As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Narrativa

É quase noite — Beatriz Hierro Lopes

Esta escrita organiza-se na construção de uma memória, constitui-se meticuloso inventário íntimo. Ficciona o tempo para obter matéria narrativa. Recusando a recordação nostálgica, estabelece-se como trabalho de arqueologia: procura em camadas, até achar o que já foi ouvido, herdado, roubado, esquecido. Esta escrita faz-se e refaz-se contra a morte:

«Das fotografias antigas, o que de mais terrível fica é saber-se o fim.»

Narrar é produzir o real, narrar resgata, redime.

«chegar ao passado e dizer, à menina das tranças: não chore, nós gostamos tanto de si, e abraçá-la, ocupar o lugar de uma boneca feia que ela agarra e chamá-la ao ouvido: minha princesa

Beatriz Hierro Lopes, É quase noite, Lisboa: Averno, 2013.

(Apresentação do livro em Lisboa: sábado, dia 12 de Outubro, às 22 horas, livraria Paralelo W.)

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Hélia Correia — [o medo]

 

«Dificilmente se acredita que os seus textos ainda existam, que estes livros não se apaguem. Pois, ao contrário do lugar comum onde se encontra a vã consolação, ao contrário da crença de que a escrita, trazendo glória, traz eternidade, há este sentimento, que é meu, de que para certa rara gente tudo foi uma única coisa. Não ocorreu uma separação e penso sempre que as ervas que devoram um mortal devorarão também a sua obra. Porque este é um dos casos em que a obra era o orgão vital, o que gerava visão, entendimento, medo e esperma.

Há pessoas assim cuja existência, cuja carne é matéria literária. Não falo já de qualidade. Falo, sim, da quantidade de poema que há num corpo. Da combustão que é feita de palavras em lugar de oxigénio. Falo daquele que, se não escreve, mata alguém. Daquele que não aceita um aparelho de cognição capaz de o proteger com o vulgar conforto do real. Que se educou para a alucinação. O que descreve o brilho intenso que há na noite e é, no entanto, a fonte do fulgor, dessa fosforescência com que os mortos que o tocam, de visita, o contaminam.

Dificilmente se acredita que os seus textos não tivessem ardido inteiramente, não se extinguissem com aquelas mãos que pegavam na insónia para os escrever.»

Hélia Correia, in Revista de artes e Ideias n.º 8, «O Medo», Coimbra: Alma Azul, 2006. p.51

[Nota: este texto, presente no oitavo número da Revista de artes e Ideias, dirigida por Elsa Ligeiro na chancela Alma Azul, alude muito provavelmente ao poeta Al Berto, que escrevera, em 17 de julho de 1984, a célebre entrada: «às vezes, o dia resume-se a uma palavra, mas hoje, se não conseguir escrever, saio para a rua e mato alguém». O texto não tem título, pelo que se optou, para referenciação, pelo tema comum à generalidade dos textos incluídos na revista que, de resto, é dedicada à temática: «Medo»]

«reach»

«reach»

Alma Azul online

Alexandre O’Neill — O citadino Pipote (conto)

Ainda bem que Pipote não é judoca. Pipote não passa de Suspensório Lilás. Pipote judoca seria o fim. Pipote entra nos eléctricos a ombro. Diz com licença depois de ter passado. Cheira a cebola e a camisa de anteontem. Fala curto. Assim tem mais tempo para chupar os dentes. Pipote usa elástico de câmara-de-ar a envolver a carteira. Traz negócios de ferro-velho, traz os filhos nos estudos, traz uma viúva debaixo de olho. Agora que os móveis (quinanes, principalmente) estão a dar, Pipote vai comprar fragoneta. Já o vejo agarrado ao volante com medo que a fragoneta desalvore. Já o topo a fazer mudanças no joelho da viúva.

