo está mais próximo de mim, estou na boca dos amantes,

Nos seus ternos abraços

II. 

A minha visão é fragmentada de tanto olhar para o sol,

um fabricante de sinos do futuro, também ele cego,

mergulha dentro de mim e badala como do fundo de um lago suíço,

não tenho sono, nunca dormi até hoje,

ouço o badalar link link link link,

subaquático e triste:

Todos os comboios correm até mim,

velo o sono de um faroleiro com medo do escuro,

teço-lhe os sonhos de fios dourados,

puxo as extremidades para o centro da alma e sento-me a chorar,

também eu tenho medo do escuro e me deito à sombra

as cidades possuem o céu,

o céu possui a música

e a música possui-me a mim,

sou todas as viagens, a meus pés construíram Tróia,

os semi-deuses esculpiram Cápri dos meus joelhos —

A amnésia beijou-me a boca;

O futuro líquido na forma de dois joga pólo aquático consigo mesmo,

tudo é um, tudo está condenado a ser um,

criei a poesia, teço todas as narrativas,

mergulho em todas as prosas,

todas as ficções me atravessam a nuca,

de um ao outro lado um comboio apita, um rio passa,

acorda um gato em queda,

os homens têm caminho à sua frente

e bebem o caminho, porque têm sede e o futuro é de beber,

as memórias também são de beber, o amor é líquido,

apesar de não existir também eu bebo o caminho:

Nado dentro de todos os homens;

Não penso, sinto, não corro, minto.

(Duplo Poço, pp. — 25/26)

«Duplo Poço» — Nuno Brito

«Duplo Poço» — Nuno Brito


(nota de leitura)

Ao ler o terceiro livro do Nuno Brito, encontra-se, desde logo, um conjunto bastante complexo de meios profusos no processo de formalização da sua obra. Entre eles é particularmente nítida, porque se destaca como constante e deliberada, a utilização das repetições, das consecutividades, aquilo que o Vasco Graça Moura chamou «automatismos conducentes à fragmentação» e associou ao surrealismo, a propósito da obra de Nuno Brito, noção essa que não se afigura excepcionalmente feliz.

Cremos que, preferencialmente a automatismos, poderíamos falar de consecutividades e repetições. Sabêmo-lo desde o corpo teórico da Psicanálise (e recusa-se uma leitura de Duplo Poço à luz de semelhante grelha), que aquelas não são meras reproduções invariáveis de actos, palavras, ideias… Produzem serializações, serializações estas com um referente sempre em movimento, a partir do lugar e do contexto da sua enunciação no corpo do texto, produzindo significados novos, no caso vertente causadores de estranheza, recontextualização, associações inesperadas e poderosas, causadoras imediatas do espanto. Como se de uma hiper-consciência se tratasse, capaz de se traduzir em matéria poética.

Encontra-se, neste livro uma escrita em transe, em trânsito entre o não consciente e o consciente, que opera um fabuloso movimento de  revelação e preenchimento, o contrário da ideia de fragmentação, já aventada a propósito da escrita de Nuno Brito. Quando o autor escreve:

«A Via Láctea brinca, como se fosse um menino… A história foge para dentro dos búzios. A erosão rói devagar os pulsos da solidão — Ela joga Tetris sozinha — com a boca cheia de calmantes (…) A erosão rói devagar os pulsos da solidão.»

Não são fragmentos ou associações livres que encontramos, mas inesperadas ligações imagéticas que explodem no texto. Duas formalizações sintéticas (entre muitas outras que se poderiam isolar) posicionam a obra perante o leitor, abrindo-se em múltiplas leituras:

«Como se fosse um rato. A poesia persegue os balões de hélio, a gravidade puxa-a para a terra, mas há extremidades finas, onde não há segurança, a cerâmica sigilata esconde-se no chão» (…) «Por baixo a água quente, que vem quase do centro da terra.»

É como se o autor partisse do Universo (que é um descomunal vazio preenchido), e chegasse ao âmago, ao centro da terra, ao centro do corpo (com transitividade de ida e volta). E, nesse movimento, persegue o preenchimento feérico de um vazio primordial. Detenhamo-nos neste conceito de vazio:

Percebendo o universo como a totalidade (e toda obra de arte é uma totalidade), o que poderemos ver fora dele? Se deixar entrar e sair o vazio é a função de do vazamento e preenchimento, então o universo pode comparar-se a um completude que é um todo contextual de si mesmo.

Nuno Brito refere, explicitamente, as «paredes do Universo», ou seja, espelha uma integralidade cujo exterior é seu próprio vazio interno; na escrita do Nuno Brito, os limites do vazio, ao contrário de dividirem o que é exterior do que é interno, conduzem o que é externo para dentro do que se acha dentro.

E é esta deslocação que se materializa em Duplo Poço. O preenchimento, a incrível aventura de materializar o vazio.

Uma procura explosiva de corporalização, por meios que só o autor conhece e pertencem à sua violenta liberdade poética:

Este movimento é trabalhado, em estado de pura fruição, apagando o autor a sua própria identidade enquanto um Eu (que aqui surge multiplicado, de resto, em vozes). Torna-se, o autor, numa espécie de mediador entre o mistério do cósmico e o mistério do ovo, movimento que vai do primordialmente mundo ao primordialmente humano.

Em Duplo Poço, Nuno Brito fá-lo de forma quase oracular — e não é por acaso que Cassandra é, talvez, a persona que mais se faz sentir significantemente na obra.

