As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Política

Bénédicte Houart — são as mulheres que

 

 

são as mulheres que

fazem chorar as cebolas

como se descascassem a própria vida

e, arredondando-se então, descobrissem

um corpo, o seu

uma vida, a sua

e, no entanto, nada que de verdade

pudessem seu chamar

ou talvez sim, mas só

aquela gota de água salpicando

um canto do avental onde

desponta uma flor de pano colorida que

ainda ontem ali não ardia

 

Bénédicte Houart, julho de 2010 © Bénédicte Houart; poema inédito, traduzido no portal «Poems from the Portuguesese» (D.R.)

<http://www.poemsfromtheportuguese.org/»

 

Girls and Dogs suite, Paula Rego © Paula Rego, (D.R.)

12 Março 2011 — as «folhas» do Porto

 

 

Muitas coisas funcionaram bem na organização da manifestação de 12 de Março /2011. A começar pela poderosa adesão à mesma; a forma pacífica como tudo correu; pela pluralidade, diversidade e também o ânimo ordeiro e mesmo festivo, quando se clamavam assuntos tão sérios. Movimento inorgânico? Necessariamente, nesta fase. A continuidade que está a ser dada a um movimento que começou informalmente indicia que, possivelmente, da fase de pura manifestação se poderá esperar uma passagem à organização. Mais tarde virá a representação (dentro ou fora do espectro partidário existente, as dinâmicas possíveis são muitas).

Uma verdade é incontornável: aquela que parecia uma geração perdida ou esquecida da coisa pública demonstrou cristalinamente que o país ganhou muito: um novo património de participação cívica e política — de que os portugueses se tinham afastando gradualmente.

A organização informal do Porto não se limitou a entregar à Assembleia da República todas as folhas — mais ou menos reivindicativas, imaginativas, imensamente díspares mas por isso mesmo muito interessantes, — que os participantes levaram individualmente. No seu blogue faz uma análise sumária das principais causas que levaram as pessoas à rua; e criou um link onde podemos ver, uma a uma, digitalizadas, todas as folhas entregues no Porto. Uma viagem esclarecedora — e também deliciosa de criatividade — ao desconforto dos portugueses.

 

 

folha A4 entregue na manifestação 12/3, no Porto

 

 

 

Inês Lourenço – Há coisas que nunca

 

 

Há coisas que nunca
tivemos em crianças e perdem
o valor para sempre. Aquele sempre
dos primeiros dez anos, onde o tempo,
as pessoas, as coisas
parecem enormes e indestrutíveis.

Disfarçar-se de relâmpago
ou de outras coisas impossíveis, comer
todos os chocolates, ter uma bicicleta igual
à do estúpido do vizinho, fazer
as coisas que os adultos escondem
atrás da porta dos quartos, retribuir
a bofetada aos nossos
legítimos superiores, querer
morder com justa causa
tanta gente no mundo e
só poder no escuro
morder uma almofada.

Lourenço, Inês Coisas que Nunca, Lisboa: & etc. 2010.

 

«I'm Still a Child», Ben Heine © Ben Heine, via Deviantart (D.R.)

 

Ligações Relacionadas:

sobre Inês Lourenço (com alguns poemas anteriores ao livro Coisas que nunca)

outra ligação de interesse

uma leitura crítica do livro por H. G. Cancela

 

Nota: recomendo muito a compra do livro, pelo seu mérito, pela editora, pela autora; aconselho o que ainda não fiz; tendo lido diversos poemas dispersos online e gostando particularmente deste, trouxe-o do muito belo There’s Only 1 Alice. E comprarei, sim.

Portugal – Coreia do Norte e o sorteio.

Ontem realizou-se o sorteio dos grupos que vão disputar a fase final do Campeonato do Mundo de Futebol de onze (versão masculina), na África do Sul, em 2010. Ninguém parece ter ficado satisfeito com a nossa sorte. Cristiano Ronaldo queixa-se, Carlos Queirós diz que o primeiro jogo é decisivo (mas não são todos?); os comentadores torcem o nariz e, a esta hora, o site da FIFA aponta o “grupo” como o mais difícil, por larga margem sondada à boca do clique.

Pois eu acho o grupo lindo. Jogar contra o Brasil deveria ser encarado como uma festa, um feriado não-oficial; a Costa do Marfim surge-nos para recordar a nossa história, faceta descobridora, o pioneiro contacto de europeus com os litorais africanos para lá do Bojador, as traficâncias do ouro, do marfim, da pimenta; dos escravos. A Coreia do Norte… bem, a Coreia do Norte foi, em 1966, Inglaterra, o adversário digníssimo que permitiu à Selecção Nacional o jogo verdadeiramente épico da sua história. Em menos de nada estamos a perder 0-3. Então agiganta-se Eusébio e, com ele, uma equipa (e uma nação, colada aos rádios; e um Governo, atento à oportunidade de propaganda, ainda que em formas e modos rudimentares, pré-socráticos, digamos). O jogo, mais que o resultado final (5-3), entrou no domínio da lenda.

Agora, que vamos encontrar de novo os norte-coreanos, fixem bem os nomes de todos e cada um dos seus jogadores. Talvez daqui a dez anos estejamos a subscrever abaixo-assinados da Amnistia Internacional. Se tivermos informações suficientes para. Futebol, política, afectos, heroísmo e direitos humanos. Uma combinação rara.

Pedindo indulgência ao jornal, e ao desaforo de abuso do direito de citação, transcreve-se aqui, integralmente, o artigo de Helena Matos, no Público de 19 de Novembro. Ganhou a matéria uma luz intensa, uma pertinência nova e urgente, com o sorteio de ontem à noite. Até parecia augúrio. Chapeau, Helena Matos.

Decorem-lhes os nomes, aos rapazes da Coreia do Norte que nos defrontarão na África do Sul. Ou apontem-nos num caderno, no pc, no diário. Para memória futura.

(continuará)

Eusébio acaba de marcar um dos seus quatro golos, num jogo histórico.

O que foi feito do homem que marcou golo no primeiro minuto?

“Agora que a propósito da queda do Muro de Berlim se faz ouvir a ladainha relativista sobre os novos muros – perguntem aos presos se um muro que impede a saída é igual a um muro que impede a entrada! – é ocasião para recordarmos um dos mais brilhantes jogos efectuados pela selecção portuguesa de futebol. Aconteceu em 1966. Portugal defrontou a Coreia do Norte, cuja equipa estava ainda embalada pela euforia da vitória sobre a Itália. Portugal chegou a estar a perder por três a zero. Como não sei nada de futebol, sou incapaz de explicar o que aconteceu, mas aos meus olhos leigos nessa matéria só parece que, a partir de dado momento, a bola e Eusébio se encontravam em perfeita sintonia no caminho para a baliza dos norte-coreanos. Portugal acabou por ganhar por cinco a três. Quatro dos golos foram de Eusébio. O resto foi o que se sabe. Para Portugal, evidentemente. No livro Os Aquários de PyongYang, do historiador francês Pierre Rigoulot e do refugiado norte-coreano Kang Chol-hwan, ficamos a saber que os jogadores norte-coreanos, uma vez regressados à Coreia do Norte, pagaram caro os resultados desse jogo: alguns foram expulsos dos locais onde viviam e outros acabaram nos campos de prisioneiros. Kang Chol-hwan, que foi internado aos nove anos por o seu avô ter sido considerado reaccionário, encontrou um desses jogadores no campo de Yodok. Mais precisamente encontrou Park Seung-jin, o jogador que marcou um golo a Portugal logo no primeiro minuto de jogo. Mas o Park Seung-jin detido em Yodok destacava-se entre os outros prisioneiros não pelo poder dos remates, mas sim pela sua capacidade de vencer a fome. Comia todos os insectos que encontrava e por isso chamavam-lhe “Barata”. Ainda estava vivo, mas já muito fraco quando, em Fevereiro de 1987, Kang Chol-hwan mais o seu pai, tio, irmão e avó foram autorizados finalmente a sair de Yodok.

O que é feito de Park Seung-jin?

O destino destes jogadores ou as tragédias pessoais de alguns dos heróis desportivos dos países socialistas têm matéria q.b. para reflectir sobre a diferente natureza dos muros. Desconheço se Park Seung-jin alguma vez voltou a saltar de alegria como fez quando enfiou a bola na baliza de Portugal em 1966. Mas sei que a força do futebol foi suficiente para que alguém, em 2002, se interessasse pelo destino desta equipa e conseguisse transformá-la em matéria de documentário. Pode ser que agora a pretexto do Mundial se fale outra vez destes homens e, quem sabe, se procure confirmar os relatos de refugiados norte-coreanos e declarações do Governo japonês que dão conta de raptos de mulheres em Macau pelos serviços norte-coreanos que usavam esta mirabolante técnica para, entre outras coisas, arranjarem professoras de línguas. Estes raptos tiveram lugar num tempo em que Macau era administrado por Portugal e até agora o desinteresse que os rodeia é para mim tão inexplicável quanto aquela revirvolta no resultado do Portugal-Coreia do Norte de 1966″

Helena Matos, in Público n.º 7170, 19 de Novembro de 2009

Votar…

(ao João Miguel)

Esta foi a minha primeira ‘Eleição’. Em 1975 votava-se pela primeira vez em Portugal em sufrágio democrático directo e universal, a Eleição da Assembleia Constituinte.  Exactamente um ano depois do 25 de Abril apresentavam-se ao escrutínio um PS de punho fechado, o que arrebanhou mais votos, um PCP sem medo de mostrar a foice e o martelo (e com grandes expectativas, estrondosamente defraudadas), um PPD que surpreenderia; um CDS ainda ostracizado; e o PPM, reminiscência de correntes que conseguiram sair do Estado Novo com um estatuto democrático aceitável.  Ah, e meia-dúzia de partidos à esquerda do PCP que faziam um barulho dos diabos (onde andarão, hoje, os Pupes, os Féque éme-éles?). Este foi o acto eleitoral fundador da nossa democracia representativa. A intensidade com que se viveu o dia viria a ter poucos paralelos, ou sequer aproximações, no futuro.

Tinha acabado de fazer 13 anos. Estive à frente da televisão até depois da meia-noite para saber resultados concretos (com o Joaquim Letria imperturbável, rosto perfeito de bonomia, perante tanta ansiedade.) Cheio de inveja do meu entusiasmado pai, que podia votar, acompanhei-o, esperei com ele nas filas imensas de gente que aguardava o seu momento (hoje acompanhei-o de novo, quase o empurrando, não queria, “isto desilude-me”). Hoje acompanhei o meu filho a votar pela primeira vez, com a serenidade e solenidade da sua ‘primeira vez’. E senti, (juro que consegui) um breve golpe da adrenalina. Mesmo sem multidões; mesmo sem filas; mesmo com cidadãos nas mesas de voto que são pagos para prestarem um serviço cívico; mesmo com cidadãos a votar com a expressão de quem ‘fui ali comprar pão e já volto.’

[Nota: a imagem foi retirada, sem pedido de licença e com muito agradecimento, do blogue Pré-História.]

'O mais à direita é do Centro'

'O mais à direita é do Centro'

(clique para ampliar)

A agressão a Vital Moreira e a estupidez de Canas

Vital Moreira foi agredido na manifestação do 1.º de Maio organizada pela CGTP. Uma estupidez grave: Vital Moreira, goste-se ou não, merece respeito. Como constitucionalista e parlamentar (brilhante) foi um dos ‘founding fathers‘ da Democracia representativa; a Manifestação do 1.º de Maio, goste-se ou não, merece respeito. Resulta de mais de um século de lutas por direitos que hoje consideramos fundamentais (Em 1875 o horário de trabalho diário de um trabalhador rural ou industrial media-se entre as 12 e as 16 horas diárias. Por exemplo.) Quem agrediu Vital Moreira não tem memória. Nem respeito. Terá sido coisa de arruaceiros, alterados ou gente doente. Mas seguramente um acto isolado e espontâneo. Dito isto, as declarações de Vitalino Canas, que leio no ‘Público online‘, são de uma desonestidade moral e política chocante. Afirmar que o sucedido é “o resultado do “ódio” instigado pelos comunistas e pela Intersindical ao longo desta legislatura. “A CGTP e o PCP criaram, durante esta legislatura, um ambiente de ódio. E este acontecimento foi a expressão desse ódio que foi sendo gerado contra o PSé entrar numa lógica de vitimização e procura de um clima de martiriologia que começa a parecer a gramática eleitoral de Sócrates e do PS. Uma estupidez nunca vem só. ‘L’ordure attire l’ordure.’

'O Canas é Socialista. E burro!'

'O Canas é Socialista. E burro!'

Sócrates “corrupto”? O DVD da TVI

Acabo de decidir… vou emigrar para o Brasil!

Vital Moreira ao P.E. A explicação.

Ao ser indicado como “cabeça-de-lista” do P.S às eleições para o Parlamento Europeu, Vital Moreira confessou-se surpreendido. Não sei porquê.

– O homem tem caução de esquerda, absolutamente conveniente nos dias que correm;

– É uma figura a caminho da aura de ‘senador’, fundamental para fazer pirraça a Manuel Alegre;

– É de Coimbra, como Manuel Alegre;

– É Constitucionalista (de resto brilhante), o que será de elevadíssimo préstimo no albergue espanhol de Estrasburgo;

– Tem muito mais currículo político que Miguel Portas, argumento absolutamente arrasador no momento político actual;

– É de estatura assim para o baixote, podendo desta forma tornar-se, num PE cheio de alemães, escandinavos e espanhóis de maior envergadura, símbolo da nossa idiossincrasia antropomórfica;

– Não é um ‘yes men’ E é um belíssimo parlamentar. No P.E. esse facto conta imensamente… nada.

– Finalmente, é um premonitório, um visionário, nestas coisas da Europa. Em 11 de Julho de 2005, escrevia estes augúrios sobre o referendo da Constituição Europeia, no blogue Causa Nossa. Viu-se.

«Nem tudo corre mal na Europa

Nem por ser esperada deixa de ser menos animadora a aprovação da Constituição europeia no referendo luxemburguês. Trata-se antes de mais de uma vitória pessoal do primeiro-ministro Juncker, que apostou o seu lugar no êxito do referendo. Em segundo lugar, trata-se de uma vitória dos que não se conformaram com o prematuro “enterro” do tratado constitucional por causa dos “chumbos” na França e na Holanda.
Neste momento o tratado já foi aprovado por uma maioria de Estados-membros. E quantos mais o fizerem, melhores condições terão para fazer valer a sua posição quando for do apuramento político que se fizer daqui a um ano sobre o que fazer da Constituição europeia. Nessa altura só terá voz e força quem tiver tomado posição…»

'785 deputados? Eu chego para eles todos!'

'785 deputados? Eu chego para eles todos!'

Sócrates e a auto-vitimização

A auto-vitimização e desculpabilização como reflexo da desresponsabilização individual – Uma pessoa (…) simpática e afável, mas com uma deflação de auto-estima proporcional a uma autocentração e um egoísmo quase patológicos, elege sempre os outros como bodes expiatórios dos seus problemas, das suas próprias atitudes menos próprias, da sua irresponsabilidade pessoal, transformada, ulteriormente, em atitudes depressivas de auto-desculpabilização e vitimização. (…) Isabel Metello.

No Público online, após ter visto o resumo do debate parlamentar de hoje: “Está em condições de garantir ao Parlamento que não há qualquer interferência nem qualquer condicionamento dos serviços de informações sobre investigações criminais em curso?“, perguntou Paulo Rangel a José Sócrates hoje, no Parlamento. A pergunta é legítima, e colocada em sede própria. O primeiro-ministro qualificou de “insultuosa” a pergunta de Paulo Rangel. “O senhor deputado é que utiliza esses truques e essas tácticas, de quem quer trazer a questão do Freeport, dos serviços de informações para o debate na Assembleia da República. Faço-o frontalmente, faça-o com coragem“. Mais que as palavras, o tom em que falou Sócrates fez-me lembrar (inesperada reminiscência) o meu colega de escola primária que, depois de ter atazanado os colegas no recreio, chegou à aula e fez queixa à professora, perante toda a turma, por ter levado uma canelada. Levou uma palmada. “Queixinhas, vá-se sentar e esteja calado“, disse-lhe a professora.

Receio que os nervos do homem não andem bem. É natural. Representar aquele papel todos os dias deve cansar muito.

'It is an injustice. Yes it is!'

'It is an injustice. Yes it is!'


Obama Presidente. Style it takes

“Let it be told to the future world … that in the depth of winter, when nothing but hope and virtue could survive… that the city and the country, alarmed at one common danger, came forth to meet [it].”

Excerto (citação de George Washington) do Discurso Inaugural de Barack Obama como 44º. Presidente dos Estados Unidos da América. ‘Style it takes‘ (Reed & Cale e parece que estamos a falar de outra era e estamos). Estilo tem o homem (até no discurso, cujo esboço foi escrito num Starbucks por Jon Favreau, um puto de 27 anos, que é o Ted Sorensen do novo presidente). Na era da imagem, esta não decide nada. Mas pode fazer toda a diferença. Adeus, George.

Barack e Michelle Obama ontem, antes de chegarem ao Capitólio

Barack e Michelle Obama ontem, antes de chegarem ao Capitólio.

Pérolas (8) – Mário Soares no PCP ?

(Assim mesmo, escrito com os pés, sem concordância de género e número na frase, tal a rubra indignação)

“Mas o povo pergunta: e as roubalheiras, ficam impunes? E o sistema que as permitiu – os paraísos fiscais -, os chorudos vencimentos (multimilionários) de gestores incompetentes e pouco sérios, ficam na mesma?”

– Mário Soares, in Diário de Notícias, 16 de Dezembro de 2008

'Contigo Isto Muda, Soares'

'Contigo Isto Muda, Soares!'

Obama – os primeiros 100 dias

Na Salon de ontem, um notável exercício prospectivo de Thomas Schaller, a propósito dos primeiros cem dias do mandato de Barack Obama. Muito adequado àqueles que estão sentados à espera para ver, em vez de tentarem ver o que aí vem.

President Candidacy Announcement, Springfield, IL, 2/10/07

President Candidacy Announcement, Springfield, IL, 2/10/07

Fotografia do Dia (XXIII) – Atenas

A Grécia está a ferro e fogo desde há uma semana, com tumultos nas ruas, os quais, a partir de Atenas, se estenderam a outras cidades gregas. O rastilho foi a morte, perpretrada por um agente da polícia, de um rapaz de 15 anos, Alexandros Grigoropoulos. Mas a causa profunda radica na generalizada insatisfação popular com as actuais circunstâncias de vida e com o pacote económico que o governo de centro-direita aprovou para aproximar a Grécia dos ‘parâmetros europeus’. Ainda antes da crise. Depois, esta atingiu o país como um vento quente do deserto. A CNN, que tem um link especial para noticiar o que por lá se passa, publicou um artigo daqueles que só o jornalismo anglo-saxónico é capaz: tentar explicar tudo numa síntese Q&A. A fotografia é terrível, pela placidez como se olha para o rasto da violência. Eu quase aposto que 2009 trará outros incêndios sociais em países da UE. Em Portugal, em ano de eleições, é bom que Sócrates se cuide. Ele talvez não conheça o potencial de violência que se está a acumular na classe média urbana. Os professores são a ponta do iceberg.

Atenas, Grécia, 13 de Dezembro, 2008

Atenas, Grécia, 13 de Dezembro, 2008 - A burned-out car outside Athens Polytechnic following four days of anti-government riots

(clique para ampliar)

Fotografia do Dia (XXII) – Isabel II

Quarta-feira, com a pompa e circunstância seculares, Isabel II levou à Sessão de Abertura do Parlamento o Discurso da Coroa, previamente redigido por Gordon Brown, que ela mesma leu, claro, como sempre leu os discursos dos seus primeiros-ministros. A economia dominou a prédica. Com uma extraordinária precisão democrática repetiu-se o ritual: o líder da oposição, o tory David Cameron (um rapaz decidido) ‘malhou’ fortemente o discurso, aproveitando, aliás para explorar até ao tutano o escândalo do momento: a prisão do deputado conservador Damian Green, e busca ao seu gabinete no Parlamento por parte da polícia, sem mandado. Alegadamente por fugas de informação que comprometem a ‘segurança nacional’. Brown (com um ar terrivelmente cansado) defendeu-se como um velho leão e seria um osso muito duro de roer se o Reino Unido não estivesse economicamente de gatas.

'Desta vez não vou dois passos atrás dela...'

'Desta vez não vou dois passos atrás dela...'

(clique para ampliar)

Fotografia do Dia (XXI) – Obama e a Secretary of State

'whispering & hoping'

'whispering hope'

The body language was friendly and appropriate, if not necessarily personal. Standing behind Mr. Obama during his remarks, Mrs. Clinton nodded as he spoke of the nation’s challenges; after the event ended, the two walked out of the room arm in arm, her hand gently patting his back.” – in The New York Times, ed. 02.01.2008

'watch your back'

'watch your back'

Não serão tanto as questões de política externa que os podem dividir. Serão os ressentimentos, a memória, a agenda de cada um, o cuidadoso estabelecimento de uma linha que dê a Clinton a visibilidade que deseja (e precisa) sem colidir com a liderança de Obama. Não podia haver melhor escolha para Secretary of State, conceda-se. Mas também não podia ser mais perigosa. Este é o primeiro desafio de Obama, ao chamar Clinton: a intimidade do inner circle. Por isso, mais que as palavras, Obama aproximou os corpos.

Cavaco e o BPN

Cavaco Silva é um Antigo. Anterior à consciência moderna da desordem íntima. Anterior a Pessoa. Anterior a Freud. Cavaco Silva foge dos estados de alma. Procura a organização racional e vigia, férreo, as emoções. É um homem em constante trabalho de agregação do Eu (a frase ‘nunca me engano e raramente tenho dúvidas‘ não era uma bravata, enunciava um programa de vida).

Por isso se estranha muito o Comunicado da Presidência da República, sobre a sua (não) relação com o BPN. Porque nele tudo é desordem. No plano institucional (público), comunica a partir da sua condição de Supremo Magistrado da Nação. Ora o Presidente da República não pode responder, em Comunicado Oficial, a ‘mentiras’, ‘insinuações’, de que tomou conhecimento por meio de ‘contactos estabelecidos por jornalistas’. Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Presidente da República.

Mas a desordem reside, mais concretamente, no facto de sermos confrontados com um Comunicado do ‘Prof. Cavaco Silva e a sua Mulher‘. Ou seja, uma declaração no âmbito do privado (onde a pequena minudência impera, com detalhes que são, de forma geral, desnecessários e, por isso, pela ideia implícita de ‘quem não deve não teme’, confrangedores). Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Cidadão.

O que terá passado pela cabeça do homem ao utilizar, de forma cristalina, o espaço comunicacional proporcionado pelo seu cargo para procurar a reposição de uma honra inquestionada, pertencente à sua vida privada?

Quem falou, neste comunicado? O Presidente Cavaco? O Prof. Silva? Em qualquer caso, seja bem-vindo aos pavores identitários do mundo pós-moderno.

'Estou a ver. Não quer deitar-se um pouco no divã?'

'Estou a ver... Não quer deitar-se um pouco no divã?'


The Great American Songbook (XVI) – It Might as Well Be Spring

A esta hora já os americanos estão a ocorrer às urnas – já o fazem desde há algum tempo, de resto, graças ao ‘peculiar’ sistema eleitoral norte-americano. Não restam grandes dúvidas que os índices de abstenção terão um mínimo assinalável, num universo em que apenas 75% dos cidadãos com capacidade eleitoral estão ‘registados’ como eleitores. Votarão com esperança, como dizia um comentador ontem, na All Jazeera, cadeia televisiva que tem feito uma notável abordagem da campanha, apanhando sempre os aspectos mais analíticos, não seguindo o modelo espectacular da CNN. A esta hora votam, repito, com esperança. Mais: com um desejo de salvação personificado num homem. Ora não será este homem – seja qual for o eleito – um fazedor de milagres. Esperam-no grandes trabalhos para corresponder minimamente ao que, maximamente, dele se aguarda. É um trabalho de elevado risco este: em pleno Inverno fazer aparecer a Primavera.

*

It Might as Well Be Spring. Em 1945, ano de Primavera, após o longo Inverno da Guerra, a dupla Rodgers e Hammerstein escrevem esta canção para o filme State Fair, com ela ganhando o ‘Óscar para a Melhor Canção‘. Muitas versões, mas de novo Nina Simone arrebata o troféu do meu gosto. E de novo com uma imagem em still, o que pode até ser bom para apenas ouvir. Um ‘apenas’ que não é pouco.

The Great American Songbook (XV) – The Man I Love

Faltam menos de 24 horas para a grande nação americana começar a votar. Como sempre, parte de cada um, parte de cada uma, votará com a razão. A outra com a emoção. Desta vez, creio que a emoção ascenderá à paixão. À escolha do homem amado, idealizado, ‘salvador’.

*

George e Ira Gershwin aqui de novo, com um dos mais belos temas que escreveram. The Man I Love (1927), passou rapidamente dos palcos da Broadway para a música popular. Ella Fitzgerald, já com o peso dos anos, mas com todos os recursos vocais que a singularizaram como uma das maiores intérpretes do século passado. Uma versão longa, jazzy, com um delicioso scat final.


The Great American Songbook (XIV) – Unforgettable

A dois dias das eleições americanas, sabemos, com uma certeza empírica, que estas não são como as anteriores. Ficarão na memória, nos livros de história. Nos factóides vindouros, recordados em quizz-shows apresentados pelos ‘Malatos’ do futuro. Dada a probabilidade de um afro-americano ser eleito presidente? Com certeza. Mas também porque o mandato que se iniciará em Janeiro ficará obrigatoriamente na história. Se as coisas correrem bem, ocorrerá um pequeno milagre, perante os tremendos desafios que a América e o Mundo enfrentam. Se derem para o torto, terá marcado o declínio do mundo como o conhecemos, a emergência de uma ordem nova (e não necessariamente melhor). Em qualquer caso, o desfecho será inesquecível.

*

Unforgettable. Escrita por Irving Gordon, publicada em 1951, seria popularizada por Nat King Cole. Um negro que a América ‘branca’ amava.

Sócrates, o ‘Magalhães’ e o cigano.

Na cimeira Ibero-Americana, o primeiro-ministro de Portugal dedicou entre seis a dez minutos (conforme as fontes) à promoção do ‘computador português’ Magalhães. E não foi de modas, afirmando tratar-se do “primeiro grande (sic) computador ibero-americano”, acrescentando que é “uma espécie de Timtim: para ser usado dos sete aos 77 anos(sic). Não sei o que pensaram da extraordinária comparação alguns generais Tapiocas e Alcazares presentes na cumieira. Mas sei, apesar da pequenez da fotografia, que o esbugalhado ar de felicidade de Sócrates tem ao seu lado o compungido rosto de Luís Amado. No lugar dele eu também estaria. Ouvir o chefe proclamar que todos os seus assessores usam diariamente o ‘Magalhães para (sic) o seu trabalho‘ deve deixar indisposta uma alma civilizada. E sei que, de computador em riste, afirmar  que o mesmo “foi pensado para crianças e por isso é resistente ao choque. O Presidente Chávez já o atirou ao chão e não o conseguiu partir(sic, sic, sic) é conversa de vendedor de tachos e panelas.

*

Quando era miúdo, ia à terra. Uma vez por mês havia a feira do Pinhal Novo, onde um cigano, Paco de seu nome, vendia roupa interior feminina. Os argumentos eram imbatíveis. “Olha a bela cueca ‘azul ciél’, resiste uma vida, a minha filha usa, a minha mulher usa, a minha mãe usa, é a melhor cueca que podem encontrar.” Os mesmos argumentos exibia o cigano Paco que o primeiro-ministro Sócrates. Com uma não dispicienda vantagem para o Paco, no terreno da honestidade: estava a vender artigo novo no lugar próprio.

'é azul ciél'

'é azul ciél'

PS – O cigano Paco é o meu modesto contributo para a existência de um Joe the Plumber cá no torrão.