As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Ilustração

José Miguel Silva | FALA O DIRECTOR-GERAL

FALA O DIRECTOR-GERAL

Caros accionistas, a eleição dos nossos candidatos
veio demonstrar, uma vez mais, que a democracia
funciona e nada temos a temer. Agora é atacar
as derradeiras guarnições de mais-valia (como fundos
de pensões e monopólios naturais), que a janela
desta crise é preciosa, mas não dura, se até o CEO
tem limites e o petróleo nos começa a falhar.

A classe média continua a pernear no tapete rolante
da dívida, mas os média têm feito uma excelente
cobertura e ninguém desconfia de nada – é dar-lhe
toda a corda de esperança que reclama, para que
no momento certo o alçapão se abra sem alarde
e suavemente nos livremos desta roda de bocas
inúteis, que já só atrasa o andamento da economia.

Resta o problema dos relapsos e dos enraivecidos,
que vociferam pelas ruas “não pagamos” e motim.
Mas são, convenhamos, conduzidos por gatinhos
escaldados, sem crédito nem guizos nem projecto
coerente. Nada que seduza o coração dos isolados,
como o provam as sondagens e o misto de admiração
e inveja que continuamos a despertar nas cobaias.

Mas nem tudo são rosas, cavalheiros, pois se o clima
emocional da populaça é tele-regulável, o mesmo
não se pode dizer da frente ecológica, onde poderosas
forças de bloqueio se concentram como gases deletérios,
esgotamentos, externalidades que ameaçam gravemente
o nosso modo de vida. Em poucas palavras: não cabe
mais ninguém na ratoeira do progresso industrial.

Sete mil milhões de bocas engodadas pelo isco
do consumo rivalizam por recursos limitados,
que pertencem por direito natural aos nossos netos.
Começou a grande dança de cadeiras, e nunca
como hoje a presciência valeu tanto no mercado
evolutivo. Felizmente, somos nós quem determina
quando a música termina e a corrida começa.

Temos na mão o queijo, a faca e o conto de fadas
da modernidade, temos por nós a confusão
do inimigo, o fantasma da desordem, a esperança
e o vazio dos desesperados, além da nova lei
de segurança interna. Assim, e embora seja cedo
para celebrar (pois a história, mesmo de trela
ao pescoço, não deixa de ser um animal imprevisível),

hão de concordar, cavalheiros, que as coisas estão
bem encarreiradas. Todavia, não podemos vacilar.
O capital unido jamais será vencido! Há que pôr
a compaixão na gaveta e no terreno uma vontade
de ferro, pois avizinha-se a batalha decisiva desta
guerra de classes. E, passada a turbulência, cá
estaremos, accionistas do futuro, para herdar a Terra.

José Miguel Silva, Le Monde Diplomatique – Edição Portuguesa, Janeiro 2014

Ilustração de André da Loba

Ilustração de André da Loba

Hugo Colares Pinto. duas ilustrações

Gosto tanto de ilustradores, e não fazia a mínima ideia de quem era Hugo Colares Pinto ou sequer da natureza do seu trabalho, que pode ser visto aqui, pelo menos parcialmente. Por ínvias vias chego ao seu nome e a algumas peças que se podem apreciar online; e continuando sem conhecer decentemente a obra deste autor, impressionam a expressividade cromática, a linguagem, o sentido da composição, a destreza técnica do que vi. Aqui ficam duas ilustrações da série One. E manifesta vontade de conhecer mais (agradecem-se contributos).

"looking at" - técnica mista © Hugo Colares Pinto (DR)

"metro station COMBATENTES" - técnica mista © Hugo Colares Pinto (DR)

Homenagem a Will Eisner – (1917 – 2005) – II


“A mim ninguém me dá ordens, a não ser os meus accionistas… e a minha mulher”
– Nuno Vasconcelos, presidente da Ongoing e administrador da Portugal Telecom, na incontornável comissão parlamentar de inquérito. Sim, estive de novo a ver a coisa meia-hora, um tipo só é parvo quando não aprende com os erros. É o caso.

