As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Edição

«Do Lado Esquerdo» — nasceu hoje uma nova editora de poesia, com novo livro de Maria Sousa.

Do Lado Esquerdo

Do Lado Esquerdo


Nasceu hoje uma nova editora de poesia, em Coimbra. «Do Lado Esquerdo» é iniciativa de Maria Sousa e de Nuno Abrantes, co-editores da revista digital a sul de nenhum norteque já contabiliza sete edições. O nome da editora, certamente inspirado no poema de Carlos de Oliveira «sobre lado esquerdo», revela apropriadamente a intensidade afectiva que os seus autores empregam na actividade de editores. Apresenta, igualmente, um jogo de sentidos, tal como o poema de Carlos de Oliveira o fazia, em tempos muito duros de luta contra a censura (mas também não o serão estes, nomeadamente no que à censura económica diz respeito?).

É justamente com um título de Maria Sousa, o livro Mulher Ilustrada, que se inaugura o catálogo da editora. Que o editor assuma igualmente o papel de autor é tradição antiga, nada a obstar. Mesmo porque se aguardava, já, um novo título da autora, depois de Exercícios para endurecimento de lágrimas, («Edições Língua Morta», 2010). Maria Sousa, que se define de forma bem original, em nota biográfica elaborada para a sua apresentação no Ciclo de Leituras Encenadas «Da Voz Humana», que teve lugar no ano transacto, na companhia «Escola de Mulheres — Oficina de Teatro». Escreve a autora: «Coisas que me fazem bater depressa o coração* O Outono, o cheiro da terra molhada, o som das ondas, o estalar das folhas secas, a minha família, os meus amigos, as janelas, a luz a atravessar cortinas brancas, nuvens, as canções do Tom Waits, livrarias antigas, livros e caderninhos, um olhar, um rir, o som da chuva, os poemas da Alejandra Pizarnik, os da Anne Sexton, viajar, despedidas, ouvir poemas meus em lituano, falar em público, cafés vazios, cigarros. E melancolia. *(plágio descarado ao titulo de um um texto da Sei Shonagon)». Acrescenta-se que Maria Sousa participou em várias revistas literárias (Criatura, Sítio, Saudade, Umbigo) e num Seminário de tradução literária organizado pela L.A.F. (Literature Across Frontiers); e que é autora de um dos mais antigos e prestigiados blogues relacionados com a poesia: «there’s only 1 alice»

Sobre o primeiro livro, e já com alguns dos poemas que compõem o agora inaugural Mulher Ilustrada, escrevi, na ocasião, que estávamos perante uma autora que trava  uma duríssima luta contra a ausência, revelada no silêncio, na impossibilidade de dizer; a tremenda prova dessa ausência nos lugares habitáveis, no quotidiano — a casa, a cama, o corpo, a voz — lides íntimas que se travam apelando à memória, inevitavelmente sem resposta, que esta se esconde num esquecimento tornado apaziguador, resgatado pela possibilidade de uma sílaba, da palavra escrita; trabalho de equilíbrio do sentimento de si travado no fio de um arame. Na poesia de Maria Sousa o eu é um outro (uma outra), à procura do retorno ao eu outro. Poemas onde se experimenta um incessante labor de resgate, ainda que, para tal, se organize, sem concessões, no largo tempo espectral da noite, um movimento incessante de contenção. É como engolir um grito.

Mulher Ilustrada acentua claramente a voz da autora, ampliando os lugares simbólicos, refazendo e renovando a semântica que lhe é peculiar, acentuando de forma mais elaborada, num trabalho incessante de depuração, onde a ironia e a nostalgia estão presentes, numa permanente elegia de um eu idealizado, perdido no confronto com a sua realidade íntima.

O resultado merece a maior atenção para uma obra em sólida construção, já em plena maturidade, que se ergue com um saber laboriosamente tecido.
 

 

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

Aqui se deixa o díptico que encerra Mulher Ilustrada, livro que pode ser adquirido nos lugares indicados na página da editora «Do Lado Esquerdo», na rede social «Facebook».

I

vejo-te na soleira da porta

hesitas. em cena apenas estou eu

penso em mudar-me

mas, entre erros e desculpas

falta-me espaço

 

se contares histórias serão daquelas que

ninguém quer ouvir

relatos de passeios de domingo onde há sempre ruínas

sim, restaram apenas ruínas escavadas no interior dos olhos

 

II

entras, não tens medo

rodeado de olhares com sono que ainda não sabem

que as palavras são sempre as mesmas

(uma espécie de cerimónia onde te repetes para evitar a morte)

 

mentimos os dois sobre uma história feita de fragmentos

 

dizes que nem sempre o guião é o mesmo

mas repetes-me o teu monólogo ao ouvido

 

“deixa-me sair” vou abandonar a personagem

que balança no vazio

 

última tentativa: observo-te e tu já não me vês

conheces-me tão pouco, não, isto…

isto não é um dueto, é um duelo

 

friamente o silêncio cai sobre nós

não há vozes nem adereços

(a cena está vazia)

 

há apenas uma cortina de vento onde as palavras

nunca se moldaram

 

Sousa, Maria, Mulher Ilustrada, Coimbra: «Do Lado Esquerdo», Janeiro de 2013

 

Gonçalo M. Tavares – Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

 

De certa forma esta é uma espécie de acto de contrição: tendo sido um dos que me insurgi contra o afastamento de Joana Morais Varela da Direcção da «COLÓQUIO Letras», e não retirando uma vírgula às virtualidades e especificidades que a mesma imprimiu à revista literária mais importante que se publica em Portugal, verifica-se que, sob a direcção de Nuno Júdice, na «COLÓQUIO» cumpriu-se a promessa de regresso à regularidade de publicação que se havia de alguma forma perdido (note-se que desde o ano de 2000 até 2009 saíram nove números, com um hiato de cinco anos entre 2004 e 2009, quando tomou posse a nova equipa, a qual já publicou sete!). Sem grande desvirtuação na qualidade do conceito gráfico (que é agora bastante mais sóbrio, sem o aparato requintadíssimo que chegou a possuir, mas ainda de um bom-gosto dificilmente discutível), é visível, após os dois números consagrados a Eduardo Lourenço, a tendência para, mantendo um tema (autor) principal, abrir a revista a um espectro de artigos, colaboradores e abordagens mais amplo, com uma forte incidência na «recensão crítica», uma atenção, que parece tendencial, ao campo da poesia e uma selecção de originais — embora irregular de edição para edição — com critérios mais largos, inclusivos e «aggiornati». Poesia, Ficção, Crónica, Entrevista parecem poder ocupar um lugar mais relevante, nesta nova fase da vida da «COLÓQUIO». Do seu número 173 se transcreve aqui, com a devida vénia e a título de divulgação, um texto ficcionado de Gonçalo M. Tavares. [Note-se que em nenhum lugar da revista, desde o número 170, encontrei qualquer referência à protecção de direitos de autor, o que só pode ser manifestamente lapso, para o qual se chama a atenção.]

 

Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

UM HOMEM com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio pede ajuda a outro homem.

