As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Fotografia

Entre o sagrado e o profano

A mais que humana e terrena condição dos padres, revelada pela impagável fotografia de Adriano Miranda (roubada do Público, por favor não me processem, que quase sempre vos trato bem). Ontem durante a visita de Bento XVI à cidade do Porto, Jesus estava mesmo no centro das atenções.

© Público, Adriano Miranda

“Alice e os Estilistas”, by Annie Leibovitz

Claro, nestes tempos de “Alice no País das Maravilhas” (surge et ambula, Tim Burton dixit), a Vogue lembrou-se do material que tinha na sua edição de Dezembro de 2003. Uma ideia aparentemente simples: pegar em excertos do texto, numa única modelo (Natalia Vodianova, em registo muito Lolita) e num conjunto de prestigiados estilistas (ou designers, como se preferir) de moda. Cada um deles veste Alice e surge, quase sempre, na composição. Leibovitz trata de criar o conjunto. Simples? Aparentemente, disse-se. O jogo combinatório entre a textualidade, a encenação, as criações de vestuário, a participação dos designers, o cenário e o olhar da fotógrafa criam um vasto campo de combinações semânticas, bastante estimulante. Pode ser vista, a referida matéria, nesta galeria. Na imagem, a fotografia produzida para a criação de Tom Ford.

"I wonder if I shall fall right (...)", estilista: Tom Ford © Annie Leibovitz

O Efeito World Press Photo

Fotografar um ano é uma impossibilidade logística, mesmo que nos fiquemos pelo domínio do real. (Mais arrojado seria, e porventura interessante, se alguns esforços concertados tentassem, por exemplo, fotografar o “imaginário” de um ano. Mas talvez esse fosse um trabalho improvavelmente poético e pouco comercial.)

As grandes cadeias produtoras de conteúdos já perceberam o filão que o fotojornalismo proporciona, nestas compilações. A lágrima vende e a dor atrai. A procura de “instantâneos” que retratem a pobreza, o sofrimento, o acontecimento histórico, o momento raro acaba por produzir aquilo a que me apetece chamar “O Efeito World Press Photo”: a banalização da excepcionalidade.

Nos anos recentes, porém, assiste-se a uma tendência de viragem neste tipo de escolhas. A procura de situações geradoras de solavanco sentimental fácil, tipo criancinhas a morrer de fome, tem dado lugar a critérios mais aproximados a uma realidade desemocionalizada.

© Aaron Huey / Atlas Press

Nesta fotografia retirada da galeria da Time (The Year in Pictures 2009), podemos observar a grandeza de Seattle – a cidade da Microsoft, para os mais distraídos – , a partir de um acampamento de homeless.

Não nos deixemos enganar pela palavra. Homeless, aqui, não quer dizer sem-abrigo. Significa, literalmente, sem casa.

(Nela, a ausência do elemento humano torna-o absurdamente presente. Mais presente que o próprio contraste entre o primeiro plano e a grande cidade luzente. O Rio de Janeiro, por exemplo, poderia oferecer milhares de imagens deste contraste. But damn, this is America.)

Amazing Grace

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A silhueta do shuttle Atlantis, fotografada com o sol em fundo © NASA

A silhueta do 'shuttle' Atlantis, fotografada com o sol em fundo © NASA, no 'The First Post'

Ruy Belo – Coisas de Silêncio

Impresso na Guide-Artes Gráficas, Lda. (com um fabuloso preto e branco que só a técnica de impressão de retícula estocástica permite), em Junho de 2000 a editora Assírio & Alvim dava à estampa ‘Ruy Belo – Coisas de Silêncio‘, livro onde a fotografia de Duarte Belo fixa o ‘mundo’ de seu pai, Ruy Belo. Estamos no lado oposto ao da fotobiografia. Duarte Belo capta ‘momentos’ – correspondentes à estrutura do livro – definidos textualmente pelos autores, (o fotógrafo e Duarte Belo): «O primeiro momento representa alguns lugares que foram habitados por Ruy Belo e que muitas vezes surgem nos seus versos»; (…) «Num segundo momento, passamos o nosso olhar por alguns objectos do quotidiano de Ruy Belo»; (…) «Depois, há um terceiro e último momento de alguns rostos de identidade de Ruy Belo».