O autor, voluntariamente afastado do centro do texto, é o agente que detecta, reformula e difunde brilhantemente (no sentido da irradiação) uma nebulosa teia de matéria que vai encher o vazio de sentidos.

Não é concedida ao livro uma programática explícita; antes a possibilidade para que os múltiplos significados, imagens e ideias que poeticamente congrega se espalhem, disseminem, num poderoso derrame misterioso, por vezes obscuro, insondável. E, em consequência, marcado pela possibilidade da luz.

Não, não é de forma cómica que assim labora Nuno Brito, e de novo se contrariam algumas ideias formuladas a propósito da escrita do autor. Não se sentem marcas de amargura, ironia ou tristeza em Duplo Poço. Pelo contrário.

Significa isto que é patente o quanto Nuno Brito se diverte. Sente-se, em cada texto, em cada frase, em cada imagem, o prazer de brincar. Jogar aos dados com o universo e o leite materno, é coisa séria demais para que nela não se encontre, desde a primeira página, o enorme gozo de um criador que tem a rara faculdade de ouvir as vozes, os sinais, as cores, os sons que depois multiplica e reorganiza de forma intensamente poética.

Embora de forma redutora, poderíamos segmentar: há quem reduza voluntariamente o léxico, os significados, as imagens, procurando a depuração, na qual a forma se submete aos significados; há quem, pelo contrário, amplie, expanda a pluralidade semântica através de recursos lexicais e de estilo.

Em Duplo Poço, pelo contrário, o autor parte de um léxico e linguagem opulentos, joga com recursos estilísticos de grande diversidade e explode os campos semânticos, criando uma imagética riquíssima, muito além da produção de meros efeitos de surpresa: é de revelação e preenchimento que aqui se trata. E há toda uma linha que atravessa esta obra: sente-se que, (e inevitavelmente só poderia ser) é escrita em estado de júbilo.

«Qualquer gesto humano me excita violentamente, amo tudo quanto flui», escreve o Nuno, que acrescenta, para não deixar dúvidas:

«a literatura (a primeira morte) só serve para unir — os fios que usa são dourados»

A profunda riqueza de ouvir, ver, sentir e, seguidamente, reformular em abundância a riqueza associativa da escrita atinge, por vezes, em Nuno Brito, os limites de um entendimento racional do que está escrito, por parte de quem o lê (inferência a partir da experiência pessoal, das leituras feitas, refeitas).

Mas o que está inscrito coloca a questão da incorporação e investimento (preenchimento) do autor e da apropriação do leitor. Porque, muitas vezes, não apreendemos o que quer exactamente o autor dizer, mas experimentamos, de forma intensa, o que ele nos está a dizer; ou seja, atinge o (nosso) próprio inconsciente. Como quando escreve:

«O homem não legitima, a luz legitima»

Isto sente-se, mais do que se entende no plano racional ou mesmo emocional.

Desta forma o autor despe-se deliberadamente do papel de produtor e caucionador da sua obra, surgindo a mesma como um reflexo brutalmente multiplicado da luz (palavra nuclear para a compreensão da obra) que aquele ele recebe, capta e dissemina.

(Evidentemente não se trata de uma espécie de augure que descobre nas entranhas das galinhas os mistérios da natureza humana e responde pelo Universo.)

Utilizando formalizações várias, que se entrecruzam, como a narrativa,  textos de pendor quase ensaístico (um deliberadíssimo logro, ardilosamente forjado), escrevendo muitas vezes num registo aparentemente onírico, Nuno Brito domina os processos que conduzem à sua ars poetica.

Não parecem subsistir dúvidas quanto a este domínio integral da obra por parte do autor. O que se afigura notável é a agilidade com que o emprega e o modo como o faz surgir, de forma aparentemente compulsiva, sendo a destreza de recursos uma quase evidência. Quase.

Estabelecendo, por intermédio de pares semânticos que são antinomias arquetípicas, dualidades primitivas, nelas e na sua relação dinâmica começa a revelar-se o programa implícito da obra, uma unificação dos opostos, poços invertidos que a si mesmos se enchendo, se vazam:

a memória / o esquecimento

o passado / o futuro

o sexo / a morte

o feminino / o masculino

De todos estas antinomias muito haveria a dizer, mas centremo-nos nesta última:

Que o autor estabelece uma ordem hierárquica na qual se encontra uma clara predominância do feminino como o referente matricial revela-se claro e axial na obra. O feminino é diacrónico, é Deus, é o universo, o corpo, o lugar da apaziguamento. O vazio, o duplo poço a ser preenchido. O leite é um símbolo recorrente ao longo deste livro (muitas vezes surgindo como leite condensado, o que nos propõe alguns indícios: a infância, a doçura, a espessura, o sémen).

«A realidade amamenta-se da ficção (a primeira mãe)

bebe do seu leite gordo e quente

um leite que sabe a calma»

O masculino surge-nos, por outro lado, como a presença de uma possibilidade efémera de luz ofuscante, e o seu símbolo maior, em comparação com o leite, é o muito fálico farol, ocorrência sincrónica e fenómeno que permite o vislumbre da luz que guia no sentido do encontro, da fusão.

«A literatura só pode ser União»

Regressemos à questão que nos é recordada pela frase «O homem não legitima, a luz legitima». Que legitimidade é esta? A procura de uma união; a demanda de uma ordem que a poética ambiciona encontrar e estabelecer.

