As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Literatura

Agustina Bessa-Luís – As Fúrias (excerto final)

(de volta)

Virtualidades das redes sociais: uma página dedicada à escritora acende como um rastilho a memória que do seus livros tenho. Procurando dar contributo para a referida página, acabo com As Fúrias na mão, e mesmo antes de o começar a reler já, deixa-se aqui o fragmento com que o romance termina. Falta um par de dias para que se cumpram 33 anos sobre a sua publicação.

«As traseiras da Rua do Almada ... e da Praça Filipa de Lencastre», Carlos Romão © Carlos Romão, via «A Cidade Deprimida», blogue

(clique para ampliar)

(…) Uma das vezes em que esteve na casa paterna ouviu falar na moradia da Foz, que ia ser vendida para dar lugar decerto a novas garagens e super-mercados. Os seus habitantes tinham sido desalojados, e para evitar outros intrusos, as janelas foram estilhaçadas e parte do telhado arrancado. A escada até ao primeiro andar foi destruída. Aguardava assim o braço do ‘caterpillar’, com uma energia que a fazia parecer ainda um belo modelo de metrópole passada. Pedro Rondom não foi lá; seria demasiado romântico uma visita dessas, e sobretudo o tempo não estava distraído no sentido dessas cogitações. Mas pensou com amargura que nada restava de Virgínia, que a marca da sua mão não ficara na balaustrada da entrada onde muitas vezes a vira, o tronco inclinado para fora como o de uma estátua prestes a precipitar-se. O cabelo, delgado, escondi-lhe a face; mas ele adivinhava-lhe o movimento dos lábios, a pálida boca que resumia uma passividade da razão que ele quisera explicar. Por fim, pelo que tinha de irremediável, isso fizera com que a amasse.

Uma família de ciganos instalou-se no jardim, mas foi expulsa logo a seguir; as rãs continuaram a coaxar tranquilamente no lago cuja podridão fazia rebentar bolhas de gás à superfície. Talvez a salamandra negra existisse ainda como um pequeno monstro dos abismos que dorme e desperta sem ética possível e sem transcendência. Era eterna por isso mesmo. Pois o que toda a inteligência ilumina é mortal. Doutro modo, a vida tornava-se insuportável.

Porto, 28 de Setembro de 1977.

Luís, Agustina Bessa, «As Fúrias», Lisboa: Guimarães e C.ª, Editores, 1983

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Crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público – “O meu novo casamento”

Publiquei aqui a primeira crónica do Miguel Esteves Cardoso da série ininterrupta e diária a que se propôs, com a promessa de, por respeito aos direitos de autor, ser essa transcrição excepção. Agora que o escritor renova o seu contrato com o jornal, alargando-lhe o âmbito, não resisto à «cópia» da crónica de ontem, 12 de Julho. Ou de, como a partir de um facto trivial (a aparente banalidade de um  contrato), MEC escreve uma brilhante crónica.

O meu novo casamento


Este mês casei-me com o PÚBLICO que, como disse o meu amigo José Cardoso, fez de mim uma mulher honesta.

Sou muito feliz com o PÚBLICO, meu marido em caixa alta. É bom pertencer ao PÚBLICO e fazer o que ele me diz e ele deixar-me fazer o que quero.

Foi longo e picante o namoro. Mas até a mais eufórica das noivas sabe que, a certa altura, começa o casamento em si. Devagarinho, vão-se revelando, de parte a parte, hábitos irritantes e manias. Mas também inesperadas graças e doçuras. Havendo amor, fazem-se pequenos pactos, trocam-se aceitações e abdica-se das importâncias.

Tenho a sorte de saber, graças à Maria João, como cresce um bom casamento. Nos primeiros anos a ordem dos pronomes é eu, tu, nós. No deslumbramento do tu, o eu começa a ser menos eu, mas o nós quase não existe: só eu e tu e “que giro ou que mau tu seres isto ou eu ser aquilo!” Passados três anos já há um nós. É um de nós para além da soma do eu e do tu. É um casal de que gostamos e de que dependemos. Embora o eu ainda tenha medo. E fica: eu, nós, tu.

É duro o tu ficar em último mas logo arranja companhia quando o nós passa para primeiro e fica: nós, tu, eu. É esta a fase de casamento em que estou. Não sei o que vem a seguir mas suspeito que não ficarão na mesma linha e que será, por cima, nós e, por baixo, tu e eu. Deus me livre que seja assim com o PÚBLICO. Mas caso com ele na mesma.

"the marriage", choas-overlord-joe © choas-overlord-joe, via deviantart (para B.A.B.F.)

Matilde Rosa Araújo (1921 – 2010)

Foi um mail do Rui Almeida que me deu a notícia da morte de Matilde Rosa Araújo, autora que marcou gerações de leitores e partiu sem capas de jornais ou notícias de abertura de telejornal. Não era um simples mail e trazia, nele, um belo texto da escritora. O Rui fez mais pela devida homenagem a esta autora que muitos meios de comunicação social. Meios? Grupos inteiros.

