As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Música

The Great American Songbook (XIV) – Unforgettable

A dois dias das eleições americanas, sabemos, com uma certeza empírica, que estas não são como as anteriores. Ficarão na memória, nos livros de história. Nos factóides vindouros, recordados em quizz-shows apresentados pelos ‘Malatos’ do futuro. Dada a probabilidade de um afro-americano ser eleito presidente? Com certeza. Mas também porque o mandato que se iniciará em Janeiro ficará obrigatoriamente na história. Se as coisas correrem bem, ocorrerá um pequeno milagre, perante os tremendos desafios que a América e o Mundo enfrentam. Se derem para o torto, terá marcado o declínio do mundo como o conhecemos, a emergência de uma ordem nova (e não necessariamente melhor). Em qualquer caso, o desfecho será inesquecível.

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Unforgettable. Escrita por Irving Gordon, publicada em 1951, seria popularizada por Nat King Cole. Um negro que a América ‘branca’ amava.

The Great American Songbook (XIII) – The Nearness of You

Ninguém pode negar a existência surda de um cenário transformado em private joke (mais correcto, deadly joke), que prevê o assassinato de Barack Obama antes das eleições presidenciais dos E.U.A., ou após as mesmas. O imaginário é poderoso, e Obama congrega, como talvez nenhum outro, os fantasmas de Robert Kennedy e de Martin Luther King Jr. Bem, nisto os americanos não brincam, quando se trata de coisas de estado (não leram os sinais que prenunciavam Columbine e outros acontecimentos deste calibre), mas aí o campeonato da vigilância era outro). Em qualquer dos casos, trata-se do mesmo padrão: adolescentes patologicamente investidos de ódio, organizam planos de mass murdering. Por vezes levam-nos a cabo. No caso concreto, a história reveste-se de contornos de um racismo sinistro, culminando com a morte do candidato democrata. Como sempre, lá estão os códigos dementes, os planos que obedecem a ‘sinais’ e ‘desígnios’ que só têm lugar em cabeças perturbadas. No imaginário colectivo, aposto que se formulam hipóteses de tentativas de assassinato organizadas por grupos ideológicos, poderes obscuros, poderosas forças que se sentiriam ameaçadas pelo ‘preto’. A realidade encarrega-se de desmentir estas ‘teorias da conspiração’. Importa não esquecer que não só os Kennedy e King foram mortos. Antes deles (e só invoco a memória) Lincoln, mas também, Gerald Ford (duas vezes), Ronald Reagan foram alvo de atentados. Em todos os casos estivemos perante actos isolados, perpretados por pessoas mentalmente doentes. Convém manter isto presente. Porque são os cenários mais improváveis, as pessoas mais anónimas, os mais capazes de causar estragos. Barack Obama deve ser mantido afastado das massas. O pior é que ele tem a obrigação – e neste momento da história essa obrigação é incontornável – de se manter próximo delas. Poque o povo, mais que nunca, deseja um Presidente próximo dele.

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The Nearness of You. Outra canção imortal, da autoria de Hoagy Carmichael e Ned Washington teve um ror de intérpretes a servi-la. Aqui, a grande Sarah Vaughan, numa interpretação contida, mas cheia de sentimento, que escorre pela sua voz, pelas maravilhosas cambiantes da interpretação.

The Great American Songbook (XII) – Someone to Watch Over Me

Quase tudo o que se diz, nesta altura, no final de campanha para as presidenciais dos E.U.A., é repetitivo, exaustivamente ‘martelado’, até produzir soundbites que se alojem no subconsciente do eleitor. Suspeito, aliás, que o ruído intenso da corrida eleitoral gerado pelas candidaturas, pelos media, seja menos importante para o americano comum que as incertezas do presente, do futuro próximo. Talvez McCain tivesse uma boa linha estratégica numa abordagem mais serena, securizante, mesmo paternalista. Infelizmente estava do lado contrário da vedação. Não podia nem pode dizer que vem tomar conta das pessoas.