Esta união tem uma origem claramente pulsional, erótica. No livro multiplicam-se um conjunto de repetições e variações em torno do tema orgástico, do vir-se. Citemos duas:

«Os louva-a-deus fêmeas arrancam a cabeça do macho durante o sexo, no exacto momento em que este se está a vir. As ceifeiras colhem o trigo e riem-se. O futuro vem-se dentro da memória.»

«Está-se a vir: A amnésia está por cima, possuída de um prazer extremo — espeta-lhe a faca nas costas. O tempo pára…

o seu sexo incha de prazer»

Analiticamente, o prazer sexual é um momento enunciador do desencontro, encontro com o fantasma da morte: a minha fantasia, aquela que me faz gozar, não é a do outro. Há um desencontro incontornável, gerador do medo, causador de uma procura incessante, repetida, consecutiva, nunca terminada, uma luta contra o esquecimento do outro:

«A amnésia mete uma estrela-do-mar entre as pernas

O seu sexo sabe a mar,

A amnésia mete a noite entre as pernas

O seu sexo sabe a chuva de verão»

O orgasmo, o vir-se, e a ele volto dada a importância e frequência da sua ocorrência na essencialidade dos textos, é, neste trabalho que procura uma ordem, uma unificação que conferirá a calma, uma peculiar forma de paz, espelhado como cristalização do tempo. Instaura-se, desta forma o jogo entre medo/morte e salvação/vida.

O que encontramos, em Duplo Poço, como  uma possibilidade de programática última, vem da esfera do desejo. A gloriosa, cósmica tarefa de preenchimento do Vazio.

E é o poeta quem nos dá as pistas, as linhas possíveis do seu acto tremendo:

«A literatura só pode ser União»

«O amor é como carne»

«Só o amor permite ver de cima»

«O Riso é o Gerador Único do Universo»

«Só o Riso é Deus»

O desejo de unificação através do riso, da alegria, do júbilo. O entendimento da origem do ínfimo e do infinito como um sopro de amor. A escrita, o trabalho poético como a voz possível para enunciar a explosão!

Explosão seminal: esperma, sangue, palavras, luz, transpostos para uma explosividade escrita.

«A poesia prova deus,

Ele sabe a gente»

Em última análise, é a Explosão o leitmotiv onde se constrói e perfaz a obra. Um Big-Bang cósmico e íntimo, a partir do qual a matéria se expande até ocupar o vazio.

É silencioso o vazio do Universo. São silenciosas as células. Nuno Brito, perante este silêncio, toca, interpreta a sua música tão pessoal. Dá-nos a ouvir o som do silencioso poço do corpo; a música do silencioso poço do mundo. Duplo Poço é expressão brilhante desta explosão da musicalidade do Universal. É obra.

Refira-se, finalmente, ser esta a primeira edição de um autor da nova chancela, a Hariemuj Editora, sob a batuta de Maria Quintans (que já dinamiza a revista de poesia Inútil). Quando editar poesia (ou prosa poética) se destina a um universo cada vez mais restrito de leitores, saúda-se a escolha desta obra, prenúncio de uma vontade e persistência que, devidamente acauteladas pela exigência e por uma acertada linha editorial, poderão conferir a esta nova editora um lugar sólido no rarefeito e volátil mundo da edição de poesia no nosso país.

(esta nota de leitura, editada, foi elaborada a partir do texto de base para a apresentação do livro Duplo Poço, no dia 22 de Dezembro de 2012, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul)

Nuno Brito, Duplo Poço, Lisboa: Hariemuj Editora, Novembro de 2012

Luiza Neto Jorge — Anos quarenta, os meus

 

De eléctrico andava a correr meio mundo

subia a colina ao castelo-fantasma

onde um pavão alto me aflorava muito

em sonhos, à noite. E sofria de asma

 

alma e ar reféns dentro do pulmão

(como o chimpanzé que à boca da jaula

respirava ainda pela estendida mão).

Salazar, três vezes, no eco da aula.

 

As verdiças tranças prontas a espigar

escondiam na auréola os mais duros ganchos.

E o meu coito quando jogava a apanhar

era nesse tronco do jardim dos anjos

 

que hoje inda esbraceja, numa árvore passiva.

Níqueis e organdis, espelhos e torpedos

acabou a guerra meu pai grita «Viva».

Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

 

Já bate no cais das colunas uma

onda ultramarina onde singra um barco

pra Cacilhas e, no céu que ressuma

névoas, águas mil, um fictício arco-

 

-íris como que é, no seu cor-a-cor,

uma dor que ao pé doutra se indefine.

No cinema lis luz o projector

e o FIM através do tempo retine.

 

Luiza Neto Jorge. In: Revista Colóquio/Letras, n.º 97, Maio 1987, p. 59-60.

 

Paula Rego, «Voices (I)», 1996-1998. Série Children´s Crusade (D.R.)

Dia Mundial da Criança — as grandes embirrações e a censura.

Tenho um horror muito grande aos ‘Dias Mundiais’ esses post-it’s institucionais da memória piedosa. O Dia Mundial da Criança irrita-me particularmente. Que não haverá dia algum que me lembre de crianças; são as crianças  que que me lembram a existência dos dias.