Fala-se, pois, de dois homens. O homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio (um) pediu ajuda a um segundo homem (dois). Pediu-lhe, em suma, que fizesse algo divertido, que demonstrasse uma qualquer habilidade — colocar o pé atrás do próprio pescoço, fazer barulhos estranhos com a garganta, imitar animais através apenas do movimento dos olhos, enfim, que ele, este segundo homem, fizesse algo, uma habilidade qualquer, uma declamação, que conseguisse colocar o pé atrás do próprio pescoço, que conseguisse imitar animais através apenas do movimento dos olhos, qualquer coisa, mas que o convencesse, enfim, de que aquele sítio que era ele — pois uma pessoa por ser pessoa não deixa de ser sítio, de ocupar espaço, de ter altura, comprimento e volume — que conseguisse enfim mostrar a esse homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio que ele, o segundo homem, teria algo dentro de si mesmo, e portanto nele, pelo menos, neste segundo homem, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio não encontrará o nada que tanto está habituado a encontrar.

Pode revistar-me à vontade — poderia dizer o segundo ao primeiro homem, se este texto entrasse claramente na ironia.

Mas ainda não nasceu — como se diz nos momentos de grande e definitivo elogio — o homem capaz de sair à rua e dizer a quem passa:

— Podem procurar à vontade, dentro de mim não encontrarão o nada. Tudo em mim está ocupado e tem sentido. Em mim, nem o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse tal nada.

Ainda não nasceu, pois, homem que em público possa falar assim.


 

Tomo banho, escovo-me bem, ensaboo-me da ponta dos pés à cabeça, passando pelos órgãos mais íntimos. Seco-me com uma toalha e mesmo assim não consigo: algures, em mim, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse bocado de nada que o facto de nascer e ter uma certa percepção do mundo me deu direito e o dever de não largar.

Faço ainda como vi em filmes: sento-me num banco de jardim, isolado, olho para todos os lados para ver se alguém me vê e, depois de confirmar que estou sozinho e sem vigilantes, tiro — do bolso de uma camisa — um saco de plástico vazio e ali o deixo, só, vazio, e sem sentido, em cima do banco do jardim — para de imediato ser levado à força pelo vento que, embora quase inexistente, tem força sempre para arrastar um saco de plástico que nada guarda dentro de si. Mas tal exercício não basta para o que pretendia; não é assim que me liberto do nada que existe no sítio que sou enquanto animal com volume; e esse saco vazio pode ser conduzido como um veado cego pelo jardim da cidade, batendo imprudentemente contra as árvores, caixotes do lixo e outros obstáculos, bem pode essa simulação do meu nada que simulei atirar borda fora como se o corpo fosse um navio, e o mundo alto mar, e o saco vazio fosse a parte que em mim não me deixa ter um sentido para todas as coisas, bem pode essa simulação do meu nada avançar por empurrões sucessivos para o lado oposto onde me encontro agora, que jamais serei capaz, diante do homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio, de não tremer, de não ficar assustado, e perante a mera indicação para levantar os braços não os levantar de imediato e pedir perdão: sei que continuo com um bem localizado nada a montar e a desmontar consecutivamente tenda algures nesta parte mais débil deste meu organismo que uma mulher um dia, por descuido ou ilusão de apaixonada, chamou de belo corpo acima da terra. E nestes dias em que me sinto caminhar ao lado das toupeiras e com elas fazendo a melhor das amizades, eis que relembrar palavras simpáticas de uma mulher  me faz cair ainda mais, e soterrado, finalmente, por completo, sei que só se a morte me esconder mais ninguém, por mais que vasculhe, encontrará essa ponta do nada em que começou a minha depressão e em cujo centro a minha firme vontade de morrer se foi construindo, sólida e tranquila, como a construção sem pressas de uma casa.

Tavares, Gonçalo M., in COLÓQUIO Letras número 173, Janeiro / Abril 2010

«Just a Plastic Bag», Michalina © Michalina, via Deviantart (D.R.)

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Alexandre O’Neill – Um poema que circulou na clandestinidade

 

Aqui há um par de dias referi a colecção Horas Extraordinárias – Série de Inéditos da Imprensa, a propósito livro Urzes, de Manuel Hermínio Monteiro, nela dado à estampa. Nesta iniciativa do semanário O Independente (em alguns títulos contando com a colaboração da Assírio & Alvim, que partilha, de resto, o copywright, assinando Vasco Rosa o prefácio) foi editado um título com inéditos e dispersos de Alexandre O’Neill posteriores à edição das Poesias Completas do autor naquela casa editora, em 2001. Coração Acordeão reúne, assim, textos que haviam «escapado» àquele volume, como conta Vasco Rosa, no prefácio. Pela sua variedade, diversidade e desigual interesse (desigualdade essa muito mais promissora que o termo especifica), aqui se deixa um deles, de carácter biográfico/literário. Foi quase escolhido abrindo o livro onde calhasse, porque este se lê de uma ponta à outra, em pulinhos de estilo, em saltinhos de gozo. Não foi assim tão «ao acaso»: é sempre fascinante ler um autor escrever sobre a génese de uma obra (um poema) ainda que eventualmente «menor», e confrontar o que nos conta com o resultado final.

Antecede o texto e o poema o prefácio, de Vasco Rosa, que ajuda a perceber a aventura deste livro.

«A segunda edição Assírio & Alvim das Poesias Completas tornou assaz evidente, já em Novembro de 2001, que chegara a hora de empreender uma demanda exaustiva aos Dispersos de Alexandre O’Neill (1924-86), a larguíssima parte das quais em papel de jornal, de modo a identificar e permitir publicar todos os seus escritos, reimprimindo, na passada, dois livros de crónicas há muito esgotados: As Andorinhas não Têm Restaurante, Dom Quixote, 1970, e Uma Coisa em forma de Assim, Presença 1985 (antes 1980).

À generosidade do editor Manuel Rosa devo a oportunidade de unir nessa campanha os meus esforços aos de Perfecto C. Cuadrado, Maria Antónia Oliveira e Luís Manuel Gaspar, tornando o livro que o leitor tem agora nas mãos — com a quantidade de textos «desconhecidos» que transporta — uma peça do puzzle o’neilliano, produzida , ademais, no contexto de uma colecção de autores da segunda metade do século XX em que, só por absurdo, ele poderia faltar.

Dentro de semanas, senão dias, sairá — autêntico verso ou reverso deste Coração Acordeão — uma reedição de Uma Coisa em forma de Assim.

A Afonso e Teresa Gouveia dirijo um aceno d’amigo. A Luís Manuel Gaspar agradeço todas as informações genuinamente partilhadas. Aos funcionários da Hemeroteca de Lisboa, a paciência de meses.»

VASCO ROSA

Três publicações recentes dedicadas aos escritor: o n.º 13 de Relâmpago. Revista de Poesia da Fundação Luis Miguel Nava; o Caderno 2 do Centro de Estudos do Surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda; Alexandre O’Neill: Passo tudo pela Refinadora, de Laurinda Bom.

«Morte de Catarina Eufémia», José Dias Coelho (D.R.)

Um poema que circulou na clandestinidade

Não sei se foi o Carlos Brito ou o Fernando Correia da Silva quem teve, primeiro, a ideia de «vingar» poeticamente a morte de Catarina Eufémia, que, por deficiência de informação, nós julgávamos, ao princípio, chamar-se Maria da Graça Sapinho. O nome de quem a metralhou, esse, parece não deixar lugar a dúvidas: Carrajola.