[Rui Almeida é poeta (Lábio Cortado, Livro do Dia, 2008); e autor de um dos mais amplos e persistentes blogues de divulgação de poesia portuguesa, Poesia Distribuída na Rua]

MATILDE ROSA ARAÚJO / SEBASTIÃO DA GAMA

[…] Eras tu, Sebastião; tu glorioso, apesar do teu corpo mudo de menino de tua mãe. Tu que me disseste: «E quando a morte vier diz-lhe que não; diz-lhe que és moça e não cumpriste ainda. Vês, querida amiga, é por causa de momentos assim, em que te resignas a ela, que é preciso a gente escrever, mesmo com certa casca literária, uma «largada». Porque mocidade é insurreição, protesto contra o que não está direito, vontade de erguer monumentos, desassombro para contrariar a morte. Negas a tua mocidade — não a mereces, quando, em momentos que eu muito bem compreendo, aceitas a morte como uma boa irmã. E sabes tu por que motivo a morte, surda ao teu abandono, às boas vindas que lhe cicias, se vai para outros caminhos? É porque ainda a não mereces. Nós não merecemos a morte ainda, Matilde. Que é que nós fizemos? Que lágrimas enxugámos? A que bocas demos pão? Que remédios trouxemos para curar o «mal profundo da alma»? Claro, minha filha, que alguma coisa fizemos. A nossa torre de marfim é bem rasgada de janelas. Mas o «alguma coisa» que fizemos é tão débil, tão mínimo… Ver Nápoles e morrer — dizem. Fazer alguma coisa e morrer — devemos dizer nós, gente nova. Tu perguntaste-me, quando te disse o «Convite a ser-se moço»: «Porque rimaste no fim?» Achei fora de propósito a pergunta… Mas, se meditasse um minuto, talvez respondesse que para fixar melhor aqueles últimos versos.
É preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade. E o processo não é dizer que sim à morte.
Quantas vezes me insurjo contra mim, Matilde, porque me não sinto verdadeiramente moço; é que a minha vida tem mais horas de sangue morno do que sangue latejante… E eu queria ser era forte, era moço, era construtivo. Não para que dissessem, num elogio: Aquele é forte, é moço, é construtivo. Antes para sentir que era útil. Tanta vez tenho vergonha de mim, me sinto mesquinho!» E conta. E continua : «…agora não quero mais senão fixar uma coisa: é que podem todos gritar, como têm gritado, que sou um indiferente, um desinteressado dos… que me cercam — que eu sinto tranquila a minha consciência. E para tal me basta que saiba, de ciência certa, que não sou indiferente, que me não desinteresso. Valem, para mim, muito mais as acções do que as palavras. E tenho e certeza de que sou humano e do meu tempo nas minhas relações com os outros. Para muitos desses outros não basta — queriam qualquer ismo para designar a minha maneira de ser; qualquer ismo moderno. Mas paciência. E sobretudo é cedo demais para julgar quem é mais interessado.
E também já estou a escrever demais e sério demais. A isto me levou o nevoeiro que amanheceu na Arrábida. Desculpa. Eu preferiria, de facto, contar-te uma história de crianças. Olha, esta, a que a Joaninha assistiu: «Eu gostava de ser flor. E tu?» Bem é verdade: «O melhor de tudo são as crianças».
As crianças. Era isso, Sebastião. Era tudo isto: o sol alado, glorioso, que morreu ontem. Era esta tua força perante a vida, este teu merecer a morte, gloriosa e final como mereceste. É isto que nos afasta. Tu mereceste-la inteira […]

(in Távola Redonda – folhas de poesia, fascículos 16 e 17 [edição de homenagem a Sebastião da Gama], 30 de Abril de 1953 – da edição fac-similada: Contexto editora, 1989)

Convento da Arrábida, Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. (Fonte: Fundação Oriente)

José Saramago (1922 – 2010) – Espaço curvo e finito

Morreu José Saramago.

Que deus o receba na sua paz.


José Saramago na praia Quemada, entre Yaiza e Tías, Lanzarote (Canárias) - Pedro Walter © Pedro Walter, El País (d.r.)

Espaço curvo e finito


Oculta consciência de não ser,

Ou de ser num estar que me transcende,

Numa rede de presenças e ausências,

Numa fuga para o ponto de partida:

Um perto que é tão longe, um longe aqui.

Uma ânsia de estar e de temer

A semente que de ser se surpreende,

As pedras que repetem as cadências

Da onda sempre nova e repetida

Que neste espaço curvo vem de ti.

Saramago, José, Os Poemas Possíveis, Lisboa: Editorial Caminho, 1981.

João Aguiar – (1943 – 2010). Um escritor «light»?

Morreu ontem João Aguiar. Surgiu e fez-se notado no «romance histórico» com “A Voz dos Deuses” (1984). Na altura o género não estava popularizado, e o sucesso que o romance conheceu causou alguma surpresa no meio literário. Seria, hipoteticamente, um escritor «light»? Sobre isso afirmava, em entrevista  publicada no blogue Porta Livros, que pode ser lida aqui:

A literatura light poderá chamar leitores?
“Não sei. Tenho medo da literatura light. Por um lado pode ser o início, mas também pode ser o fim. É tudo muito complicado de definir. Eu iria mais para o que está bem escrito e mal escrito. Sherlock Holmes era literatura light! Não se pode ignorar.”

Parece-me bom que também haja escritores light (que não será sequer definição ajustada à muito diversa obra de João Aguiar), que têm leitores, que “criam” leitores. A Caras não cria; a Bola agora também já não.

João Aguiar (1943 - 1910)

De “A Voz dos Deuses” (excerto de uma extensa transcrição da obra, no Projecto Vercial)

II – A INSÍGNIA DO TOURO
I
Durante a Primavera fizemos pequenas incursões na Betúria, mais para sobreviver que para enfrentar seriamente os Romanos. Os nossos efectivos não permitiam uma ofensiva – Cúrio e Apuleio teriam uns dois mil homens, nessa altura – e só podíamos atacar de surpresa e em terreno conhecido.

Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, aquela Primavera foi para mim um período importante porque me habituei à vida de campanha, às longas marchas, a viver o dia-a-dia, a enfrentar o perigo constante. Habituei-me também ao lado menos brilhante da guerra, o espectáculo das aldeias saqueadas e das mulheres violentadas (coisa que nunca gostei de ver; mas alguns dos nossos eram especialistas nisso e os príncipes toleravam a prática, embora não a seguissem). Na verdade, o que menos me agradou foi sentir que éramos mais um bando de salteadores que um exército. Não havia objectivo, excepto viver à custa dos saques e matar Romanos.

Outro aspecto penoso mas inevitável da guerra é assistir à morte de camaradas com quem na véspera se partilhou uma refeição à roda da fogueira. Assim perdi o meu amigo Indibilis, que morreu durante um assalto, trespassado por uma lança. Vinguei-o matando o legionário que o atingiu. Antes de morrer, Indibilis ofereceu-me o seu capacete de bronze e pediu-me que, em troca, enterrasse o seu corpo. Cumpri esta vontade; fora um guerreiro corajoso e um bom amigo, sempre pronto a instruir-me no ofício da guerra.

Quando o tempo aqueceu, anunciando a chegada do Verão, um grupo de cavaleiros de além-Tagus veio até nós com mensagens para Cúrio e Apuleio. Os príncipes ouviram os recém-chegados em privado, mas logo a seguir convocaram uma assembleia de tropas. Os mensageiros, instados a repetir em público o que haviam dito aos comandantes, anunciaram que estava em preparação um ataque em larga escala, dos Lusitanos e dos seus vizinhos, contra a província Ulterior, para vingar enfim a traição do pretor Galba. Naquele momento, acrescentaram, formava-se uma coligação de reis, príncipes e chefes tribais; entre os povos que enviariam contingentes para a nova grande hoste contavam-se os Igeditanos, os Taporos, os Túrdulos de Aeminium e Conímbriga e também os Vetões, fiéis à aliança com a Lusitânia. Havia ainda muitos outros – ao todo, cerca de dez mil guerreiros. Alguns chefes, dos mais ilustres, tinham manifestado o desejo de propor a Cúrio e Apuleio que participassem na expedição e os emissários ali estavam: se a proposta fosse bem recebida deveríamos comparecer na grande assembleia que se ia realizar junto dos montes Hermínios.

O debate foi curto porque, afinal, os comandantes já haviam decidido aceitar o convite. Os mensageiros, que nos serviriam de guias, foram honrados com um festim – não muito abundante, já que todos nós devíamos ficar suficientemente sóbrios para partir ao romper da aurora, por isso a cerveja e o vinho foram racionados. No entanto, quando me deitei sentia-me tonto; não por causa do álcool, mas pela excitação. Finalmente, Roma ia ter uma resposta, Camalo e Beduno poderiam repousar contentes no reino dos espíritos. (…)

“Tess of the D’ Ubervilles” – Thomas Hardy

“I agree to the conditions, Angel; because you know best what my punishment ought to be; only – only – don’t make it more than I can bear!”
– Thomas Hardy, Tess of the d’Urberville

Nos 170 anos da nascimento de Thomas Hardy (2 Junho de 1840 – 11 Janeiro de 1928), pretexto para recordar um dos filmes da minha vida (damn, não se consegue fugir a citar o João Bénard da Costa). Melhor dito, pretexto para a memória da adolescência de hormonas e borbulhas, amplamente estimuladas pelo intensa desempenho de Natasha Kinski, então com 19 anos, uma linhagem cinematográfica de peso e uma carreira que tudo parecia prometer. De “Tess of the D’ Ubervilles” (1979) se fala, em Portugal estreado com um simplificado e muito apelativo título: “Tess“. Via este filme de Roman Polanski (que a justiça divina o proteja dos tribunais) cheguei ao livro, mais tarde ao autor. E se, de Thomas Hardy, aprecio bastante a poesia (obrigado, Rui Lage, por esta tradução), quando surge o nome do escritor de Dorset é do filme, não do romance, que imediatamente me lembro. Mas quem lhe ficou indiferente, a ele filme? Quem não suspendeu a respiração na cena final?

Finnegans Wake redux

"porra, onde é que eu ia?!"

(clique para ampliar)

Dois senhores pacientes, um linguista (Danis Rose) e um físico (John O’Hanlon), dedicaram 30 anos de vida a introduzir umas singelas 9.000 correcções e “pequenas” alterações ao original da célebre, polémica e problemática obra de James Joyce; nove milhares de pequenos nadas que, de acordo com os autores, conferem maior coerência e inteligibilidade ao texto: «Esta coerência foi restaurada por completo na nova edição e resulta no que se pode chamar a primeira edição definitiva da obra-prima de Joyce», afirmam, orgulhosos, os perpetradores.