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Someone to Watch Over Me. De novo a imparável dupla Gershwin, George e Ira, que escreve, em 1926 este standard para o musical Oh, Kay!. Uma canção memorável, que teve mais intérpretes consagrados que provavelmente qualquer outra do G.A.S.. Aqui é Frank Sinatra, no filme Young at Hearth, sentado ao piano, a cantar, a fazer olhinho a Doris Day. A representar com cada músculo do rosto. Raios partam tanto talento!

The Great American Songbook (XI) – Blue Moon

A pedido de algumas famílias (entendidas em modalidades várias), tentarei cumprir (parcialmente, agora) a promessa de associar diariamente o decurso da campanha eleitoral para a Presidência dos E.U.A. a alguns dos temas do Great American Songbook. Creio que, a 11 dias do acto eleitoral, a diferença (que oscila entre 7 e os 11 pontos, de acordo com as sondagens mais credíveis) já não deixa dúvidas. Só uma extraordinária ocorrência poderá impedir a eleição de Barack Obama. Um acontecimento raro, algo que ocorresse numa noite de Blue Moon.

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1934. Richard Rodgers e Lorenz Hart (já presentes nesta listagem evocativa) escrevem uma balada que se tornaria um standard do Jazz, e uma iguaria refinada por muitos intérpretes. Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Billie Holiday, Dean Martin, Django Reinhardt, Frank Sinatra. Até Amália Rodrigues a cantou, numa versão muito bonita. Porque não ouvi-la na voz (inesquecível, quando no auge, antes da fama o devorar) de Elvis Presley?

The Great American Songbook (X) – Over the Rainbow

Quase 48 horas após o último debate na corrida para as presidenciais americanas, já tudo foi escrito, ou dito. Não há fonte que não tenha dado a vitória a Barack Obama. Não há artigo, peça televisiva, coluna de opinião, blogue, que não se refira ao episódio ‘Joe the Plumber’, personagem trazida para o debate por John McCain de forma teatral (e melhor conseguida do que se pensa). Aliás, durante a primeira meia-hora, McCain esteve no seu melhor. E este foi o seu debate mais forte. To make or break, lembram-se? Mas, com o decurso dos minutos, tornou-se evidente a verdadeira vantagem de Obama: pode permitir-se a não dizer grandes coisas, pode dar-se ao luxo de apenas debitar, com estilo, as suas ideias. A diferença está toda na sua mais que convincente imagem, aliada às ideias, numa conjunção virtuosa. A diferença entre um tipo que faz a diferença e um tipo que se debate com a semelhança. Obama já está noutra esfera. A conjuntura económica faz o resto. No final, o director da campanha republicana abanava a cabeça. Perguntaram-lhe se a performance de McCain chegava para ganhar. «Sim», disse. E acrescentou, significativamente: «Chega para ganhar o debate». Nem isso. Para MaCain a vitória é, agora, um pote de ouro no fim do arco-íris.

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Over the Raibow. Somewhere, no final dos anos 30, Harold Arlen e E.Y. Harburg escreveram o tema para o filme O Feiticeiro de Oz, um clássico que vingou na voragem do tempo para chegar ao que hoje todos sabemos: uma conjunção virtuosa de história, encantamento, música e muita Judy Garland. E esta é a canção dela, tal como ela é, em certa medida, esta canção.

The Great American Songbook (IX) – Ev’ry Time We Say Goodbye

O terceiro e último debate entre os candidatos às Eleições Presidenciais dos E.U.A. é amanhã à noite. Para muitos comentadores, John McCain tem aqui a sua última oportunidade para subir nas sondagens. É um debate ‘make-or-break‘, para os candidatos, dizem eles, ‘ou vai ou racha’, dizemos nós. Uma forma de McCain começar a dizer adeus, digo eu, que tomo partido.

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Ev’ry Time We Say Goodbye. Cole Porter ainda aqui não tinha chegado, mas entra pela porta grande, com uma canção imortal (1944), amada desde os modestos ouvintes de rádio dos fifties até aos mais apurados gostos ‘jazzísticos’. Para todos os gostos. Sem desprimor para outras versões, aqui fica a mais que lenta e vil solidão que só Nina Simone podia conferir à canção. (não há nada para ver, apenas um still com o que parece ser a capa de um disco. Melhor. Ouça-se, apenas. Não é pouco.)

