As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Ficção

Possidónio Cachapa — «O rio»

As águas subiram escuras. O homem estendeu o braço, o músculo amaciado sobre a carne sã e agarrou o pulso da mulher. Ela tinha nas mãos gordas um anel de noivado de onde a pérola desertara e uma aliança coberta de lama do rio.

— Agarra-me com mais força que tenho medo que escorregue.

Ele assentiu e estendeu mais a mão de modo a cobrir o braço da mulher de forma inabalável.

Do outro lado estava um homem magro a quem chamavam “Desconfiado”.

— Não se consegue…

Um murmúrio reprovador levantou-se entre os outros. Mas nessa severidade havia também a crença de que ele não falharia. Que não poderia falhar. A chuva começou a cair com mais força e as águas cresceram ainda um pouco mais.

Na margem, os filhos tremiam, abraçados uns aos outros. Tinham os cabelos espalhados pela cara, empurrados pelo vento e colados pela chuva e pelo medo. Havia, entre eles, um rapaz e uma rapariga muito altos. Não teriam mais de treze ou catorze anos mas a sua estatura elevava-se dos outros como um cacto se destaca das pedras. Olhavam-se de vez em quando. Desde o princípio que se olhavam. Sabiam mais do que os outros sobre o que poderia vir a acontecer. Eram demasiado novos para terem medo por mais alguém que por si próprios. Os sapatos enterrados na lama e tinham medo. Calçavam ainda os mesmos ténis com que tinham passeado entre as árvores, alguns dias antes, apenas. Não tinham tido medo ao dar as mãos, o céu a brilhar por cima deles entre árvores que davam frutos que ainda não se poderiam comer. Sorriam quando não imaginavam que o mundo se poderia transformar numa coisa realmente hostil e perigosa. Ouvia-se, nessa tarde, vozes de raparigas que passeavam, também elas, entre as dunas, descalças na areia quente, o chão uma lagoa imensa e dourada que não existia. Tinham agora na frente uma laguna concreta, movimentando-se incontrolável. E já não havia sol nem frutos nas árvores, nem vozes de moças ou andamentos de pássaros… Apenas os rios unidos a inundarem a terra inesperada, a desfazerem as dunas, a levarem as casas. E toda a alegria partira à medida que as vozes dos adultos se tornavam mais tensas e inquietas; que os braços dos adultos se fechavam uns sobre os outros; que os ombros começavam a configurar-se como uma ponte.

— Elias – disse o pai. E tudo nessa voz se partia ao pronunciar o nome do filho. Tudo nela se amaldiçoava por ter de chamar por ele, à medida que já não havia mais braços nem corpos de adultos para chamar. — Elias – repetiu o pai, do outro lado do círculo.

Ele olhou para ela durante um segundo, antes de entrar na água até à cintura. Abraçou-se aos que ainda havia pouco o passavam de colo em colo.

Melia hesitou um pouco. A mãe antecipou-lhe o gesto e gritou:

— Ainda não!

Mas já ela entrara nas águas, as saias curtas flutuando em redor. Os braços finos a sumirem-se entre os dos homens e mulheres. O rosto que procura sorrir para descansar a mãe. “Ainda não”, tinha dito esta.

As crianças pequenas começaram a subir pelo corpo dos mais velhos, agarrando-se-lhes aos cabelos e às orelhas, deixando marcas de unhas nas faces barbeadas, demorando-se tempo demais quando passavam pelos seus próprios pais e choravam. A tempestade aumentara a um ponto em que já quase não se respirava entre a chuva. E os meninos tentavam passar a um e um para a margem do rio que nunca tinha existido.

Mas o rio era longo e os adultos poucos. Foi o primeiro homem a perceber.

— Não nos salvaremos todos.

E toda a gente começou a gemer e a dizer os nomes das pessoas queridas. Ramos frágeis desprendiam-se das árvores e voavam em direcção às caras e às mãos que saiam das águas, ferindo. O rapaz e a rapariga tremiam, mas nem por um momento tentavam soltar as mãos. Nos ombros o peso das crianças pequenas que eram também elas embora não o parecessem.