Pois. Perante tanta confiança e júbilo, algumas perguntas se podem colocar:

Queremos ler o Finnegans Wake para o entender?

Queremos ler o Finnegans Wake?

Quereria o autor que a obra fosse arredondada e facilitada? Ou até simplesmente lida enquanto “leitura”?

Conseguiram Rose e O’Hanlon fazer mesmo alguma coisa de jeito, ou apenas usaram adoçante?

E pode plausivelmente acreditar-se que, agora-finalmente-até que enfim, com 9.000 pinceladas, a coisa fica assim “legível” e lobotomizada?

A avaliar por estas duas páginas dos apontamentos de Danis Rose, não creio. A quem se dispuser a gastar 900 libras na coisa (em edição especial) garanto que é uma arriscada decisão de investimento no mercado de bens culturais; aos outros, quase que afiançaria tratar-se de uma inutilidade.

Mark Twain – no centenário da morte, notícia não exagerada

“As Aventuras de Huckleberry Finn”, novela no eixo da formação do gosto de ler ao longo de gerações; de uma literatura, a americana; de um imaginário que perdura. E talvez o livro que eu levaria para uma ilha deserta. Aqui se deixa um trecho, o sabor de uma escrita onde se inscreviam múltiplas linguagens; o fac-simile da primeira edição (1884); ilustrações da mesma. E uma deliciosa nota de abertura/advertência aos leitores. Escrito por Mark Twain, que morreu faz hoje um século. Depois de a notícia da sua morte ter sido bastante exagerada. [Fonte textual e das ilustrações : Project Gutenberg™].

“I set down again, a-shaking all over, and got out my pipe for a smoke; for the house was all as still as death now, and so the widow wouldn’t know. Well, after a long time I heard the clock away off in the town go boom—boom—boom—twelve licks; and all still again—stiller than ever. Pretty soon I heard a twig snap down in the dark amongst the trees—something was a stirring.  I set still and listened.  Directly I could just barely hear a “me-yow! me-yow!” down there.  That was good!  Says I, “me-yow! me-yow!” as soft as I could, and then I put out the light and scrambled out of the window on to the shed.  Then I slipped down to the ground and crawled in among the trees, and, sure enough, there was Tom Sawyer waiting for me. (…)”

“Adventures of Huckleberry Finn”, primeiro capítulo (excerto).

Tiago Patrício – “A literatura e a leitura da luz”

Ainda da cràse número um. Última escolha para deixar aqui. O primeiro texto da revista, de Tiago Patrício [Funchal em 1979]. Uma pequena narrativa de melancólica ironia, escrita em andante, se é permitida a comparação, a marcação do tempo.

© José Monteiro, Olhares, fotografia online

A literatura e a leitura da luz

O Homem Desempregado gostava muito de ler e tinha um cuidado extremo com o tipo de luz que seleccionava para a leitura, preocupava-se tanto com este assunto que muitas vezes se esquecia do que estava a ler e murmurava satisfeito:

– Como é boa esta luz para acompanhar uma leitura.

Passava manhãs inteiras ou semanas à volta da mesma página que tanto podia ser de filosofia política como de uma lista da toponímia da sua cidade e nem dava conta da perda de validade de certos livros requisitados nas bibliotecas, o que deixava os funcionários muito aborrecidos.

Raramente lia à noite, só em último caso, em especial livros de instruções para alguma tarefa imprescindível ou algum telegrama que lhe chegava depois do crepúsculo.

Na casa onde morava tinha uma luz franca que iluminava os textos e as suas ideias mais complexas, mas a partir de uma certa hora o sol deixava de bater na sala virada para Sudoeste e tinha de sair de casa à procura do poente como de alimentos para a dispensa. Dobrava a esquina e entrava num largo que se abria num miradouro sobre o rio, com alguns bancos de jardim que lhe agradavam sobremaneira. Assim, nos dias amenos, o Homem Desempregado descia as escadas do prédio e saía para a rua com um livro forrado a papel de jornal debaixo do braço. Passava por baixo de duas árvores e procurava um lugar com espaço para si e para o seu livro, entre os grupos de pessoas já instaladas.

Sentava-se cheio de boa disposição, pedia licença e agradecia a amabilidade a todos aqueles que faziam companhia ao entardecer. Aconchegava o olhar até ao outro lado do rio, para ficar com uma boa visão periférica e fazia inspirações semibreves de contentamento. Porém, após ultrapassar as três ou quatro páginas do seu livro da tarde, começava a ficar incomodado com o excesso de ruído que não lhe permitia ler sem estar sempre a perder-se com os estímulos, especialmente com os daqueles que tinham chegado pouco tempo depois dele e já eram considerados intrusos. Nessas alturas o Homem Desempregado lembrava-se de que a intolerância aumentava com a permanência e o apego aos lugares. Após longas e espaçadas inspirações conseguia voltar à leitura da luz, sem contudo deixar de sentir uma certa benevolência por aqueles que conversavam no largo do miradouro sobre a sua leitura.

Álvaro de Campos – Ai, Margarida,

O poema musicado e cantado pelos Guta Naki, no post anterior. Sequências (não) acidentais.


Ai, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que farias tu com ela?

— Tirava os brincos do prego,

Casava c’um homem cego

E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que diria tua mãe?

— (Ela conhece-me a fundo.)

Que há muito parvo no mundo,

E que eras parvo também.

E, Margarida,

Se eu te desse a minha vida

No sentido de morrer?

— Eu iria ao teu enterro,

Mas achava que era um erro

Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,

Se este dar-te a minha vida

Não fosse senão poesia?

— Então, filho, nada feito.

Fica tudo sem efeito.

Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval

Sr. Álvaro de Campos em estado

de inconsciência

alcoólica.


1-10-1927

Álvaro de Campos, “Livro de Versos” –  Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.

© daVid, Olhares, fotografia online

Jorge de Sena – Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya

Não sou especialmente apreciador de poemas ideologicamente informados, ou de “mensagem”, pelo menos na poesia portuguesa contemporânea; mas este é apenas um aparente caso eventualmente catalogável nas franjas do neo-realismo. Lendo-o, percebemos como ultrapassa escolas, orientações e “credos”.  Tratando-se de Jorge de Sena, seria inevitável.

O que interessa: quando o li pela primeira vez não tinha filhos e estava muito longe de os ter. Mas de imediato a força da ideia que lhe subjaz me deixou uma certeza: um dia leria este poema aos meus filhos a ter. O tempo trata de colocar as coisas no lugar. Já com filhos grandes e pequenos, nunca tentei. Pertencem a um outro mundo.

Porém, a ideia contida nesta belíssima epístola poética ainda fere de actualidade. Muito. Demais.


CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

SENA, Jorge de, “Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, Lisboa: Moraes, 1963.

Francisco de Goya, "Los fusilamientos del 3 de mayo de 1808 en la Montaña del Príncipe Pío" (1814), Museo del Prado, Madrid (D.R.)

(clique para ampliar)

Manuel António Pina – As Vozes


AS VOZES


A infância vem

pé ante pé

sobe as escadas

e bate à porta

– Quem é?

– É a mãe morta

– São coisas passadas

– Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!

E se somos nós quem está lá fora

e bate à porta? E se nos fomos embora?

E se ficámos sós?

PINA, Manuel António, Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999

© Débora Klempous, Olhares, Fotografia Online

Ana Hatherly – Tisanas

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Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.

HATHERLY, Ana, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)

ilustração infantil, inspirada no livro “T.J.’s Desert Surprise” de Emily A. York

Pablo Neruda – Cartas de amor

Nem sempre o epistolário amoroso de um escritor é motivo de interesse literário; quase nunca o é, de resto, a não ser para exercício de voyeurismo, e alguns exemplos chegam mesmo a beliscar penosamente a imagem de quem os escreveu. Não é o caso de Pablo Neruda (1904 – 1973), quer pela importância da temática amorosa na sua obra poética, quer pelo interesse biográfico, iconográfico e pela “petite histoire” que encerra esta colecção de cartas inéditas escritas ao longo de mais de duas décadas a Matilde Urrutia, sua viúva, seu último amor. São agora publicadas na casa Seix Barral, e divulgadas no El Cultural online, onde se pode descarregar um pdf com quinze delas (e respectiva transcrição) e ler uma interessante nota de leitura à edição, escrita pela particularmente autorizada mão de Joaquín Marco. Aqui se deixa um postal manuscrito, e respectiva transcrição, para abrir o apetite. Quem hoje recebe mails de amor haverá de ter inveja de Matilde.


original

transcrição

Ângelo de Lima – Pára-me de repente o pensamento

Pára-me de repente o pensamento

Pára-me de repente o pensamento

Como que de repente refreado

Na doida correria em que levado

Ia em busca da paz, do esquecimento…


Pára surpreso, escrutador, atento,

Como pára um cavalo alucinado

Ante um abismo súbito rasgado…

Pára e fica e demora-se um momento.


Pára e fica na doida correria…

Pára à beira do abismo e se demora

E mergulha na noite escura e fria


Um olhar de aço que essa noite explora…

Mas a espora da dor seu flanco estria

E ele galga e prossegue sob a espora.


LIMA, Ângelo de, “Líricas Portuguesas”, seleção, prefácio e notas de Cabral do Nascimento: Lisboa, Portugália Editora, 1945

"Equus" © Tim Flach (d.r.)

O pescoço de Dante, um cavalo Lusitano, trabalho que integra o álbum “Equus” do fotógrafo britânico Tim Flach.
[Clique para ampliar]

A. M. Pires Cabral – A Um Galo

Um poema de A. M. Pires Cabral, recentemente galardoado com o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava (2009). Pode encontar-se uma excelente entrevista de Carlos Vaz Marques ao escritor, publicada nas páginas da revista LER.

A UM GALO


Aquele que injuriava a madrugada

com ácida, assídua voz.

O que tinha esporões por baioneta,

o do ciúme em brasa.


O galo. Um osso dele

ainda no quintal.

CABRAL, A. M. Pires, “O Livro dos Lugares e Outros Poemas”, Lisboa: Assírio & Alvim, Lisboa, 2006

Mosaico da série "Árvore do Paraíso" © Brooklyn Museum

Cenas da “Árvore do Paraíso”. Colecção de mosaicos judeus romanos, datados do século III, recuperados da antiga sinagoga de Naro, Tunísia.

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Daniel Maia-Pinto Rodrigues – A Casa da Meia Distância

Bons acontecimentos colorem os dias. A Mariposa Azual volta a publicar poesia, neste caso de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, já com um longo percurso de escrita, animação e divulgação. Confiando inteiramente no critério de Helena Vieira, editora da Mariposa Azual, aqui se deixa o texto de apresentação, a belíssima capa (autoria de Luís Batista) e um poema, em pré-publicação, escolhido pela própria editora. É longo, singularmente longo no meio dos poemas que compõem o livro, este poema n.º 54. Ler, por vezes, pede-nos tempo. Depois devolve.

A Casa da Meia Distância será lançado no Porto, dia 10 de Fevereiro, às 21h30m (Bar Labirintho)

Declaração de interesses: publica-se este poema, antecedendo o lançamento do livro, não por amizade para com a editora. Mas por ter gostado dele, poema.

*

“Como se chama o lugar onde ficaram os nossos sonhos, Quando tivemos que sair?
O novo livro de Poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues -A CASA DA MEIA DISTÂNCIA, depois da consagração dos dispersos na Antologia DIÓSPIRO (Quasi Edições, 2007), é um regresso, um retorno ao poder das pequenas coisas.
Quietas. Simples. Suspensas. Que ficaram nesse limbo – A meia distância.
A distância que por certas vezes sentimos que se coloca entre nós e a nossa vida; entre as palavras e as coisas; entre o céu e a terra; entre o antes e o depois.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues nasceu no Porto, em 1960, cidade onde vive desde sempre. Autor de uma considerável obra que inclui poesia, romance e novela, é uma figura da cena literária do Porto, por ter sido um dos animadores, dizedores, divulgadores de poesia no Pinguim Bar, nos idos anos de 80 e 90.
Entramos na casa.
Regulamos a nossa própria altura pela altura desta casa. A porta é baixa. Obriga a dobrar um pouco o pescoço e a flectir os joelhos para podermos entrar nas suas salas de paredes claras e um pé-direito confortável para humanos.
Registamos o aviso / epígrafe da velha fábula de la Fontaine. A infância-raposa, continua à procura de uvas maduras nos livros.
Mais uns passos e passamos pela Definitiva História de Julian, o Pastor.
Entramos, pé ante pé; a porta ficou entreaberta desde os anos 80, quando um grupo de mulheres e um homem aqui passaram umas férias de Verão.
Percorremos, devagar, os seus 64 cantos / 64 poemas / 64 pausas. Espaços da casa / espaços do livro / takes do tempo.
Uma voz suave e doce guia as nossas descobertas. Revelações, inconfidências, provocações, relatos. Brincadeiras. Levezas.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues é o biógrafo deste tempo e deste lugar. Regista o seu pulsar. Guarda os factos, a imaginação, o desejo, a luz desses dias, a frescura dessas noites.
O livro / casa desfilou diante de nós. É hora de partir. Chegou a melancolia, essa outra doença do tempo. Anuncia-se o momento em que é preciso SAIR DA CASA UTÓPICA PARA IR MORRER À REALIDADE.
Mas antes da despedida, ainda vamos a tempo de aceitar o convite e voltar ao VERÃO 77 – POP DAYS em ESPOSENDE.”

– Helena Vieira

Daniel Maia-Pinto Rodrigues é o autor das seguintes obras publicadas:
Vento, Edição de autor, Porto, 1983
Conhecedor de Ventos, Ed. Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Porto, 1987
A Próxima Cor
, Ed. Pinguim Poesia Bar, Porto, 1983, ( Prémio Nacional Foz Côa/86 -Menção Honrosa Novos Valores da Cultura, 1988)
O Valete do Sétimo Naipe, Ed. Felício Cabral Publicações, 1994, com prefácio de Mário Cláudio
O Céu a Seu Dono, Co-autoria com João Gesta, Ed. Edicións Positivas, Santiago de Compostela, 1997
A Sorte Favorece os Rapazes, Ed. Fundação Ciência e Desenvolvimento / Teatro do Campo Alegre, 2001
O Afastamento Está Ali Sentado, Ed. Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2002
O Diabo Tranquilo – Co-autoria com Isabel Rio Novo; pósfacio de Pedro Eiras, Ed. Campo das letras, Porto, 2004
Malva 62, Pósfacio de Manuel António Pina, Ed. Quasi Edições, Vila Nova Famalicão, 2005
O Corredor Interior (romance), Ed. Clube Literário do Porto, Porto, 2006
Dióspiro –Poesia Reunida 1977-2007 (antologia com selecção e organização de Luis Miguel Queirós e José Carlos Tinoco), Ed. Quasi Edições, Vila Nova Famalicão, 2007
Os seus poemas integram várias e importantes Antologias de Poesia Portuguesa Contemporânea, incluindo a monumental “Poemas Portugueses. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”, de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, que lhe dedica mais de 20 páginas, apresentado-o como um poeta central dos anos 60 do sec. XX.

Capa de Luís Barata © Mariposa Azual (clique para ampliar)

54

Acho que estou a precisar de ir descansar. Vou para o meu quarto,
que sei perfeitamente onde fica.

Lembro-me de outrora ter escrito livros, de ter
falado de bosques.
Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de pequenas gavetas,
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um solitário feixe de luz incide no armário,
parece vir enfeitado de lampadazinhas coloridas,
conhecidas também por colours of the rainbow.
Naquela gaveta poderá estar um perfil de telhados – silhueta trespassada
pelo grande sol frio do fim da tarde.

Lembro-me de outrora ter falado de bosques…
Naquela gaveta poderá estar o espelho longevo
com seu insubstituível reflexo de divisões infantis.

Quatro ou cinco gavetas terão uma praia
que se estende com a luz matinal
a varar as distâncias.

Outras terão as abas dos guarda-sóis
com o som que fazem quando lhes dá o vento.

Tenho um armário com as imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.

A perenidade ao sol
de Françoise a beber o mazagrin
também deve estar em alguma gaveta.

Não faço ideia da gaveta em que estará a tarde
que decorre com esplanadas ao fundo
e onde tudo quanto se move
é descontracção e alegria.

Fátima oferece-me água da Serra da Penha
numa gaveta que exista e que seja secreta.

Em que gaveta estará o menino a lamentar-se aos pais
por o caranguejo que apanhara
já não estar no balde que trazia?

Françoise bebe agora um cocktail, talvez de ginger ale.
Mas não sei em que gaveta. Se bem me recordo, contemplava um soleil couchant,
kitsch, ele também, por sua vez, mas lindo até ao fim do mundo.

…………………………………………………..
distantes margens delineando a noite,
pontilhadas por pequenas iluminações esparsas
que parecem só existir assim, vistas de longe.

Dentro desta gaveta estou eu com dezassete anos, no pinhal ao sol,
com duas latinhas de lulas e a minha ideia de poesia.

Aquela gaveta, que parece mais privada,
seria a que as mulheres daquele tempo escolheriam
para retocar nos lábios o bâton cereja.
E nesta, mais notória,
estarão os cães a ladrar e a caravana a passar.

Tenho ideia de que será nesta gaveta – bem, ou talvez nesta –
que se poderá encontrar Françoise
a soltar o seu cabelo castanho de francesa.
Mas, por exemplo, não faço a mínima ideia
onde possa estar a brisa suave que ameniza a temperatura de Agosto,
nem a gaveta que guarda o relógio que nunca pára
e que agora, muito naturalmente, assinalará as banalíssimas onze da manhã.

É provável que no armário já não exista nenhuma gaveta
com o entusiasmo do mar sobre os penedos. É provável que já não haja
nenhuma gaveta vaga para a senhora de apelido Araújo
e para as palavras límpidas que de olhos nos olhos dissemos,
enquanto – na voragem exterior a nós – lhe dedicava um livro
e lhe entregava nesse olhar os meus últimos feixes
de vitalidade, os meus mais raiados votos de que fosse feliz.
Não mais a verei, amável senhora,
inteligente e bonita senhora sensível. Não mais a verei,
e vim para esta casa com essa amargura.
Porque penso que a poderão interessar, procure as palavras
de Isabel Rio Novo sobre a Dimensão Fantástica.
Presumo que as encontrará com facilidade nos recentes dispositivos tecnológicos.
E procure também a própria Isabel Rio Novo; encontrá-la-á
ao seguir pela escada que dá para o lado do mar.

Senhora de apelido Araújo, esta foi a forma que tive de comunicar
consigo. De lhe dizer que acredito em si. De lhe dizer
que acredito na Nova Mulher, com a Qual (movimentos democráticos
de cariz feminista) me estanciei no lindíssimo período da minha mocidade. Essa [Mulher
é ainda hoje a minha Mulher favorita. E agora, desta vez, sugiro-lhe
que procure Ana Luísa Amaral, encontrá-la-á com facilidade onde estiver a [acontecer
a boa educação.
Mostre a sua existência, caríssima senhora Araújo, mostre o seu valor,
mostre que não é uma metáfora deste texto. E exista tal qual é,
ouça, tal qual é, não pusilânime, não petulante feita à pressa, não solerte
miserabilista, não carneirinha da manada, e sabendo
– como bem o sabe – que o azedume não é sinónimo de raciocínio,
antes sim, como facilmente se compreende
(só os próprios azedos não o compreendem por nada saberem raciocinar),
sinónimo das próprias frustrações.
esta foi, bela senhora de apelido Araújo, a forma que tive de comunicar
consigo, a forma que encontrei para lhe poder dedicar as duas próximas estrofes.

Crianças de aldeias, crianças a quem na infância acenei
do vidro traseiro do automóvel rápido
e que ficaram pelos caminhos a brincar ao verão,
sem que para isso precisassem de conhecer praias.
O que foi feito de vós?
O que fizestes aos vossos sorrisos puros?
Como eu gostava que a minha vida vos tivesse oferecido uma gaveta!
Choro agora de tantas saudades por tão breves instantes.

Raparigas contentes em suas roupas claras,
em suas roupas claras sobre os seios que cresciam,
amei-vos sem nunca mais vos ver,
amei-vos por nunca mais vos ter visto,
amei-vos intensamente, como a qualquer coisa que se desprende
e se perde da nossa lembrança de saber o quê.
Em mim ficastes a pertencer às distâncias cheias de luz,
diluídas agora, e ainda mais, pelas minhas lágrimas.
Neste momento, tardio, em que é de mim que me despeço,
entregar-vos-ia, no melhor gesto da vida, o meu armário todo.

A baleia encalhada deve estar nesta gaveta maior,
e nestas ao lado estarão as pessoas transportando água do oceano
para lhe verter no dorso.
Se de facto é nesta gaveta maior que está a baleia,
é por aqui que está o marinheiro da luz pálida e molhada,
a comunicar que mais nada se podia fazer;
a baleia tinha morrido.

Lembro-me de um dia ter escrito livros, de ter
falado de bosques.
Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de gavetas
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um armário com imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.



Novos Poetas (51) – Maria Sousa

Última escolha pessoal, entre o que foi publicado na criatura número 4, talvez o mais equilibrado de todos os que sairam até agora. Um poema de Maria Sousa, o primeiro dos quatro que publica nesta edição da revista. Da autora é, igualmente o notável blogue There’s Only 1 Alice, onde algum do seu trabalho poético pode ser encontrado e apreciado.

[Agradeço a Maria Sousa a permissão para a publicação deste poema]

O processo de contar histórias é sempre lento

começa-se pelo início

e há quem diga que chegar ao fim é simples


uma frase é a melhor medida

para juntar os fragmentos


e se a noite a subir pela voz

é um método de fazer silêncios

e o coração é um órgão que

espreita pelos buracos da gramática


no fundo é porque têm um corpo como fronteira

SOUSA, Maria, Revista criatura n.º 4, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

"from the (plastic) body #3" © Thiago Rodrigues, Olhares, Fotografia online. (d.r.)

Filipa Leal – A Inexistência de Eva

Coloco este livro no cimo de tudo o que li em 2009. Não me interessa se é “o melhor”, “a grande revelação”. O que conta: Filipa Leal agarra no mais primitivo do ser, nos mais primordiais arquétipos culturais do ocidente e inaugura uma escrita, uma projecção onírica para lá do nosso tempo cujo alcance levará muito tempo a ser integrado: pelos leitores; pelas academias; pelos editores, pelos bibliotecários. Pouco importa, igualmente, serem estes poemas trinta e um textos (poemas/textos, a questão é irrelevante). Já de tomar nota: apenas fazem sentido, os textos, se lidos todos, de seguida, em sequência. Em mim, depois de os ler, instalou-se um grande silêncio. Branco.

Uma referência à cuidada edição da Deriva e à capa, com uma fotografia de Mafalda Capela que, bem vista, quanto melhor vista, mais nos abençoa de perplexidade.

(Agradeço a quem me deu a conhecer, ainda que lendo eu cego de luz.)

[Editam-se aqui os cinco primeiros textos, apenas para revelar, a quem não leu, um pouco da (a)ventura de mergulhar na obra. Não se edita todo o livro porque o editor me perseguiria a tiros de caçadeira. Retribuo informando o venturoso leitor, que ainda existem livros em venda, no site da editora, ou em algumas livrarias especializadas em poesia]

fotografia da capa: Mafalda Capela (d.r.) - digitalização: CercARTE (blogue)

ESTE LIVRO FOI ESCRITO HÁ MUITO TEMPO.


Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.

Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.

Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer.

*

À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs

avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade

e o remorso.

Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.

*

Ao redor do pomar, existira um rio que secara nos últimos

anos. Se o seguisse, junto à margem, em linha curva e longa,

encontraria uma cidade desconhecida. Embora nenhuma cidade

seja desconhecida se soubermos onde está.

Ouviu: – Perder-te-ás na ausência

de água do rio.

*

Não havia um único espelho na sala. Ela não sabia o que era o

princípio e o fim. Desconhecia os conceitos de vida e de morte.

Nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse,

abriria a porta.

Ouviu: – Assustar-te-á a existência

de dia e de noite.

*

Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque

haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o

texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,

ou cálice, ou manhã, não o questionaria.

(…)

LEAL, Filipa, “A Inexistência de Eva” , Porto: Deriva Editores, 2009



Novos Poetas (50) – Luís Filipe Parrado

Ainda extracção do quarto número da revista criatura.

O FOTÓGRAFO CEGO


Fosse eu o fotógrafo cego

e guardaria a beleza vacilante das coisas,


a rapariga de blusa desabotoada,

o sol do meio-dia, a chave na porta,

o sopro que se imagina na fonte

do pensamento,

a presença dos ciprestes no mundo,

falhas, o assobio da infância,

espelhos do tempo.


Abraçaria o coração rachado de qualquer muro,

um homem fechado em si

como num caixão.


Quando uma sombra se perde

descobre no ar

o próprio trilho,

eu ficaria só entre os vivos,


escutaria no céu o rasto dos motores,

o fôlego dos vermes,

a lei da queda dos graves,

a nota imperfeita,

a veemência da carne.


Fosse eu e espalharia a luz.


PARRADO, Luís Filipe, in “Revista criatura n.º 4″, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)