Duarte Belo fotografa, com um grande sentido do discreto, uma ausência. E é essa ausência que confere à obra intensa espessura e um sentido de perda, de desolação se instala. Acompanhadas por excertos da obra do poeta, e um texto de Manuel Gusmão, “Para a Dedicação de um Homem – Algumas variações em resposta à poesia de Ruy Belo“, é contudo, o texto de Luís Miguel Cintra, que abre o livro, a melhor leitura para o indizível que estas fotografias encerram. O seu silêncio povoado de sombras.

[O livro foi reeditado em tempos recentes, em edição de capa dura. A minha sugestão para a Feira do Livro de Lisboa, este ano]

Reconhecemo-nos ainda. Gostamos do mar e da terra a céu aberto. Árvores, searas, pedras, montes. Da praia. Dos campos. Das igrejas. Das aldeias e das cidades com passado e com ruas muito grandes. Dos textos antigos. De cartas e postais. E dos livros. E do povo. Das procissões. Dos cafés. Do cemitério. De ir ao cinema. Ler o jornal. Mozart e Bach. Não sabemos pôr gravata. Ainda temos camisas aos quadrados e vestimos camisola. Não gostamos da manha e da astúcia. Somos pobres. Temos o sol e só o que nos toca o coração. Alguns amigos mais. E carregamos nos ombros o amor da vida toda e uma enorme saudade de Deus. Somos católicos. Acreditamos na alegria e na pureza. Sabemos que o homem é Deus feito carne.

Reconhecemo-nos. Somos assim generosos, é verdade. Sem esforço. E não vamos mudar. Não sei se somos um grupo nem seremos com certeza uma geração, somos uma maneira de ser. E na poesia do Ruy nos encontramos.

Sou e quero ser irmão ou herdeiro dessa gente. Como o Duarte, legitimamente. E reconheço nas fotografias do Duarte, como na poesia do Ruy, a passagem das nossas vidas, os lugares, as nossas casas, os objectos a que nos afeiçoámos ou demos sentido, a memória dos nossos corpos, dos nossos encontros, dos nossos grandes amores ou da nossa paixão. A minha casa. Reconheço também o meu pai. Mas reconheço sobretudo o espaço. Ou o tempo. «O Tempo Sim o Tempo Porventura». Estas fotografias, o seu pudor, são o retrato de uma ausência. São fotografias da morte. Violentas. O que resta de um cidadão, a mudança das idades, as coisas que tinha, os lugares onde esteve ou onde estava, a roupa que vestiu, o que ficou do que escreveu. São o retrato do tempo que foge, imenso. Mas mais ainda, tanto, o retrato do que falta. Falta a vida neste vazio, neste espaço que vai da terra ao céu. E esse espaço, esse vazio, é exactamente o espaço das palavras do Ruy. O espaço do que vive. Perante a morte, constantemente, nesse único momento que se confunde com a solidão mas abraça o mundo inteiro e que nos dá a nós a dimensão da vida. Tão imensa diante do tempo que talvez nem na paixão possa encontrar a sua desejada desmedida. Tão grande que convoca Deus. E já não sabemos de que ausência falamos.

LUÍS MIGUEL CINTRA

 © Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]

© Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]


Férias no Afeganistão

Se nesta fotografia não há muito trabalho de photoshop, então acabei de ter um desejo delirante para as próximas férias. Mesmo que estes campos contenham muitas seivas de efeitos alteradores da consciência, o landscape é um regalo. Qualquer semelhança entre as imagens que estamos habituados a ver do Afeganistão e esta ‘alucinante visão’, revelam uma discrepância absurda.

'são papoilas, senhor...'

'são papoilas, senhor...'

