As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Literatura

É quase noite — Beatriz Hierro Lopes

Esta escrita organiza-se na construção de uma memória, constitui-se meticuloso inventário íntimo. Ficciona o tempo para obter matéria narrativa. Recusando a recordação nostálgica, estabelece-se como trabalho de arqueologia: procura em camadas, até achar o que já foi ouvido, herdado, roubado, esquecido. Esta escrita faz-se e refaz-se contra a morte:

«Das fotografias antigas, o que de mais terrível fica é saber-se o fim.»

Narrar é produzir o real, narrar resgata, redime.

«chegar ao passado e dizer, à menina das tranças: não chore, nós gostamos tanto de si, e abraçá-la, ocupar o lugar de uma boneca feia que ela agarra e chamá-la ao ouvido: minha princesa

Beatriz Hierro Lopes, É quase noite, Lisboa: Averno, 2013.

(Apresentação do livro em Lisboa: sábado, dia 12 de Outubro, às 22 horas, livraria Paralelo W.)

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Beatriz Hierro Lopes — «nas ruas» (texto inédito e nota de leitura)

Nas ruas há pássaros que me cobrem o caminho até casa. Fileiras de peitos brancos, de asas partidas, alimentando o alcatrão. Sem luz, são fios desavindos de algodão que a minha mãe alinha ao tranquilizar as noites no colo. Tocam-me. Não fogem do chão: eles lá em baixo e eu cá em cima; são ruas sobre ruas, que ditam a estratégia do espaço entre as avenidas. A morte dos pequenos bichos, dos pássaros, dos gatos, entupindo os escoadouros, mortes que são a resistência mais silenciosa que faz transbordar as ruas. E elas, as ruas, são fios de cabelo negro, convergindo até chegarem à altura das clarabóias, a testa deste mundo visto de cima. Que pedem mais luz. O interior de um corpo, visto de cima, guarda a escuridão das noites, antes que as clarabóias lhes purifiquem as articulações que garantem a altura. A casa é o interior do corpo no corpo. Um negativo em miniatura da imagem do mundo, à semelhança das casas de bonecas. Como todas, também esta contradiz a noite, usando um exército de funcionários públicos caiados a verde musgo, em cujas chagas de ferro a luz eléctrica se reflecte, os mais elevados entre o mobiliário urbano. Junto aos pontos de vigia, que tanto lhes imitam a cor como adoptam o beijo vermelho em que os namorados se encostam, tentando ver entre os reflexos o rosto que se adianta contra o seu. Que um beijo citadino é um beijo do mundo, do metro, apenas contado aos ouvidos das janelas, das portas, das grades, das clarabóias. Resta, da segurança da rua, a palidez monótona e geométrica com que se alinham regras de salvaguarda humana: passadeiras que não confundem homem por pássaro ou gato e que, por isso, fecham os olhos ao instante rotativo em que o corpo menor é moído estrada fora. Haverá mortos nos nossos jardins, e beijos que, à falta de destinatário, se cristalizam em magnólias e camélias tão alvas como a recriação do mundo em pés de raiz; são árvores, monstros protestando contra o contrato do tempo. Ninguém sabe das árvores que usam das raízes como nervos, uma espécie de corpo celeste desafiando a elasticidade da terra nos jardins onde se enterra a infância das bicicletas. Hábitos dos velhos sobre as mesas de jogo, em que as sombras das folhas proporcionam escuridão que chegue às unhas das mulheres que choram ali. As putas nunca foram crianças, apenas as bicicletas de velocidade sepultada entre as raízes das árvores. É fácil vê-las, junto ao lago, fechando os olhos gira ainda uma roda de metal que alguém pintou de vermelho para condizer com os bancos do jardim. Embora a cor se espalhe, com maior urgência, entre marcos de correio e postos telefónicos de graça londrina; outras vezes, porém, encostados aos caixotes de lixo, há demasiados sapatos vermelhos. De agulha ou rasos, elevando tornozelos, troncos, joelhos, bustos, rostos, ou alinhando o passo com as linhas do diário; mas vermelho, sempre vermelho. Todas as mulheres levam vermelho aos pés. Imitam as rodas de bicicleta ceifando invernos do chão. Os homens são negros, sapatos polidos pelo engraxador da avenida. Uns e outros espantam a morte nos intervalos do fumo, todos tem casacos compridos para que não se veja no corpo peito de pássaro ferido. Trazem asas partidas no rosto, penas antigas de pai ou de mãe ocupando o lugar das pestanas, olhos da cor dos botões das camisolas de outono que levavam à escola, mãos de lápis para as aulas de matemática, quando toda a matemática que lhes resta é a memória pronta dos vagares entre os horários dos comboios, do metro, dos autocarros; onde vestem as rugas dos domingos de seus avós; ou os maiores desgostos com que lavram as rotas à cidade, que se molda pelo peso das pequenas multidões que lhes imitam a respiração. A cidade é um enfisema pulmonar. Velhos, velhas, doentes, putas, crianças por morrer por suas mães não terem tido esperança de os deitar à marinha mal nascessem. Como pode esta cidade tão negra, tão vermelha, ainda assim abrir avenidas no céu e provocar derrocadas de nuvens sobre um rio? Como pode imitar o som da terra numa concertina, que ecoa desde santa catarina até à margem, e acordar veleiros fantasma de quando o rio era um peito mais habitado que todo este silêncio, em que apenas a solidão serve de moeda de troca para uma cama menos vazia? Ao longo de todo o trajecto há pássaros caídos. E este som, só meu, enchendo as ruas por onde passo com as palavras que não escrevi e que temo nunca escrever. Casa será sempre este espaço menor em que dou outros nomes à cidade, não vá a manhã surpreender-me e o espelho contar-me o número de paralelos com que o meu rosto foi reconstruído a partir desta noite.

«oporto» buri, via Deviantart (D.R.)

«oporto» buri, via Deviantart (D.R.)

Não acidentalmente, o texto que aqui se dá a conhecer, «das ruas», inicia-se com a frase: «Nas ruas há pássaros que me cobrem o caminho até casa». Encontramos aqui os elementos simbólicos fundamentais na composição: a rua, os materiais urbanos, os animais, os caminhos; o eu. Elementos de significação que se sucedem em personificações, metamorfoses, reificações, numa sequência narrativa em que a imagética se alarga, imensa, espalhando-se como um rio (para o rio) através de poderosas representações encadeadas que ampliam os campos de significação em contiguidades e analepses, numa tessitura milimetricamente urdida. O texto revela  um programa interno: a assunção da casa como a cidade, da cidade como uma extensão do eu ou, em sentido inverso, do eu como hipótese da cidade. É uma cidade doente: «A cidade é um enfisema pulmonar», de pessoas doentes: «todos têm casacos compridos para que não se veja no corpo peito de pássaro ferido»; uma cidade onde se adoece. Como um enfisema (essa lenta forma de ir sufocando), não há salvação perante esta eminência de morte. Não é de um queixume, de um lamento ou mesmo de uma  elegia que aqui se trata, mas de um vaticínio de morte: «A morte dos pequenos bichos, dos pássaros, dos gatos, entupindo os escoadouros, mortes que são a resistência mais silenciosa que faz transbordar as ruas». A ideia de resistência é consubstanciada no anseio da verticalidade da luz contra o negrume (percebe-se, assim, a importância dada aos altos candeeiros das ruas), na arquitectura erguida das casas por cair, das clarabóias que, organizando a luz como uma armadura, evitassem a derrocada do eu, o ruir da casa, a morte da cidade: «A casa é o interior do corpo no corpo». A esta quieta resistência se agarra o texto: «Resta, da segurança da rua, a palidez monótona e geométrica com que se alinham regras de salvaguarda humana». Uma contraposição perplexa: «Como pode esta cidade tão negra, tão vermelha, ainda assim abrir avenidas no céu e provocar derrocadas de nuvens sobre um rio?». Uma salvação improvável: «Casa será sempre este espaço menor em que dou outros nomes à cidade, não vá a manhã surpreender-me e o espelho contar-me o número de paralelos com que o meu rosto foi reconstruído a partir desta noite.» A casa como metáfora da cidade; esta como metáfora do eu. Uma identificação profunda produz-se, como um desejo intenso, nesta linha estreita à beira do abismo das águas do rio.

De Beatriz Hierro Lopes são conhecidos os textos curtos que publica no seu blogue ao longe todos são pedras. Textos de múltiplas temáticas, diversas formalizações, mas sempre com uma voz tão própria na cadência, no ritmo, na riquíssima paleta imagética (tão cromática); na imensidão de recursos estilísticos e na singularidade da escrita, que mal esconde um mundo de feroz confronto com a temática da perda. E é nesse domínio que a escrita de Beatriz Hierro Lopes não encontra paralelo nos autores mais recentes.

Hélia Correia — [o medo]

 

«Dificilmente se acredita que os seus textos ainda existam, que estes livros não se apaguem. Pois, ao contrário do lugar comum onde se encontra a vã consolação, ao contrário da crença de que a escrita, trazendo glória, traz eternidade, há este sentimento, que é meu, de que para certa rara gente tudo foi uma única coisa. Não ocorreu uma separação e penso sempre que as ervas que devoram um mortal devorarão também a sua obra. Porque este é um dos casos em que a obra era o orgão vital, o que gerava visão, entendimento, medo e esperma.