Sally Mann, «immediate-family-3», s/d)

[este brevíssimo apontamento foi publicado directamente no Facebook, acompanhado pela magnífica fotografia de Sally Mann, fotógrafa com obra de grande talento. O facto de a artista fotografar os seus filhos (repito, os seus filhos) desde há anos, com uma intimidade e  afecto que se sente bela e incomum, de publicar essas fotografias, levou alguns puritanos a considerá-la pornógrafa. Pelos vistos também no Facebook assim o entenderam: em dez minutos o apontamento — com a fotografia — tinha sido apagado. Fico triste. E nada surpreendido: o Noddy seria sempre mais adequado]

Sally Mann

Página de Sally Mann

Sally Mann family pictures

Manuel de Freitas — III (Grande Hotel de Paris)

III (Grande Hotel de Paris)

para a Inês Dias

A morte, claro. Existem porém

dias grandes, irredutíveis a versos,

em que a indecisão da luz

nos açoita de felicidade.

 

São dias raros, futuras

imagens do nada, o suficiente

para que a palavra amor substitua

o primeiro cigarro da manhã.

 

Chegámos tarde. O quarto 203

trazia-me de novo o teu corpo.

E até a música dos sinos

vinha deitar-se connosco.

 

Manuel de Freitas. Telhados de Vidro n.º 3 [Último poema do tríptico Passeio Alegre]. Lisboa, Averno, 2004, p. 44.

 

 

Residencial Grande Hotel de Paris (Porto)

 

Manuel de Freitas no portal da D-GLB.

Alexandre O’Neill — O citadino Pipote (conto)

Ainda bem que Pipote não é judoca. Pipote não passa de Suspensório Lilás. Pipote judoca seria o fim. Pipote entra nos eléctricos a ombro. Diz com licença depois de ter passado. Cheira a cebola e a camisa de anteontem. Fala curto. Assim tem mais tempo para chupar os dentes. Pipote usa elástico de câmara-de-ar a envolver a carteira. Traz negócios de ferro-velho, traz os filhos nos estudos, traz uma viúva debaixo de olho. Agora que os móveis (quinanes, principalmente) estão a dar, Pipote vai comprar fragoneta. Já o vejo agarrado ao volante com medo que a fragoneta desalvore. Já o topo a fazer mudanças no joelho da viúva.

Contam-se muitas do Pipote. Parvenu, parvo nu, Piparote não é pior nem melhor, escusam de se estar a rir, que vocês. Piparote começou difícil. Vocês tiveram colégio, manteiguinha no pão, Bucha & Estica nas matinés de quinta-feira. Piparote teve cachações e casqueiro ao mata-bicho. Veio a pulso, Piparote — e com muita honra!

Das que se contam de Piparote, não sei ainda se conte a que me apetece contar. É que não é nada típica, sabem? Remonta aos 14 anos de Piparote, quando Piparote, quer dizer, ainda não era Piparote. Era o cédula Joaquim Serrano Deusdado — Quincarvoeiro para os inimigos.

Não me faço mais rogado.

DE COMO JOAQUIM SERRANO DEUSDADO, ALIÁS, QUINCARVOEIRO, ALIÁS PIPOTE, DEIXOU APODRECER OS DENTES TODOS MENOS UM.

Às 6 horas da manhã, chutaram Quimcarvoeiro para a consulta externa de Todos-os-Martírios. Questão dum obcesso bochechado a aguardente e a raiz de alteia com desinflamação subsequente e recidivas de ganir. Bochecha infla, bochecha desinfla, a cara do pobre já era como um cartucho e o misérias estava por tudo.

A quatro de frente, de cara amarrada, a bicha para os serviços de Odontologia consumia-se e refazia-se ao longo das horas e dum corredor conventual. Quando chegou à porta da sala dos alicates, Quincarvoeiro compreendeu, num ápice, a utilidade das bichas: terem cauda. Um menino que saía da sala segurava os queixos com a manita, vexado de todo, e dava pontapés de desespero na estúpida mãe caridosa.

Uma cigana (sedentária) apiedou-se do chavalito probecito e começou a desenrolar uma lamúria meio rezada entrecortada de cuspinhadelas raivosas para o lado. Um digno velho remendado e limpo reprovava mudamente tudo, não escondendo, na sua sobranceria, que só o mau destino fora responsável por ele se encontrar ali, misturado com a gentalha.

“Trezentos e quinze!”, disse uma voz entreportas que parecia mesmo a voz do creosote. Era a senha do Quincarvoeiro. Este deu um passo ao lado e uma grande coragem de fugir pôs-lhe as pernas em movimento. Pisgou-se para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço.

Ainda hoje o citadino Pipote fala com um dentinho de orgulho desse caso da sua vida de rapazelho. Aliás, é sempre com orgulho que Pipote se revê em Quincarvoeiro, seu querido filho na perspectiva do tempo. Espero que a vossa credulidade chegue onde chegou a minha, quando ouvi esta história do infeliz Pipote: três ou quatro vezes se atrasou para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço. Ao meio-dia, na derradeira repescagem de senhas não respondidas, a bicha era Quincarvoeiro. Até que um dentista, alicate em punho, se avantajou nos umbrais.

Foi apanhado.

Já na cadeira, já de boca ocupada pelos ferros, dedos, espelhinhos, o cédula Joaquim Serrano Deusdado tentou articular uma queixa, soprar uma indicação, subtrair-se o mais que podia à mordedura metálica dos alicates, que andavam, por ali, a planar de mão em mão. Os odontologistas trabalhavam rápida, firme, irrevogavelmente. Se os deixassem entregues à sua própria inércia, desdentariam o mundo real o apanhassem a bocejar de tédio. Três dores agudas, fininhas. Uma patada no estribo da cadeira. Um compasso de espera com ferros a retinir, torneiras a trepidar, desconhecidos cheiros violentos a subirem-lhe ao nariz. Depois, um ríspido «abre mais a boca»!. Abriu mais a boca. Não abriu os olhos. O alicate veio, entrou. Sentiu o choque no alto da cabeça, por dentro. O alicate mordeu. Queriam virar-lhe a caixa dos pirolitos do avesso?