Não era o apelido (como ainda hoje não é) que queríamos vituperar, mas aquele seu infame portador. Fechei-me em casa. Meditei o trágico acontecimento e logo senti que, de certo modo, ele era «abstracto» para mim. Eu desconhecia o Alentejo e, embora identificado com a luta dos camponeses alentejanos, a realidade do caso não me «entranhava» por forma a que eu arrancasse bem de dentro o meu protesto.

Senti, ao mesmo tempo, que não me podia ficar por palavras, que era preciso experimentar amor ou ódio. Entrei pelo desprezo. Foi então que me surgiu, antes de qualquer verso, este: És como um percevejo num lençol! A partir daí, a linha de força do poema estava encontrada. A segunda estrofe, endereçada a Catarina, é algo convencional. O que a salva é o verso, que reutilizei noutro poema: Quando o Alentejo se puser a rir.

Esses meus versos, que transcrevo de cor, juntaram-se a outros de gente amiga, e assim surgiu, tirado do copiador, um pequeno cancioneiro clandestino em memória de Catarina Eufémia. Alguém o terá guardado? Será ocasião de abrir os arquivos ou puxar pela retentiva para que este e outros documentos possam finalmente ver a luz (livre) do dia.


À MEMÓRIA DE CATARINA EUFÉMIA

Podes mudar de nome, carrajola

pôr umas asas brancas, arvorar

um ar contrito,

dizer que não, que não foi contigo,

disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha,

podes mudar de nome, carrajola,

de aldeia, de vila ou de cidade

— és como um percevejo num lençol!


Quando tivermos Portugal nos braços

e pudermos amá-lo sem sofrer,

quando o Alentejo se puser a rir,

Catarina Eufémia, minha irmã,

então o teu filho há-de nascer!


O’Neill, Alexandre, Coração Acordeão, Lisboa: O Independente, 2004

(previamente publicado na Flama, 24 de Maio de 1974)


Nota: escolheu-se o justamente conhecido desenho de José Dias Coelho, artista plástico e militante do Partido Comunista Português, também ele assassinado pela polícia do regime do Estado Novo.

 

Links Relacionados:

Sobre Alexandre O’Neill

Uma (muito boa) página sobre José Dias Coelho

Manuel Hermínio Monteiro – Escritores que se suicidaram

Para a minha geração, o Manuel Hermínio Monteiro foi o herói dos editores. O seu amor pela literatura, particularmente pela poesia, levou-o a pegar numa casa descaracterizada, a Assírio & Alvim, fazendo dela a grande referência das editoras que investiam naquilo em que acreditavam (em que o Manuel Hermínio acreditava), construindo um fabuloso catálogo, em grande parte constituído por autores que ele mesmo descobria, “empolgado”, ou recuperava para o olhar mais desatento dos outros. Dois exemplos: nos antigos Pascoaes, nos modernos Cesariny. Nele habitava uma atenção e um afecto profundos a tudo o que fazia. E uma extrema humildade perante a grandeza da escrita e o talento dos seus autores, de que tanto gostava (quem, hoje, tem este amor pelos autores e pela sua obra?). Ser publicado na «Assírio» passou a ser uma espécie de porto de chegada para esses mesmos muitos autores. De editora nas margens do mercado, a «Assírio» ganhou o seu público a pulso; em poucos anos era uma editora de prestígio; poucos passariam até se tornar uma sólida editora independente; que dava lucro. Tudo isto ocorreu durante as décadas de oitenta e noventa do século passado. Com a prematura morte de Manuel Hermínio Monteiro (1952 — 2001) a Assírio & Alvim manteve, é certo, a aura de prestígio que adquirira. Porém, perdeu aos poucos, o golpe de asa. Vive actualmente, em grande medida, da exploração  do seu brilhante catálogo. Arrisca pouco. No ano da sua anunciada morte Manuel Hermínio Monteiro preparou, conjuntamente com uma grande equipa que reuniu, a edição de A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, monumental colectânea de poesia de todos os tempos e lugares, que viria a constituir legado e testemunho do que era, verdadeiramente, editar. Na humildade que lhe era tão própria, não reconheceria grande valor à sua escrita. Era, contudo, senhor de uma prosa cristalina e serena; escrevia num português suave, culto e discreto, onde as muitas leituras, o convívio assíduo com o processo de escrita dos outros, as raízes transmontanas, se sentem, mas nunca se impõem aos textos que, aqui e ali, publicava. Em 2004, o “Independente”, na colecção Horas Extraordinárias, edita «Urzes», colectânea de textos do editor. Tudo tem um fim: a vida de um homem grande, um projecto editorial que conheceu uma vitalidade de que agora apenas podemos sentir nostalgia. Deste livro referido (que se pode talvez ainda encontrar em venda nalgumas estações do metropolitano de Lisboa), transcreve-se um admirável texto de Manuel Hermínio Monteiro, que muito gostava das artes-plásticas, escrito a propósito de uma exposição de Fernanda Fragateiro, pano de fundo para uma bela alegoria da floresta como o lugar simbólico que guarda a «entrega» e e «espiral da queda» dos escritores.

[Nota: na impossibilidade de conseguir obter  imagens digitais da exposição de Fernanda Fragateiro a que alude o autor, e não querendo ‘contaminar’ o espírito do texto e das obras nele referidas com outros trabalhos da artista, optei por utilizar fotografias que, entendo, se quadram em diálogo com o texto]


«Faded Intensity, Forgotten Life», Pagit, © Pagit, via Deviantar (D.R.)

Escritores que se suicidaram

Se o mar é buliçoso e falador, a floresta guarda melhor os seus e os outros segredos revestindo de calma a sua fúria. Mas ambos estão cheios de vozes. E se a profundidade do mar está preenchida de medos e de tesouros, os enigmas e os espíritos adensam a obscuridade da floresta. Fernanda Fragateiro, ao escolher a floresta como contraponto representativo dos livros e de escritores que se suicidaram sabe que esta é a casa imensa primordial de todas as bibliotecas, em cujos labirintos podemos perder-nos para sempre. E acontece que os mistérios das florestas dispõem de imperceptíveis tropismos, de uma sensibilidade selvagem e por vezes cruel, pelos quais sorvem os melhores espíritos, precipitando-os no vórtice de onde jamais sairão, a não ser pela glória da escrita. Eles são os mártires de um sacrifício tão empolgante como ignorado. Com um considerável susto, passamos ao lado do profundo escuro dos medos condensados. Ninguém pergunta se o direito que ainda temos a caminhos, a ar, à lua, ou ao adejar das ramagens não advirá do assumido martírio de uns quantos que nos deixaram, além da arquitectura e da beleza das suas palavras, um gesto radical indicativo. O que Fernanda Fragateiro mostrou na Livraria da Assírio & Alvim foi um diálogo silencioso, como acontece na melhor literatura. De um lado, inúmeras árvores em miniatura representavam uma floresta de aparentes repetições, organizando um espaço que valorizava os intervalos vazios entre as muitas árvores (são esses os nichos dos mistérios e dos sinais). Do outro lado, e na sequência da floresta de livros da livraria, uma prateleira com a indicação «Livros de autores que se Suicidaram». Poderiam constituir apenas uma especialização ou um assinalado segmento da livraria. A sinalética era exactamente igual à das outras secções. A artista, pelo contrário, diz que não. Os livros estão justamente no seu lugar próprio. Mas apesar das lombadas, das palavras impressas, eles agem num conjunto provocando uma energia que os destaca e os relaciona com os espíritos soltos da floresta. Os nomes de cada autor dão-se-nos pelos livros, mas, na verdade, pertencem a outra constelação nada doméstica e muito menos transaccionável. Vozes sopram do espírito da floresta e são tanto do óxido dos dias quanto os livros os livros que amarelecem têm em si o mais perdurável do corpo da floresta. E a floresta significa aqui o corpo da sociabilização, com as suas respectivas cedências e fracturas. À humanidade, estes escritores entregaram as palavras da criação para depois regressarem por conta própria ao Jardim Terreal. Depois de passarem os «claros del Bosque» (1) e as encruzilhadas várias, , de se afundarem na cinza escutarem provado as bagas e experimentado  o espinho. Depois de arrecadarem a aura das musas, a lenda dos gnomos e dos duendes e aspirando a Flor Azul, depois de terem entregue todas as palavras aos seus leitores, partem. Partem finalmente, directos à mão de Deus que, como reza o poeta suicida Antero de Quental, é onde repousa o coração dos que não se conformam  com o desleixo de um lugar  que primeiro foi paraíso deleitoso de homens e de árvores e do qual todos aceitámos, conformada e estuciosamente, ter sido definitivamente expulsos.»