Há pessoas assim cuja existência, cuja carne é matéria literária. Não falo já de qualidade. Falo, sim, da quantidade de poema que há num corpo. Da combustão que é feita de palavras em lugar de oxigénio. Falo daquele que, se não escreve, mata alguém. Daquele que não aceita um aparelho de cognição capaz de o proteger com o vulgar conforto do real. Que se educou para a alucinação. O que descreve o brilho intenso que há na noite e é, no entanto, a fonte do fulgor, dessa fosforescência com que os mortos que o tocam, de visita, o contaminam.

Dificilmente se acredita que os seus textos não tivessem ardido inteiramente, não se extinguissem com aquelas mãos que pegavam na insónia para os escrever.»

Hélia Correia, in Revista de artes e Ideias n.º 8, «O Medo», Coimbra: Alma Azul, 2006. p.51

[Nota: este texto, presente no oitavo número da Revista de artes e Ideias, dirigida por Elsa Ligeiro na chancela Alma Azul, alude muito provavelmente ao poeta Al Berto, que escrevera, em 17 de julho de 1984, a célebre entrada: «às vezes, o dia resume-se a uma palavra, mas hoje, se não conseguir escrever, saio para a rua e mato alguém». O texto não tem título, pelo que se optou, para referenciação, pelo tema comum à generalidade dos textos incluídos na revista que, de resto, é dedicada à temática: «Medo»]

«reach»

«reach»

Alma Azul online

Ruben A. — O amor é de outro reino.

 

Num tempo em que o tema amoroso é quase tão obnóxio como a gesta, ou a moral; quando abordado pela generalidade dos escribas contemporâneos assusta por nefastas múltiplas formas, é um prazer reencontrar Ruben A. e a sua forma tão peculiar de agarrar o motivo, elevá-lo a alturas valentes, não largar o osso.
[este fragmento foi copiado do site «O Citador», por preguiça de transcrição e indecisa capacidade de escolha. Escolheram por mim. E ainda bem.]

 

«O amor é de outro reino. Da amizade, do amor, do encontro de duas pessoas que se sentem bem uma ao lado da outra, fazendo amor, falando de amor, trocando amor, conversando de amor, falando de nada, falando de pequenas histórias códig…o de ministros com aventuras de aventuras sem ministros conversa alta e baixa de livros e de quadros de compras e de ninharias conversas trocadas em miúdos ouvindo música sem escutar música que ajuda o amor o amor precisa de ajudas de ir às cavalitas de andas de muita coisa simples amor é um segredo que deve ser alimentado nas horas vagas alimentado nas horas de trabalho nas horas mais isoladas amor é uma ocupação de vinte e quatro horas com dois turnos pela mesma pessoa com desconfianças e descobertas com cegueiras e lumineiras amor de tocar no mais íntimo na beleza de um encanto escondido recôndito que todos no mundo fizeram pais de padres mães de bispos avós de cardeais amor agarrado intrometido de falus com prazer de alegria amor que não se sabe o que vai dar que nunca se sabe o que vai dar amor tão amor.»

Ruben A. Silêncio para 4, Lisboa: Moraes Editores, 1973

 

Fotografia: Rubem A. (s/d; autor desconhecido)

 

Herberto Helder — O Extremo Poder dos Símbolos

 

 

«O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar.»

 

Herberto Helder. Photomaton & Vox, Lisboa: Assírio & Alvim, 1979.

 

monoceroi © by monoceroi, via Deviantart (D.R.)

Alexandre O’Neill — O citadino Pipote (conto)

Ainda bem que Pipote não é judoca. Pipote não passa de Suspensório Lilás. Pipote judoca seria o fim. Pipote entra nos eléctricos a ombro. Diz com licença depois de ter passado. Cheira a cebola e a camisa de anteontem. Fala curto. Assim tem mais tempo para chupar os dentes. Pipote usa elástico de câmara-de-ar a envolver a carteira. Traz negócios de ferro-velho, traz os filhos nos estudos, traz uma viúva debaixo de olho. Agora que os móveis (quinanes, principalmente) estão a dar, Pipote vai comprar fragoneta. Já o vejo agarrado ao volante com medo que a fragoneta desalvore. Já o topo a fazer mudanças no joelho da viúva.

Contam-se muitas do Pipote. Parvenu, parvo nu, Piparote não é pior nem melhor, escusam de se estar a rir, que vocês. Piparote começou difícil. Vocês tiveram colégio, manteiguinha no pão, Bucha & Estica nas matinés de quinta-feira. Piparote teve cachações e casqueiro ao mata-bicho. Veio a pulso, Piparote — e com muita honra!

Das que se contam de Piparote, não sei ainda se conte a que me apetece contar. É que não é nada típica, sabem? Remonta aos 14 anos de Piparote, quando Piparote, quer dizer, ainda não era Piparote. Era o cédula Joaquim Serrano Deusdado — Quincarvoeiro para os inimigos.

Não me faço mais rogado.

DE COMO JOAQUIM SERRANO DEUSDADO, ALIÁS, QUINCARVOEIRO, ALIÁS PIPOTE, DEIXOU APODRECER OS DENTES TODOS MENOS UM.

Às 6 horas da manhã, chutaram Quimcarvoeiro para a consulta externa de Todos-os-Martírios. Questão dum obcesso bochechado a aguardente e a raiz de alteia com desinflamação subsequente e recidivas de ganir. Bochecha infla, bochecha desinfla, a cara do pobre já era como um cartucho e o misérias estava por tudo.

A quatro de frente, de cara amarrada, a bicha para os serviços de Odontologia consumia-se e refazia-se ao longo das horas e dum corredor conventual. Quando chegou à porta da sala dos alicates, Quincarvoeiro compreendeu, num ápice, a utilidade das bichas: terem cauda. Um menino que saía da sala segurava os queixos com a manita, vexado de todo, e dava pontapés de desespero na estúpida mãe caridosa.

Uma cigana (sedentária) apiedou-se do chavalito probecito e começou a desenrolar uma lamúria meio rezada entrecortada de cuspinhadelas raivosas para o lado. Um digno velho remendado e limpo reprovava mudamente tudo, não escondendo, na sua sobranceria, que só o mau destino fora responsável por ele se encontrar ali, misturado com a gentalha.

“Trezentos e quinze!”, disse uma voz entreportas que parecia mesmo a voz do creosote. Era a senha do Quincarvoeiro. Este deu um passo ao lado e uma grande coragem de fugir pôs-lhe as pernas em movimento. Pisgou-se para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço.

Ainda hoje o citadino Pipote fala com um dentinho de orgulho desse caso da sua vida de rapazelho. Aliás, é sempre com orgulho que Pipote se revê em Quincarvoeiro, seu querido filho na perspectiva do tempo. Espero que a vossa credulidade chegue onde chegou a minha, quando ouvi esta história do infeliz Pipote: três ou quatro vezes se atrasou para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço. Ao meio-dia, na derradeira repescagem de senhas não respondidas, a bicha era Quincarvoeiro. Até que um dentista, alicate em punho, se avantajou nos umbrais.

Foi apanhado.

Já na cadeira, já de boca ocupada pelos ferros, dedos, espelhinhos, o cédula Joaquim Serrano Deusdado tentou articular uma queixa, soprar uma indicação, subtrair-se o mais que podia à mordedura metálica dos alicates, que andavam, por ali, a planar de mão em mão. Os odontologistas trabalhavam rápida, firme, irrevogavelmente. Se os deixassem entregues à sua própria inércia, desdentariam o mundo real o apanhassem a bocejar de tédio. Três dores agudas, fininhas. Uma patada no estribo da cadeira. Um compasso de espera com ferros a retinir, torneiras a trepidar, desconhecidos cheiros violentos a subirem-lhe ao nariz. Depois, um ríspido «abre mais a boca»!. Abriu mais a boca. Não abriu os olhos. O alicate veio, entrou. Sentiu o choque no alto da cabeça, por dentro. O alicate mordeu. Queriam virar-lhe a caixa dos pirolitos do avesso?

Descomandou-se. Gritou… Mas já, triunfante, o diabo-dentista lhe mostrava o dente, que o alicate continuava a morder.

E Pipote, hoje, comenta, num sorriso de aqueduto em ruínas:

— Sôr Aníbal (eu já lhe disse que não era Aníbal, que era O’Neill…), Sôr Anibal, a vida é assim: o dente que me tiraram estava bom; o estragado cá ficou. Já passaram para cima de trinta anos e nunca mais voltei a esses diabos! Cá me vou governando com os dentes que tenho. Mas digo-lhe a verdade: o dente que me tiraram foi o único dente bom que tive.

E o aqueduto sorri, enquanto Pipote o vai chupando paulatinamente.

Alexandre O’Neill. «O citadino Pipote». in Ficções — Revista de Contos, Lisboa: Tinta Permanente, 2003.

crédito fotográfico: Ben Hickey

Beatriz Hierro Lopes — «impressões» (antecedido de nota de leitura)

Emerge neste texto uma incompreensão fundamental: não tanto o modo como nos situamos perante a morte dos que amamos, mas como nos dispomos perante a sinalização da morte que a vida, os outros, nos forçam a lembrar, tendo a impressão que algo ocorreu, perguntando pelo ocorrido. A interrogação do texto é esta: como nos preparamos para que nos lembrem a morte, de repente e de surpresa, sendo sempre esta de repente e de surpresa, seja qual for a sua circunstância? A circunstância da perda perde, aqui, a gravidade da enunciação da mesma: é o descuido, a distração, que tocam com ferros a dor.