The Great American Songbook (VIII) – Ol’ Man River

John McCain é, certamente, uma boa alma. E um valente. O facto de pensar o futuro com as ferramentas do século XX não belisca em nada a sua integridade. Com um partido Republicano cada vez mais acossado, assustado e com vontade de ‘sangue’, McCain fez o que outros não fariam. Defendeu a honra (e, de passagem, o patriotismo) de Barack, perante um grupo de apoiantes que, evidentemente, o assobiaram. Ganhou pontos na consideração de muitos. Vão servir-lhe no futuro, quando Obama mostrar que (também) vai precisar que sirva a nação. E ‘servir’ sempre foi um código de honra na vida do velho Senador.

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Em 1927, os grandes Jerome Kern, e Oscar Hammerstein II escrevem Ol’ Man River para o musical Show Boat. Ironia: é o cantar de um velho negro, melancólico com a dureza e as agruras da vida. Aqui o temos, na interpretação de Paul Robeson, no filme musical de 1936. Tocante.

The Great American Songbook (VII) – The Lady Is a Tramp

Nem vale a pena contar a história. A esta hora já todos os noticiários a referiram, como mais uma nota de rodapé de uma escolha que se começa a revelar infeliz. Palin é uma crescente dor de cabeça para o ticket republicano e a CNN conta tudo bastante bem. Será a Dama uma Vagabunda?

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De novo a dupla Rodgers and Hart e o musical Babes In Arms, colheita de onde se extraiu My Funny Valentine. The Lady Is a Tramp confunde-se praticamente com a interpretação de Frank Sinatra. Mas talvez se possa variar, com este delicioso medley de Sammy Davies Jr., de resto um dos protegidos de Sinatra e membro do famoso ‘rat pack‘. Pândega e talento a rodos. Que conjugação, ó Sarah Palin do Alaska! Que ticket!

The Great American Songbook (VI) – At Last!

Carregando a fundo no único tema que agora centraliza o debate político entre as candidaturas, a Economia, Barack Obama proferiu, na quarta-feira, declarações surpreendentes. Não pelo conteúdo, mas pela firmeza e agressividade. Não mandou recados, falou ele mesmo, em Dayton. De acordo com a CNN, «Sen. Barack Obama on Thursday slammed Sen. John McCain’s new mortgage plan as “the latest in a series of shifting positions” and evidence of “erratic and uncertain leadership.». Finalmente Obama entra em território de combate com a faca nos dentes. At last.

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1941. Mack Gordon e Harry Warren escreviam At Last!, para o filme musical Orchestra Wives. Tornada num enorme êxito e num standard intemporal por Glenn Miller, é porém a interpretação de Etta James que vai conferir contornos imortais ao tema, levando ao limite o carácter romântico da canção. As gravações ao vivo existentes mostram James já longe das suas capacidades vocais (mas ainda com muito soul a percorrer-lhe as veias). Aqui fica, portanto, a gravação original, embora visualisada num slide show. Tem a vantagem de mostrar como esta americana branca era bela e como cantava com uma alma negra.

The Great American Songbook (V) – My Funny Valentine

A 26 dias do acto eleitoral, depois do debate que melhor clarificou posições, as coisas crispam-se e entram no terreno do ataque pessoal. Agora vale tudo e surgem abertamente na ofensiva as mulheres desta campanha – Michelle Obama, Sarah Palin & Cindy McCain (apontamento claramente sexista e politicamente incorrecto, que faço questão de sublinhar ser voluntário, e suspeito que de concordância íntima de muito boa gente). Em entrevista a Larry King, Michelle Obama pauta-se pela polidez estratégica que norteia a campanha do marido. Mas não evita algumas farpas, sendo a maior de todas a jogada da superioridade moral face à consorte de McCain: «sabe, aperto-lhe a mão», ou seja, ‘olhe, a Cindy é uma cabra rica e malcriada, mas está em campanha e eu faço o favor de ser melhor que ela’. Michelle falava na sequência das declarações de Cindy McCain ao Tennessean, imediatamente a seguir ao debate, afirmando que Obama «is running the dirtiest campaign in American history». Bem… a senhora tem idade para se lembrar do Richard Milhous. Por seu lado, Sarah Palin, aquela que, do Alasca vê a Rússia e, portanto, o mundo, partiu para o ataque em forma, acusando Obama de «palling around with terrorists who would target their own country.». Referia-se à ‘pista’ William Ayers, que não leva a lado nenhum, mas que já hoje foi de novo utilizada pela campanha republicana. Amores e ódios andam à solta, neste ticket eleitoral, que é também conjugal.