(1) Aparente referência ao livro com o mesmo nome, de Maria Zambrano, autora de que M.H.M. muito gostava e editou. Excerto aqui.

Monteiro, Manuel Hermínio, Urzes, Lisboa: O Independente, 2004

(previamente publicado em A Phala, n.º 54, Março 1997.)

«Bench», Ilco Trajkovsky © Ilco Trajkovsky, via Deviantart (D.R.)

Links relacionados:

Manuel Hermínio Monteiro aqui, aqui e aqui

Cantigas de Romaria – As vozes dos homens pelos caminhos de Deus

página web da editora “Apenas Livros”

(clique para ampliar)

 

Uma daquelas designadas «pequenas editoras», a “Apenas Livros”, tem dado à estampa, em «edições de cordel» (palavra de hora que são mesmo) uma notável colecção de títulos que englobam uma enorme diversidade de temas (património imaterial, literatura tradicional, tradição oral, história de Portugal, ciência, antropologia, lendas e contos tradicionais, descobrimentos, festas tradicionais… enfim, é consultar o link no final deste post.

Por 3,80 € (garanto, e o preço médio dos livros da editora não excede este valor), comprei o livro com o título Cantigas de Romaria – As vozes dos homens pelos caminhos de Deus, de Ana Maria Paiva Morão, investigadora no “Centro de Tradições Populares Portuguesas Manuel Viegas Guerreiro” (CTTP), unidade de investigação integrada na Fundação da Universidade de Lisboa. Uma viagem lindíssima aos cantares dos romeiros, muito bem introduzida, apresentada e contextualizada, partindo de um acervo de fontes que revela aturado trabalho. Aqui se deixa um excerto, que talvez estimule quem ler à compra de um dos 250 exemplares.

«(…)

Os temas das cantigas de romaria

Se, numa primeira leitura mais apressada, estes cantos de romaria parecem meros cânticos de devoção a um qualquer santo, numa leitura mais atenta desenhar-se-á a grande diversidade de temas e motivos destas cantigas (…), a propósito dos vestígios dos antigos cultos ou das marcas do sagrado nelas encontradas.

Agrupá-las por temas dentro das invocações seria tarefa espinhosa, pois sob a mesma invocação se encontram sentimentos tanto religiosos (A) como profanos (B):

(A)

«Ó Senhora dos Remédios,

Minha mãe, minha madrinha!

Levar as almas ao Céu,

A primêra seja a minha» — (Cebolais de Cima, c. de Castelo Branco).

(B)

«Ó Senhora dos Remédios,

Defronte do arvoredo

Eu já tenho um amor

Mas é muito em segredo» — (Baião).

As cantigas de romaria, de facto, assumem o valor das preces, e vai-se ao santuário para pedir graças, à medida das necessidades de cada um, sendo frequente estarem os pedidos ligados à própria invocação ou atributo do santo.

Roga-se a saúde para os que amam:

«Nossa Senhora da Saúde,

Dai saúde ao meu amor,

Que está doente de cama

E querem dar-lhe o Senhor» — (Póvoa de Rio de Moinhos).

Pede-se a protecção dos perigos do mar:

«Ó Senhora da Saúde

Sois pequenina e bem feita;

Livrai os homens do mar

Dai-lhe a vossa mão direita» — (Oliveira do Hospital).

Livrar da vida militar é coisa ao alcance da Senhora:

«Senhora do Livramento

Livrai o meu namorado,

Que me vai deixar sozinha

Pela vida de soldado» — (Turquel, c. de Alcobaça).

Há, até, apelos de ajuda para a educação dos filhos indisciplinados:

«Mê Senhor São Marcos

Que amansais toiros brabos,

Amansai-me este filho

Que é pior que todos os diabos» — (São Marcos da Serra, c. de Silves).

O casamento é um dos dons mais apetecidos, ainda que com algumas condições:

«Ó meu rico São Gonçalo

Tende de mim piedade,

Deparai-me um maridinho

Consoante a minha idade» — (Amarante).

Um excesso de devoção desencadeia estrnhos desejos e o pedido de um noivo muito especial:

«Nossa Senhora da Lapa

Eu hei-de ser vossa nora,

Se me derdes o Menino

Que está no altar de fora» — (Sernancelhe).

E, já que se pede, aproveita-se, mesmo, para na mesma cantiga se fazerem dois pedidos:

«Senhora Santa Luzia,

Da capela de Moreira,

Dai-me vista aos meus olhos,

Casai-me que estou solteira» — (Arcos de Valdevez).

Um duplo pedido, feito à mesma santa, em Barcelos, pode assumir contornos mais drásticos:

«Lindos olhos tem António

Santa Luzia guardai-lhos!

Se eles não são para mim,

Santa Luzia tirai-lhos»

festejos em honra a Nossa Senhora da Saúde, em Canelas – Estarreja © blogue “Notícias d’Aldeia”

(clique para ampliar)

 

Links Relacionados:

editora Apenas Livros

Centro de Tradições Populares Portuguesas Manuel Viegas Guerreiro

João Miguel Fernandes Jorge e a importância de uma nota de posfácio, seguido de dois poemas (um de Joaquim Manuel Magalhães)

 

 

Um posfácio (neste caso, uma «Nota») pode ser um apêndice de circunstância (pode aliás ser muitas coisas). Raras vezes a nota final de um livro contribui de forma tão estimulante para a compreensão da petite histoire, ou da gesta que se encontra na origem de uma obra, como este texto de João Miguel Fernandes Jorge que fecha a edição de Obra Poética – Volume 3,  do referido autor. A transcrição desta nota revela-nos impressões e considerações do autor perante uma decisiva parte da sua obra e, o que é igualmente de grande pertinência, as histórias que cada um dos livros referidos lhe evocam. Nela, na «Nota», é como se um período de uma intensa importância na reformulação dos cânones da escrita poética em língua portuguesa nos surgisse, por um lado de forma evocativa, por outro quase como uma crónica. À transcrição da referida «Nota», seguem-se as transcrições de um poema de Cartucho e, compreensivelmente, do poema «28 de Setembro», de Joaquim Manuel Magalhães, na sua versão publicada em Os dias, pequenos charcos (a outra, a de Um Toldo Vermelho, não se justifica evidentemente transcrever aqui).