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Muros

Pode evocar-se Berlim. Gaza. Muros de escândalo. Reflexos da fria racionalidade política que revela o rosto da intolerância, a face do medo do ‘outro’. Em Democracia a intolerância não é um valor. O medo não é uma resposta. E contudo… E contudo esta fotografia mostra um veículo a alisar a areia para tornar mais visíveis as pegadas humanas de quem ouse atravessar esta nova secção da “vedação flutuante EUA-México“. Triste nome retórico. Uma retórica ‘Democrática’. A perder de vista.

The First Post © David McNew/Getty Images

The First Post © David McNew/Getty Images

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Quem Quer ser Biliocanário?

Por amor de deus, como é que eles conseguem distinguir o melhor?

6.000 aves competem num concurso de canto, província de Yala, Tailândia © The First Post

6.000 aves competem num concurso de canto, província de Yala, Tailândia © The First Post

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convite dois – ‘Eu e os Outros’, de Ricardo Alevizos

Subscrever newsletters electrónicas tem destas coisas. Uma pessoa fica a fazer parte de uma mailing list que, sabe-se lá por que razões, acaba nas mailing lists de outras entidades. Não tendo, que me recorde, solicitado informação à Câmara dos Azuis (Arte & Antiguidades) recebo este convite por mail. Ma(i)les que vêm por bem. Possibilidade de descobrir o trabalho de Ricardo Alevizos (1969), na exposição Eu e os Outros, patente de 13 de Março a 2 de Abril, com inauguração dia 12, das 19 às 22h. O autor de arte digital fotográfica, representado na prestigiada Saatchi Gallery, tem um site onde se pode apreciar uma extensa galeria de trabalhos. A exposição, nas suas palavras:

“Eu e os Outros. O caminho até aos outros. Fico perto de Mim, fico perto dos Outros. Não sei… Fico no meio!
Pedi aos “Outros” que visitassem memórias passadas, que as vivessem em tempo real. Foram momentos intensos que se prolongam no tempo. Identifiquei-me com vários mundos, não entrei em nenhum. Vi o branco, vi o preto. De frente, descobri o que estava escondido. Memórias adormecidas pelo tempo, perturbadas por um grito. Pequenas etapas das nossas vidas, retratadas nesta exposição.”

'Animal', © Ricardo Alevizos

'Animal', © Ricardo Alevizos

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Outra Pietá – Jan Saudek

Jan Saudek nasceu em Praga em 1935. Quando muito jovem, ele e um irmão estiveram colocados num campo de concentração nazi e donde só por sorte conseguiram escapar às experiâncias de Josef Mengele. Saudek, que usa a fotografia como forma de expressão, foi um dos primeiros fotógrafos checos a ser conhecido no ocidente, o que lhe valeu a suspeita do governo checo até aos anos 80. As suas fotografias, inicialmente a preto e branco e, mais tarde, a cores, giram em torno da sexualidade e da relação entre homens e mulheres, velhice e juventude, vestuário e nudez. Em geral, adopta uma abordagem antagonista para alcançar poderosos efeitos pictóricos. Sem artifícios, a fotografia de Saudek penetra na plenitude da vida. A sua linguagem directa foi rápida e vivamente aclamada no mundo da arte. (fonte: http://oseculoprodigioso.blogspot.com/, onde pode ser visualizada uma galeria do autor.)

Pietá, Jan Saudek (1997)

Pietá, Jan Saudek (1997)

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Fotojornalismo. O Ano de 2008 (3) – África deles

Das 120 fotografias que a edição online do Boston Globe (boston.com) publicou como reflexos (e reflexões instantâneas) para uma visão do ano de 2008, selecciona-se ainda esta. O que impressiona, por muito socialmente incorrecto que seja dizê-lo, é o carácter primitivo extremo desta ‘arte da guerra’, o ataque em horda, como se milhares de anos de civilização (sim, a civilização exprime-se, também, na guerra) não tivessem passado por ali no Quénia Ocidental.