Contam-se muitas do Pipote. Parvenu, parvo nu, Piparote não é pior nem melhor, escusam de se estar a rir, que vocês. Piparote começou difícil. Vocês tiveram colégio, manteiguinha no pão, Bucha & Estica nas matinés de quinta-feira. Piparote teve cachações e casqueiro ao mata-bicho. Veio a pulso, Piparote — e com muita honra!

Das que se contam de Piparote, não sei ainda se conte a que me apetece contar. É que não é nada típica, sabem? Remonta aos 14 anos de Piparote, quando Piparote, quer dizer, ainda não era Piparote. Era o cédula Joaquim Serrano Deusdado — Quincarvoeiro para os inimigos.

Não me faço mais rogado.

DE COMO JOAQUIM SERRANO DEUSDADO, ALIÁS, QUINCARVOEIRO, ALIÁS PIPOTE, DEIXOU APODRECER OS DENTES TODOS MENOS UM.

Às 6 horas da manhã, chutaram Quimcarvoeiro para a consulta externa de Todos-os-Martírios. Questão dum obcesso bochechado a aguardente e a raiz de alteia com desinflamação subsequente e recidivas de ganir. Bochecha infla, bochecha desinfla, a cara do pobre já era como um cartucho e o misérias estava por tudo.

A quatro de frente, de cara amarrada, a bicha para os serviços de Odontologia consumia-se e refazia-se ao longo das horas e dum corredor conventual. Quando chegou à porta da sala dos alicates, Quincarvoeiro compreendeu, num ápice, a utilidade das bichas: terem cauda. Um menino que saía da sala segurava os queixos com a manita, vexado de todo, e dava pontapés de desespero na estúpida mãe caridosa.

Uma cigana (sedentária) apiedou-se do chavalito probecito e começou a desenrolar uma lamúria meio rezada entrecortada de cuspinhadelas raivosas para o lado. Um digno velho remendado e limpo reprovava mudamente tudo, não escondendo, na sua sobranceria, que só o mau destino fora responsável por ele se encontrar ali, misturado com a gentalha.

“Trezentos e quinze!”, disse uma voz entreportas que parecia mesmo a voz do creosote. Era a senha do Quincarvoeiro. Este deu um passo ao lado e uma grande coragem de fugir pôs-lhe as pernas em movimento. Pisgou-se para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço.

Ainda hoje o citadino Pipote fala com um dentinho de orgulho desse caso da sua vida de rapazelho. Aliás, é sempre com orgulho que Pipote se revê em Quincarvoeiro, seu querido filho na perspectiva do tempo. Espero que a vossa credulidade chegue onde chegou a minha, quando ouvi esta história do infeliz Pipote: três ou quatro vezes se atrasou para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço. Ao meio-dia, na derradeira repescagem de senhas não respondidas, a bicha era Quincarvoeiro. Até que um dentista, alicate em punho, se avantajou nos umbrais.

Foi apanhado.

Já na cadeira, já de boca ocupada pelos ferros, dedos, espelhinhos, o cédula Joaquim Serrano Deusdado tentou articular uma queixa, soprar uma indicação, subtrair-se o mais que podia à mordedura metálica dos alicates, que andavam, por ali, a planar de mão em mão. Os odontologistas trabalhavam rápida, firme, irrevogavelmente. Se os deixassem entregues à sua própria inércia, desdentariam o mundo real o apanhassem a bocejar de tédio. Três dores agudas, fininhas. Uma patada no estribo da cadeira. Um compasso de espera com ferros a retinir, torneiras a trepidar, desconhecidos cheiros violentos a subirem-lhe ao nariz. Depois, um ríspido «abre mais a boca»!. Abriu mais a boca. Não abriu os olhos. O alicate veio, entrou. Sentiu o choque no alto da cabeça, por dentro. O alicate mordeu. Queriam virar-lhe a caixa dos pirolitos do avesso?

Descomandou-se. Gritou… Mas já, triunfante, o diabo-dentista lhe mostrava o dente, que o alicate continuava a morder.