Nesse sentido, não é este um texto elegíaco dirigido à perda, mas uma elegia da vida que, não sabendo do saber cuidar da morte, morre por isso sem cura. Longe de um lamento, o texto propõe uma distância radical das incidências inúteis, daqueles que não promovem a reparação nem sabem reparar: têm impressões, curiosidades que poderão ser secamente satisfeitas («Passarei o resto do tempo a dar a notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida»).

É aqui que irrompe intensamente a oração, brilhantemente intercalada no texto, refúgio e prece, último gesto, aquele que já não se sabe fazer; é aqui que se  separam as impressões da impressividade, da funda marca deixada: a intimidade intransmissível e, nesse sentido, perto da indiferença, no interior de uma fadiga irremediável («Aos que me morreram devo a identidade. [Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte]. Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [Ámen].)

A Ave-Maria, a mais duradoura das orações por evocar a primordialidade da Mãe, é também aquela que mais duradouramente consola e redime. Não é uma oração de promessa e de devir, como o Pai-Nosso, mas uma súplica por atender: rogo ante a morte, é certo ([e na hora da nossa morte]); mas em primeiro lugar da vida: ([agora e  na hora]).

A morte não é temática alheia à obra de Beatriz Hierro Lopes, nem a elegia um registo que lhe seja estranho. Contudo, neste texto, onde uma oração cadenciada se musicaliza em fundo, há uma espécie de fadiga e de tédio perante os vivos que se aproxima de um desdém; ou de uma compaixão. Vão dar ao mesmo lugar vazio,

a ausência da palavra Jesus, deliberadamente retirada da oração. Sendo comum, entre os crentes, a concepção de que Jesus, na sua divindade, estabeleceu a radical irmandade entre os homens, a autora retira-o: e assim, na não enunciação do seu nome, fá-lo presente de forma brutal: aquele que se deu pelos vivos deles se tornou um sem nome. («E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver»).

Não estamos perante um texto de carácter religioso em sentido estricto; mas frente a uma milimétrica delimitação do que, no plano emocional, se revela como recusa e se escolhe como aceitação.

Recentemente publicada na revista Telhados de Vidro nº 16, (como já o fora na Criatura, na Cràse, na Inútil),  Beatriz Hierro Lopes é um dos autores maiores na recente escrita portuguesa ainda sem livro apenas seu. Não faltará muito.

«Orgão de tubos da Igreja da Lapa, no Porto», © Marisa Ferreira, via Olhares, fotografia online (D.R.)

«impressões»

Há coisas que o meu catecismo não soube explicar: o porquê das avé-marias serem maiores que os pais-nossos; o porquê de só as mães ensinarem a rezar [Avé-Maria cheia de graça o senhor é convosco]; antes da tabuada chegam as orações [bem-dita sois vós entre as mulheres]; aos cinco anos ninguém sabe muito bem o que são mulheres. Rezávamos em coro. Antes de saber que só os condenados ensinam a viver, como as mães a rezar [bem-dito é o fruto do vosso ventre]. Tenho a minha contabilidade em ordem: por cada justiçado, sentei-me um pouco mais. A reza, pelo contrário, não é coisa que pare, reza-se pelos mortos e eu já não sei rezar.

Passarei o resto do tempo a dar a notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida. Afinal a morte dos outros é uma violação à nossa mortalidade [Santa Maria, Mãe de Deus]. Dá-se o rótulo da doença e conta-se o tempo passado. Numa simples frase, oração, tudo acaba. E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver. Abusamos da respiração, como de tudo o que é reprovável: contra a morte só o excesso é permitido; e quem nisso reprovação vê é porque desconhece o número de palmos de terra em que há-de enterrar a história.

A história, repito-me, a história que incorporamos na nossa história. A desalma do coveiro cria-nos repugnância que, sem saber, aceitaríamos no lugar da dor. Passados tempos, meses ou anos: — sim, morreu há dois anos, digo à pergunta: — é impressão minha ou morreu?

Quem têm a impressão da morte de outrem?

A impressão da morte como o registo identitário, a condição de se estar morto contra a memória. O cansaço. — Sim, morreu há dois anos. A frieza sem condição da oração determinativa. — Está morto, repito, desabitada. E digo-o num automatismo que me é natural, como poderia ter dito: quanto frio faz nesta primavera. Sou testemunha.

Aos que me morreram devo a identidade. [Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte]. Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [Ámen].

[Maio de 2012.]

Blogue de Beatriz Hierro Lopes.


Agustina Bessa-Luís — Os Cinco Reis Mouros

ilustração de Ilda David © Ilda David (D. R.)

OS QUADROS deste diário que escrevo espelham para mim as glórias de Lisboa. Seu ar róseo e materno, seus ventos e sombras que Monsanto despede até às nuvens.

Começando pelo princípio, dentro dos campos de Ourique se deu um caso que nunca foi bem explicado. Tendo Afonso sido jurado rei pelos soldados, o que o fazia mais general deles do que príncipe de todos nós, teve por empreitada combater cinco reis mouros; havia-os aos bandos, e eram tão numerosos os califas e os sultões que a Espanha e os Algarves estavam cheios dos seus palácios aonde os reis cristãos mandavam os filhos como hoje se mandam às universidades. A cultura deles era formidável e nas matemáticas não havia quem os igualasse; nem na poesia, porque a sensibilidade extrema vai muitas vezes a par com a crueldade mais refinada.

O triunfo era duvidoso em batalha tão desigual. Cinco reis mouros não são cinco réis de gente; é muito mais. Afonso, muito calado com o seu escudo e cota de armas, viu Cristo na cruz, ao levantar os olhos para o lábaro que receava perder. E Cristo disse-lhe que havia de ter vitória sobre os infiéis. Afonso não se intimidou com a aparição e falou cara-a-cara com o Senhor:

— Não venhas a mim mostrar-te, porque eu creio e não preciso de milagres para crer. Mostra-te aos meus inimigos que, esses sim, precisam de te conhecer para nos temer a nós.

Esta fala, de tão arrojada, não foi muito do agrado dos catequistas e não se ensinou nas escolas. Eram tempos maravilhosos em que se começava a ser português, e para isso era preciso valor tão grande que os céus o recebiam como medida do homem. Que saudades dessa pátria inventada num milagre que se recusa! O povo miudinho corria ao lado dos grandes pecadores, que eram almas grandes também. Confiavam neles; com lágrimas e com juras, confiavam neles. Afonso mandou pintar na sua bandeira cinco escudetes azuis, em lembrança dos cinco reis vencidos. Ainda lá estão, reparem bem. Pensar nestas coisas distrai o coração de velhacarias, que foi o que se multiplicou passados tempos, e hoje não há mais lugar na terra para tanta instrução maliciosa.

A memória cativa as coisas num lugar fabuloso, que é onde mora a esperança. Mas é certo que os primeiros passos na ordem da pátria tinham que ser agigantados, não só pela fábula, que os serviu, também pela coragem que só protegeu. Afonso, que no ardor de vencer se esquece de se submeter ao milagre, é coisa digna de se ver e de recordar. Como se lá estivéssemos em carne e osso.

Agustina Bessa-Luís, Os Cinco Reis Magos, «Revista Kapa» nº 2, Novembro de 1990, p. 159. — ilustração de Ilda David, acompanhando o texto na publicação original.

António Lobo Antunes — Zé (crónica)

Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Eras meu camarada, que é uma palavra da qual só quem esteve na guerra compreende inteiramente o sentido: não é bem irmão, não é bem amigo, não é bem companheiro, não é bem cúmplice, é uma mistura disto tudo com raiva e esperança e desespero e medo e alegria e revolta e coragem e indignação e espanto, é uma mistura disto tudo com lágrimas escondidas.  Andaste à pancada com o inspector da Pide para defender os soldados, e pelo facto de ele ter recusado colocar os seus mercenários no rebenta minas sentaste tu ao lado do condutor. Quando a mina rebentou bateste o recorde do mundo do salto em cumprimento e do salto em altura, os dois ao mesmo tempo, que não foram homologados por terem sido feitos com a ajuda de uma explosão favorável. Andei às voltas com o teu pé em papas e sobreviveste, mas África ficou para sempre dentro de ti, a roer-te, a roer-te, e deu-te cabo da vida. Como oficial e como combatente eras duro mas o teu pelotão adorava-te. Tinhas um ascendente natural sobre os subordinados, que sempre defendeste com uma intransigência absoluta. Eras corajoso. Eras terno. E, meu malandro, eras bonito que te fartavas, foste sempre bonito. Usavas o quico no alto da cabeça, como se não te pertencesse, e quando ia visitar-te ao teu destacamento era uma festa de abraços debaixo daqueles eucaliptos enormes, onde se habitava em condições miseráveis, porque quem mandava em Luanda estava-se nas tintas para nós: bem se ralavam com a nossa sorte e a gente rodeados de inimigos e cães. Nunca discutimos porque era impossível discutir contigo: tinhas uma maneira irresistível de te fazer perdoar e eras, apesar de duro, de uma infinita bondade, generoso e doce. Sempre me surpreendeu como estes sentimentos, tão contraditórios, coexistiam harmoniosamente em ti. Passaste meses isolado por independência de espírito e desejo de liberdade, onde a garra tonta do comandante não podia alcançar-te. E depois a mina. E depois o resto. E depois a serena valentia com que aguentaste tudo. Os eucaliptos do Cassa, meu Deus. A raiva. Os soldados de tronco nu com a G3 no braço. Lembrei-me tanto disto agora ao lembrar-me, entre lágrimas, de ti. Até os lençóis de metal te destruírem almoçávamos de quinze me quinze dias e chagavas sempre primeiro com o teu sorriso, o enrolar dos teus cigarros e a dignidade de um imenso sofrimento intimo de que não falavas nunca, que tentavas não mostrar a ninguém mas que nós, oficiais teus camaradas, entendíamos dolorosamente, o Nini, o Boaventura, o Zé Luís, tão duros como tu e da mesma coragem sem vaidade. Graças a Deus que tive companheiros como vocês, que tenho companheiros como vocês. E tu foste para nós um eterno motivo de preocupação porque uma parte tua havia desistido de viver