— Façamos um círculo – disse o homem. —Uma pirâmide. As crianças mais pequenas que subam para as costas das que forem um pouco maiores e assim sucessivamente.

Por cima, Deus mandava as nuvens e a chuva e o vento e o frio e as trevas que cobriam o dia, enquanto por baixo tudo eram águas castanhas e revoltas, a terra desaparecida.

Os que estavam mais para a frente recuaram e, virando o corpo, deram as mãos aos primeiros. E sobre as suas cabeças, as crianças um pouco mais velhas puxavam para as costas as mais pequenas, as que mais choravam.

E as águas subiram e tocaram nas primeiras bocas que eram as das mulheres mais velhas. E a da rapariga que um dia tinha passeado com um rapaz por entre árvores de frutos verdes. E os últimos queixumes calaram-se, para ficar apenas o silvo da respiração que saía pelas narinas em pânico. Fecharam os olhos os filhos e esperaram que a água de baixo se unisse à que caía do céu.

E então, a chuva começou a decrescer. O vento diminui de intensidade. As nuvens mais escuras afastaram-se e a luz iluminou de novo o mundo que se esperava submerso. Deus recuou para a sua caverna do alto. Um pássaro apareceu a rasar as águas e desviou-se a tempo de chocar contra uma pirâmide de homens e mulheres que levantavam os filhos acima de si. E ao passar muito perto de uma menina que havia muito pouco começara a falar viu no reflexo dos seus olhos a história da sua própria vida. E só então se afastou, na direcção de um monte onde as águas começavam lentamente a baixar.

Cachapa, Possidónio, in «Contos que Contam», Lisboa: Centro Colombo, 2005

 

(colectânea de contos, “um projecto do Centro Colombo a reverter para o Instituto de Apoio à Criança”)

 

«monitoring the flood», christian © christian, via Deviantart (D.R)

Mário Cláudio — Improviso para duas estrelas de papel

[conto integrado no livro Do Conserto do Mundo [contos], com textos da autoria de Ana Paula Tavares, Arnaldo Santos, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Isabel Zambujal, João de Melo, Lídia Jorge, Mários de Carvalho, Mário Cláudio, Miguel Real, Patrícia Ferraz, Pedro Sena-Lino, Ricardo Cabaça, Ricardo Miguel Gomes, Richard Zimler, Rui Zink, Urbano Tavares Rodrigues. Coordenação de Ana Maria Martinho. Uma edição da Imprensa Nacional-Casa da moeda, de Outubro de 2010, iniciativa editorial integrada no âmbito do Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social.]

Improviso para duas estrelas de papel


São estrelas construídas sem paciência nem esperança, tão dadas às espirais da tormenta como ao toque silícico das longas línguas de saibro.

 

No chão articulam o catre-de-campanha, estremecem no abraço pelo trepidar do autocarro, erguem-se na madrugada para o duche repentino. Despertam o filho de bruços no beliche inferior, retiram-lhe o pijama, vestem-no para a escola. Saem para a rua onde rompe acarvoada a manhã, e os jornais pendem lívidos dos escaparates, e longas fileiras se cerram compactas nas paragens hirtas. Na chuva escalam o casario azul, com uma catedral sombria dominando vidas, varandas deitadas para vielas escorregadias, paredes de seminários e palácios transidas de invernia e musgo esfarelado. Exercitam a ternura contra uma e outra perspectiva de clarabóias e miradouros, telhados e escadórios, fachadas de azulejo e mercados marginais. Ficam sem escuna que os receba, Simões Botelho por sentenciar, os dentes cerrando todos os desafios, resignados às mãos entre mãos. A si mesma se cerca a cidade, exterminando o espaço em seu redor, concentrada lei que nenhuma infracção humaniza.

 

Começam insofridas por ensaiar o voo muito junto à terra, entre a extensão das searas e a cúpula aberta e translúcida.

 

Deixam um automóvel arfante, invadem o jardim dos organismos públicos, cortam a compósita flor que para sempre enquadra o dia. «É preciso morrer», dizem, encostando à boca o espelho dos moribundos; «é preciso beber», dizem, descobrindo países. Pernoitam em hospedarias clandestinas, com telefones desligados de medo, ramas de pinheiro, marcas de cerâmica, lâminas. Para eles se aparta o reposteiro escarlate, se lhes deparam os retratos régios, estáticos de veludos e carbúnculos, a história se entorpece de minúsculos canteiros interiores e de buxo.

 

No rasto das estrelas, pelos sulcos da fome, se abandonam guiados, tranquilos e loucos, Joana perseguindo o cadáver do homem pelas estradas de Espanha adustíssima, entre chufas de canalha e excrementos de mula.

 

O filho relata a estranha genética, reclama o direito de resultar, como todos os filhos que se sabem, do ventre virgem do pai. Divide a giz brinquedos e cobertores, fábulas e passeios de domingo.

 

Como diferem das estrelas as estrelas, rochas de fogo que nunca se cruzam, seguem além de além, trajectória que não se interrompe nem altera!

 

Realizam assim seu contrabando de violetas bravas, à revelia de mulheres legítimas e amigos estatutários. Dormem pelas valetas, acordam sacudidos de riso, a bombazine das calças tingida do amarelo poeirento das mimosas. Alimentam-se de pão e de queijo e de vinho clarete. Descansam a sesta contra a nave dos conventos galegos, com seus retábulos de oiro e seus palmares, trazidos ambos de uma América que os olhos de um nos olhos de outro já não precisam de alcançar. Adormecem de novo entre textos rascunhados, rápidas passagens do Requiem. Decifram quase o mistério dos alfabetos ibéricos, no vestíbulo do sono onde vogam hipocampos atónitos, perpassam esteiras súbitas de submersos meteoritos.

 

O movimento das estrelas acontece ainda em quartos de tecto baixíssimo, onde os cinzeiros se entornam, as bofetadas estalam, o choro rebenta.

 

Na destrambelhada noite do equinócio escolhem a forca dentro de casa, dobram-se de angústia sobre a estopa da otomana, evadem-se vomitando entrechos avulsos pelo veloz labirinto dos faróis. Assim se lhes tocam os dedos nos mamilos das raparigas de mármore, ou de cerosas folhas de camélia se lhes cobrem, descerrando os cadernos nas margens do lago. Os cães ladram no faro da senda que levam, e um noitibó lhes indica o atalho da saída.

 

Atrás das estrelas correm, por elas arrastados, a vontade no sentido delas transpondo abismos, peregrinando por capelas de seu culto, a que outras pombas se abrigam sempre que chove. No sol se confundem, nas esferas de refulgência, fazendo crepitar as pontas nas trevas de uma íris igual.

 

As crónicas antigas jazem arquivadas nas gavetas dos contadores de marfim, nas prateleiras dos imensos copeiros espanhóis, nas vitrines iluminadas de faces que o bafo embacia. Ora se lhes repousa a cabeça no ombro um do outro, ora se cortam os laços, ajoelhados e acenando na aresta mais fria da cama.

 

Fatigadas as estrelas se esfarrapam, tombam em pedaços de enfolipado papel-de-seda, e a armadura das asas é uma caveira de arames e madeira e cola ressequida. Mas os longes duram sempre, sempre duram, para quem quer que retenha os fios enredados.

 

Este título elegemos: Improviso para Duas Estrelas de Papel.


Cláudio, Mário, Do Concerto do Mundo [Contos], Lisboa: Imprensa-Nacional-Casa da Moeda, Outubro de 2010

Hopeless Homeless, Lia Sáile © Lia Sáile, via Deviantart

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