"Eu cá sou accionista"

Feliz Ano Novo – Norman Rockwell

O ano acaba com a morte de um grande ilustrador nova-iorquino, David Levine. Termina-se aqui o ano com outro grande ilustrador daquela cidade, possivelmente o mais popular e famoso em todo o século XX. Norman Rockwell, de cuja obra Reagan gostava e na qual a América conservadora se revê, ainda hoje nostálgica. Contudo, essa era apenas uma leitura muito primária do trabalho do autor. Feliz Ano Novo.

Happy New Year, Norman Rockwell (d.r.)

David Levine (1926 – 2009) – in memoriam

Ilustração de David Levine: Jean-Paul Sartre, Naguib Mahfouz, Paul Bowles, Arundhati Roy

O Pai Natal politicamente correcto

Por uma vez cedo ao politicamete correcto, ao air du temps, aos bem pensantes, às consciências esclarecidas e acolho genuinamente o princípio contido nesta ilustração. Acontece que duvido muitíssimo que esta não ilustre, apenas, um wishfull thinking. O que é uma pena.


(obrigado Ci, o Cormac McCarthy está a chegar)


Lucy Pepper – as ilustrações na Callema 06

O lançamento do sexto número da Callema em Lisboa deu origem, no início do Verão, a animado encontro na Livraria Trama. À Callema se voltará. Antes, deixam-se aqui as ilustrações que fecham a edição, da autoria de Lucy Pepper, artista plástica inglesa que reside em Portugal. Na revista, a sequenciação das ilustrações, possível pela passagem das páginas, permite um efeito de surpresa e ironia deliciosos. Uma suite genial, de uma ilustradora que pode ser melhor conhecida no seu blogue.

Antecedendo Aldeia, o texto (escrito em língua inglesa e traduzido na própria revista):

“Todos os pintores que visitam Portugal apaixonam-se pela sua luz clara e transparente. Tenho mais sorte do que eles, já que a posso ver durante todo o ano nas suas várias personalidades.”

"Aldeia" © Lucy Pepper (d.r.)

"Aldeia" © Lucy Pepper (d.r.)

Pantufa Negra

Os cartoons de Luís Faustino, apresentam-nos uma bichana preta com uma ironia ácida, tocando, por vezes, os limites do nonsense. Retomam (utilizando a fotografia digitalmente trabalhada) uma perspectiva que me recorda o saudoso ‘Guarda Ricardo‘ de Sam, excepcional série, marcante nas décadas de setenta a noventa, de um artista que transcendia as fronteiras da tira humorística e tinha obra noutros domínios das artes plásticas. Como nada é por acaso, também estes cartoons se publicam no Expresso (edição online, onde podem ser subscritos por correio electrónico), encontrando-se a série no blogue, Cartunes e bonecos. Um dos meus prazeres semanais é receber a ‘Pantufa Negra‘ via e-mail. Aqui se deixa o corrosivo trabalho de sexta-feira, dia 21. Carlos Queiroz é o pretexto para a ironia.

Luis Faustino © www.expresso.pt

Luís Faustino © http://www.expresso.pt

Coração de Mãe

É o nome do livro com ilustrações de Bernardo Carvalho e texto de Isabel Minhós Martins (Planeta Tangerina, 2008). A obra deu origem a uma exposição que, depois de ter passado pelo Chiado, pode ser vista até ao final de Dezembro na ILUSTRARTE, Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro. É fácil chegar lá. É bom chegar a quem de mãe assim se entretém.

© Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins

© Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins

© Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins

© Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins

Dinis Machado, ‘O Que Diz Molero’. Ainda.

Reparação de uma ‘injustiça’. Afirmei que a capa da primeira (e seguintes) edições da obra, da autoria de Saldanha Coutinho, não tinha equivalente qualitativo em reedições posteriores da obra. Puro engano. A edição ilustrada comemorativa do 30º aniversário da obra, apresentada em 21 de Março de 2007, no Teatro Tivoli, tem uma belíssima capa de António Jorge Gonçalves, que aqui fica.

O Que Diz Molero. Capa de António Jorge Gonçalves.

'O Que Diz Molero'. Capa de António Jorge Gonçalves.