    (apesar do sorriso)

    e outra se ia destruindo lentamente. Não conheço uma única pessoa que tenha passado por aquele horror na qual não exista uma parte que se mata devagar, em silêncio, numa discrição pungente que apenas os que passaram por aquilo sabem reconhecer. Mas, juntos nos nossos almoços, somos alegres, partilhando a felicidade de estarmos juntos e separando-nos a contra gosto porque as pessoas têm de trabalhar, não é, porque não somos ricos, não é, por isto por aquilo. Marcamos o novo almoço e afastamo-nos uns dos outros como quem rasga bocados de si mesmo. Zé, eu não sei muito bem o que dizer agora. Sei que não queria que a tua morte tivesse acontecido. Que sinto a tua falta. Que continuo a ver-te chegar ao aviãozeco para me receberes, com uma forma de pegar na arma que nunca notei em mais ninguém como se a G3 nas tuas mãos fosse uma coisa maleável e doce, com não sei quê de mulher. E os eucaliptos por cima de nós falando, falando. E o rio. E o cheiro da terra. E o teu braço a acenar. O teu irmão pediu que falasse na Basílica, junto ao caixão. E eu com tudo isso dentro de mim, a gaguejar. De repente a certeza de ter voltado anos atrás e nós, quase meninos julgando-nos homens, nas Terras do Fim do Mundo, desamparados, a marcarmos cruzinhas nos calendários a cada dia que passava. Lembro-me do Ernesto Melo Antunes, quando morreu o primeiro soldado da sua companhia, me dizer com uma expressão que ficou gravada em mim a fogo

    – Tinha jurado a mim mesmo que os levava a todos de volta –

e não era possível, Ernesto, e mesmo que fosse possível metade de nós ficou lá para sempre: a nossa juventude, os nossos projectos, a nossa alma manchada de sangue e de terra. Não vou descrever horrores, não vou contar nada. Não é possível. Não consigo.

Era um fardo pavoroso.

(perdão é um fardo pavoroso)

    que continuamos a carregar juntos e falta-nos o teu ombro para nos ajudares a aguentar aquilo. É difícil prosseguir sem ti, nosso irmão, nosso amigo, nosso companheiro, nosso cúmplice: nosso camarada. Havia entre nós a intimidade única da dor partilhada. Eras um dos nossos e cada um de nós, um dos teus. Lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e o nosso camarada lá dentro. Ao telefonarem-me a dizer o que tinha acontecido gritei

    – Não

    eu que quase não grito. Custa a ideia de habituar-me a não tornar a ver-te, os teus cigarros enrolados, o teu sorriso. E no entanto é isso que melhor guardo de ti, que guardarei de ti: o teu sorriso. Esse ficará para sempre comigo, para sempre connosco. Boaventura, Nini, Zé Luis: somos só quatro já. Mas o teu sorriso há-de continuar e podemos estender as mãos para ele, a aquecer-nos quando houver muito frio. E desde que morreste palavra de honra que há muito frio. Tem paciência, Zé: faz lá um sorriso para a gente.

António Lobo Antunes, Visão, 4 de Outubro de 2007

Imagem digitalizada por Zé Teixeira. Alojada no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.

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Alexandre O’Neill — epitáfios

No dia 21 passaram 25 anos sobre a morte de Alexandre O’Neill. Passar é, no caso vertente, a palavra-chave, já que o escritor a ela se refere, em ligeira e divertida crónica a propósito de epitáfios. Uma vez que os textos elegíacos já estão todos (não) escritos, transcreve-se aqui o texto de O’Neill sobre epitáfios, assunto que, como se sabe, se presta a préstitos tanto quanto a humor.

   Coleccionar epitáfios pode muito bem ser uma suave tarefa estival. Além disso, avizinhando-se o Outono e, com ele, a rentrée (salvo seja), convém que se tenha à mão um sortido, tão variado quanto possível, dessas frases rotulares (rupturas…) que os vivos gostam de imaginar que vão ter na tampa depois de mortos… Incito, pois, os leitores — à falta de uma* Grande Concurso Nacional de Epitáfios, que a imprensa podia muito bem, e muito a tempo, promover — a demorarem-se na salutar meditação sobre a gravidade e a densidade dessas curtas frases definitivas que nos olham nos olhos e que, afinal, são de vivos que nos falam através dos mortos.

    Um, que não foi premeditado, antes produto do acaso objectivo, resume-se na palavra OSTRAS, aposta no vagão selado onde viajou de* Alemanha para a Rússia o cadáver de Tchecov. O supremo ironista não desdenharia uma cottage desta categoria…

    Num plano mais vulgar, temos aquele que podia muito bem ser criação nossa, mas que nos chegou do Brasil:

    Aqui jaz

    Bento Bexiga

    Que acendeu um fósforo

    Para ver se tinha gasolina

    No depósito do seu carro

    e… tinha mesmo!

E, requintando agora um pouco, aquela fustigação que a Igreja nos faz constantemente para que nos lembremos que não passamos de um barro vil:

    Nós, ossos que aqui estamos,

    Pelos vossos esperamos.

Donde Mello e Castro, o mais importante, *não dizer o único, concretista português, podia muito bem tirar um grafismo eloquente:

    v’ossos

Sem cair no artificialismo da Antologia de Spoon River, mais jogo de comadres que jogo de epitáfios, acrescento a esta primeira amostragem o célebre:

    Aqui jaz

    Mark Twain

    Que sempre disse que isto havia de acontecer

E termino (por agora…) com o ainda mais célebre epitáfio stendhaliano, que um piedoso amigo romancista acabou por estragar com a mania da literatura:

    Arrigo Beyle

    milanês

    Escreveu. Viveu. Amou.

    Viveu, amou, escreveu — era a sequência pensada e escrita por Stendhal, grenoblês que, mesmo depois de morto, queria homenagear a cidade que mais amou: Milão. Porém, o primado da literatura viria, como sempre, deitar tudo a perder…

O’Neill, Alexandre, Luta, 3, Agosto, 1976, in Coração Acordeão, Lisboa: O Independente Global e Assírio & Alvim, 2004

ilustração de André Carrilho para a capa do livro


* transcrito como no original (prováveis erros tipográficos)

   página da D-G LB sobre Alexandre O’Neill

   página de André Carrilho

Agustina Bessa-Luís — Talento

A minha amiga L… (não se cansem a imaginar quem será; não é Lúcia, nem Laura, nem Leonarda) tinha dois contras na vida dela: a falta de dinheiro e a infidelidade do marido. Queixava-se amargamente de ambos, mas, por fim, já tomava as coisas com uma grandeza à grega. Um poeta que a estimava muito perguntou-lhe porque não enganava o marido.

— Com quem? Só se fosse com Alexandre da Macedónia.

Era uma resposta que requer talento, e ela tinha-o. Era uma snobe da Grécia e o que não sabia é que Alexandre também era um snobe. O seu tutor, Aristóteles, tinha-lhe incutido a admiração pela alta condição intelectual dos gregos, e acho que tudo aquilo que ele fez e as glórias que atingiu tinham muito que ver com essa inferioridade ou limitação face à civilização grega.

Alexandre era um génio, ou apenas um rapaz de talento?

São coisas diferentes. Não sei se a educação dum jovem deve ser entregue a um homem tão superior como Aristóteles. Forçosamente o génio causará um complexo avassalador sobre o aluno que, como Alexandre, estava mimado por um augúrio da sua divindade.

A própria mãe, a indomável Olímpia, achou por bem atribuir a paternidade de Alexandre a um deus, Zeus, e não a Filipe, seu marido. Além disso, era inclinada a superstições e coisas de magia. Quanto a Aristóteles, um filósofo e um génio da filosofia, foi o primeiro homem de pensamento a conceber um mundo global. Vivia em Estagira, cidade grega próxima da fronteira com a Macedónia; e o seu pai tinha sido o médico pessoal do rei Amintas. O gosto de Alexandre pela medicina vinha daí. Aristóteles foi perceptor de Alexandre durante três anos, o que bastaria apenas para lhe dar o verniz grego e a reputação de ter sido seu aluno. Mas não é de crer que lhe transmitisse o fulgor do seu génio nem sequer a síntese da sua sabedoria. Os talentos de Alexandre, a começar por uma forma física impressionante, são inegáveis. Mas foi ele um estratega consumado ou só um rapaz fogoso e apaixonado por uma ideia: a de superar o mestre e tudo o que se lhe deparasse como valor reconhecido; superar o mito grego, sobretudo?

Os gregos mereciam bem a sua celebridade. Tinham descoberto a natureza heliocêntrica do universo e a estrutura atómica da matéria. Ao átomo, o Oriente opunha Deus. E assim continua a grande oposição dos dois espíritos. Alexandre nasceu quando esta tensão estava formada. Não estava em vista a confrontação entre as duas civilizações mas a fusão das duas, complementares como os homens são uns dos outros. Esta ideia, vinda¹ dos segredos só contemplados  pelo génio, teria que ser posta em prática pelo talento. Alexandre foi um motor desse talento necessário à execução das grandes ideias. 