E Pipote, hoje, comenta, num sorriso de aqueduto em ruínas:

— Sôr Aníbal (eu já lhe disse que não era Aníbal, que era O’Neill…), Sôr Anibal, a vida é assim: o dente que me tiraram estava bom; o estragado cá ficou. Já passaram para cima de trinta anos e nunca mais voltei a esses diabos! Cá me vou governando com os dentes que tenho. Mas digo-lhe a verdade: o dente que me tiraram foi o único dente bom que tive.

E o aqueduto sorri, enquanto Pipote o vai chupando paulatinamente.

Alexandre O’Neill. «O citadino Pipote». in Ficções — Revista de Contos, Lisboa: Tinta Permanente, 2003.

crédito fotográfico: Ben Hickey

Agustina Bessa-Luís — Os Cinco Reis Mouros

ilustração de Ilda David © Ilda David (D. R.)

OS QUADROS deste diário que escrevo espelham para mim as glórias de Lisboa. Seu ar róseo e materno, seus ventos e sombras que Monsanto despede até às nuvens.

Começando pelo princípio, dentro dos campos de Ourique se deu um caso que nunca foi bem explicado. Tendo Afonso sido jurado rei pelos soldados, o que o fazia mais general deles do que príncipe de todos nós, teve por empreitada combater cinco reis mouros; havia-os aos bandos, e eram tão numerosos os califas e os sultões que a Espanha e os Algarves estavam cheios dos seus palácios aonde os reis cristãos mandavam os filhos como hoje se mandam às universidades. A cultura deles era formidável e nas matemáticas não havia quem os igualasse; nem na poesia, porque a sensibilidade extrema vai muitas vezes a par com a crueldade mais refinada.

O triunfo era duvidoso em batalha tão desigual. Cinco reis mouros não são cinco réis de gente; é muito mais. Afonso, muito calado com o seu escudo e cota de armas, viu Cristo na cruz, ao levantar os olhos para o lábaro que receava perder. E Cristo disse-lhe que havia de ter vitória sobre os infiéis. Afonso não se intimidou com a aparição e falou cara-a-cara com o Senhor:

— Não venhas a mim mostrar-te, porque eu creio e não preciso de milagres para crer. Mostra-te aos meus inimigos que, esses sim, precisam de te conhecer para nos temer a nós.

Esta fala, de tão arrojada, não foi muito do agrado dos catequistas e não se ensinou nas escolas. Eram tempos maravilhosos em que se começava a ser português, e para isso era preciso valor tão grande que os céus o recebiam como medida do homem. Que saudades dessa pátria inventada num milagre que se recusa! O povo miudinho corria ao lado dos grandes pecadores, que eram almas grandes também. Confiavam neles; com lágrimas e com juras, confiavam neles. Afonso mandou pintar na sua bandeira cinco escudetes azuis, em lembrança dos cinco reis vencidos. Ainda lá estão, reparem bem. Pensar nestas coisas distrai o coração de velhacarias, que foi o que se multiplicou passados tempos, e hoje não há mais lugar na terra para tanta instrução maliciosa.

A memória cativa as coisas num lugar fabuloso, que é onde mora a esperança. Mas é certo que os primeiros passos na ordem da pátria tinham que ser agigantados, não só pela fábula, que os serviu, também pela coragem que só protegeu. Afonso, que no ardor de vencer se esquece de se submeter ao milagre, é coisa digna de se ver e de recordar. Como se lá estivéssemos em carne e osso.

Agustina Bessa-Luís, Os Cinco Reis Magos, «Revista Kapa» nº 2, Novembro de 1990, p. 159. — ilustração de Ilda David, acompanhando o texto na publicação original.

Agustina Bessa-Luís — Talento

A minha amiga L… (não se cansem a imaginar quem será; não é Lúcia, nem Laura, nem Leonarda) tinha dois contras na vida dela: a falta de dinheiro e a infidelidade do marido. Queixava-se amargamente de ambos, mas, por fim, já tomava as coisas com uma grandeza à grega. Um poeta que a estimava muito perguntou-lhe porque não enganava o marido.