 

«Cartucho»

 

 

NOTA

 

A primeira edição de Meridional surgiu em 1976 na Plátano. Uma segunda versão foi publicada no Roubador De Água (1981). Com pequenas alterações é esta segunda a versão que sigo.

Vinte e Nove Poemas (1978) foi o primeiro livro da colecção Inverso (Regra do Jogo) e trazia, numa das páginas iniciais, uma polaróide de João Botelho. Pertencem a este livro poemas de 1977 e 78 e ainda poemas que foram contemporâneos de Sobre Sob Voz (1971). Alguns deles tiveram publicação anterior em Fevereiro, revista de poesia (1972).

Direito de Mentir (Arcádia, 1978) é um livro de que particularmente gosto. Inclui dois títulos anteriores: Cartucho (edição dos autores, 1976) e Man Ray, Oito Tiros à Sua Morte (O Oiro do Dia, 1977). Cartucho (a que correspondem os cinco primeiros poemas de «Poemas que estavam no Cartucho e outros que podiam lá ter estado»), foi um cartucho mesmo e onde me acompanharam o Joaquim Manuel Magalhães — a quem se deve a ideia —,  o António Franco Alexandre e o Hélder Moura Pereira.

O meu pai deu-nos os cartuchos, o cordel e os chumbos que os fechavam. Lá dentro ficaram poemas bem amarrotados. Mandámos imprimir um rótulo com os nossos nomes na tipografia «Proletariado Vermelho», que ficava no meu bairro. Não esquecer que corriam os gloriosos dias de 76! De resto, quando eu e o Joaquim vínhamos da Consolação com a mala do carro cheia de cartuchos acabados de fazer, fomos interceptados por uma operação stop das vigilâncias populares, à entrada da Calçada de Carriche. Ao mandarem abrir a mala do carro e ao verem os cartuchos perguntaram: — «O que é isto?» O Joaquim respondeu-lhes: — «São livros!» Como se de rosas se tratasse! Acharam coisa acertada para a revolução em curso. (Seria este o motivo para o seu poema «28 de Setembro» de Os dias, pequenos charcos).

Quanto a Man Ray, Oito Tiros À Sua Morte trazia consigo um desenho de António Palolo.

Mas o Direito de Mentir no dia em que ficou pronto e em que fui à editora buscar o primeiro exemplar, ao abri-lo, vi com grande espanto que os poemas não eram os que eu tinha escrito. O Direito de Mentir trazia o miolo do livro Voo Domestico de António Manuel Couto Viana. Houve que proceder à sua troca, pois os tão conseguidos poemas de Couto Viana sobre Luanda e o fim do Império não me pertenciam. Tudo acontecia como uma pequena ironia movida no cumprimento do título, já por si tomado a partir do texto «Sobre um pretendido direito de mentir por humanidade», de Kant.

Depois é a poesia pequeno jogo entre acaso e destino, entre matéria e memória. Quase posso chamar para este momento a presença do meu poema final de O Regresso dos Remadores (1982): «Poemas»: «Aspectos perdidos / pequenas sombras ao redor de poderosa imagem // Aquilo que / distingue a palavra ave da palavra pássaro.»

Há neste acaso e destino e nesta matéria e memória o carácter da experiência e da duração que encontra o seu fundamento na constituição íntima não só do seu criador, como na fantasia desse mesmo criador. Um passo para o surgir de um outro jogo: o que vai da presença de uma memória pura ao existir de uma memória (in)voluntária. Ontem, um parasita cultural escrevia acerca de um livro meu: «Este notável poeta é muito inteligente, e muito arguto nos objectos que escolhe, mas deixa-nos sempre a estranha impressão de raramente acertar. É uma espécie de Mr. Magoo feito caçador de borboletas.»

Agradeço-lhe a notabilidade e a inteligência. Tenho de ambos que me baste. E fico contente com a imagem de «Mr. Magoo». Em Mr. Magoo pode muito bem ter a poesia e a feitura da arte um seu sinal. Quase cego, pitosga, tudo trocando pelo objecto próximo, de quando em quando acerta ou julga acertar; e traz ao conquistado espaço do vivido a sua aparente borboleta.

Pequena criação; Mr. Magoo é bem o poeta ou o feitor da arte: uma vida inteira ou um breve instante para dar lugar a um verso e, quantas vezes somente um verso vai restar como sustentáculo de toda uma obra, que sempre permanece escondida em tudo o que o criador vê.

 

Consolação, 1 de Janeiro de 1988

 

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética, 3.º Volume — Meridional, Vinte e Nove Poemas, Direito de Mentir, Lisboa: Editorial Presença,  1988

 

«Mr Magoo»

 

 

POEMAS QUE ESTAVAM NO CARTUCHO

E OUTROS QUE PODIAM LÁ TER ESTADO

 

1

 

Como podemos esperar.

Aguardar o que as nossas mãos possam reter.

Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas

têm já o estado do vento

o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

 

Aguardar mais aguardar nada

Quanto mais se repete uma palavra

«estou sentado virado para a parede desta casa»

baixo, mais baixo ainda,

«estou sentado virado para a parede desta casa»

 

Fazer que não haja sucedido o sucedido.

O prazer de sentir chegar as coisas

O riso sob a chuva

O frio que faz. Aqui

 

Como podemos esperar uma noite de lua e vento?

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética, 3.º Volume — Meridional, Vinte e Nove Poemas, Direito de Mentir, Lisboa: Editorial Presença,  1988, p.91

 

 
28 DE SETEMBRO

Começou tudo na tourada.

Isto é, como devia ser. O curro

predispunha à intervenção.

Essa urgência de voltar à mesma

havia de turbar o meu regresso

a Lisboa. Barreiras CDE de resistência

coscuvilhavam bagagens à procura

de calibres, uma fila maçada

de automóveis burgueses era vista

como homens de mão do Spínola.

No meu vinham cartuchos,

perto de duzentos com poemas,

rótulo nominal e fio com chumbinho.

O polícia popular não entendeu,

«São livros, meu senhor!»

Outros dois não queriam crer.

Eu ateimei. Acabou tudo a rir-se.

Magalhães, Joaquim Manuel, 5º poema de Escritos militares, 8ª parte de Os dias, pequenos charcos (1981)

 

«28 de Setembro 1974 barricadas à entrada de Lisboa contra a "Maioria Silenciosa"» (arquivo: C.M.Odivelas)

“Morreste-me”

 

 

Socialmente a morte tem vindo a ser, no Ocidente, progressivamente escondida como acontecimento maior na experiência humana, ocorrência perante a qual se estruturam e organizam os comportamentos, os laços, a construção identitária, emocional, social; o confronto (encontro) espiritual que habitará em cada um. Por iniciativa da Pastoral da Cultura da diocese do Porto publicou-se e começou a ser distribuída hoje uma brochura com o título em epígrafe, que pretende, segundo Joaquim Azevedo, director do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, “ser um instrumento útil para cada pessoa promover a desocultação da morte e do seu sentido, nas suas vidas quotidianas”. Uma boa apresentação desta publicação pode ser encontrada aqui, mas realça-se o conteúdo, com cinco textos da autoria de António Filipe Barbosa, Fernando Rosas, João Duque, José Nuno Silva e José Pedro Angélico e três poemas, de Daniel Faria, Fernando Echevarría e José Tolentino Mendonça. Deste último, aqui se deixa, por já estar acessível online, o poema «Ilha dos Mortos».