Descomandou-se. Gritou… Mas já, triunfante, o diabo-dentista lhe mostrava o dente, que o alicate continuava a morder.

E Pipote, hoje, comenta, num sorriso de aqueduto em ruínas:

— Sôr Aníbal (eu já lhe disse que não era Aníbal, que era O’Neill…), Sôr Anibal, a vida é assim: o dente que me tiraram estava bom; o estragado cá ficou. Já passaram para cima de trinta anos e nunca mais voltei a esses diabos! Cá me vou governando com os dentes que tenho. Mas digo-lhe a verdade: o dente que me tiraram foi o único dente bom que tive.

E o aqueduto sorri, enquanto Pipote o vai chupando paulatinamente.

Alexandre O’Neill. «O citadino Pipote». in Ficções — Revista de Contos, Lisboa: Tinta Permanente, 2003.

crédito fotográfico: Ben Hickey

Inês Lourenço — três poemas

No número 28 da Relâmpago, revista literária da «Fundação Luís Miguel Nava», dirigida por Fernando Pinto do Amaral, tendo Vitorino Nemésio como tema nuclear,  anuncia-se a atribuição do Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2011 a Helder Moura Pereira, pelo seu livro Se as coisas não fossem o que são. Publicam-se, igualmente, um conjunto de poemas inéditos de alguns autores (Inês Lourenço – Sete poemas; Manuel Gusmão – A pintura corpo a corpo; Miguel Cardoso – de O Mundo e as suas tarefas; Sheryl St. Germain – Seis poemas). Do site online da revista recolhem-se três poemas de Inês Lourenço, que aqui se reproduzem, com expectável anuência da autora e sem possibilidade de contactar a Fundação Luís Miguel Nava. Espera-se indulgência.

DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS

Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão

Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.

 

CIFRÃO

Dizias: não se importe de perder
dinheiro com a sua revista de poesia. Pelo mesmo,
alguns empenharam jóias de família.

Naquele café com nome monetário
eras bem o poeta de Os Amantes Sem Dinheiro
mas sem anjo de pedra por irmão. Só
nas mesas vizinhas, grupos
buliçosos de estudantes de Belas-Artes, desconheciam ainda
a arte de caçar patrocínios.

Depois mudaste para o Duque, que
copiou o brasão à tua rua, para mais tarde passares
ao mar do Passeio Alegre e às palmeiras da Foz
que chegaram tarde à tua vida.
Mas acabaste por voltar às cercanias das Belas-Artes,
para descansar num Prado, pouco distante
do jardim de São Lázaro, onde segundo outro poeta,
costumavas medir o tesão das flores.

 

CAFÉ ESTRELA D’OURO

Na Rua da Fábrica, perto
de livrarias e simpáticos alfarrabistas,
redigíamos panfes pela libertação
da mulher, devidamente pastoreadas
por um pequeno partido de esquerda, onde
só nos podíamos libertar
ao lado dos homens.

Inês Lourenço. in Relâmpago, n.º 28, Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2012.

“Jardim de São Lázaro – vista do lago e da Igreja e Colégio da Nossa Senhora da Esperança ao fundo.” Crédito Fotográfico: JotaCartas, via Wikimedia Commons (D.R.)

 

 

Página da Fundação Luís Miguel Nava (Relâmpago)

Logros Consentidos, blogue de Inês Lourenço

Página na Wikipedia, com a bibliografia mais actualizada da autora

Ângelo de Lima — EDD’ORA ADDIO… MIA SOAVE!…

fac-símile digitalizado do poema impresso (Biblioteca Nacional Digital)

 

Aos meus Amigos d’Orpheu

 

— Mia Soave… — Ave?!… — Alméa?!…

— Mariposa Azual… — Transe!…

Que d’Alado Lidar, Canse…

— Dorta em Paz… — Trespasse Idéa!…

 

— Do Occaso pela Epopéa…

Dorto… Stringe… o Corpo Enlace…

Vae A’Campa… — Ave!… — Alméa!…

 

— Não doi Por Ti Meu Peito…

— Não Choro no Orar Cicio…

— Em Profano… — Edd’Ora… Eleito!…

 

— Balsame — a Campa — o Rocio

Que Cahe sobre o Ultimo Leito!…

— Mi’Soave!… Edd’ora Addio!…

 

Ângelo de Lima, Poemas in Orpheu 2 (adoptou-se, no post, a transcrição ortográfica original do poema).


capa do livro «Ângelo de Lima, Poemas in Orpheu 2 e outros escritos»

(clique para ampliar)

Ângelo de Lima no portal da D-GLB

link para o sítio da Biblioteca Nacional Digital, que permite a descarga da «Orpheu» digitalizada

Pedro Mexia — Alexandria

 

 

Lisboa não é Alexandria mas

Alexandria não passa de uma metrópole

em versos subida e sublimada, a sua geometria,

as incisões do pequeno desespero.

Dêem-me uma cidade, que esta minha

está cansada e não quero outra,

escadarias em que se desce sempre,

velhas varandas apalaçadas,

dêem-me uma Alexandria do pensamento,

com uma antiguidade a dourar cada hora,

cada entardecer, mas uma antiguidade

falsa, hiperbólica,

subtil de tão imaginada, unreal city.