Maasai warriors cover a battle field as they clash with bows and arrows with members of the Kalenjin tribe in the Kapune hill overlooking the Olmelil valley located in the Transmara District in Western Kenya on March 01, 2008. The Massai, the Kalenjin and the Kisii tribes have recently clashed over ongoing land disputes that erupted after botched local elections during the general elections held in Kenya in December of 2007. Over twenty warriors from the tribes have been killed in bow and arrow battles near the borders of these tribes in the last couple of months. (Yasuyoshi Chiba/AFP/Getty Images)

Maasai warriors cover a battle field as they clash with bows and arrows with members of the Kalenjin tribe in the Kapune hill overlooking the Olmelil valley located in the Transmara District in Western Kenya on March 01, 2008. The Massai, the Kalenjin and the Kisii tribes have recently clashed over ongoing land disputes that erupted after botched local elections during the general elections held in Kenya in December of 2007. Over twenty warriors from the tribes have been killed in bow and arrow battles near the borders of these tribes in the last couple of months. (Yasuyoshi Chiba/AFP/Getty Images)

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Fotojornalismo. O Ano de 2008 (2) – O salvamento

A rescue helicopter prepares to hoist aboard surviving Japanese climber Hideaki Nara near the summit of Aoraki Mount Cook in New Zealand on December 5, 2008. A Japanese climber stranded for six days just below the summit had died just hours before rescuers reached him and a compatriot, local media reported. The two Japanese climbers were forced to huddle in a tent 50 meters below the 3,754-meter (12,349 feet) peak, as poor weather and high winds foiled attempts to rescue the men by helicopter. (REUTERS/The Christchurch Press/John Kirk-Anderson)

A rescue helicopter prepares to hoist aboard surviving Japanese climber Hideaki Nara near the summit of Aoraki Mount Cook in New Zealand on December 5, 2008. A Japanese climber stranded for six days just below the summit had died just hours before rescuers reached him and a compatriot, local media reported. The two Japanese climbers were forced to huddle in a tent 50 meters below the 3,754-meter (12,349 feet) peak, as poor weather and high winds foiled attempts to rescue the men by helicopter. (REUTERS/The Christchurch Press/John Kirk-Anderson)

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Fotojornalismo. O Ano de 2008 (1)

(obrigado, Pedro Catita)

A edição online do Boston Globe (boston.com) publicou, em três dias sucessivos, 120 imagens que procuram evidenciar aspectos, necessariamente parcelares, da realidade do mundo no ano que passou. Imagens de fotojornalismo, é certo – com a sua demanda impossível de objectividade e a busca de um efeito de verismo e emocionalização. Mas a realidade é, em algumas ocasiões, uma fortíssima fonte geradora de emoções. E a fotografia tem o poder de comunicar essa transferência entre o acontecimento (o instantâneo),  e a sua recepção e apropriação diferidas, sendo o tempo um factor paradoxal de amplificação e distanciamento. Aqui publicarei algumas dessas fotografias, nos próximos tempos.

Nota: as legendas ficam como estão no original, em língua inglesa. A preguiça da tradução é o único argumento válido que me ocorre.

Wounded Palestinians lay near Reuters news agency reporter Fadel Shaana's car after it was hit by an Israeli missile on April 16, 2008 in the central Gaza Strip. The Israeli air strike killed a Palestinian cameraman working for the Reuters news service and two other civilians, Palestinian medics and witnesses said. (MOHAMMED ABED/AFP/Getty Images)

Wounded Palestinians lay near Reuters news agency reporter Fadel Shaana's car after it was hit by an Israeli missile on April 16, 2008 in the central Gaza Strip. The Israeli air strike killed a Palestinian cameraman working for the Reuters news service and two other civilians, Palestinian medics and witnesses said. (MOHAMMED ABED/AFP/Getty Images)

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Fotografia do Dia (23) – O Templo

(em estado de krímsjúka)

Deveria, claro, por questões de oportunidade e excitação das gentes, encontrar uma fotografia espectacular do avião que caiu em pleno rio Hudson, Nova Iorque. Sempre é mais cosmopolita e a queda de um avião é como as águas de um rio, quando as olhamos: torna-se difícil afastar a vista. Mas esta fotografia, esta sala subterrânea, no extraordinário minimalismo e organização formal que mostra (e que mostra muito mais porque, na verdade, se destina a esconder), na sua ambivalente austeridade, matizada pelo suave dourado, encerra uma poderosa carga simbólica de uma era que parece ter acabado. Aqui residiam as entranhas do capitalismo, antes de serem desmaterializadas em complexas redes informáticas que geraram esquemas reprodutivos de capital no limite da decência. No limite da loucura. Comparado com o escritório de uma empresa de brokers em Wall Street, a austeridade imponente desta casa-forte de um banco suíço (repare-se no delicioso pormenor de um cofre aberto) convoca mesmo uma certa nostalgia. Assemelha-se a um templo.

An employee sits among safeboxes in the safe room of the Zuercher Kantonalbank in Zurich

An employee sits among safeboxes in the safe room of the Zuercher Kantonalbank in Zurich

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Fotografias do Ano de 2008, no The Guardian

Lisa Foreman and Ranjit Dhaliwal, editores de fotografia do The Guardian, seleccionaram aquelas que consideram ser as melhores ou mais pertinentes fotografias – estamos a falar de fotojornalismo – do ano que passou. Interessante é a forma como se apresenta a selecção: um clip de seis minutos, em slide-show, comentado pelos referidos editores. Tem a vantagem de destacar aspectos que o seu olhar experiente permite revelar. A escolha pode ser apreciada aqui.

Manágua. Um homem procura bens recicláveis numa lixeira municipal © Esteban Felix/AP

Manágua. Um homem procura bens recicláveis numa lixeira municipal © Esteban Felix/AP

Pietá

Por estes dias tropeço em Pietás – seria a Páscoa a altura certa. Envia-me o Alexandre Honrado, escritor, homem de e da rádio, autor do blogue República das Badanas e, como se poderá ver no seu blogue, vocacionado fotógrafo, este detalhe de um cruzeiro manuelino, situado em frente do portal da igreja do Convento de Nossa Senhora da Estrela, já fora das muralhas de Marvão. O cruzeiro tem a particularidade de ter uma dupla representação de cada lado da cruz: num dos lados a Senhora da Piedade e, do outro, Jesus crucificado. É um detalhe do primeiro que aqui se deixa, na sua rudeza invocando a dor, da Senhora da Piedade se trata, de uma Pietá tão talhada como talhadas são as mães que abraçam os filhos mortos.

Cruzeiro em Marvão. Nª. Srª. da Piedade (detalhe). © Alexandre Honrado

Cruzeiro em Marvão. Nª. Srª. da Piedade (detalhe). © Alexandre Honrado

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Fotografia do Dia (XXIII) – Atenas

A Grécia está a ferro e fogo desde há uma semana, com tumultos nas ruas, os quais, a partir de Atenas, se estenderam a outras cidades gregas. O rastilho foi a morte, perpretrada por um agente da polícia, de um rapaz de 15 anos, Alexandros Grigoropoulos. Mas a causa profunda radica na generalizada insatisfação popular com as actuais circunstâncias de vida e com o pacote económico que o governo de centro-direita aprovou para aproximar a Grécia dos ‘parâmetros europeus’. Ainda antes da crise. Depois, esta atingiu o país como um vento quente do deserto. A CNN, que tem um link especial para noticiar o que por lá se passa, publicou um artigo daqueles que só o jornalismo anglo-saxónico é capaz: tentar explicar tudo numa síntese Q&A. A fotografia é terrível, pela placidez como se olha para o rasto da violência. Eu quase aposto que 2009 trará outros incêndios sociais em países da UE. Em Portugal, em ano de eleições, é bom que Sócrates se cuide. Ele talvez não conheça o potencial de violência que se está a acumular na classe média urbana. Os professores são a ponta do iceberg.

Atenas, Grécia, 13 de Dezembro, 2008

Atenas, Grécia, 13 de Dezembro, 2008 - A burned-out car outside Athens Polytechnic following four days of anti-government riots

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The Queen and I

Esta assombrosa fotografia da Isabel II, cenograficamente composta por Annie Leibovitz, lembra-me que o sentimento que tenho pela monarca britânica sempre foi ambivalente. Por um lado admiro-lhe a coragem, a determinação, o férreo sentido do dever. Quando morreu a pobre pateta da Lady Di e o Blair e a plebe, e o próprio tíbio Carlos (Prince of Wales) lhe exigiram exéquias de Estado, Isabel II cedeu. Mas apenas porque percebeu que era fundamental para manter a ligação entre a “Família” e o Reino. Lá por dentro deve ter engolido sapos a espernear. E ela tinha razão, sob o ponto de vista institucional e sob o ponto de vista da virtus. Mas é esta mesmíssima razão e frieza no modo como encara o seu papel que a torna, de certa forma, inumana.

Esta fotografia revela. Isabel II não permanece apenas altiva e senhora de si, dominando tudo o que a circunda, numa perspectiva extraordinária, tendo como fundo uma idealização de paisagem. Não. Ela está apaziguada num contexto crepuscular, sombrio, soturno. O que a fotógrafa captou explica a dificuldade em “sentir” esta mulher. Ela é uma espécie de guardiã, não nos bons momentos – acho que nunca a vi rir  espontaneamente – mas nos maus. Como se as dificuldades a agigantassem. E o sofrimento lhe aumentasse a dignidade. A espessura. A dimensão icónica.

Voltando à morte da estouvada Diana, Isabel II encerra, em três palavras, o seu abismo. Num espantoso diálogo (soberbamente interpretado pela Helen Mirren (Dame) no filme The Queen) Carlos, o putativo herdeiro, e a Rainha trocam estas palavras:

CHARLES — That was always the extraordinary thing about her. Her weakness and transgressions only seemed to make the public love her more. Yet ours only make them hate us. Why is that? Why do they hate us so much?

The queen mutters under her breath.

ELIZABETH — Not ”us,” dear.

Queen Elisabeth II © Annie Leibovitz

Queen Elizabeth II © Annie Leibovitz

Fotografia do Dia (XXII) – Isabel II

Quarta-feira, com a pompa e circunstância seculares, Isabel II levou à Sessão de Abertura do Parlamento o Discurso da Coroa, previamente redigido por Gordon Brown, que ela mesma leu, claro, como sempre leu os discursos dos seus primeiros-ministros. A economia dominou a prédica. Com uma extraordinária precisão democrática repetiu-se o ritual: o líder da oposição, o tory David Cameron (um rapaz decidido) ‘malhou’ fortemente o discurso, aproveitando, aliás para explorar até ao tutano o escândalo do momento: a prisão do deputado conservador Damian Green, e busca ao seu gabinete no Parlamento por parte da polícia, sem mandado. Alegadamente por fugas de informação que comprometem a ‘segurança nacional’. Brown (com um ar terrivelmente cansado) defendeu-se como um velho leão e seria um osso muito duro de roer se o Reino Unido não estivesse economicamente de gatas.

'Desta vez não vou dois passos atrás dela...'

'Desta vez não vou dois passos atrás dela...'

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Fotografia do Dia (XXI) – Obama e a Secretary of State

'whispering & hoping'

'whispering hope'

The body language was friendly and appropriate, if not necessarily personal. Standing behind Mr. Obama during his remarks, Mrs. Clinton nodded as he spoke of the nation’s challenges; after the event ended, the two walked out of the room arm in arm, her hand gently patting his back.” – in The New York Times, ed. 02.01.2008

'watch your back'

'watch your back'

Não serão tanto as questões de política externa que os podem dividir. Serão os ressentimentos, a memória, a agenda de cada um, o cuidadoso estabelecimento de uma linha que dê a Clinton a visibilidade que deseja (e precisa) sem colidir com a liderança de Obama. Não podia haver melhor escolha para Secretary of State, conceda-se. Mas também não podia ser mais perigosa. Este é o primeiro desafio de Obama, ao chamar Clinton: a intimidade do inner circle. Por isso, mais que as palavras, Obama aproximou os corpos.