 

Ilha dos Mortos

Enquanto iluminas a entrada do rio
o cobre emudece dinastias sem número
por degraus desiguais os mineiros,
os artesãos, as lavadeiras
lutam pela perfeição, lutam por Deus
em galerias remotas
as armas de caça vencidas
por ramos e arados

nenhuma morte é tão longa quanto a vida
diria quem pela primeira vez
visse debaixo de árvores sombrias
o sítio do mar, a porta das constelações
cem espantos possíveis
e no espanto uma esperança

o loureiro assinala a todos sua ciência negligenciada
címbalos, manuscritos e coroas
atiradas para o chão como vestimenta da batalha
insígnias do nosso posto de estrela em estrela

dão-nos sem nós pedirmos
ouvimos até sem querer
acima das arestas sombrias
a noite clara e os bosques

 

José Tolentino de Mendonça, in «Morreste-me», publicação do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura do Porto, 2010

 

«The Isle of the Dead» (“Basel” version) 1880, Arnold Boecklin

(clique para ampliar)

 

Finnegans Wake redux

"porra, onde é que eu ia?!"

(clique para ampliar)

Dois senhores pacientes, um linguista (Danis Rose) e um físico (John O’Hanlon), dedicaram 30 anos de vida a introduzir umas singelas 9.000 correcções e “pequenas” alterações ao original da célebre, polémica e problemática obra de James Joyce; nove milhares de pequenos nadas que, de acordo com os autores, conferem maior coerência e inteligibilidade ao texto: «Esta coerência foi restaurada por completo na nova edição e resulta no que se pode chamar a primeira edição definitiva da obra-prima de Joyce», afirmam, orgulhosos, os perpetradores.

Pois. Perante tanta confiança e júbilo, algumas perguntas se podem colocar:

Queremos ler o Finnegans Wake para o entender?

Queremos ler o Finnegans Wake?

Quereria o autor que a obra fosse arredondada e facilitada? Ou até simplesmente lida enquanto “leitura”?

Conseguiram Rose e O’Hanlon fazer mesmo alguma coisa de jeito, ou apenas usaram adoçante?

E pode plausivelmente acreditar-se que, agora-finalmente-até que enfim, com 9.000 pinceladas, a coisa fica assim “legível” e lobotomizada?

A avaliar por estas duas páginas dos apontamentos de Danis Rose, não creio. A quem se dispuser a gastar 900 libras na coisa (em edição especial) garanto que é uma arriscada decisão de investimento no mercado de bens culturais; aos outros, quase que afiançaria tratar-se de uma inutilidade.

revista INÚTIL 2

O lançamento é hoje, às 21h, no espaço da antiga Buchholz. A revista INÚTIL é um projecto de Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha.

Novos Poetas (53) – Helena Carvalho

Acaba de me chegar às mãos o n.º um da cràse – “revista de literatura emergente”, março de dois mil e dez, 250 exemplares, um luxo comparados com os 60 do número zero. Um luxo, também, a lista de autores e a fasquia qualitativa dos textos publicados, entre  poesia e  contos, sendo esta claramente uma edição mais forte que a primeira zero. Como não poderei divulgar todos (e de quase todos me apeteceria deixar um poema aqui) escolherei três ou quatro autores. E de escolha falo também com alguma propriedade.

E começo pela Helena Carvalho (Nazaré, 1982), poeta muito da predilecção deste sítio. (a autora: Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Poética e Hermenêutica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É actualmente professora no ensino secundário. Seleccionada para o Concurso Nacional Jovens Criadores 2009, na área de literatura, tendo publicado na Colectânea Jovens Escritores 2009. Colaborações dispersas em revistas literárias. Autora do blogue a luz da noite.).

Helena Carvalho apresenta, neste um da cràse, um conjunto de quatro fortíssimos poemas. Opta-se pelo primeiro deles, seguindo o critério mais neutro.

Foto-verbo-grafia


Interromper o branco da página como a cegueira branca dos olhos.

As palavras são folhas que se evolam da gravilha rasteira dos pátios

em fins de tarde outonais.

Uma imprevista aragem inicia-as na arte obscena do movimento –

um deslizar lânguido em pequenos sopros;

uma penetração violenta em remoinhos de pó, nojo e sentido.


Esperar a luz projectada que nunca chega inteiramente aqui.

A claridade desmedida adere à matéria urgente da visibilidade,

primeiro nos olhos

depois na ressonância incorpórea das películas. Cumpre-se a luz

numa câmara escura,

exposta na contenção profana das imagens planas e nas quatro dimensões

das pedras angulares.


Acontecer-nos a gestação das horas fragmentadas

dos quadros repetidos até à negação da sua aura.

Um sentido a rebentar na mão pueril e espantada,

como duas pernas de mulher prematuramente abertas

em posição de parto.


Nascer a palavra como uma fotografia em meio-tom

a mover-se pela sombra de si, no contraste abismal

entre a luz que se capta e a que ainda não chegou.

© Lia, Olhares Fotografia Online (D.R.)

A Phala de volta

phala

Inda agora passam oitenta e pouco minutos deste dia e este dia já o ganhei. «A Phala», essa informal e humilde invenção de Manuel Hermínio Monteiro, folha de amor à poesia e à literatura toda, que nos alentou durante anos, volta agora (após um número encadernado, único, aqui já referido) em formato digital. Antigamente distribuía-se de amigo em amigo, ia-se buscar à livraria do Terminal (valha-me deus!). Agora, está ao alcance de um clique. Bem-vinda, regressada «Phala». Uma vez sem exemplo, dela se copia um bocadinho. Para alvoroço da gente e matança de saudades de um futuro a muitas vozes.