Lisboa não é Alexandria e está cansada, houve sítios

que conheci, outros ocultos,

percursos que adivinho no avanço

das multidões, dias de festa,

lambris de janelas, amuradas.

Não quero este rio, nem o outro,

heraclitiano, que me oferecem

umas breves obras completas na estante.

Dêem-me uma cidade terrestre, sem posteridade

ou idioma, uma cidade para que eu possa

inaugurar o passado das ruas

e, sem outro propósito, respirar.

 

Mexia, Pedro, Menos por Menos – Poemas Escolhidos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011

 

«life breath», m0thyyku © m0thyyku, via Deviantart (D.R.)

Rui Pires Cabral — «Do coração da noite vinham apelos e silêncios»

 

«Do coração da noite vinham apelos e silêncios»1

Para o João Menau

 

As cidades doem, estão dentro de nós

mantidas por laços de fumo e desejo,

têm muros úteis e portas escondidas

que dão para a noite, como certos livros,

e há amores que vivem a horas tardias

 

e outros que se cortam no fio da trama,

queimam paus de incenso para abrir

caminhos, remover obstáculos, há curvas

e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.

As cidades cansam, estão nos nossos

 

dias, têm mil janelas de azul virtual

que nunca sossegam e nunca terminam

e há corpos que ensinam a temer a morte,

sombras que circulam nas redes do escuro

e homens que ferem para não chorar.

 

1Albert Camus, A Morte Feliz [tradução de José Carlos González], Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 102.

Cabral, Rui Pires, Oráculos de Cabeceira, Lisboa: Averno 2009

 

«Prey», Nuno Figueira © Nuno Figueira, via Deviantart (D.R.)

António José Maldonado — Dies Irae

Alguns poetas caíram num aparente esquecimento e é como em tudo, pouco haverá a fazer. A indignação apenas indicia que quem a exprime possui memória e possível pendor para a indignação. Não é o caso, apenas recentemente conheci alguma pouca obra deste autor. Como não acredito que os bons poetas (e mesmo os menos bons mas ainda assim bons) se desvaneçam no éter, não me preocupa muito recomendar a redescoberta de António José Maldonado. Cada um encontra, reencontra ou tropeça no que lhe calha. E, nestas coisas,  creio muito na causalidade dos acasos. De vez em quando, num dia feliz, achamos o que nos esperava.

[Nota biográfica singela, seguida de poema e hiperlink (satisfatório) para a entrada sobre o autor no portal da DGLB:]

«Poeta português nascido em 1924, em Bragança. Após ter terminado os seus estudos secundários, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas.
Deu então início a uma carreira docente, lecionando em escolas secundárias situadas em vários pontos do país, como por exemplo, Faro, Lisboa e a sua Bragança natal. Chegou também a ocupar o cargo de reitor em instituições de ensino em cidades da Angola colonial, como Lobito e Carmona.
Em 1951 fundou, em parceria com Jorge Nemésio, Fernando Guimarães e José Manuel Ferrão, a revista Eros. Estreou-se como poeta nesta publicação, que foi mantida até 1958, e na qual figuravam também ensaios.
Publicou o seu primeiro livro em 1960, uma coletânea de poemas intitulada Futuros ou Não. Com um intervalo de mais de duas décadas, seguiu-se Limite Cultivado (1984).
António José Maldonado foi inserido pela crítica na chamada “Geração de 50”, que se tornou célebre pelo seu inconformismo e revolta contra o regime salazarista. De entre os seus poemas destacam-se particularmente “Êxodo”, “Dies Irae” e “Os Fundadores de Cidades”.»

António José Maldonado. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-10-09].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$antonio-jose-maldonado&gt;.

 

DIES IRAE

 

Não me esqueçais

vós, coexistentes insectos, andados objectos da minha alma.

chão consultado por muito povo,

sala própria de todos os destruídos invernos.

Sob o sol, entregamos o chão da erva

e tu, arcanjo — cimento de luz —, unirás a agonia dos frutos

às raízes dos astros.

Rumor nenhum ultrapassará o fogo e a água

e demoradas cicatrizes continuarão o assombro da unidade.

Na baía mais larga, as línguas de Pentecostes instruirão

os ceifeiros para as espigas desta jornada.

Terminada a conjunção do tempo,

as primaveras expõem aos ombros sua nudez silenciosa.

Amanhã beberemos paciência,

amanhã será o homem encontrado no seu osso,

sua fala arredondada pelas marés,

seu dedo dócil — a medo pintado — sem título,

e tu, Senhor, desocupado de passado e de futuro,

cercado de altura e de provérbios.

 

Maldonado, António José, Colóquio/Letras n.º 33, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Setembro de 1976.

 

«Seven pomegranate seeds» — Franglais Photography © Franglais Photography, via Deviantart (D.R.)

  António José Maldonado no site da DGLB

Miguel Pires Cabral — hoje chamei o teu nome

Último post em que destaco um autor  do terceiro número da revista online “a sul de nenhum norte”. Um poema de Miguel  Pires  Cabral que, de acordo com nota biográfica apresentada,

«nasceu  em  Macedo  de  Cavaleiros  a  27  de Março  de  1974. Escreve os seus primeiros poemas algures pela viragem do milénio; Lançou em Agosto de 2010 o seu primeiro livro  de  poemas  originais  intitulando  “Café  Solo”.  O  seu  primeiro  livro  conta  com  prefácio  de  Marta   Pessanha  Mascarenhas,  edição  de  LMOPC  –  Editores  ©  &  Impressão  pela  Dom  Texto  ‐  Vila  Real. Prepara  nesta  altura  um  segundo  livro  de  poemas  originais,  estando  a  sua  edição  prevista  para o verão de 2011.»

Acrescento que é autor do blogue «Barbitúrico da Alma», onde se pode encontrar alguma da sua produção poética mais recente e / ou dispersa.

hoje chamei o teu nome

Hoje chamei o teu nome,
o teu dia cansado,
a tua ausência,
longo é o verbo da espera.

O dia também me fugiu,
foi um corrupio de ida em volta
ainda que breves tenham sido
as minhas conjugações.

Chegou ao fim o dia,
encontro‐me finalmente
de frente para este rosto
que também trago cansado.

São estes dias de suor
e esquecimento
que nos fazem esquecer
dos nomes, dos verbos,

de toda uma semântica
que nos aproxima – para além
de todo o esquecimento
que nos representa – assim.

 

Miguel Pires Cabral, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

 

«facing things», via DEviantart

 

   Blogue de Miguel Pires Cabral,  Barbitúrico da Alma.

Oficina de Poesia para Conserto de Automóvel

 

 

Um evento inesperado, possivelmente tanto como as circunstâncias que o provocaram. Ter Margarida Ferra, Margarida Vale de Gato, Miguel Cardoso e Miguel-Manso, duas solidárias Margaridas e dois amigos Migueis lendo-se «multiplamente com críticas dos participantes» seria em si um bom acontecimento; neste caso, o pequeno drama quotidiano de uma valente mulher e amante editora de poesia transforma-se no pretexto para que o acontecimento seja virado poeticamente de patas para o ar. E do pequeno drama automobilizado, surge uma noite onde se espera que surja o inesperado. Um acto poético, pede-se, a cada um dos nossos dias. Pois aqui o têm, servido de bandeja. E o privilégio de poder dar uma mãozinha à Helena Vieira, que já nos deu tantas coisas.

 

 

embora lá ajudar a pôr o farolim no sítio

(clique para ampliar)

 

Link Relacionado:

Espaço SOU

Ana Marques Gastão — «Sê lenha»

 

 

«Sê lenha»

 


Enquanto a faca corta o alimento,

a boca atrasa o corte, o paladar,

a sorte, a criança devora o que tens

e a vontade pede-te: «sê lenha».

Anda, suporta teu corpo de ferida

cicatriz ou nome, és esqueleto bravio

carne e voragem, sino que ressoa,

te ensurdece e desmorona.

Do mar, a terra, da terra a água,

do fogo, o ar, só é exterior o interior

que se evapora em solução iodada

e te abafa no fumo metálico e molda

uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,

vê, escuta o som impaciente da lenha

afundada no sal, conta a história,

repete a única história que te faz viver.

 


Gastão, Ana Marques, Adornos, 2010 (em publicação) → encontrado no site «Poems from the Portuguese»

 

 

Marina Ćorić © Marina Ćorić, via Deviantart (D.R)

 

Links Relacionados:

Uma boa página (datada) sobre Ana Marques Gastão.

Página do Instituto Camões sobre a autora.

Diz-me o «Seringador» — Ao luar de Janeiro, vê-se a raposa no outeiro.

 

 

«2010 Brightest Moon», Joseph Choi © Joseph Choi, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

 

 

«Lua cheia às 21h e 21 m a 1 grau em Leão. Bom tempo. Procede-se à limpeza e adubação dos pomares. Adubam-se, podam-se e limpam-se as árvores, devendo tratar-se as fruteiras de modo a dispensar-lhes os precisos cuidados preventivos contra as doenças e parasitas animais. Procede-se à transfega do vinho, ou seja, à passagem do vinho novo de uma vasilha para outra com o fim de o separar do seu depósito (borras) localizado no fundo da vasilha. — Ao luar de Janeiro, vê-se a raposa no outeiro.»

Este mimoso naco de sabedoria é aposto ao dia de hoje, no «Seringador» que por desfastio substituí este ano ao habitual «Borda d’Água». Diz-me muito de um mundo que já me diz pouco: a infância e o campo. No campo, os velhos garantiam ser a lua de Janeiro a mais bonita do ano (e apetece pensar que, no campo, «os velhos» também tinham um sentido estético lá deles). Na linguagem urbana do almanaque a retórica maneirinha é suave; mas em Janeiro tudo era duro: «dispensar-lhes os precisos cuidados preventivos» era trabalho árduo, cortante; a trasfega não era um ritual, mas pedia força e experiência, coisa de homens. E o adágio, que deve ser muito antigo, decerto nortenho, é tão belo como esta noite em que podemos ver as raposas no outeiro.

*

O «Seringador» não nos actualiza, porque a sua função é que nos desactualizemos. Por isso não refere acontecimentos como a fundação do Sporting Clube de Braga (1921), meu sexto clube preferido e aquele que tem o estádio mais bonito do mundo, sem esquecer que ganhou uma Taça de Portugal (e a única Taça da Federação Portuguesa de Futebol; estou aliás convencido que a conquistou para a exterminar, num gesto que só revela a grandeza da agremiação).

Sporting Clube de Braga 2009 - 2010 (Sp. Braga 1 - F.C.Porto 0) © maisfutebol.iol.pt

O «Seringador» não nos actualiza, porque a sua função é que nos desactualizemos. Por isso não refere o aniversário do nascimento de Eugénio de Andrade (1923) e a passagem de quatro anos sobre a morte de Fiama.

A um poema

A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-lhe-ei
rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema.

Brandão, Fiama Hasse Pais, Três Rostos, Lisboa: Assírio e Alvim, 1989

diz-me o «Seringador»…

…que hoje é dia de São Pedro Tomás, Bispo e Mártir, precursor do ecumenismo, um tipo porreiro. Como hoje só se falou do sr. Cavaco, do sr. Alegre e do sr. Castro (RIP), é justo que alguém se lembre deste santinho carmelita descalço; e da bela pintura que o retrata, na Igreja do Carmo, em São Vicente, Braga, que aqui pode ser descomunalmente ampliada.

São Pedro Tomás

(clique para ampliar)

Maria Sousa – Exercícios para endurecimento de lágrimas

 

 

(reeditado, após alguns reparos pertinentes de Diogo Vaz Pinto, responsável pelas “Edições Língua Morta”)

Com lançamento em dia fadado a bons acontecimentos relativos à edição de poesia, 11 de Dezembro (pelas 18.30h, no Bar do Teatro A Barraca, em Lisboa), é com grande prazer que se anuncia aqui o lançamento de «Exercícios para endurecimento de lágrimas», nas “Edições Língua Morta”, essa outra recente boa notícia para a persistência da poesia editada. Para quem não conheça, Maria Sousa é autora de um dos mais interessantes (e belos) blogues feitos no burgo: There’s Only 1 Alice. É de grande valor e muito estimulante o trabalho poético de Maria Sousa, já publicado em revistas de poesia e conhecido por quem anda mais atento. Finalmente pode ler-se em livro (com uma tiragem de ainda por definir, mas que oscilará entre os 150 e os 200 exemplares!). Aqui se deixa um poema da escritora, originalmente publicado no blogue referido (apesar de o mesmo não constar no livro, servirá como uma espécie de amuse-bouche).

A mulher
organiza as sombras para evitar o escuro
na pele sente o medo

é prudente na batalha com as perguntas
que pousam no dia

sorriso

quando o som do telefone invade a sombra
nenhuma palavra lhe sai da voz
deverá falar como se fossem outras coisas a
respirar em vez do grito?

à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes
sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.
mas não hoje

disse que não seria capaz de mudar
perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos
como movimentos grosseiros

nenhuma palavra ali tem asas

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha
as persianas e depois as cortinas
sem explicar o sentido do grito.

Maria Sousa (→ There’s Only 1 Alice, publicado sem autorização expressa da autora, acto de pirataria para o qual se augura pesado castigo)

«Exercícios para endurecimento de lágrimas»

Links Relacionados:

Língua Morta

Portugal 7 – Coreia do Norte 0 – Um jogo que eu não queria

Não queria ter visto este jogo. Recordava-me bem do que escrevi aqui, do que a Helena Matos escreveu; eu não queria que a Selecção Nacional Portuguesa de Futebol Masculino escalão Seniores (a.k.a. «Portugal») ganhasse. Não queria ter visto, deitei-me para dormir uma hora, ideia impossível, inferno das vuvuzelas, não dormi, nem vi; não queria tantos golos, estes golos têm consequências. Chol Hyok, Kim Myong Won, Kim Kyong II e Pak Sung Hyok sabem-no, desapareceram em pleno Campeonato do Mundo; consequências que escapam à nossa lógica de felicidades efémeras, de «futebóis». A tristeza é antiga, na Coreia do Norte, a tristeza de quem tem uma imensa fome de pão, tanto quanto tem fome de liberdade, de palavra, de identidade; a tristeza de quem a fome é um mal menor que o medo.

Quando vejo as fotografias de Cristiano Ronaldo para a campanha da Armani, penso que este menino passou fome, uma fome envergonhada, uma fome de isolamento, uma fome Autonomia Regional, (podia ser da «interioridade» ou dos aglomerados suburbanos;) mas teve uma oportunidade e agarrou-a com os dentes, admiro-o por isso.

Perante aqueles que não têm sequer a oportunidade de pensar em oportunidades, aqueles rapazes que hoje, vestidos  com a camisola da República Popular da Coreia, encaixaram sete golos, (gostarão de montanhas?) e têm medo, eu nem queria, mas a minha afeição ficou do lado deles.  7 a 0 com eles. Eu não queria.

RI Myong Guk; CHA Jong Hyok; RI Jun Il; PAK Nam Chol; RI Kwang Chon; KIM Kum Il; AN Chol Hyok; JI Yun Nam; JONG Tae Se; 0HONG Yong Jo; MUN In Guk; CHOE Kum Chol; PAK Chol Jin; PAK Nam Chol; KIM Yong Jun; NAM Song Chol; AN Yong Hak; KIM Myong Gil; RI Chol Myong; KIM Myong Won; RI Kwang Hyok; KIM Kyong Il; PAK Sung Hyok. Não se esqueçam destes nomes. Porque já estarão votados antecipadamente ao esquecimento, o primeiro degrau de uma escada que os levará a um inferno selado pelo segredo e esquecido pelos jornais. A Armani não se pode preocupar com estas coisas; os tablóides também não, e a PETA dedica-se-se aos animais. E eu não queria.


Sentado sozinho

com um copo na mão

contemplo

os montes distantes


Nem que chegasse

a amada

sentiria

prazer maior


Mesmo que não falem nem riam

gosto mais

das montanhas

YUN SÓN-DO, (1587-1671), Coreia, in, A Rosa do Mundo, Lisboa: Assírio e Alvim, 2001