Digamos que venceu e fracassou ao mesmo tempo. Tinha trinta e dois anos e era senhor do Universo. Mas a sua capacidade de curiosidade e inovação esgotara-se. Já não comunicava espontaneamente com o seu exército; os antigos amigos estavam sombrios, preparavam-se as sedições.

Os soldados estavam cansados das imparáveis marchas, da fome e das exaustivas campanhas. À borda do Ganges amotinaram-se e Alexandre teve de ceder. Um ano depois estava morto. Morto como um negociante no seu quarto de cama, devorado² pela malária ou talvez envenenado, que e a primeira suspeita que derruba a alma antes da vida. Estava desiludido ou apenas enfraquecido para fazer frente à doença, de resto agravada pelas contínuas bebedeiras e excessos de ambição. Ele sabia que a maior parte da terra lhe era desconhecida e que não a podia atingir nem juntar à sua glória. Perguntei à minha amiga L…:

— O talento foi o maior vício de Alexandre. Até hoje ninguém o superou. Mas, como dizia Platão, “as pessoas de bem não querem governar nem pelas riquezas nem pelas honras”. Isto põe Alexandre fora da lista dos homens de bem?

— Quem diz que eu o amava por ser um homem de bem?

— Era por ser visionário?

— Era porque havia nele bondade; provou-o muitas vezes. É o talento maior que alguém pode ter.

— Isso é — disse eu. Não me ocorreu dizer mais nada.

Bessa-Luís, Agustina, in, Autêntica n.º 7, Leça do Balio-Matosinhos: Unicer, 2007

¹ — «vindo», no texto impresso, provável erro tipográfico.

² — «devotado», no texto impresso, provável erro tipográfico.

Nota: a paginação do texto torna quase indiscernível a separação dos parágrafos. Seguiu-se um critério o mais próximo possível da estrutura do texto para a definição dos mesmos.

"Era porque havia nele bondade"

Filipa Leal — «o minuto certo»

Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.

Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.

Queria de ti um minuto. Um minuto.

Leal, Filipa in, «Egoísta n.º 32», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Setembro 2007

«blind date», Luigi Scuderi © Luigi Scuderi, via Deviantart (D.R.)

Nota: tal como em relação ao texto de Possidónio Cachapa publicado na «Egoísta», e transcrito aqui neste blogue, contamos com a gentileza da editora Patrícia Reis para permissão da transcrição deste texto de Filipa Leal. O que então se escreveu sobre a relevância e o significado da revista está essencialmente dito naquele post.

— Luigi Scuderi Photography — http://www.luigiscuderi.it/

Possidónio Cachapa — 50

 

 

No meio de uma sala, uma gaiola dourada com uma mulher lá dentro. Cheira a cera e os mosaicos negros e brancos do chão brilham. Mas não reflectem o tecto. O que estará por cima.

Veste apenas lingerie, a mulher. Não se consegue ver a cor da roupa porque as janelas estão quase fechadas e há cortinados de tule, cobertos de pó, na sua frente. Sombras, no chão aos quadrados.

O cheiro de rosas sobe até à mulher que aproxima as mãos da cara e aspira.

Olha as flores fanadas sobre as costas da mão e pergunta porquê. Tem também jarros brancos, a amarelecerem nas pontas enroladas. As curvas elegantes e lascivas das suas copas a cobrirem-se de manchas amarelas e castanhas. Morrem flores nas mãos da mulher e é esse cheiro que a entristece.

“Vou pensar numa coisa boa, boa”, diz a si própria. Repete o ritual de meditação a que se forçou nos últimos anos: uma praia, as areias amarelas, o sol quente sobre a pele acabada de sair da água. Enterra os dedos e sente os grãos, a passar entre eles. Repara que tem os cabelos fora da toalha, mas não se recolhe. Um movimento agita a areia quente, agora, desagradavelmente quente, e um pequeno escaravelho preto sai do nada, caminhando na direcção do seu corpo. Faz-lhe cócegas, o insecto escuro sobre a pele, um pouco enrugada. Das suas costas vem uma voz a rir, que não consegue ver. é a de uma rapariga. Está a rir-se e provavelmente a mover os braços. A pele firme dos braços. A suavidade dos braços. A mulher não a vê, mas sabe que um homem tem as mãos sobre esta pele que apenas adivinha.

“Asso”, e levantou-se em direcção às dunas.

Quase só silêncio,  naquela sala. No chão da gaiola dourada, acumulam-se cascas de sementes. Comeu-lhes, uma a uma, o núcleo branco, doce. Quase sem dar por isso. Estão secas, as cascas, e rangem debaixo dos seus pés descalços.

Por cima da casa, passam corvos negros. Rodam, afastam-se, quase tocam as telhas rosa-velho e laranja, o musgo e o arroz-dos-telhados.

“CRRRÁÁÁÁÁÁÁ”, gritam, por cima do edifício, da gaiola e da mulher que nesse preciso instante pensa que são quase sete horas e o marido não dá sinais.

Mas engana-se. Ele acaba de entrar. Pousa a pasta.

“Hoje, uma das empregadas desatou a gritar com um utente. Não sei o que lhe disse ou fez o homem para provocar aquela reacção. Coitado, ainda tentou travá-la, evocar direitos. Mas ela parecia um bicho, por um instante. Apenas um instante. Depois, desfez-se em lágrimas, claro. Pediu-me desculpa, que não sabia o que lhe tinha dado.”

Tirou a gravata e largou os sapatos num canto. Na cozinha, bebeu água, de um copo largo, impecavelmente limpo.

“Tive pena dela, coitada. Tão nova ainda. Não percebe.”

Os seus olhos brilharam, por um instante. O cheiro das meias, estreadas nessa manhã, entrou na gaiola. A mulher conteve, já sem dar por isso, a respiração.

“Encorajei-a entender melhor as pessoas. As necessidades delas. Aquilo que às vezes nos parece um abuso e que não é mais que um gesto de alguém que precisa da nossa atenção. Coitado de quem é novo.”

Desapertou o cinto e foi mudar de roupa ao quarto.

Na sala a mulher tremeu um pouco.

“Estou numa praia, ao lado de um barco de pesca virado ao contrário. Cheira a madeira húmida e a restos de peixe seco, e é natural que assim cheire. Se levantar a cabeça consigo avistar as silhuetas dos pescadores, muito ao fundo, a fumar e a lamentar a vida. O vento sopra quente.”

A lingerie estava encharcada em suor. Junto às raízes brancas do cabelo, pequenas gotas.

“O vento sopra quente, a areia escalda”, pensou. Do quarto, a voz do marido ao telefone. A mulher toca nas frades da sua gaiola dourada, agora vermelhas, em fogo, e descobre-as frias.

Um corvo pousa sobre o algeroz e apanha o papel com o bico.

HISTÓRIA DO HOMEM-CORVO:

No meio de um terreno de cultura, semeado regularmente com trigo, existia um espantalho, feito de uma cruz de paus secos. Estava vestido com um casaco velho e um lenço que tinha pertencido à mãe do dono do terreno. Por cima, a fazer de cabeça, um nabo gigante, comido aos poucos por pássaros, insectos e até pequenos mamíferos, que subiam pelas roupas acima, e voltavam com restos do tubérculo nos dentes. O nabo estava coberto por um chapéu de palha e era dentro deste que vivia um homem-corvo. Quentinho e protegido, debaixo do chapéu dos outros.

Era boa pessoa. Isto é, não chateava. Tinha lido os clássicos, antes do tempo. Tratava por tu o Joyce, o Musil, o Borges, e mais recentemente o Raduan Nassar (de quem gostava mais do nome que da escrita).. Onde ia buscar os livros não se sabia. Apenas que os lia, em silêncio, dia após dia, ano após ano. No meio desta concentração esquecera-se até de acasalar. Acordava em algumas noites de Primavera, aflito, sem saber porquê. Mas no dia seguinte, já se tinha esquecido e mergulhava de novo na leitura, saindo apenas para comer alguma coisa que rastejasse pelo chão ou para renovar a sua biblioteca.

“Não sabem o que perdem”, dizia ele aos outros animais, que passavam perto. Tinha deixado crescer uma barbicha oitocentista e, em virtude dos olhos cansados, roubara uns óculos a um velho adormecido à espera de uma camioneta de carreira que tardava. “Sabem lá a alegria que dá ler uma frase como esta: “O poeta celta Taliesi diz que não há nenhuma forma no universo que não tenha sido a sua”?. Mas as formigas não lhe ligavam, os melros cruzavam-se no ar, apenas contentes, um pouco mais à frente, o agricultor que desconhecia a sua existência, continua a lavrar a terra. “Pobres ignorantes”, pensava.

Como, apesar de tudo, isto lhe deixava um sabor amargo no bico, decidiu um dia começar a escrever, usando tudo aquilo que tinha lido. Repetindo a ideia testada, a frase certa. E quando fez isso, alguns animais vieram ter com ele. As ovelhas abriam a boca de espanto, as vacas sustinham o ruminar por um instante, uma ave tonta pousava ao lado, piando de vez em quando, “É genial!”. O homem-corvo ficou contente. Não é preciso muito para deixar contente quem nunca tinha tido nada, e continuou na sua escrita-leitura e na sua leitura-escrita.

Os dias passaram. e as vacas que pareciam escutá-lo foram cortadas em tiras de carne escura, a pele a forrar cadeiras. Antes delas, as ovelhas tinham levado um tiro sobre o crânio e o ar que ali vivia juntara-se à estratosfera das coisas vazias. Enquanto a barbicha do homem-corvo embranquecia, as coisas que julgara  conhecer morreram todas. Sobrou o campo, o lavrador cada vez mais velho, o clima que se tornava caprichoso, as dores junto às unhas das patas finas. No seu quinquagésimo aniversário, o homem-corvo tirou a cabeça fora do chapéu onde vivia, olhou os campos que nesse ano não estavam semeados, e percebeu que não lhe restava tempo para começar a viver.

Desceu do espantalho, enterrou os pés na terra e, quando começou a chover, virou o bico aberto para cima. Só depois caiu, as asas abertas em cruz para que o vento as movesse tanto tempo quanto possível.

 

No cimo de uma casa, um corvo levanta voo. Por baixo, uma gaiola com uma mulher lá dentro. À sua volta, os mosaicos grandes, brilhantes e estéreis cheiram a cera. Está na penumbra, esta sala.

 

Cachapa, Possidónio in, «Egoísta n.º 50», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Junho 2008

 

(post reeditado)

[Nota: a reprodução integral deste texto de Possidónio Cachapa é um acto ilícito, de acordo com os termos fixados pela publicação. Ao transcrevê-lo, na íntegra, a partir da edição comemorativa do quinquagésimo número da mesma, ponderei duas ordens de razões: nos meios literários, e culturais mais elitistas no nosso burgo a «Egoísta» não “conta”; não é referida, mencionada, o seu lugar significativo, original, na divulgação das artes e das letras que se produzem em Portugal e noutros países não são (ou serão muito raramente) referenciadas, tal como as suas edições, os autores, a qualidade gráfica (creio que tal facto se deve a um preconceito absurdo quanto à origem e à natureza do negócio do publisher , o que é uma característica de saloios). Por outro lado,  não tive capacidade ou coragem para cortar um «excerto» deste fascinante texto de Possidónio Cachapa, a título de citação. Resta-me pedir toda a indulgência possível a Mário Assis Ferreira (director, que deu asas a este singularíssimo projecto), à Patrícia Reis (editora, de irrepreensível criatividade e acerto). E parabéns igualmente ao projecto gráfico (Henrique Cayatte) e ao Possidónio Cachapa, evidentemente. Para que conste, farei chegar ao conhecimento dos primeiros e ao autor do texto esta transcrição.]

 

(já depois de transcrito o texto, quero agradecer à Patrícia Reis e ao Possidónio Cachapa, editora e autor, a sua permissão e generosidade)

 

«Scarecrow» — Igor © Igor, via Deviantart (D.R.)

 

 

Maria Gabriela Llansol — Herbais, 16 de Agosto de 1981

 

Hoje, passada a madrugada, continuei o dia com a minha parte mais sombria; soltaram-se-me as minhas recordações, presentes, passadas e futuras, e não encontrava caminho linear entre elas.

Não só importa escrever sucessivamente, mas saber quem me sucederá numa constelação de sentidos.

O que é a descendência?

A seiva sobe e desce numa árvore, estende-se pelos ramos, e é regulada pelas estações; eu e a árvore dispomo-nos uma para a outra, num lugar por nomear. Este lugar não tem significação de dicionário, não transmigrou para nenhum livro.

 

Agora o sol, o solo, a solo, encadeiam-me nas palavras      Esta madrugada aproximei-me da certeza de que o texto era um ser.


Llansol, Maria Gabriela, um falcão no punho — diário I, Lisboa: Edições Rolim, 1985. p.48

«A minute, a life», d-minutiv © d-minutiv, via Deviantart (D.R.)

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Links Relacionados:

Bibliografia

Espaço Llansol — Associação de Estudos Llansolianos

Bénédicte Houart — Dilúvio

 

 

Dilúvio

Chove. As ambulâncias já ligaram as suas sirenes. O acidente ainda não aconteceu, mas com certeza não vai tardar. E, por isso, quando chove, penso na morte. Na morte daqueles que amo e de todos aqueles que deveria ter amado se soubesse como. As ambulâncias desligam as sirenes. Levo a mão ao sexo. Modo de chorar. Modo de despedida.

Chove. Cheira a narcisos no centro da cidade. As velhas estão dentro de casa aconchegando o tempo às pernas exangues. O sangue teima em circular embora a cabeça descaia vezes de mais. As velhas estão dentro de casa, salvo aquela que aquece sempre os pés na calçada. Percorre as ruas da cidade faça sol faça chuva. E nos seus cabelos compridos a chuva deixa gotas que parecem pérolas.

Chove. Nos centros comerciais, há homens sentados junto às escadas rolantes. Estão pensativos. De vez em quando, esticam o pescoço, giram-no para a esquerda para a direita, movem-no para cima para baixo. Pensam na vida. Ela corre dentro deles como se fosse explodir dentro de segundos. E vai. Não estes segundos, mas outros, os próximos, talvez. Agora, ela chega-lhes em catadupa, escorre para fora deles.

A chuva parou. As putas animam os passeios trocando receitas de cozinha. Riem mostrando os dentes negros. Nascem, estão a nascer, novos clientes. Hão-de crescer depressa. Hão-de levar as mãos aos bolsos. Quanto a elas, é certo que não morrerão nunca.

Uma mulher está sentada a uma mesa. Leva de vez em quando o cigarro aceso aos lábios. Observa discretamente quem passa, não vá pensarem… Não tem importância, ela pensa por eles. Pensa com tanta força que parte a caneta contra a página. Ou então pára de escrever. Risca a página como se mudasse de vida.

Recomeça a chover. Calo-me. Por que não chove ininterruptamente durante um século? Criámos um deus de amor, mas não fazemos a menor ideia do que seja amar.

Texto publicado na revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

«Shadows», Hugo Colares Pinto, © Hugo Colares Pinto (D.R.)

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Links Relacionados:

Artigo sobre a autora no D.N. (por Isabel Lucas)

Alguns poemas (traduzidos para inglês, com a versão original)

A autora no catálogo da «Livros Cotovia»

Revista Inútil

Portfólio online de Hugo Colares Pinto

 

Dulce Maria Cardoso – Dois Homens

 

 

À Marlise Vaz Bridi

Chamou-me, aqui estou, disse o filho. O pai olhou para o filho como se o tivesse visto no dia anterior. Sem reparar nos sinais de ausência de mais de vinte e sete anos, os olhos mirrados que a custo se percebiam azuis, a pele velha, os dentes rombos e amarelados.

Estavam sentados na varanda contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, muito laranja. As gaivotas gritavam à procura de comida. O filho não sabia que se lembrava tão bem da fome das gaivotas.

Chamou-me, repetiu o filho.

O pai ficou calado uns segundos.

Amanhã, disse lentamente.

Os olhos azuis do pai fugiram dos olhos azuis do filho para o azul do céu que o fim da tarde envelhecia. O filho olhou para a ria e depois para o sapal. Já que nunca nada mudava, também eles deveriam ter continuado iguais. Mas não.

No dia seguinte o filho acordou tarde com o cheiro a comida e o barulho na cozinha. De olhos fixos no tecto o filho tentou identificar as vozes das mulheres. Em vão. Eram-lhe totalmente desconhecidas.

Reconheceu o cheiro da carne no forno. Como antigamente, pensou. Depois o cheiro a café e a caramelo. O pudim de café. Como nos domingos de festa. Antes de o pai ter dito que preferia que ele não tivesse nascido.

Olhou para as paredes do quarto que tinham sido pintadas de cor diferente. Reparou na mobília que era nova. A cama era mais larga e o guarda-fatos tinha agora um espelho que o reflectia no desconforto de ali estar.

Na cozinha o barulho crescia misturado com passos que iam e vinham. Punham a mesa na sala grande. A mesa comprida com a toalha de linho branco. E o padre numa das cabeceiras:

Ninguém se esconde dos olhos de deus. Muito menos um pecador. Um justo talvez. Um pecador nunca.

O pai bateu à porta do quarto do filho com os nós dos dedos. A comida está pronta, disse.

Sentaram-se nos lugares habituais, como se da vez anterior, antes do grande silêncio, o pai não tivesse repetido ali os mesmos nomes que lá fora chamavam ao filho.

Estou velho, disse o pai. Não queria ir deste mundo sem comer mais uma vez contigo.

As mulheres foram pondo na mesa travessas cheias de comida.

O pai serviu-se e mandou o filho servir-se. A sala cheirava bem. A rosmaninho. Pai e filho comeram. E tornaram a servir-se. E comeram mais ainda. Comeram muito e com verdadeiro prazer. Sobre isso também não trocaram uma palavra.

Quando a refeição acabou levantaram-se da mesa. Caminharam devagar, de tão cheios que estavam. Lado a lado.

Na varanda onde se sentaram outra vez contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, amarelo-esbranquiçado, o pai disse:

Agora já podemos terminar o que começámos. Dois homens não se despedem sem terem comido uma boa refeição em paz.

E ali ficaram. O sol alaranjou-se outra vez e as gaivotas gritaram novamente por comida.

Cardoso, Dulce Maria, Contos (colectânea), Leya, 2010

[Originalmente publicado em Até Nós, Edições Asa II, 2008]

"Is it strange to dance so soon?", futurowoman © futurowoman, via Deviantart, (D.R.)

Links relacionados:

Sobre Dulce Maria Cardoso aqui, aqui e aqui.

Mário Cláudio — Improviso para duas estrelas de papel

[conto integrado no livro Do Conserto do Mundo [contos], com textos da autoria de Ana Paula Tavares, Arnaldo Santos, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Isabel Zambujal, João de Melo, Lídia Jorge, Mários de Carvalho, Mário Cláudio, Miguel Real, Patrícia Ferraz, Pedro Sena-Lino, Ricardo Cabaça, Ricardo Miguel Gomes, Richard Zimler, Rui Zink, Urbano Tavares Rodrigues. Coordenação de Ana Maria Martinho. Uma edição da Imprensa Nacional-Casa da moeda, de Outubro de 2010, iniciativa editorial integrada no âmbito do Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social.]

Improviso para duas estrelas de papel


São estrelas construídas sem paciência nem esperança, tão dadas às espirais da tormenta como ao toque silícico das longas línguas de saibro.

 

No chão articulam o catre-de-campanha, estremecem no abraço pelo trepidar do autocarro, erguem-se na madrugada para o duche repentino. Despertam o filho de bruços no beliche inferior, retiram-lhe o pijama, vestem-no para a escola. Saem para a rua onde rompe acarvoada a manhã, e os jornais pendem lívidos dos escaparates, e longas fileiras se cerram compactas nas paragens hirtas. Na chuva escalam o casario azul, com uma catedral sombria dominando vidas, varandas deitadas para vielas escorregadias, paredes de seminários e palácios transidas de invernia e musgo esfarelado. Exercitam a ternura contra uma e outra perspectiva de clarabóias e miradouros, telhados e escadórios, fachadas de azulejo e mercados marginais. Ficam sem escuna que os receba, Simões Botelho por sentenciar, os dentes cerrando todos os desafios, resignados às mãos entre mãos. A si mesma se cerca a cidade, exterminando o espaço em seu redor, concentrada lei que nenhuma infracção humaniza.

 

Começam insofridas por ensaiar o voo muito junto à terra, entre a extensão das searas e a cúpula aberta e translúcida.

 

Deixam um automóvel arfante, invadem o jardim dos organismos públicos, cortam a compósita flor que para sempre enquadra o dia. «É preciso morrer», dizem, encostando à boca o espelho dos moribundos; «é preciso beber», dizem, descobrindo países. Pernoitam em hospedarias clandestinas, com telefones desligados de medo, ramas de pinheiro, marcas de cerâmica, lâminas. Para eles se aparta o reposteiro escarlate, se lhes deparam os retratos régios, estáticos de veludos e carbúnculos, a história se entorpece de minúsculos canteiros interiores e de buxo.

 

No rasto das estrelas, pelos sulcos da fome, se abandonam guiados, tranquilos e loucos, Joana perseguindo o cadáver do homem pelas estradas de Espanha adustíssima, entre chufas de canalha e excrementos de mula.

 

O filho relata a estranha genética, reclama o direito de resultar, como todos os filhos que se sabem, do ventre virgem do pai. Divide a giz brinquedos e cobertores, fábulas e passeios de domingo.

 

Como diferem das estrelas as estrelas, rochas de fogo que nunca se cruzam, seguem além de além, trajectória que não se interrompe nem altera!

 

Realizam assim seu contrabando de violetas bravas, à revelia de mulheres legítimas e amigos estatutários. Dormem pelas valetas, acordam sacudidos de riso, a bombazine das calças tingida do amarelo poeirento das mimosas. Alimentam-se de pão e de queijo e de vinho clarete. Descansam a sesta contra a nave dos conventos galegos, com seus retábulos de oiro e seus palmares, trazidos ambos de uma América que os olhos de um nos olhos de outro já não precisam de alcançar. Adormecem de novo entre textos rascunhados, rápidas passagens do Requiem. Decifram quase o mistério dos alfabetos ibéricos, no vestíbulo do sono onde vogam hipocampos atónitos, perpassam esteiras súbitas de submersos meteoritos.

 

O movimento das estrelas acontece ainda em quartos de tecto baixíssimo, onde os cinzeiros se entornam, as bofetadas estalam, o choro rebenta.

 

Na destrambelhada noite do equinócio escolhem a forca dentro de casa, dobram-se de angústia sobre a estopa da otomana, evadem-se vomitando entrechos avulsos pelo veloz labirinto dos faróis. Assim se lhes tocam os dedos nos mamilos das raparigas de mármore, ou de cerosas folhas de camélia se lhes cobrem, descerrando os cadernos nas margens do lago. Os cães ladram no faro da senda que levam, e um noitibó lhes indica o atalho da saída.

 

Atrás das estrelas correm, por elas arrastados, a vontade no sentido delas transpondo abismos, peregrinando por capelas de seu culto, a que outras pombas se abrigam sempre que chove. No sol se confundem, nas esferas de refulgência, fazendo crepitar as pontas nas trevas de uma íris igual.

 

As crónicas antigas jazem arquivadas nas gavetas dos contadores de marfim, nas prateleiras dos imensos copeiros espanhóis, nas vitrines iluminadas de faces que o bafo embacia. Ora se lhes repousa a cabeça no ombro um do outro, ora se cortam os laços, ajoelhados e acenando na aresta mais fria da cama.

 

Fatigadas as estrelas se esfarrapam, tombam em pedaços de enfolipado papel-de-seda, e a armadura das asas é uma caveira de arames e madeira e cola ressequida. Mas os longes duram sempre, sempre duram, para quem quer que retenha os fios enredados.

 

Este título elegemos: Improviso para Duas Estrelas de Papel.


Cláudio, Mário, Do Concerto do Mundo [Contos], Lisboa: Imprensa-Nacional-Casa da Moeda, Outubro de 2010

Hopeless Homeless, Lia Sáile © Lia Sáile, via Deviantart

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Gonçalo M. Tavares – Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

 

De certa forma esta é uma espécie de acto de contrição: tendo sido um dos que me insurgi contra o afastamento de Joana Morais Varela da Direcção da «COLÓQUIO Letras», e não retirando uma vírgula às virtualidades e especificidades que a mesma imprimiu à revista literária mais importante que se publica em Portugal, verifica-se que, sob a direcção de Nuno Júdice, na «COLÓQUIO» cumpriu-se a promessa de regresso à regularidade de publicação que se havia de alguma forma perdido (note-se que desde o ano de 2000 até 2009 saíram nove números, com um hiato de cinco anos entre 2004 e 2009, quando tomou posse a nova equipa, a qual já publicou sete!). Sem grande desvirtuação na qualidade do conceito gráfico (que é agora bastante mais sóbrio, sem o aparato requintadíssimo que chegou a possuir, mas ainda de um bom-gosto dificilmente discutível), é visível, após os dois números consagrados a Eduardo Lourenço, a tendência para, mantendo um tema (autor) principal, abrir a revista a um espectro de artigos, colaboradores e abordagens mais amplo, com uma forte incidência na «recensão crítica», uma atenção, que parece tendencial, ao campo da poesia e uma selecção de originais — embora irregular de edição para edição — com critérios mais largos, inclusivos e «aggiornati». Poesia, Ficção, Crónica, Entrevista parecem poder ocupar um lugar mais relevante, nesta nova fase da vida da «COLÓQUIO». Do seu número 173 se transcreve aqui, com a devida vénia e a título de divulgação, um texto ficcionado de Gonçalo M. Tavares. [Note-se que em nenhum lugar da revista, desde o número 170, encontrei qualquer referência à protecção de direitos de autor, o que só pode ser manifestamente lapso, para o qual se chama a atenção.]

 

Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

UM HOMEM com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio pede ajuda a outro homem.

Fala-se, pois, de dois homens. O homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio (um) pediu ajuda a um segundo homem (dois). Pediu-lhe, em suma, que fizesse algo divertido, que demonstrasse uma qualquer habilidade — colocar o pé atrás do próprio pescoço, fazer barulhos estranhos com a garganta, imitar animais através apenas do movimento dos olhos, enfim, que ele, este segundo homem, fizesse algo, uma habilidade qualquer, uma declamação, que conseguisse colocar o pé atrás do próprio pescoço, que conseguisse imitar animais através apenas do movimento dos olhos, qualquer coisa, mas que o convencesse, enfim, de que aquele sítio que era ele — pois uma pessoa por ser pessoa não deixa de ser sítio, de ocupar espaço, de ter altura, comprimento e volume — que conseguisse enfim mostrar a esse homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio que ele, o segundo homem, teria algo dentro de si mesmo, e portanto nele, pelo menos, neste segundo homem, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio não encontrará o nada que tanto está habituado a encontrar.

Pode revistar-me à vontade — poderia dizer o segundo ao primeiro homem, se este texto entrasse claramente na ironia.

Mas ainda não nasceu — como se diz nos momentos de grande e definitivo elogio — o homem capaz de sair à rua e dizer a quem passa:

— Podem procurar à vontade, dentro de mim não encontrarão o nada. Tudo em mim está ocupado e tem sentido. Em mim, nem o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse tal nada.

Ainda não nasceu, pois, homem que em público possa falar assim.


 

Tomo banho, escovo-me bem, ensaboo-me da ponta dos pés à cabeça, passando pelos órgãos mais íntimos. Seco-me com uma toalha e mesmo assim não consigo: algures, em mim, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse bocado de nada que o facto de nascer e ter uma certa percepção do mundo me deu direito e o dever de não largar.

Faço ainda como vi em filmes: sento-me num banco de jardim, isolado, olho para todos os lados para ver se alguém me vê e, depois de confirmar que estou sozinho e sem vigilantes, tiro — do bolso de uma camisa — um saco de plástico vazio e ali o deixo, só, vazio, e sem sentido, em cima do banco do jardim — para de imediato ser levado à força pelo vento que, embora quase inexistente, tem força sempre para arrastar um saco de plástico que nada guarda dentro de si. Mas tal exercício não basta para o que pretendia; não é assim que me liberto do nada que existe no sítio que sou enquanto animal com volume; e esse saco vazio pode ser conduzido como um veado cego pelo jardim da cidade, batendo imprudentemente contra as árvores, caixotes do lixo e outros obstáculos, bem pode essa simulação do meu nada que simulei atirar borda fora como se o corpo fosse um navio, e o mundo alto mar, e o saco vazio fosse a parte que em mim não me deixa ter um sentido para todas as coisas, bem pode essa simulação do meu nada avançar por empurrões sucessivos para o lado oposto onde me encontro agora, que jamais serei capaz, diante do homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio, de não tremer, de não ficar assustado, e perante a mera indicação para levantar os braços não os levantar de imediato e pedir perdão: sei que continuo com um bem localizado nada a montar e a desmontar consecutivamente tenda algures nesta parte mais débil deste meu organismo que uma mulher um dia, por descuido ou ilusão de apaixonada, chamou de belo corpo acima da terra. E nestes dias em que me sinto caminhar ao lado das toupeiras e com elas fazendo a melhor das amizades, eis que relembrar palavras simpáticas de uma mulher  me faz cair ainda mais, e soterrado, finalmente, por completo, sei que só se a morte me esconder mais ninguém, por mais que vasculhe, encontrará essa ponta do nada em que começou a minha depressão e em cujo centro a minha firme vontade de morrer se foi construindo, sólida e tranquila, como a construção sem pressas de uma casa.

Tavares, Gonçalo M., in COLÓQUIO Letras número 173, Janeiro / Abril 2010

«Just a Plastic Bag», Michalina © Michalina, via Deviantart (D.R.)

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Rui Manuel Amaral – Doutor Avalanche

Foi lançado no dia 4 de Dezembro o novo livro de Rui Manuel Amaral, «Doutor Avalanche», edição da Angelus Novus. O livro tem um blogue próprio, onde se pode encontrar  exaustiva informação, bastante útil para um conhecimento adequado do título e do autor, incluindo notas críticas, onde se destaca a singularidade da escrita e do estilo de Rui Manuel Amaral no panorama da actual narrativa que se publica em Portugal. Várias são as referências a uma tradição (estribada em diversos autores), podendo ler-se: «(…) é exímio na arte do malogro. Usa de notas de rodapé que acrescentam vazio ao vazio das histórias, recorre ao humor e ao absurdo, por vezes ao puro nonsense leariano para desmontar chavões literários, frases feitas, clichés». Ao ler Rui Manuel Amaral, não me é possível deixar de pensar em Mário-Henrique Leiria como memória incontornável para a leitura da escrita deste autor.

o que os peixes decidiram fazer

Amaral, Rui Manuel, Doutor Avalanche, Coimbra: Angelus Novus, 2010

Capa do livro. Design de Sandra Roldão.

 

António Lobo Antunes – As crónicas na “Visão”

 

As crónicas de António Lobo Antunes são seguramente as mais belas publicadas na imprensa em Portugal. E não o são apenas pelo seu carácter “literário”; bastaria, claro, o ofício e a mão do autor para colocar estes textos num plano singular, sem paralelo naquele que se convencionou designar como o género «crónica». Mas, ao partir de pequeníssimas cenas quotidianas, pessoas vulgaríssimas, gestos sem consequência aparente, acontecimentos desprovidos de interesse visível,  António Lobo Antunes constrói ‘frescos’ de uma realidade que nos passa todos os dias perante os olhos, vista nestes textos com fulgurante lucidez, num olhar apenas na aparência desemocionalizado e irónico – e aí está a marca distintiva do dispositivo textual – mas ensopada de ternura, algo perto da proximidade cúmplice com o outro que se torna, de alguma forma, um outro ‘eu’. O estilo (um estilo Lobo Antunes aplicado à crónica) atinge aqui uma dimensão funcional implacável: porque é ele que, na casualidade breve da frase, na informalidade desenvoltíssima e colorida de cada diálogo, na deslocação do objecto, na evocação da memória ainda que por episódios, reminiscências, quase traços, na repetição utilizada como modo de revelação, elabora fortíssimos quadros de uma pessoa, de um rua, de uma cidade. Do mundo todo, ou de tudo isto junto.

Aqui se deixa (com a devida vénia e à laia de publicidade) a crónica que, em 7 de Outubro, António Lobo Antunes publicou na revista “Visão”. Uma iluminadora leitura das «gengivas desmobiladas» de todos nós.

 

O Cabo Ferrador

Duzentos euros por mês não dão para muita coisa: uma sopinha e uma maçã ao almoço, uma sopinha e uma maçã ao jantar. Nos intervalos pede-me cigarros

– Não há por aí um cigarrinho a mais, doutor?

ou senta-se nas esplanadas até o mandarem embora, tratando-o por tu

– Põe-te a andar

e ele lá segue para o café próximo a arrastar um sapato sem atacadores. Não aceita esmolas, não aceita dinheiro, só pede cigarros aos amigos

– Só peço cigarros aos amigos

de acordo com o seu código aristocrático de miséria. Quando quis oferecer-lhe uma camisola recusou ultrajado

– Sou algum infeliz, eu?

e levou uma semana a perdoar a minha incompreensão da sua dignidade Você pode ser doutor e escrever livros mas não percebe nada da vida e tem razão, não percebo nada da vida. O seu maior orgulho é ter feito a tropa em Chaves

– Em Chaves, senhor

e eu, que nunca fui a Chaves, esmagado de respeito por Chaves pela maneira como ele fala

– Quem não conhece Chaves conhece pouco do mundo

e tem razão outra vez, conheço pouco do mundo. Pergunto-lhe

– Como é Chaves, senhor Ismael?

e em vez de resposta olha-me, durante uma eternidade, com pena sincera, até erguer ao alto, por fim, a mão de unhas duvidosas, unidas em cacho para dar ênfase à maravilha da cidade. A mão acaba por descer a fim de aceitar um cigarro

(um cigarrinho)

e o senhor Ismael a estender-se para a labaredazita do isqueiro

– Tem montanhas perto

e o

– Tem montanhas perto

deixado cair como uma moeda fora da circulação, pequena condescendência a um ignorante que não merece que se gaste tempo em explicações. Depois de tossir o fumo acrescenta

– E outras coisas

submerso em inesquecíveis lembranças militares, paisagísticas, amorosas

– Gajas boas não faltam

gajas boas a inundarem, só para ele, as ruas de Chaves, sorrindo-lhe, piscando-lhe o olho, chamando-o num sussurro prometedor

– Ismael

e o senhor Ismael, é claro, a dar conta do recado

– Sempre dei conta do recado, doutor fossem dez, vinte ou cinquenta

– Pelos ossos da minha irmã que está na cova que aviei seis numa tarde

sem tirar o bivaque de magala

– Mostre-me uma mulher que não goste de fardas

as mulheres e o senhor Ismael gostavam de fardas, puxou de uma espécie de carteira que, com o tempo, adquiriu a forma da sua nádega, na carteira o retrato seboso de um soldado

– Soldado vírgula, amigo, cabo ferrador

o retrato de um cabo ferrador, cheio de infância na cara mas inigualável a aviar, em que levei tempo a descobrir a criatura de agora, já sem infância nenhuma na cara, pregas, cicatrizes, a pele a lembrar-me o mapa de Portugal da minha escola, com uma cagadela de mosca no Alentejo e uma segunda mesmo ao lado de Faro, nas feições do senhor Ismael também os pontos negros das cidades, rugas iguais ao Guadiana e ao Douro, a ponta de Sagres do queixo, o estuário do Tejo da boca e, a propósito de boca

– Não se arranja um bagacinho que tenho a língua seca

mostrando-ma a sair das gengivas desmobiladas, guardando-a de novo

– Sequíssima

pronta à lubrificação do bagaço, metido na goela de uma só vez, à homem

– Quem não mete o bagaço de uma só golada não é homem nem é nada

seguido de soluços e lágrimas afastadas com desprezo pela manga

– A gente envelhece

e no meio das lágrimas do bagaço uma lágrima diferente, que ele percebeu que eu notei dado que

– Isto passa

de súbito quase menino, quase aflito, quase a abraçar-me, o retrato do magala por uma pena, cheio de infância na cara. Disse

– Doutor

repetiu

– Doutor e ficámos os dois que tempos em silêncio porque na realidade o

– Doutor

um discurso compridíssimo, com todas as suas desgraças dentro. Passado um grande bocado acrescentou

– Tenho dormido num degrau, sabia?

levantou-se da cadeira e foi-se embora, aposto que sem pensar em Chaves, nos montes, nas gajas, todo inteiro no interior de uma incomodidade com picos que o atormentavam, o filho morto em criança, a mulher ida com um caixeiro viajante, os duzentos euros, a sopinha. Mas havia de acabar por animar-se

– Isto já passa amigo

porque não há azares que um cabo ferrador como deve ser não aguente, em sentido para o toque a silêncio, que nos mexe a todos por dentro e é o mais bonito que existe.

 

António Lobo Antunes, revista Visão, 07 de Outubro de 2010

 

«Razão Forte», Stuart de Carvalhais (ficheiro online encontrado no blogue "Dias que Voam")