Os Poemas de Melville

In Documenta Poetica on 6 06UTC Julho 06UTC 2009 at 12:09

Penso na pequena praça de Tarifa onde o vento chega sempre antes de mim. Tem a minha medida: três muros de cal voltados ao mar. Aí queria encontrar-me com Melville, e com mais ninguém. Um dia direi porquê.
Eugénio de Andrade
A selecção de poemas de Herman Melville foi elaborada a partir de três livros seus: Battle-Pieces and Aspects of the War, de 1866, John Marr and Other Sailors, de 1888, e Timoleon, Etc., de 1891. Excluí desta selecção Clarel — A Poem and a Pilgrimage in the Holy Land, de 1876, devido à extensão dos poemas que compõem as diferentes secções. Idêntica opção foi seguida relativamente à escolha dos poemas dos livros aqui antologiados, cuja extensão, em particular a dos monólogos dramáticos, tornaria inviável uma perspectiva prismática da sua poesia. A opção pelos poemas mais curtos é, aliás, corroborada pelos estudiosos de Melville que neles reconhecem os instantes mais relevantes da sua obra. Entre estes poemas tentei seleccionar aqueles que melhor transmitem a sua sensibilidade estética e as suas recorrências tópicas. A edição escolhida em língua inglesa foi The Poems of Herman Melville (The Kent State University Press, 2000), organizada por Douglas Robillard.
Um derradeiro aspecto: tradução ou versão? O próprio Douglas Robillard admite quão difícil era, para o contemporâneo de Melville, ler os seus poemas. Os jogos prosódicos, as interferências do Middle-English (meetly em «A exumação do Hermes», por exemplo), ou do anglo-saxónico (em «O Prenúncio», por exemplo, weird, é adaptado do anglo-saxão wyrd, estranho), a sistemática convocação de vocábulos náuticos, de jargão científico (em «O icebergue», por exemplo, needle-ice é um fenómeno de congelamento), coexistindo e/ou dialogando com referências a divertimentos ou jogos (ainda em «O icebergue» a referência a jack-straw), as rimas, os jogos intertextuais, de difícil compreensão para quem não esteja familiarizido com o conjunto da sua obra narrativa e poética, os ecos biográficos, perceptíveis apenas ao conhecedor das suas circunstâncias biográficas, as enigmáticas elisões (veja-se o título de «Lamento de C______»), faziam dele, no século XIX, um poeta difícil. Não menos o será hoje. Talvez por tudo isto não sei se aquilo que apresento são traduções ou versões dos seus poemas; talvez sejam apenas versões, versões feitas por quem há trinta anos tem vindo a sentir um intenso fascínio pela obra deste escritor maior. Um fascínio e um apelo que Eugénio de Andrade tão bem sintetizou.
Algures na década de 1930, um ensaísta americano considerou que era tempo de descobrir a obra poética de Herman Melville. Este é o meu modesto contributo nesse sentido para os leitores de língua portuguesa.
melville
Penso na pequena praça de Tarifa onde o vento chega sempre antes de mim. Tem a minha medida: três muros de cal voltados ao mar. Aí queria encontrar-me com Melville, e com mais ninguém. Um dia direi porquê.»
Eugénio de Andrade
[nota: o artigo continua, com uma introdução à edição dos Poemas de Melville, da autoria de Mário Avelar, e uma escorreita cronologia. Mas esta é apenas uma das phalas desta primeira edição, não numerada, de 6 de Junho].



Isto é um ‘press-release’, sim senhores, Contra a Manhã Burra

Envia-me a Helena Viera, da Mariposa Azual, a seguinte informação, que transmito com muito gosto:

Miguel-Manso escreveu e editou CONTRA A MANHÃ BURRA em 2008.
A pequena edição de 250 cópias editadas pelo autor, esgotou rápida e surpreendemente.
Manuel de Freitas e José Mário Silva deram pelo caso e informaram das muitas razões
pelas quais devíamos prestar atenção a este livro.
Nuno Moura trouxe o texto à Mariposa Azual para que a palavra continuasse a circular.
A 2ª edição está disponível 5ª feira, às 21h, na associação crew hassan, Lx,
em ambiente de Festa.
apresentação do livro –  João Pacheco
leitura de alguns poemas pelo Miguel-Manso
e alguns temas originais do estreante grupo – Babilónia Reduzida.
'Bora lá de noite, de manso, contra a manhã burra'

'Bora lá de noite, de manso, contra a manhã burra'

Ruy Belo – Coisas de Silêncio

Impresso na Guide-Artes Gráficas, Lda. (com um fabuloso preto e branco que só a técnica de impressão de retícula estocástica permite), em Junho de 2000 a editora Assírio & Alvim dava à estampa ‘Ruy Belo – Coisas de Silêncio‘, livro onde a fotografia de Duarte Belo fixa o ‘mundo’ de seu pai, Ruy Belo. Estamos no lado oposto ao da fotobiografia. Duarte Belo capta ‘momentos’ – correspondentes à estrutura do livro – definidos textualmente pelos autores, (o fotógrafo e Duarte Belo): «O primeiro momento representa alguns lugares que foram habitados por Ruy Belo e que muitas vezes surgem nos seus versos»; (…) «Num segundo momento, passamos o nosso olhar por alguns objectos do quotidiano de Ruy Belo»; (…) «Depois, há um terceiro e último momento de alguns rostos de identidade de Ruy Belo».

Duarte Belo fotografa, com um grande sentido do discreto, uma ausência. E é essa ausência que confere à obra intensa espessura e um sentido de perda, de desolação se instala. Acompanhadas por excertos da obra do poeta, e um texto de Manuel Gusmão, “Para a Dedicação de um Homem – Algumas variações em resposta à poesia de Ruy Belo“, é contudo, o texto de Luís Miguel Cintra, que abre o livro, a melhor leitura para o indizível que estas fotografias encerram. O seu silêncio povoado de sombras.

[O livro foi reeditado em tempos recentes, em edição de capa dura. A minha sugestão para a Feira do Livro de Lisboa, este ano]

Reconhecemo-nos ainda. Gostamos do mar e da terra a céu aberto. Árvores, searas, pedras, montes. Da praia. Dos campos. Das igrejas. Das aldeias e das cidades com passado e com ruas muito grandes. Dos textos antigos. De cartas e postais. E dos livros. E do povo. Das procissões. Dos cafés. Do cemitério. De ir ao cinema. Ler o jornal. Mozart e Bach. Não sabemos pôr gravata. Ainda temos camisas aos quadrados e vestimos camisola. Não gostamos da manha e da astúcia. Somos pobres. Temos o sol e só o que nos toca o coração. Alguns amigos mais. E carregamos nos ombros o amor da vida toda e uma enorme saudade de Deus. Somos católicos. Acreditamos na alegria e na pureza. Sabemos que o homem é Deus feito carne.

Reconhecemo-nos. Somos assim generosos, é verdade. Sem esforço. E não vamos mudar. Não sei se somos um grupo nem seremos com certeza uma geração, somos uma maneira de ser. E na poesia do Ruy nos encontramos.

Sou e quero ser irmão ou herdeiro dessa gente. Como o Duarte, legitimamente. E reconheço nas fotografias do Duarte, como na poesia do Ruy, a passagem das nossas vidas, os lugares, as nossas casas, os objectos a que nos afeiçoámos ou demos sentido, a memória dos nossos corpos, dos nossos encontros, dos nossos grandes amores ou da nossa paixão. A minha casa. Reconheço também o meu pai. Mas reconheço sobretudo o espaço. Ou o tempo. «O Tempo Sim o Tempo Porventura». Estas fotografias, o seu pudor, são o retrato de uma ausência. São fotografias da morte. Violentas. O que resta de um cidadão, a mudança das idades, as coisas que tinha, os lugares onde esteve ou onde estava, a roupa que vestiu, o que ficou do que escreveu. São o retrato do tempo que foge, imenso. Mas mais ainda, tanto, o retrato do que falta. Falta a vida neste vazio, neste espaço que vai da terra ao céu. E esse espaço, esse vazio, é exactamente o espaço das palavras do Ruy. O espaço do que vive. Perante a morte, constantemente, nesse único momento que se confunde com a solidão mas abraça o mundo inteiro e que nos dá a nós a dimensão da vida. Tão imensa diante do tempo que talvez nem na paixão possa encontrar a sua desejada desmedida. Tão grande que convoca Deus. E já não sabemos de que ausência falamos.