— Com quem? Só se fosse com Alexandre da Macedónia.

Era uma resposta que requer talento, e ela tinha-o. Era uma snobe da Grécia e o que não sabia é que Alexandre também era um snobe. O seu tutor, Aristóteles, tinha-lhe incutido a admiração pela alta condição intelectual dos gregos, e acho que tudo aquilo que ele fez e as glórias que atingiu tinham muito que ver com essa inferioridade ou limitação face à civilização grega.

Alexandre era um génio, ou apenas um rapaz de talento?

São coisas diferentes. Não sei se a educação dum jovem deve ser entregue a um homem tão superior como Aristóteles. Forçosamente o génio causará um complexo avassalador sobre o aluno que, como Alexandre, estava mimado por um augúrio da sua divindade.

A própria mãe, a indomável Olímpia, achou por bem atribuir a paternidade de Alexandre a um deus, Zeus, e não a Filipe, seu marido. Além disso, era inclinada a superstições e coisas de magia. Quanto a Aristóteles, um filósofo e um génio da filosofia, foi o primeiro homem de pensamento a conceber um mundo global. Vivia em Estagira, cidade grega próxima da fronteira com a Macedónia; e o seu pai tinha sido o médico pessoal do rei Amintas. O gosto de Alexandre pela medicina vinha daí. Aristóteles foi perceptor de Alexandre durante três anos, o que bastaria apenas para lhe dar o verniz grego e a reputação de ter sido seu aluno. Mas não é de crer que lhe transmitisse o fulgor do seu génio nem sequer a síntese da sua sabedoria. Os talentos de Alexandre, a começar por uma forma física impressionante, são inegáveis. Mas foi ele um estratega consumado ou só um rapaz fogoso e apaixonado por uma ideia: a de superar o mestre e tudo o que se lhe deparasse como valor reconhecido; superar o mito grego, sobretudo?

Os gregos mereciam bem a sua celebridade. Tinham descoberto a natureza heliocêntrica do universo e a estrutura atómica da matéria. Ao átomo, o Oriente opunha Deus. E assim continua a grande oposição dos dois espíritos. Alexandre nasceu quando esta tensão estava formada. Não estava em vista a confrontação entre as duas civilizações mas a fusão das duas, complementares como os homens são uns dos outros. Esta ideia, vinda¹ dos segredos só contemplados  pelo génio, teria que ser posta em prática pelo talento. Alexandre foi um motor desse talento necessário à execução das grandes ideias. 

Digamos que venceu e fracassou ao mesmo tempo. Tinha trinta e dois anos e era senhor do Universo. Mas a sua capacidade de curiosidade e inovação esgotara-se. Já não comunicava espontaneamente com o seu exército; os antigos amigos estavam sombrios, preparavam-se as sedições.

Os soldados estavam cansados das imparáveis marchas, da fome e das exaustivas campanhas. À borda do Ganges amotinaram-se e Alexandre teve de ceder. Um ano depois estava morto. Morto como um negociante no seu quarto de cama, devorado² pela malária ou talvez envenenado, que e a primeira suspeita que derruba a alma antes da vida. Estava desiludido ou apenas enfraquecido para fazer frente à doença, de resto agravada pelas contínuas bebedeiras e excessos de ambição. Ele sabia que a maior parte da terra lhe era desconhecida e que não a podia atingir nem juntar à sua glória. Perguntei à minha amiga L…:

— O talento foi o maior vício de Alexandre. Até hoje ninguém o superou. Mas, como dizia Platão, “as pessoas de bem não querem governar nem pelas riquezas nem pelas honras”. Isto põe Alexandre fora da lista dos homens de bem?

— Quem diz que eu o amava por ser um homem de bem?

— Era por ser visionário?

— Era porque havia nele bondade; provou-o muitas vezes. É o talento maior que alguém pode ter.

— Isso é — disse eu. Não me ocorreu dizer mais nada.

Bessa-Luís, Agustina, in, Autêntica n.º 7, Leça do Balio-Matosinhos: Unicer, 2007

¹ — «vindo», no texto impresso, provável erro tipográfico.

² — «devotado», no texto impresso, provável erro tipográfico.

Nota: a paginação do texto torna quase indiscernível a separação dos parágrafos. Seguiu-se um critério o mais próximo possível da estrutura do texto para a definição dos mesmos.

"Era porque havia nele bondade"

Possidónio Cachapa — 50

 

 

No meio de uma sala, uma gaiola dourada com uma mulher lá dentro. Cheira a cera e os mosaicos negros e brancos do chão brilham. Mas não reflectem o tecto. O que estará por cima.

Veste apenas lingerie, a mulher. Não se consegue ver a cor da roupa porque as janelas estão quase fechadas e há cortinados de tule, cobertos de pó, na sua frente. Sombras, no chão aos quadrados.

O cheiro de rosas sobe até à mulher que aproxima as mãos da cara e aspira.

Olha as flores fanadas sobre as costas da mão e pergunta porquê. Tem também jarros brancos, a amarelecerem nas pontas enroladas. As curvas elegantes e lascivas das suas copas a cobrirem-se de manchas amarelas e castanhas. Morrem flores nas mãos da mulher e é esse cheiro que a entristece.

“Vou pensar numa coisa boa, boa”, diz a si própria. Repete o ritual de meditação a que se forçou nos últimos anos: uma praia, as areias amarelas, o sol quente sobre a pele acabada de sair da água. Enterra os dedos e sente os grãos, a passar entre eles. Repara que tem os cabelos fora da toalha, mas não se recolhe. Um movimento agita a areia quente, agora, desagradavelmente quente, e um pequeno escaravelho preto sai do nada, caminhando na direcção do seu corpo. Faz-lhe cócegas, o insecto escuro sobre a pele, um pouco enrugada. Das suas costas vem uma voz a rir, que não consegue ver. é a de uma rapariga. Está a rir-se e provavelmente a mover os braços. A pele firme dos braços. A suavidade dos braços. A mulher não a vê, mas sabe que um homem tem as mãos sobre esta pele que apenas adivinha.

“Asso”, e levantou-se em direcção às dunas.

Quase só silêncio,  naquela sala. No chão da gaiola dourada, acumulam-se cascas de sementes. Comeu-lhes, uma a uma, o núcleo branco, doce. Quase sem dar por isso. Estão secas, as cascas, e rangem debaixo dos seus pés descalços.

Por cima da casa, passam corvos negros. Rodam, afastam-se, quase tocam as telhas rosa-velho e laranja, o musgo e o arroz-dos-telhados.

“CRRRÁÁÁÁÁÁÁ”, gritam, por cima do edifício, da gaiola e da mulher que nesse preciso instante pensa que são quase sete horas e o marido não dá sinais.

Mas engana-se. Ele acaba de entrar. Pousa a pasta.

“Hoje, uma das empregadas desatou a gritar com um utente. Não sei o que lhe disse ou fez o homem para provocar aquela reacção. Coitado, ainda tentou travá-la, evocar direitos. Mas ela parecia um bicho, por um instante. Apenas um instante. Depois, desfez-se em lágrimas, claro. Pediu-me desculpa, que não sabia o que lhe tinha dado.”

Tirou a gravata e largou os sapatos num canto. Na cozinha, bebeu água, de um copo largo, impecavelmente limpo.

“Tive pena dela, coitada. Tão nova ainda. Não percebe.”

Os seus olhos brilharam, por um instante. O cheiro das meias, estreadas nessa manhã, entrou na gaiola. A mulher conteve, já sem dar por isso, a respiração.

“Encorajei-a entender melhor as pessoas. As necessidades delas. Aquilo que às vezes nos parece um abuso e que não é mais que um gesto de alguém que precisa da nossa atenção. Coitado de quem é novo.”

Desapertou o cinto e foi mudar de roupa ao quarto.

Na sala a mulher tremeu um pouco.

“Estou numa praia, ao lado de um barco de pesca virado ao contrário. Cheira a madeira húmida e a restos de peixe seco, e é natural que assim cheire. Se levantar a cabeça consigo avistar as silhuetas dos pescadores, muito ao fundo, a fumar e a lamentar a vida. O vento sopra quente.”

A lingerie estava encharcada em suor. Junto às raízes brancas do cabelo, pequenas gotas.

“O vento sopra quente, a areia escalda”, pensou. Do quarto, a voz do marido ao telefone. A mulher toca nas frades da sua gaiola dourada, agora vermelhas, em fogo, e descobre-as frias.

Um corvo pousa sobre o algeroz e apanha o papel com o bico.

HISTÓRIA DO HOMEM-CORVO:

No meio de um terreno de cultura, semeado regularmente com trigo, existia um espantalho, feito de uma cruz de paus secos. Estava vestido com um casaco velho e um lenço que tinha pertencido à mãe do dono do terreno. Por cima, a fazer de cabeça, um nabo gigante, comido aos poucos por pássaros, insectos e até pequenos mamíferos, que subiam pelas roupas acima, e voltavam com restos do tubérculo nos dentes. O nabo estava coberto por um chapéu de palha e era dentro deste que vivia um homem-corvo. Quentinho e protegido, debaixo do chapéu dos outros.

Era boa pessoa. Isto é, não chateava. Tinha lido os clássicos, antes do tempo. Tratava por tu o Joyce, o Musil, o Borges, e mais recentemente o Raduan Nassar (de quem gostava mais do nome que da escrita).. Onde ia buscar os livros não se sabia. Apenas que os lia, em silêncio, dia após dia, ano após ano. No meio desta concentração esquecera-se até de acasalar. Acordava em algumas noites de Primavera, aflito, sem saber porquê. Mas no dia seguinte, já se tinha esquecido e mergulhava de novo na leitura, saindo apenas para comer alguma coisa que rastejasse pelo chão ou para renovar a sua biblioteca.

“Não sabem o que perdem”, dizia ele aos outros animais, que passavam perto. Tinha deixado crescer uma barbicha oitocentista e, em virtude dos olhos cansados, roubara uns óculos a um velho adormecido à espera de uma camioneta de carreira que tardava. “Sabem lá a alegria que dá ler uma frase como esta: “O poeta celta Taliesi diz que não há nenhuma forma no universo que não tenha sido a sua”?. Mas as formigas não lhe ligavam, os melros cruzavam-se no ar, apenas contentes, um pouco mais à frente, o agricultor que desconhecia a sua existência, continua a lavrar a terra. “Pobres ignorantes”, pensava.

Como, apesar de tudo, isto lhe deixava um sabor amargo no bico, decidiu um dia começar a escrever, usando tudo aquilo que tinha lido. Repetindo a ideia testada, a frase certa. E quando fez isso, alguns animais vieram ter com ele. As ovelhas abriam a boca de espanto, as vacas sustinham o ruminar por um instante, uma ave tonta pousava ao lado, piando de vez em quando, “É genial!”. O homem-corvo ficou contente. Não é preciso muito para deixar contente quem nunca tinha tido nada, e continuou na sua escrita-leitura e na sua leitura-escrita.

Os dias passaram. e as vacas que pareciam escutá-lo foram cortadas em tiras de carne escura, a pele a forrar cadeiras. Antes delas, as ovelhas tinham levado um tiro sobre o crânio e o ar que ali vivia juntara-se à estratosfera das coisas vazias. Enquanto a barbicha do homem-corvo embranquecia, as coisas que julgara  conhecer morreram todas. Sobrou o campo, o lavrador cada vez mais velho, o clima que se tornava caprichoso, as dores junto às unhas das patas finas. No seu quinquagésimo aniversário, o homem-corvo tirou a cabeça fora do chapéu onde vivia, olhou os campos que nesse ano não estavam semeados, e percebeu que não lhe restava tempo para começar a viver.

Desceu do espantalho, enterrou os pés na terra e, quando começou a chover, virou o bico aberto para cima. Só depois caiu, as asas abertas em cruz para que o vento as movesse tanto tempo quanto possível.

 

No cimo de uma casa, um corvo levanta voo. Por baixo, uma gaiola com uma mulher lá dentro. À sua volta, os mosaicos grandes, brilhantes e estéreis cheiram a cera. Está na penumbra, esta sala.

 

Cachapa, Possidónio in, «Egoísta n.º 50», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Junho 2008

 

(post reeditado)

[Nota: a reprodução integral deste texto de Possidónio Cachapa é um acto ilícito, de acordo com os termos fixados pela publicação. Ao transcrevê-lo, na íntegra, a partir da edição comemorativa do quinquagésimo número da mesma, ponderei duas ordens de razões: nos meios literários, e culturais mais elitistas no nosso burgo a «Egoísta» não “conta”; não é referida, mencionada, o seu lugar significativo, original, na divulgação das artes e das letras que se produzem em Portugal e noutros países não são (ou serão muito raramente) referenciadas, tal como as suas edições, os autores, a qualidade gráfica (creio que tal facto se deve a um preconceito absurdo quanto à origem e à natureza do negócio do publisher , o que é uma característica de saloios). Por outro lado,  não tive capacidade ou coragem para cortar um «excerto» deste fascinante texto de Possidónio Cachapa, a título de citação. Resta-me pedir toda a indulgência possível a Mário Assis Ferreira (director, que deu asas a este singularíssimo projecto), à Patrícia Reis (editora, de irrepreensível criatividade e acerto). E parabéns igualmente ao projecto gráfico (Henrique Cayatte) e ao Possidónio Cachapa, evidentemente. Para que conste, farei chegar ao conhecimento dos primeiros e ao autor do texto esta transcrição.]

 

(já depois de transcrito o texto, quero agradecer à Patrícia Reis e ao Possidónio Cachapa, editora e autor, a sua permissão e generosidade)

 

«Scarecrow» — Igor © Igor, via Deviantart (D.R.)

 

 

Bénédicte Houart — Dilúvio

 

 

Dilúvio

Chove. As ambulâncias já ligaram as suas sirenes. O acidente ainda não aconteceu, mas com certeza não vai tardar. E, por isso, quando chove, penso na morte. Na morte daqueles que amo e de todos aqueles que deveria ter amado se soubesse como. As ambulâncias desligam as sirenes. Levo a mão ao sexo. Modo de chorar. Modo de despedida.

Chove. Cheira a narcisos no centro da cidade. As velhas estão dentro de casa aconchegando o tempo às pernas exangues. O sangue teima em circular embora a cabeça descaia vezes de mais. As velhas estão dentro de casa, salvo aquela que aquece sempre os pés na calçada. Percorre as ruas da cidade faça sol faça chuva. E nos seus cabelos compridos a chuva deixa gotas que parecem pérolas.

Chove. Nos centros comerciais, há homens sentados junto às escadas rolantes. Estão pensativos. De vez em quando, esticam o pescoço, giram-no para a esquerda para a direita, movem-no para cima para baixo. Pensam na vida. Ela corre dentro deles como se fosse explodir dentro de segundos. E vai. Não estes segundos, mas outros, os próximos, talvez. Agora, ela chega-lhes em catadupa, escorre para fora deles.

A chuva parou. As putas animam os passeios trocando receitas de cozinha. Riem mostrando os dentes negros. Nascem, estão a nascer, novos clientes. Hão-de crescer depressa. Hão-de levar as mãos aos bolsos. Quanto a elas, é certo que não morrerão nunca.

Uma mulher está sentada a uma mesa. Leva de vez em quando o cigarro aceso aos lábios. Observa discretamente quem passa, não vá pensarem… Não tem importância, ela pensa por eles. Pensa com tanta força que parte a caneta contra a página. Ou então pára de escrever. Risca a página como se mudasse de vida.

Recomeça a chover. Calo-me. Por que não chove ininterruptamente durante um século? Criámos um deus de amor, mas não fazemos a menor ideia do que seja amar.

Texto publicado na revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

«Shadows», Hugo Colares Pinto, © Hugo Colares Pinto (D.R.)

(clique para ampliar)

Links Relacionados:

Artigo sobre a autora no D.N. (por Isabel Lucas)

Alguns poemas (traduzidos para inglês, com a versão original)

A autora no catálogo da «Livros Cotovia»

Revista Inútil

Portfólio online de Hugo Colares Pinto

 

Dulce Maria Cardoso – Dois Homens

 

 

À Marlise Vaz Bridi

Chamou-me, aqui estou, disse o filho. O pai olhou para o filho como se o tivesse visto no dia anterior. Sem reparar nos sinais de ausência de mais de vinte e sete anos, os olhos mirrados que a custo se percebiam azuis, a pele velha, os dentes rombos e amarelados.

Estavam sentados na varanda contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, muito laranja. As gaivotas gritavam à procura de comida. O filho não sabia que se lembrava tão bem da fome das gaivotas.

Chamou-me, repetiu o filho.

O pai ficou calado uns segundos.

Amanhã, disse lentamente.

Os olhos azuis do pai fugiram dos olhos azuis do filho para o azul do céu que o fim da tarde envelhecia. O filho olhou para a ria e depois para o sapal. Já que nunca nada mudava, também eles deveriam ter continuado iguais. Mas não.

No dia seguinte o filho acordou tarde com o cheiro a comida e o barulho na cozinha. De olhos fixos no tecto o filho tentou identificar as vozes das mulheres. Em vão. Eram-lhe totalmente desconhecidas.

Reconheceu o cheiro da carne no forno. Como antigamente, pensou. Depois o cheiro a café e a caramelo. O pudim de café. Como nos domingos de festa. Antes de o pai ter dito que preferia que ele não tivesse nascido.

Olhou para as paredes do quarto que tinham sido pintadas de cor diferente. Reparou na mobília que era nova. A cama era mais larga e o guarda-fatos tinha agora um espelho que o reflectia no desconforto de ali estar.

Na cozinha o barulho crescia misturado com passos que iam e vinham. Punham a mesa na sala grande. A mesa comprida com a toalha de linho branco. E o padre numa das cabeceiras:

Ninguém se esconde dos olhos de deus. Muito menos um pecador. Um justo talvez. Um pecador nunca.

O pai bateu à porta do quarto do filho com os nós dos dedos. A comida está pronta, disse.

Sentaram-se nos lugares habituais, como se da vez anterior, antes do grande silêncio, o pai não tivesse repetido ali os mesmos nomes que lá fora chamavam ao filho.

Estou velho, disse o pai. Não queria ir deste mundo sem comer mais uma vez contigo.

As mulheres foram pondo na mesa travessas cheias de comida.

O pai serviu-se e mandou o filho servir-se. A sala cheirava bem. A rosmaninho. Pai e filho comeram. E tornaram a servir-se. E comeram mais ainda. Comeram muito e com verdadeiro prazer. Sobre isso também não trocaram uma palavra.

Quando a refeição acabou levantaram-se da mesa. Caminharam devagar, de tão cheios que estavam. Lado a lado.

Na varanda onde se sentaram outra vez contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, amarelo-esbranquiçado, o pai disse:

Agora já podemos terminar o que começámos. Dois homens não se despedem sem terem comido uma boa refeição em paz.

E ali ficaram. O sol alaranjou-se outra vez e as gaivotas gritaram novamente por comida.

Cardoso, Dulce Maria, Contos (colectânea), Leya, 2010

[Originalmente publicado em Até Nós, Edições Asa II, 2008]

"Is it strange to dance so soon?", futurowoman © futurowoman, via Deviantart, (D.R.)

Links relacionados:

Sobre Dulce Maria Cardoso aqui, aqui e aqui.