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My Funny Valentine. Em 1937 a dupla Rodgers & Hart escrevia o musical Babes in Arms. Outros tempos, outras guerras. Dele surgiu este standard, um clássico que mais de 600 artistas se atreveram a enfrentar, com resultados variáveis. A escolha de hoje recai num monstro do jazz, gigantesco no improviso, exemplar no respeito e na admiração pelo melhor do Great American Songbook. Keith Jarrett. Uma interpretação memorável.

The Great American Songbook (IV) – The Way You Look Tonight

Body Language. Mesmo não levando em linha de conta uma maior solidez no capítulo da Economia, e consistência nas questões de política externa (leia-se Defesa), Obama venceu o debate de ontem à noite pela abissal diferença na sua linguagem corporal. Estas coisas notam-se. Esteve smooth & stiff, olhou diversas vezes o oponente nos olhos, apontou o dedo quando queria marcar um ponto. McCain mostrou, pelo modo errático como se movimentou, olhou para as câmaras, interagiu com Obama, a sua idade (teve um belíssimo momento, quando tocou com imensa ternura um veterano da US Navy presente na assistência). As câmaras de televisão podem ser muito cruéis, e os planos ligeiramente picados mostravam um McCain com todos os seus 72 anos. Estas coisas notam-se. Mais que as divergências – neste debate melhor definidas e marcadas – quanto aos grandes temas. Visto na CNN (muito melhor que na SIC Notícias, onde afinal estava Luís Costa Ribas e o tal senhor que é muito digno e conhecedor e continuo a não me lembrar do nome dele, mas prometo referir aqui), com um painel de cerca de 12 comentadores, basicamente unânimes. Vencer pode ser um verbo excessivo para o desempenho de Obama. Mas perder adequa-se ao que aconteceu ao senador Republicano. E (quase) tudo se resumiu a uma questão. O modo como os candidatos ‘pareceram’, esta noite.

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The Way You Look Tonight. Em 1936 ganhava o Óscar da Academia para a melhor canção original. A excepcional melodia de Jerome Kern inspirou a letra de Dorothy Fields. O incontornável par Astaire/Rogers deu-lhe merecida fama em Swing Time. Mas é a versão do ‘Old Blue Eyes’, essa sim, cheia de swing, que me faz cócegas. Fique-se com a música, numa ‘original’ forma de a ouvir e ver não vendo’.

The Great American Songbook (III) – Cheek to Cheek

Esta madrugada, em Nashville, Tennessee, Barack Obama e John McCain defrontam-se num segundo debate (transmissão directa na SIC Notícias a partir das 01h30m, com tradução simultânea competente e, se for como no primeiro debate, comentários de Nuno Rogeiro e de um outro senhor de que nunca me lembro o nome, apesar do ar tão respeitável e hei-de referi-lo aqui).

As coisas mudaram muito, desde o primeiro debate. Como referi ontem, a McCain não lhe resta senão uma estratégia de confronto directo, eventualmente agressivo para os padrões americanos (quem viu o debate entre Berlusconi e Prodi nas últimas eleições italianas, o debate entre Sarkozy e Segolène Royal nas presidenciais francesas, tem uma ideia mais clara sobre as ‘boas maneiras’ de que os europeus tanto se orgulham, em comparação com os ‘grunhos’ americanos).

De resto, a CNN dá-nos conta que: “At a campaign event in Denver, Colorado, last week, a voter asked McCain when he was going to “let the gloves come off and go after” Obama. McCain’s response: “How about Tuesday night?” Esperam-se, portanto, punhos em riste. E, se bem aconselhado, um estratégia de elegantes esquivas por parte de Obama, pontuadas por uppercuts clarificadores. O que é certo é que estarão, como nunca, face com face. No Tennessee, outra terra seminal da música americana.

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Face a Face. Cheek to Cheek. A canção (1935) foi composta por Irving Berlin, imortalizada em Top Hat por Fred Astaire. Não será a melhor interpretação, sob o ponto de vista musical. Mas como esquecer a dança, a insustentável leveza da conjugação dos corpos de Astaire e Ginger Rogers? Clássico entre clássicos, Cheek to Cheek conheceu uma carreira fulgurante na história da música. Como o comprova a lista de intérpretes que dela se apropriaram. Agora, depois de colocar este post, vou tranquilamente assistir ao debate. A CNN, na sua Pool of Polls, deu ontem pela primeira vez, 50% a Obama. “Heaven, I’m in heaven, and my heart beats so that I can hardly speak...”

The Great American Songbook (II) – Fever

Ontem as coisas começaram a aquecer, à medida que a candidatura Democrata vai subindo nas sondagens e consolidando posições, Estado a Estado, navegando as águas da Economia. Os Republicanos passam ao ataque ad hominem, em suma, à política negativa. São criticados pelas suas próprias hostes, pela voz do mais que ‘insuspeito’ Karl Rove: “the McCain campaign faced criticism by fellow Republicans over its strategy. Karl Rove, the architect of President Bush’s two electoral victories, wondered out loud why the McCain team had announced in advance that it was going to unload with attacks on Obama’s character.” O que é que isto tem a ver com música? Nada. Tudo. Os próximos dias prometem aquecer.

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Fever. Em 1956, Otis Blackwell escreve este clássico para Little Willie John. De imediato transforma-se num tema de culto, num standard, amado por intérpretes da música popular ‘tradicional’, conhecendo igualmente múltiplas versões por parte de cantores da área da pop music. Mas é Peggy Lee quem leva a canção a rebentar definitivamente com o termómetro emocional. Ouçam-na.

The Great American Songbook (I) – Someone to Watch Over Me

A partir de hoje, dia 5 (na verdade já entrámos em 6), faltam 30 dias para a realização da eleições presidenciais nos E.U.A., que terão lugar a 4 de Novembro. A coisa em si nunca me comoveu muito (apesar de ter apreciado os mandatos Clinton). Democratas ou Republicanos nunca divergiram muito no melhor e no pior que a América deu a si mesma e ao mundo. Os tempos estão diferentes, porém. Aquilo que se poderia tomar como simples alternância de poder assume, porém e agora, um carácter fracturante (expressão tão na moda, tão politicamente correcta, que me arrependo já de a ter escrito). E a escolha de um dos lados pode significar (ou não) a travessia do Rubicão do século XXI. A mudança.

Tomo, pois, partido. E, enquanto roo as minhas muito brancas unhas, colocarei aqui diariamente, em  louvor e esperança pelo destino da nação americana, um tema musical do Great American Songbook que se poderia balizar, de forma simplista, como o conjunto de temas musicais populares ‘clássicos’ criados entre os anos 20 e os anos 60 do século passado. Entre o Tin Pan Alley de New Orleans, os musicais da Broadway, os grandes temas musicais do cinema, até à fulgurante irrupção da pop music na cultura popular.

Os temas clássicos, que deram origem à fixação de muitos dos melhores standards do Jazz e ainda hoje são referenciados (e reverenciados) pelo escol dos melhores intérpretes e conhecedores. A selecção de cada interpretação é necessariamente arbitrária. Minha, portanto. Fiquemos com a primeira. Que passem ligeiros estes 30 dias, onde todas as esperanças são possíveis.

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Someone To Watch Over Me (1926), de George e Ira Gershwin, aqui na interpretação memorável de Ella Fitzgerald (mas com mais de uma centena de versões para todos os – bons – gostos).

Estranhos são os caminhos que nos levam…

Estranhos são os caminhos que nos levam a gostar de coisas à partida impensáveis. Já referi que cheguei a esta canção através de um bootleg. E ouvi-a com espanto. A simples, leve ironia de Bono transmutou uma canção pop adocicada numa provocação geracional. Foi naquele instante e naquela cidade. Mas foi. E haveria de o repetir, noutras ocasiões.

O fascínio do ouro, onde antes via pirite.

O vídeo é escandalosamente mal gravado e filmado (só podia, creio). Mas vale pelo que nele se pressente: um momento mágico para o público e a redenção de uma canção que não era suposto ser audível, nos idos de 1992. Quanto mais cantada pelos U2. Em Estocolmo. Com os ‘gnomos’ que compunham melodias intemporais. Os ABBA boys (Bono bem pergunta pelas duas raparigas, em vão).

Este é o primeiro videoclip que coloco no blogue. Prometo com solenidade ser muito mais criterioso naqueles que vier a escolher no futuro. Mas não resisti.

Ontem, no CCB

Sala cheia para receber Maria João Pires, evidentemente o grande chamariz que levou o público ao CCB. Com ela o violoncelista Pavel Gomziakov e o tenor Rufus Müller. O programa convocava um delicado diálogo entre obras de Beethoven (duas sonatas, cinco lieder e as conhecidas 32 Variações sobre um tema original em Dó Menor, Wo0 80) e de Schubert (uma sonata e seis lieder). Nestas escolhas estava igualmente implícito um outro ‘programa’, de carácter conceptual: procurar a revelação da essência espiritual (“mística”, nas palavras de Maria João Pires) contida no balanço entre a ‘revolta’ (Beethoven) e a ‘aceitação’ (Schubert), de acordo com a percepção expressa pela pianista. Para favorecer este objectivo, algumas singularidades marcaram o espectáculo, como o pedido para que não houvesse aplausos entre cada uma das peças – mas apenas no final da primeira parte e no termo do concerto. Contudo, o que mais concorreu para o ambiente de serenidade e intensidade emocional foi a inequívoca cumplicidade entre os intérpretes, muito para além do plano do desempenho. Um clima de genuíno afecto esteve sempre presente e contribuiu, de facto, para uma audição diferente das obras destes dois grandes compositores do romantismo musical europeu. Maria João Pires não surpreendeu (que bom!). A fluidez única, um cromatismo e uma leveza que lhe são tão característicos, uma sonoridade inconfundível. A dela. É como se a estivéssemos a ouvir há vinte anos, mas ainda mais intensa e perfumada. Gomziakov pareceu bem na sonata de Schubert (Der Zwerg, op.22, nº1, D 771) mas creio que não muito feliz na primeira sonata de Beethoven (sonata para piano e violoncelo nº 1 em Fá maior, op. 5 nº1). A grande surpresa da noite (para mim, claro) foi a notável performance de Rufus Müller, um tenor de excepcional craveira, aliando uma técnica irrepreensível, um controlo sem mácula mesmo nas passagens mais exigentes a uma expressividade encantadora. É verdade que as coisas não lhe correram bem (nem a Maria João Pires) no desacerto ocorrido no lied Der Musensohn, op. 92, nº 1, D. 764.

Mas os momentos altos foram muitos, particularmente Im Frühling, D. 882 e a interpretação fascinante, de uma sustentação magistral, que fechou a noite, do lied Nacht und Träume, op. 43, n.º 2, D. 827. Müller cuja magnífica voz de tenor alto obriga a voltar à questão dos limites e definições do que é um tenor. E contudo… Estavam Müller e Pires a terminar este momento mágico e derradeiro do concerto, mesmo na última frase, quando soam, em simultâneo, dois telemóveis. E o espectáculo acaba assim, com um detalhe ínfimo a produzir perturbação, notória nos intérpretes. O silêncio que se seguiu, até se iniciarem os aplausos – entusiastas, claro – foi uma forma inteligente que o público encontrou para limpar a nódoa. Porque o pano de fundo, esse, foi uma noite excelente, num concerto com um conceito e um ambiente de serena intimidade.

Sou surdo, não tenho telemóvel!

Sou surdo, não tenho telemóvel!