LUÍS MIGUEL CINTRA

 © Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]

© Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]


Colóquio/Letras – O novo director, o mail e a ‘farpa’

Recebo ontem, às 16h15m, um e-mail enviado por Sara Pais (não tenho o prazer de conhecer), do ‘Serviço de Comunicação’ da Fundação Calouste Gulbenkian, na caixa de correio electrónico deste blogue. Agradeço. Acontece que, por nunca ter dado este endereço à FCG (recebi um e-mail, não um comentário), e estando ele apenas público no blogue, uma de três hipóteses se colocam:

– A FCG dispõe de uma base de dados excepcional, e decidiu fazer um mass-mail à população portuguesa;

– A FCG está muito atenta à blogosfera e deu-se ao trabalho de informar mesmo um blogue de escassa expressão;

– A FCG teve acesso à lista dos subscritores do texto ‘Sentimento de Admiração‘, colocado online por um grupo de admiradores do trabalho de Joana Morais Varela à frente da Colóquio/Letras (texto que subscrevi). Joana Varela contra quem, como recorda Eduardo Pitta, continua a decorrer processo disciplinar (visando despedimento).

Não sei porquê, aposto no último cenário.

E fico com mixed feelings. Por um lado, fosse eu alma burocrata e picuinha, e deveria considerar este mail como spam (correio electrónico não solicitado nem desejado) e a base de dados onde ele consta ilegal (por, como obriga a Lei, não declarar como foi obtido o meu endereço electrónico e não ter um disclaimer para a eventualidade de eu não desejar receber informação do ‘Serviço de Comunicação’ da Fundação Calouste Gulbenkian)

Por outro lado, ele dá conta de notícias sensatas. Afigura-se acertada a escolha de Nuno Júdice, que nem precisaria da caução de um Conselho Editorial presidido por Eduardo Lourenço. Em não precisando, bom é tê-lo.

Mas o que me chateia, e apenas isso, no mail da Fundação Calouste Gulbenkian é a desnecessária ‘farpa’ constante no penúltimo parágrafo. Porque induz a ideia de que a irregularidade temporal na edição da Colóquio/Letras colocava em causa a sua continuidade. É feia e um pouco canhestra esta forma de apoucar o passado. O passado que tem inscrito o nome de Joana Morais Varela.

[Transcrevo o texto integral do e-mail recebido. O sublinhado a azul é meu. Os sublinhados a Bold vinham no e-mail. Curiosamente apenas destacam nomes. Pois. Tudo parece uma questão de nomes. Nomes com peso e estatuto sempre ajudam a apagar outro nome, não é?]

Nuno Júdice é o novo director da Revista Colóquio-Letras, na sequência da decisão do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian de nomear uma nova direcção e um conselho editorial para a revista, de modo a garantir a sua publicação regular e os compromissos assumidos perante o público e os assinantes.

O conselho editorial da Colóquio-Letras será presidido por Eduardo Lourenço.

A Administração da Fundação Calouste Gulbenkian pretende que a revista continue a ser uma referência no campo literário, o que sucede desde 1971, seguindo os princípios e valores que a nortearam desde a sua criação e orientação por Hernâni Cidade, Jacinto Prado Coelho, David Mourão-Ferreira e Joana Varela.

Tendo em conta que o último número da revista, referente a 2004, foi apresentado em meados de 2007, pretende-se, a partir do início de 2009, retomar a publicação regular da revista, garantindo a sua continuidade.

Nuno Júdice é ensaísta, poeta, ficcionista e professor universitário, tendo desempenhado, em Paris, os cargos de conselheiro cultural da embaixada portuguesa e delegado do Instituto Camões.

(NOTA: por uma questão de ética, enviarei este post, em resposta, a Sara Pais, ‘Departamento de Comunicação’, Fundação Calouste Gulbenkian).

Colóquio/Letras - capa do número duplo 168/169

Colóquio/Letras - capa do número duplo 168/169

Le Carré no Courrier – um serviço

Ainda a propósito do número de Dezembro do referido Courrier Internacional, a edição salva-se em grande estilo com um esplêndido texto biográfico de John Le Carré (uma devoção, desde ‘A Perfect Spy‘) onde o escritor relata, num tom supinamente irónico, os seus tempos de espião profissional. Como a peça em causa tem o título «The Madness of Spies – A Secret Service secret» e, na tradução portuguesa (não assinada) surge redutoramente vertida em «Um segredo dos Serviços Secretos»; como o texto começa desta forma: «I carried my first 9-mm. automatic Browning when I was just twenty years old. I was a National Service second lieutenant in the Intelligence Corps in Austria. It was my first clandestine mission, and I was in heaven.», e a tradução nos oferece «Tinha apenas 20 anos, quando tive a minha primeira Browning automática de 9mm. Era segundo-tenente do National Service, em serviço no Intelligence Corps, o destacamento dos Serviços Secretos britânicos na Áustria», penso que presto um decente ‘serviço’ ao deixar aqui o link para o texto original, publicado em 29 de Setembro no The New Yorker.

Nota: Na capa do mencionado C.I., surge o título «Espionagem – John Le Carré conta a sua história». Se o título referido no post anterior era, verdadeiramente, um understatement, este é, em boa verdade, um exageradíssimo overstatement. Critérios).

'lindo serviço...'

'mas que lindo serviço...'

Sob o signo de Llansol

Com entusiasmo, Helena Vieira, directora da Mariposa Azual e sócia activa (se bem a conheço, hiper-activa) do Espaço Llansol, faz chegar a notícia da evocação de Maria Gabriela Llansol, dia 24 de Novembro, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Sintra. É a data de nascimento da escritora que se celebra e serve como convocação do evento, onde serão apresentados dois livros dedicados à sua obra (ver, Programa, abaixo), ambos editados pela Mariposa Azual, na nova colecção, já aqui anunciada, Rio Da Escrita. Como não é todos os dias que podemos encontrar Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça comentando obras de João Barrento e de Maria Etelvina Santos, (havendo ainda lugar à leitura de fragmentos dos Cadernos Inéditos a cargo de Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça, sendo que os próprios autores das suas obras falarão, estamos perante um acontecimento cultural que deve ser acompanhado e, de preferência, presenciado. A entrada é livre. Não me consta que haja croquetes e tapas, com copinhos de porto e sumo de laranja. Se assim for, ainda bem. Se houver, olha…

PROGRAMA

MARIA GABRIELA LLANSOL
Um Lugar e um legado

Sessão evocativa e lançamento de livros
Biblioteca Municipal de Sintra
24 de Novembro de 2008, 18 h.

• João Barrento: «Llansol entre nós»
• Maria Etelvina Santos: «M. G. Llansol – Um registo de vida»
• Leitura de fragmentos dos Cadernos inéditos por
Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça,
• O espólio de Maria Gabriela Llansol: uma visita virtual

• Helena Vieira apresenta a Mariposa Azual
• Apresentação dos livros da nova colecção «Rio da Escrita»,
da editora Mariposa Azual:

• Como Uma Pedra-pássaro que Voa. Llansol e o improvável da leitura

de Maria Etelvina Santos, por José Tolentino Mendonça

• Na Dobra do Mundo. Escritos LLansolianos, de João Barrento,

por Gonçalo M. Tavares

(APOIO: Câmara Municipal de Sintra)

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos'. João Barrento

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos' - João Barrento

'Como uma pedra pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos

'Como uma pedra-pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos