As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Cultura

Correntes d’Escritas — «Sondagem As Folhas Ardem»: Vote na sua obra preferida.

© Câmara Municipal da Póvoa do Varzim (D.R.)

O Prémio Literário Casino da Póvoa, este ano atribuído à poesia, será anunciado dia 23 de Fevereiro, no âmbito do evento Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, notável e corajosa iniciativa da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, evento de crescente e muito assinalável importância na dinamização do conhecimento e do contacto entre os leitores, os autores, as obras. Justíssima a lista pré-seleccionada, sendo o prémio atribuído por um júri respeitável: Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Fernando Pinto do Amaral, Patrícia Reis e valter hugo mãe.

Como é referido na página das Correntes d’Escritas, «Esta selecção resultou de cerca de 150 obras concorrentes de autores de língua portuguesa, castelhana e hispânica, com obras em português, editadas em Portugal (1ª Edição) entre Julho de 2008 e Junho de 2010. Ficaram excluídas as Obras Póstumas, Obras Completas e Compilações e Obras de Literatura Infanto-Juvenil. Também não foram admitidas a concurso obras de autores que tenham sido galardoados com o Prémio Literário Casino da Póvoa nos últimos seis anos. Recorde-se que este Prémio tem um valor de 20 mil euros e este ano distingue poesia. (…) A 22 de Fevereiro, dia anterior ao arranque da 12ª edição do Correntes d’Escritas, o júri reúne pela última vez para decidir qual o vencedor do prémio, decisão que será anunciada no dia 23, na sessão pública de abertura do Encontro. O prémio é entregue no dia 26, na sessão de encerramento.»

*

Lamentavelmente não fazemos todos parte do júri. Por isso, decidiu por unanimidade o conselho de administração deste blogue (1 voto a favor/0 contra), proporcionar a quem quiser a possibilidade de votar na sua obra preferida.

Algumas indicações e notas:

1 — Cada votante pode exprimir a sua preferência apenas uma vez e assinalar três (3) obras;

2 — O termo da votação expira no próprio dia 23 de Fevereiro, data em que o júri (oficial) anuncia o prémio (oficial);

3 — As obras estão alinhadas por ordem alfabética;

4 — Não há um prémio para os votantes; isto não é uma sondagem para acertar no vencedor;

5 — Pede-se a quem votar e/ou tomar conhecimento da iniciativa, que a divulgue. No final das contas,  dez ou vinte votantes já serão uma manifestação impressionante;

6 — O objectivo desta «sondagem» é apenas um: divulgar o evento e, de passagem, estimular o conhecimento das obras e do trabalho dos autores a concurso. Não tem apoio, incentivo, nem é do conhecimento oficial de entidades organizadoras, de qualquer instituição, editora, autor ou seja de quem for.

 

Dito isto, toca a votar nas obras de que gosta mais!

Correntes d’Escritas — Prémio Literário Casino da Póvoa

«Sondagem As Folhas Ardem»

Links relacionados:

Página do «Correntes d’Escritas» no site da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim

Gonçalo M. Tavares – Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

 

De certa forma esta é uma espécie de acto de contrição: tendo sido um dos que me insurgi contra o afastamento de Joana Morais Varela da Direcção da «COLÓQUIO Letras», e não retirando uma vírgula às virtualidades e especificidades que a mesma imprimiu à revista literária mais importante que se publica em Portugal, verifica-se que, sob a direcção de Nuno Júdice, na «COLÓQUIO» cumpriu-se a promessa de regresso à regularidade de publicação que se havia de alguma forma perdido (note-se que desde o ano de 2000 até 2009 saíram nove números, com um hiato de cinco anos entre 2004 e 2009, quando tomou posse a nova equipa, a qual já publicou sete!). Sem grande desvirtuação na qualidade do conceito gráfico (que é agora bastante mais sóbrio, sem o aparato requintadíssimo que chegou a possuir, mas ainda de um bom-gosto dificilmente discutível), é visível, após os dois números consagrados a Eduardo Lourenço, a tendência para, mantendo um tema (autor) principal, abrir a revista a um espectro de artigos, colaboradores e abordagens mais amplo, com uma forte incidência na «recensão crítica», uma atenção, que parece tendencial, ao campo da poesia e uma selecção de originais — embora irregular de edição para edição — com critérios mais largos, inclusivos e «aggiornati». Poesia, Ficção, Crónica, Entrevista parecem poder ocupar um lugar mais relevante, nesta nova fase da vida da «COLÓQUIO». Do seu número 173 se transcreve aqui, com a devida vénia e a título de divulgação, um texto ficcionado de Gonçalo M. Tavares. [Note-se que em nenhum lugar da revista, desde o número 170, encontrei qualquer referência à protecção de direitos de autor, o que só pode ser manifestamente lapso, para o qual se chama a atenção.]

 

Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

UM HOMEM com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio pede ajuda a outro homem.

Fala-se, pois, de dois homens. O homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio (um) pediu ajuda a um segundo homem (dois). Pediu-lhe, em suma, que fizesse algo divertido, que demonstrasse uma qualquer habilidade — colocar o pé atrás do próprio pescoço, fazer barulhos estranhos com a garganta, imitar animais através apenas do movimento dos olhos, enfim, que ele, este segundo homem, fizesse algo, uma habilidade qualquer, uma declamação, que conseguisse colocar o pé atrás do próprio pescoço, que conseguisse imitar animais através apenas do movimento dos olhos, qualquer coisa, mas que o convencesse, enfim, de que aquele sítio que era ele — pois uma pessoa por ser pessoa não deixa de ser sítio, de ocupar espaço, de ter altura, comprimento e volume — que conseguisse enfim mostrar a esse homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio que ele, o segundo homem, teria algo dentro de si mesmo, e portanto nele, pelo menos, neste segundo homem, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio não encontrará o nada que tanto está habituado a encontrar.

Pode revistar-me à vontade — poderia dizer o segundo ao primeiro homem, se este texto entrasse claramente na ironia.

Mas ainda não nasceu — como se diz nos momentos de grande e definitivo elogio — o homem capaz de sair à rua e dizer a quem passa:

— Podem procurar à vontade, dentro de mim não encontrarão o nada. Tudo em mim está ocupado e tem sentido. Em mim, nem o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse tal nada.

Ainda não nasceu, pois, homem que em público possa falar assim.


 

Tomo banho, escovo-me bem, ensaboo-me da ponta dos pés à cabeça, passando pelos órgãos mais íntimos. Seco-me com uma toalha e mesmo assim não consigo: algures, em mim, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse bocado de nada que o facto de nascer e ter uma certa percepção do mundo me deu direito e o dever de não largar.

Faço ainda como vi em filmes: sento-me num banco de jardim, isolado, olho para todos os lados para ver se alguém me vê e, depois de confirmar que estou sozinho e sem vigilantes, tiro — do bolso de uma camisa — um saco de plástico vazio e ali o deixo, só, vazio, e sem sentido, em cima do banco do jardim — para de imediato ser levado à força pelo vento que, embora quase inexistente, tem força sempre para arrastar um saco de plástico que nada guarda dentro de si. Mas tal exercício não basta para o que pretendia; não é assim que me liberto do nada que existe no sítio que sou enquanto animal com volume; e esse saco vazio pode ser conduzido como um veado cego pelo jardim da cidade, batendo imprudentemente contra as árvores, caixotes do lixo e outros obstáculos, bem pode essa simulação do meu nada que simulei atirar borda fora como se o corpo fosse um navio, e o mundo alto mar, e o saco vazio fosse a parte que em mim não me deixa ter um sentido para todas as coisas, bem pode essa simulação do meu nada avançar por empurrões sucessivos para o lado oposto onde me encontro agora, que jamais serei capaz, diante do homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio, de não tremer, de não ficar assustado, e perante a mera indicação para levantar os braços não os levantar de imediato e pedir perdão: sei que continuo com um bem localizado nada a montar e a desmontar consecutivamente tenda algures nesta parte mais débil deste meu organismo que uma mulher um dia, por descuido ou ilusão de apaixonada, chamou de belo corpo acima da terra. E nestes dias em que me sinto caminhar ao lado das toupeiras e com elas fazendo a melhor das amizades, eis que relembrar palavras simpáticas de uma mulher  me faz cair ainda mais, e soterrado, finalmente, por completo, sei que só se a morte me esconder mais ninguém, por mais que vasculhe, encontrará essa ponta do nada em que começou a minha depressão e em cujo centro a minha firme vontade de morrer se foi construindo, sólida e tranquila, como a construção sem pressas de uma casa.

Tavares, Gonçalo M., in COLÓQUIO Letras número 173, Janeiro / Abril 2010

«Just a Plastic Bag», Michalina © Michalina, via Deviantart (D.R.)

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Alexandre O’Neill – Um poema que circulou na clandestinidade

 

Aqui há um par de dias referi a colecção Horas Extraordinárias – Série de Inéditos da Imprensa, a propósito livro Urzes, de Manuel Hermínio Monteiro, nela dado à estampa. Nesta iniciativa do semanário O Independente (em alguns títulos contando com a colaboração da Assírio & Alvim, que partilha, de resto, o copywright, assinando Vasco Rosa o prefácio) foi editado um título com inéditos e dispersos de Alexandre O’Neill posteriores à edição das Poesias Completas do autor naquela casa editora, em 2001. Coração Acordeão reúne, assim, textos que haviam «escapado» àquele volume, como conta Vasco Rosa, no prefácio. Pela sua variedade, diversidade e desigual interesse (desigualdade essa muito mais promissora que o termo especifica), aqui se deixa um deles, de carácter biográfico/literário. Foi quase escolhido abrindo o livro onde calhasse, porque este se lê de uma ponta à outra, em pulinhos de estilo, em saltinhos de gozo. Não foi assim tão «ao acaso»: é sempre fascinante ler um autor escrever sobre a génese de uma obra (um poema) ainda que eventualmente «menor», e confrontar o que nos conta com o resultado final.

Antecede o texto e o poema o prefácio, de Vasco Rosa, que ajuda a perceber a aventura deste livro.

«A segunda edição Assírio & Alvim das Poesias Completas tornou assaz evidente, já em Novembro de 2001, que chegara a hora de empreender uma demanda exaustiva aos Dispersos de Alexandre O’Neill (1924-86), a larguíssima parte das quais em papel de jornal, de modo a identificar e permitir publicar todos os seus escritos, reimprimindo, na passada, dois livros de crónicas há muito esgotados: As Andorinhas não Têm Restaurante, Dom Quixote, 1970, e Uma Coisa em forma de Assim, Presença 1985 (antes 1980).

À generosidade do editor Manuel Rosa devo a oportunidade de unir nessa campanha os meus esforços aos de Perfecto C. Cuadrado, Maria Antónia Oliveira e Luís Manuel Gaspar, tornando o livro que o leitor tem agora nas mãos — com a quantidade de textos «desconhecidos» que transporta — uma peça do puzzle o’neilliano, produzida , ademais, no contexto de uma colecção de autores da segunda metade do século XX em que, só por absurdo, ele poderia faltar.

Dentro de semanas, senão dias, sairá — autêntico verso ou reverso deste Coração Acordeão — uma reedição de Uma Coisa em forma de Assim.

A Afonso e Teresa Gouveia dirijo um aceno d’amigo. A Luís Manuel Gaspar agradeço todas as informações genuinamente partilhadas. Aos funcionários da Hemeroteca de Lisboa, a paciência de meses.»

VASCO ROSA

Três publicações recentes dedicadas aos escritor: o n.º 13 de Relâmpago. Revista de Poesia da Fundação Luis Miguel Nava; o Caderno 2 do Centro de Estudos do Surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda; Alexandre O’Neill: Passo tudo pela Refinadora, de Laurinda Bom.

«Morte de Catarina Eufémia», José Dias Coelho (D.R.)

Um poema que circulou na clandestinidade

Não sei se foi o Carlos Brito ou o Fernando Correia da Silva quem teve, primeiro, a ideia de «vingar» poeticamente a morte de Catarina Eufémia, que, por deficiência de informação, nós julgávamos, ao princípio, chamar-se Maria da Graça Sapinho. O nome de quem a metralhou, esse, parece não deixar lugar a dúvidas: Carrajola.

Não era o apelido (como ainda hoje não é) que queríamos vituperar, mas aquele seu infame portador. Fechei-me em casa. Meditei o trágico acontecimento e logo senti que, de certo modo, ele era «abstracto» para mim. Eu desconhecia o Alentejo e, embora identificado com a luta dos camponeses alentejanos, a realidade do caso não me «entranhava» por forma a que eu arrancasse bem de dentro o meu protesto.

Senti, ao mesmo tempo, que não me podia ficar por palavras, que era preciso experimentar amor ou ódio. Entrei pelo desprezo. Foi então que me surgiu, antes de qualquer verso, este: És como um percevejo num lençol! A partir daí, a linha de força do poema estava encontrada. A segunda estrofe, endereçada a Catarina, é algo convencional. O que a salva é o verso, que reutilizei noutro poema: Quando o Alentejo se puser a rir.

Esses meus versos, que transcrevo de cor, juntaram-se a outros de gente amiga, e assim surgiu, tirado do copiador, um pequeno cancioneiro clandestino em memória de Catarina Eufémia. Alguém o terá guardado? Será ocasião de abrir os arquivos ou puxar pela retentiva para que este e outros documentos possam finalmente ver a luz (livre) do dia.


À MEMÓRIA DE CATARINA EUFÉMIA

Podes mudar de nome, carrajola

pôr umas asas brancas, arvorar

um ar contrito,

dizer que não, que não foi contigo,

disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha,

podes mudar de nome, carrajola,

de aldeia, de vila ou de cidade

— és como um percevejo num lençol!


Quando tivermos Portugal nos braços

e pudermos amá-lo sem sofrer,

quando o Alentejo se puser a rir,

Catarina Eufémia, minha irmã,

então o teu filho há-de nascer!


O’Neill, Alexandre, Coração Acordeão, Lisboa: O Independente, 2004

(previamente publicado na Flama, 24 de Maio de 1974)


Nota: escolheu-se o justamente conhecido desenho de José Dias Coelho, artista plástico e militante do Partido Comunista Português, também ele assassinado pela polícia do regime do Estado Novo.

 

Links Relacionados:

Sobre Alexandre O’Neill

Uma (muito boa) página sobre José Dias Coelho

Manuel Hermínio Monteiro – Escritores que se suicidaram

Para a minha geração, o Manuel Hermínio Monteiro foi o herói dos editores. O seu amor pela literatura, particularmente pela poesia, levou-o a pegar numa casa descaracterizada, a Assírio & Alvim, fazendo dela a grande referência das editoras que investiam naquilo em que acreditavam (em que o Manuel Hermínio acreditava), construindo um fabuloso catálogo, em grande parte constituído por autores que ele mesmo descobria, “empolgado”, ou recuperava para o olhar mais desatento dos outros. Dois exemplos: nos antigos Pascoaes, nos modernos Cesariny. Nele habitava uma atenção e um afecto profundos a tudo o que fazia. E uma extrema humildade perante a grandeza da escrita e o talento dos seus autores, de que tanto gostava (quem, hoje, tem este amor pelos autores e pela sua obra?). Ser publicado na «Assírio» passou a ser uma espécie de porto de chegada para esses mesmos muitos autores. De editora nas margens do mercado, a «Assírio» ganhou o seu público a pulso; em poucos anos era uma editora de prestígio; poucos passariam até se tornar uma sólida editora independente; que dava lucro. Tudo isto ocorreu durante as décadas de oitenta e noventa do século passado. Com a prematura morte de Manuel Hermínio Monteiro (1952 — 2001) a Assírio & Alvim manteve, é certo, a aura de prestígio que adquirira. Porém, perdeu aos poucos, o golpe de asa. Vive actualmente, em grande medida, da exploração  do seu brilhante catálogo. Arrisca pouco. No ano da sua anunciada morte Manuel Hermínio Monteiro preparou, conjuntamente com uma grande equipa que reuniu, a edição de A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, monumental colectânea de poesia de todos os tempos e lugares, que viria a constituir legado e testemunho do que era, verdadeiramente, editar. Na humildade que lhe era tão própria, não reconheceria grande valor à sua escrita. Era, contudo, senhor de uma prosa cristalina e serena; escrevia num português suave, culto e discreto, onde as muitas leituras, o convívio assíduo com o processo de escrita dos outros, as raízes transmontanas, se sentem, mas nunca se impõem aos textos que, aqui e ali, publicava. Em 2004, o “Independente”, na colecção Horas Extraordinárias, edita «Urzes», colectânea de textos do editor. Tudo tem um fim: a vida de um homem grande, um projecto editorial que conheceu uma vitalidade de que agora apenas podemos sentir nostalgia. Deste livro referido (que se pode talvez ainda encontrar em venda nalgumas estações do metropolitano de Lisboa), transcreve-se um admirável texto de Manuel Hermínio Monteiro, que muito gostava das artes-plásticas, escrito a propósito de uma exposição de Fernanda Fragateiro, pano de fundo para uma bela alegoria da floresta como o lugar simbólico que guarda a «entrega» e e «espiral da queda» dos escritores.

[Nota: na impossibilidade de conseguir obter  imagens digitais da exposição de Fernanda Fragateiro a que alude o autor, e não querendo ‘contaminar’ o espírito do texto e das obras nele referidas com outros trabalhos da artista, optei por utilizar fotografias que, entendo, se quadram em diálogo com o texto]


«Faded Intensity, Forgotten Life», Pagit, © Pagit, via Deviantar (D.R.)

Escritores que se suicidaram

Se o mar é buliçoso e falador, a floresta guarda melhor os seus e os outros segredos revestindo de calma a sua fúria. Mas ambos estão cheios de vozes. E se a profundidade do mar está preenchida de medos e de tesouros, os enigmas e os espíritos adensam a obscuridade da floresta. Fernanda Fragateiro, ao escolher a floresta como contraponto representativo dos livros e de escritores que se suicidaram sabe que esta é a casa imensa primordial de todas as bibliotecas, em cujos labirintos podemos perder-nos para sempre. E acontece que os mistérios das florestas dispõem de imperceptíveis tropismos, de uma sensibilidade selvagem e por vezes cruel, pelos quais sorvem os melhores espíritos, precipitando-os no vórtice de onde jamais sairão, a não ser pela glória da escrita. Eles são os mártires de um sacrifício tão empolgante como ignorado. Com um considerável susto, passamos ao lado do profundo escuro dos medos condensados. Ninguém pergunta se o direito que ainda temos a caminhos, a ar, à lua, ou ao adejar das ramagens não advirá do assumido martírio de uns quantos que nos deixaram, além da arquitectura e da beleza das suas palavras, um gesto radical indicativo. O que Fernanda Fragateiro mostrou na Livraria da Assírio & Alvim foi um diálogo silencioso, como acontece na melhor literatura. De um lado, inúmeras árvores em miniatura representavam uma floresta de aparentes repetições, organizando um espaço que valorizava os intervalos vazios entre as muitas árvores (são esses os nichos dos mistérios e dos sinais). Do outro lado, e na sequência da floresta de livros da livraria, uma prateleira com a indicação «Livros de autores que se Suicidaram». Poderiam constituir apenas uma especialização ou um assinalado segmento da livraria. A sinalética era exactamente igual à das outras secções. A artista, pelo contrário, diz que não. Os livros estão justamente no seu lugar próprio. Mas apesar das lombadas, das palavras impressas, eles agem num conjunto provocando uma energia que os destaca e os relaciona com os espíritos soltos da floresta. Os nomes de cada autor dão-se-nos pelos livros, mas, na verdade, pertencem a outra constelação nada doméstica e muito menos transaccionável. Vozes sopram do espírito da floresta e são tanto do óxido dos dias quanto os livros os livros que amarelecem têm em si o mais perdurável do corpo da floresta. E a floresta significa aqui o corpo da sociabilização, com as suas respectivas cedências e fracturas. À humanidade, estes escritores entregaram as palavras da criação para depois regressarem por conta própria ao Jardim Terreal. Depois de passarem os «claros del Bosque» (1) e as encruzilhadas várias, , de se afundarem na cinza escutarem provado as bagas e experimentado  o espinho. Depois de arrecadarem a aura das musas, a lenda dos gnomos e dos duendes e aspirando a Flor Azul, depois de terem entregue todas as palavras aos seus leitores, partem. Partem finalmente, directos à mão de Deus que, como reza o poeta suicida Antero de Quental, é onde repousa o coração dos que não se conformam  com o desleixo de um lugar  que primeiro foi paraíso deleitoso de homens e de árvores e do qual todos aceitámos, conformada e estuciosamente, ter sido definitivamente expulsos.»

(1) Aparente referência ao livro com o mesmo nome, de Maria Zambrano, autora de que M.H.M. muito gostava e editou. Excerto aqui.

Monteiro, Manuel Hermínio, Urzes, Lisboa: O Independente, 2004

(previamente publicado em A Phala, n.º 54, Março 1997.)

«Bench», Ilco Trajkovsky © Ilco Trajkovsky, via Deviantart (D.R.)

Links relacionados:

Manuel Hermínio Monteiro aqui, aqui e aqui

Cantigas de Romaria – As vozes dos homens pelos caminhos de Deus

página web da editora “Apenas Livros”

(clique para ampliar)

 

Uma daquelas designadas «pequenas editoras», a “Apenas Livros”, tem dado à estampa, em «edições de cordel» (palavra de hora que são mesmo) uma notável colecção de títulos que englobam uma enorme diversidade de temas (património imaterial, literatura tradicional, tradição oral, história de Portugal, ciência, antropologia, lendas e contos tradicionais, descobrimentos, festas tradicionais… enfim, é consultar o link no final deste post.

Por 3,80 € (garanto, e o preço médio dos livros da editora não excede este valor), comprei o livro com o título Cantigas de Romaria – As vozes dos homens pelos caminhos de Deus, de Ana Maria Paiva Morão, investigadora no “Centro de Tradições Populares Portuguesas Manuel Viegas Guerreiro” (CTTP), unidade de investigação integrada na Fundação da Universidade de Lisboa. Uma viagem lindíssima aos cantares dos romeiros, muito bem introduzida, apresentada e contextualizada, partindo de um acervo de fontes que revela aturado trabalho. Aqui se deixa um excerto, que talvez estimule quem ler à compra de um dos 250 exemplares.

«(…)

Os temas das cantigas de romaria

Se, numa primeira leitura mais apressada, estes cantos de romaria parecem meros cânticos de devoção a um qualquer santo, numa leitura mais atenta desenhar-se-á a grande diversidade de temas e motivos destas cantigas (…), a propósito dos vestígios dos antigos cultos ou das marcas do sagrado nelas encontradas.

Agrupá-las por temas dentro das invocações seria tarefa espinhosa, pois sob a mesma invocação se encontram sentimentos tanto religiosos (A) como profanos (B):

(A)

«Ó Senhora dos Remédios,

Minha mãe, minha madrinha!

Levar as almas ao Céu,

A primêra seja a minha» — (Cebolais de Cima, c. de Castelo Branco).

(B)

«Ó Senhora dos Remédios,

Defronte do arvoredo

Eu já tenho um amor

Mas é muito em segredo» — (Baião).

As cantigas de romaria, de facto, assumem o valor das preces, e vai-se ao santuário para pedir graças, à medida das necessidades de cada um, sendo frequente estarem os pedidos ligados à própria invocação ou atributo do santo.

Roga-se a saúde para os que amam:

«Nossa Senhora da Saúde,

Dai saúde ao meu amor,

Que está doente de cama

E querem dar-lhe o Senhor» — (Póvoa de Rio de Moinhos).

Pede-se a protecção dos perigos do mar:

«Ó Senhora da Saúde

Sois pequenina e bem feita;

Livrai os homens do mar

Dai-lhe a vossa mão direita» — (Oliveira do Hospital).

Livrar da vida militar é coisa ao alcance da Senhora:

«Senhora do Livramento

Livrai o meu namorado,

Que me vai deixar sozinha

Pela vida de soldado» — (Turquel, c. de Alcobaça).

Há, até, apelos de ajuda para a educação dos filhos indisciplinados:

«Mê Senhor São Marcos

Que amansais toiros brabos,

Amansai-me este filho

Que é pior que todos os diabos» — (São Marcos da Serra, c. de Silves).

O casamento é um dos dons mais apetecidos, ainda que com algumas condições:

«Ó meu rico São Gonçalo

Tende de mim piedade,

Deparai-me um maridinho

Consoante a minha idade» — (Amarante).

Um excesso de devoção desencadeia estrnhos desejos e o pedido de um noivo muito especial:

«Nossa Senhora da Lapa

Eu hei-de ser vossa nora,

Se me derdes o Menino

Que está no altar de fora» — (Sernancelhe).

E, já que se pede, aproveita-se, mesmo, para na mesma cantiga se fazerem dois pedidos:

«Senhora Santa Luzia,

Da capela de Moreira,

Dai-me vista aos meus olhos,

Casai-me que estou solteira» — (Arcos de Valdevez).

Um duplo pedido, feito à mesma santa, em Barcelos, pode assumir contornos mais drásticos:

«Lindos olhos tem António

Santa Luzia guardai-lhos!

Se eles não são para mim,

Santa Luzia tirai-lhos»

festejos em honra a Nossa Senhora da Saúde, em Canelas – Estarreja © blogue “Notícias d’Aldeia”

(clique para ampliar)

 

Links Relacionados:

editora Apenas Livros

Centro de Tradições Populares Portuguesas Manuel Viegas Guerreiro

Helder Pacheco – «Ah! Ver o Porto…»

Relembra-se Helder Pacheco, o sua ímpar conhecimento e extremo amor pela cidade do Porto (que bem se percebe na sua obra e conhece espelho no seu blogue e no texto que aqui se deixa); pretexto, igualmente, para dar a conhecer Rui Vaz, um fotógrafo com o inequívoco mérito de captar o espírito dos lugares.

Ah! Ver o Porto…

Ah! Ver o Porto…Ver o Porto é – sempre ou quase – reencontrar imagens de certa forma de cidade escondida, que conservamos dentro de nós. Imagens densas, impenetráveis como neblinas envolvendo as manhãs.

Imagens de crepúsculos nos outonos tingindo o casario, telhados, clarabóias, águas-furtadas, torres, lanternins e chaminés de S. Nicolau, Vitória e Miragaia. Tingindo-os e misturando a suavidade de cores indefinidas, de cores esbatidas sugerindo atmosferas que as palavras não conseguem (ou não podem) descrever: púrpuras e cobaltos desmaiados ou brevemente laranjas. Violetas-cinza penetrados por claridades que produzem brilhos leves nas vidraças das janelas. Imagens de entardeceres vistos da Ponte, do Jardim do Morro, da Serra do Pilar, pontilhados de luzes, milhares de luzes reflectidas nas águas do rio.

Ah! Ver o Porto…Ver o Porto é – sempre ou quase – um ajuste de contas. É um acertar das nossas percepções com as imagens de certa forma de perenidade que guardamos num recanto da memória (ou talvez da fantasia), dentro de nós. Imagens das escuridões eivadas de sobressaltos e inquietudes (ou solidões) quando anoitece. Quando anoitece e aumenta aquela impressão subjectiva – será do granito e das morrinhas ou é apenas sentimento? – da cidade sombria e húmida, da cidade agreste e desabrida. Imagens de tonalidades frias dos invernos do noroeste, mesclados de azul esbranquiçado e verde, em transparências, em velaturas de suaves e quase imperceptíveis gradações.

Imagens concretas. Imagens afirmativas dos lugares onde a História assentou raízes. Nas marcas dos tempos, nas evocações das crónicas e lendas retidas no imaginário persistente nos habitantes. Imagens de ruas e travessas, escadas e recantos, vielas, becos e esquinas com referências, com espírito e razão sedimentados nos séculos.

Dantes, os rabelos vinham, às centenas, rio abaixo, até à Ribeira, carregando sangue do comércio que fez prosperar a cidade. E agora? Agora estão ali, feitos silhuetas melancólicas e nostálgicas, pousando num rio agredido de que restam, apenas, a poesia e as recordações. Recordações da azáfama dos vapores e batelões, barcaças e caícos. Nostalgias de um rio de que restam, apenas, névoas e gaivotas. E restam, no Cais de Vila Nova, barcos sobreviventes dos tempos da epopeia de descer o rio, reconstruídos com os últimos saberes que persistem nos mestres dos estaleiros de Rei Ramiro.

Ah! Ver o Porto…Ver o Porto é permanecer fiel a um certo, subtil e indizível sentimento de viver, de pertencer a um território com carácter e tradição.

Ah! Ver o Porto…Ver o Porto é guardar imagens da luz e da atmosfera que, em algumas horas e em certos dias, envolve, define ou atenua os contornos do burgo: morros e torres, maciços verdes e muralhas, pontes e palácios, margens e cais.

Ah! Ver o Porto, eis o desafio para olhar e reter os encantos e magias que sobrevivem na cidade inesquecível que aí está, à espera da nossa descoberta, da nossa nostalgia e da nossa paixão. Porque, afinal – confirmando Saint-Exupéry ao escrever que o essencial é invisível para os olhos -, ninguém, acho eu, pode ver (e entender) o Porto senão com o coração.

«Céu Porto Nebulado», Rui Vaz © Rui Vaz (d.r)

(clique para ampliar)

Ligações relacionadas:

Helder Pacheco – Blogue

Rui Vaz – Blogue

“Alice e os Estilistas”, by Annie Leibovitz

Claro, nestes tempos de “Alice no País das Maravilhas” (surge et ambula, Tim Burton dixit), a Vogue lembrou-se do material que tinha na sua edição de Dezembro de 2003. Uma ideia aparentemente simples: pegar em excertos do texto, numa única modelo (Natalia Vodianova, em registo muito Lolita) e num conjunto de prestigiados estilistas (ou designers, como se preferir) de moda. Cada um deles veste Alice e surge, quase sempre, na composição. Leibovitz trata de criar o conjunto. Simples? Aparentemente, disse-se. O jogo combinatório entre a textualidade, a encenação, as criações de vestuário, a participação dos designers, o cenário e o olhar da fotógrafa criam um vasto campo de combinações semânticas, bastante estimulante. Pode ser vista, a referida matéria, nesta galeria. Na imagem, a fotografia produzida para a criação de Tom Ford.

"I wonder if I shall fall right (...)", estilista: Tom Ford © Annie Leibovitz

Os Poetas da Meia Noite

De repente, com o início do ano, as iniciativas em torno da poesia e dos novos autores parecem multiplicar-se em Lisboa. Depois da Poesia em Vinyl ter surgido a 14 de Janeiro, ao que parece para continuar e bem, a criteriosa e imaginativa qualidade de programador de Filipe Crowford vai levar ao Teatro Casa da Comédia,  no  dia 20 de Março (entrando pela noite fora, trespassando assim o Dia Mundial da Poesia essa desnecessidade), o evento intitulado «Os Poetas da Meia Noite». Dos seis poetas convidados, cinco são muito da estima deste blogue, faltando inexplicavelmente saber por que raio nunca aqui se enroscou o Vasco Gato (salvo seja). Assunto a tratar em breve. Olhando para o programa, a coisa parece prometer muito. Ide, portanto.

O programa das festas:

TEATRO CASA DA COMÉDIA  Poetas da Meia-noite
Comemorações do Dia Mundial da Poesia (21 de Março).
” Há poetas que choram…
Há poetas que riem…Há poetas que cantam…
… mas, acima de tudo, há poetas que respiram a alma pela flor da pele, como suor, sangue ou lágrimas.
Descubra os Poetas da Meia-noite, dia 20 de Março, pelas 22h, no Teatro Casa da Comédia.
Venha desarmado… ”

Participação de: Ana Salomé, Catarina Nunes de Almeida, Filipa Leal, Hugo Milhanas Machado, Miguel Manso e Vasco Gato.Participação especial de: Manuel Cintra e Filipe Crawford.

Músicos: Lder, Nanu Figueiredo (mola dudle), Gutanaki, Gonçalo Miragaia e mais um convidado surpresa.

"venha desarmado"

TEATRO CASA DA COMÉDIA
Rua São Francisco de Borja, 22 – 1200-843 Lisboa
Tel.: 21 395 94 17/8 Fax: 21 395 94 19 Produção: 969826535
info@filipecrawford.com
teatro.casadacomedia@gmail.com
http://www.filipecrawford.com

Jacques Martin (1921 – 2010) – in memoriam

Morreu Jacques Martin, autor da série de banda desenhada Alix. Foi o melhor professor de História Clássica que tive.

[Em baixo, uma prancha de L’Enfant Grec (1979), aqui na edição em língua castelhana. Clique para ampliar]

Alix, "L'Enfant Grec" © Casterman

Eric Rohmer (1920 – 2010) – anjos e hormonas

Em 1980, ano em que cursei funestamente o primeiro ano de direito em Coimbra, duas coisas salvaram-me: uma entrega total à leitura, que excluía apenas as sebentas, e o ter vivido ‘principescamente’ instalado num quarto com singular vista para nascente, acompanhando as colinas e a chegada do rio à cidade, na antiga sede do C.A.D.C. (à época Instituto Justiça e Paz), na cidade velha alta; era o Instituto liberal e calorosamente dirigido pelo P. Idalino Simões, que saudades. Numa das suas (dele) ideias peregrinas, cultivar os rapazes, o P. Idalino lembrou-se de organizar, na biblioteca, sessões de cinema à noite. Ficámos pelo Eric Rohmer, creio. E chegou. Não, não percebiamos nada da importância da “Nouvelle Vague“, nem tinhamos noção da importância das “Seis Fábulas Morais“. Mas vimos tudo o que pudemos. E discutíamos, por obra e graça do espírito santo discutíamos os filmes até à exaustão, valha-me deus. Discussão turvada, no meu caso, por um sentimento agudo e ambivalente: a dialéctica possível entre a a vertente metafísica e o subtil erotismo da coisa. Subtil? Pela palavra, pelos diálogos, muito em mim se acendeu, e não apenas na ordem do espírito. Uma terceiro factor salvou-me o ano, lá pela primavera. Digamos que vivi sob o signo de Rohmer: não foi pouca coisa, traduzida que foi em transcendentes passagens ao acto. Palavra de honra, aos 18 anos até os anjos nos sublevam as hormonas.


Vão okupar o meu coreto!

Sim, o coreto do Jardim da Estrela, o meu coreto de puto! Aquele onde tocavam as gloriosas Bandas da GNR e da Carris, para minha muito proveitosa instrução musical. Uma falta de respeito tão insultuosa… que espero ver gente pendurada nas árvores. É que, isto sim, isto é uma okupação. Óptima ocupação para Sábado, dia 11, em Lisboa.

'Só falta a banda da Carris'

'Só falta a banda da Carris'

(clique para ampliar)

Programa da Okupação:

16h – 16h30 : Kumpania Algazarra (começam no Coreto, tocam pelo Jardim e voltam e, se quiserem, podem fechar a okupação)
16h30 – 17h : Puzzle
17h – 17h30 : Stack em Blues
17h30 – 18h : Lula Pena
18h – 18h30 : Leituras : João Pacheco, Miguel Manso, E. M. Melo e Castro e Cyombra
(sugestão: acompanhamento musical pelo Fernando Dinis e Reymundo)
18h30 – 19h : Babilónia Reduzida
19h – 19h30 : Jorge Ferraz
19h30 – 20h : Fernando Dinis (piano) e Reymundo (acordeão)
20h – 20h30 : Tramas
20h30 – 21h : Pedro e Diana
21h – 21h30 : Leituras : Luís Testa, Alice Valente Alves, Miguel Cardoso e Rui Antunes
(a sugestão continua válida, assim como para todos os outros músicos participantes)
21h30 – 22h : Paulo Condessa e Afonso Azevedo
22h – 22h30 : Apetite Mor
22h30 – 23h : Guto Pires
23h – 23h30 : Ventilan
23h30 – 24h : Samuel Úria e Amigos

Até já, senhor João Bénard da Costa

Agora que já toda a gente falou bem, falando bem, e justamente bem, de João Bénard da Costa, é fútil dizer seja o que for. Mas apetece-me muito citar as últimas linhas do livro onde se reúnem as suas crónicas n’ O Independente:

(…) Também, por isso não me despeço. Vou ficar por aqui enquanto gostar e sei que hei-de gostar enquanto cá estiverem as pessoas por causa de quem gosto. Vou só descansar um bocadinho e voltar com fato novo. Feito de fitas, feito de mim. Também nisso não vou mudar. Não sei fazer ou falar de outra coisa. Até já.

BÉNARD DA COSTA, João, Os filmes da minha vida/Os meus filmes da vida, p. 268, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 1990.

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

As anedotas dos Romanos

Na escola primária diziam-me que o Homem (o género humano) era diferente dos animais por ser ‘racional’ (na catequese a coisa era metafísica, a distinção era feita porque o Homem tinha alma); no secundário a conversa era outra, o Homem distinguia-se das outras espécies da criação pela linguagem – já se deviam conhecer os estudos sobre a capacidade de racionalização dos símios, por exemplo; na faculdade, possivelmente em virtude da aquisição de conhecimentos sobre a complexa comunicação ‘vocalizada’ de algumas espécies de baleias e golfinhos, a sentença vinha, categórica: o Homem é o único ser capaz de pensamento abstracto. Lembro-me de ter concordado. Não conhecia nem poemas nem anedotas que não fossem obra  humana.

O sentido de humor é património do humano. Contudo, a descoberta de um livro de anedotas romano – escrito entre os séculos III e IV, em grego, com o título de Philogelos (‘O Amigo da Gargalhada’) – causa espanto pela enorme semelhança entre os padrões de anedotas dos romanos e as anedotas actuais. Ou seja, as personagens podem mudar (claro que não são o português, o francês, o inglês e o espanhol). Eram os habitantes de Abdera, na Trácia, considerados em Roma muito, muito estúpidos. Mas também estereótipos como o professor distraído, o barbeiro, o careca. De que se riam e como se riam os romanos? Como nós. As anedotas deles podiam perfeitamente compor sketches dos Mounty Python ou dos Gatos Fedorentos. Exemplos? Anedota um – «Um barbeiro, um careca e um professor distraído viajam juntos. Tendo de acampar à noite, decidem fazer turnos para vigiar a bagagem. Quando chega o turno do barbeiro, este vai-se aborrecendo e, para se divertir, rapa o cabelo do professor… Este, quando acorda para o turno seguinte, passa a mão pela cabeça e diz: “É tão estúpido, o barbeiro… acordou o careca em vez de me acordar a mim”.» Anedota dois – «Um homem encontra um velho conhecido e diz-lhe: “É estranho, disseram-me que tinhas morrido!”. O outro responde: “Olha, como vês estou vivo e bem vivo”. Mas o primeiro argumenta: “Desculpa lá, mas a pessoa que me contou que estavas morto é de muito mais confiança que tu!”»

Juro que a ideia de um romano a contar anedotas, de toga, num círculo de amigos é, no mínimo, hilariante. Deve ser o hábito de criança, incutido pelos livros do Astérix. É natural a gente rir-se dos romanos, agora imaginá-los às gargalhadas, na chacota…

'Máscara funerária romana. Este não conseguiu provar que estava vivo'

'Máscara funerária romana. Este não conseguiu provar que estava vivo'

convite um – ‘Dispersão’, de Nuno Dempster

O lançamento de Dispersão – Poesia Reunida, de Nuno Dempster, já foi referido neste blogue. Chega agora o convite, que se divulga por ser aberto ao público, da apresentação da obra em Lisboa, pelo ‘poeta, romancista e ensaísta’ António Cândido Franco e a leitura de poemas por Sylvie Rocha. Oportunidade para conhecer melhor a obra de um autor que, à margem da ‘nomenclatura’ literária, construiu uma obra sólida e rigorosa, uma autoria que o transporta para o lugar da pertinência poética.

convite-dispersao1

11 de Março, 18h30, Casa Fernando Pessoa

(clique para ampliar)

Publicidade – entre o vivo, o não-vivo e o morto

"entre o vivo, o não-vivo e o morto", n.º 2

"entre o vivo, o não-vivo e o morto", n.º 2

Com um sentimento de irremediável atraso, este post é um anúncio publicitário, não encomendado, evidentemente. Saiu no final do ano passado (o anúncio do lançamento é de 15 de Dezembro, mas sou um incurável distraído) o segundo número da revista entre o vivo, o não-vivo e o morto, editada pelo CEPiA – Centro de Estudos Performativos i Artísticos, associação cultural de Évora, sob a direcção de Paulo Serra. Apresenta-se, assim, no blogue da revista:

«Chega o segundo número da revista entre o vivo, o não-vivo e o morto, e com ele os textos de Fernando Machado Silva, Hugo Milhanas Machado (Prémio Literário José Luis Peixoto 2008), José Manuel Martins, Marta Bernardes, Rui Cancela, Sílvia Ramalho e Vítor Moreira. Uma entrevista a JP Simões conduzida por Gonçalo Frota. E onde todos os textos foram ilustrados por Isotta Dardilli (trabalhos que podem ser visto em www.isotype.it ou www.isottadardilli.com). As páginas centrais vão apresentar o trabalho de Tamara Alves.

Impressa em offset (processo antigo de impressão, que dá uma qualidade e predurância maiores) e desenhada por Isabel Bilro, a entre o vivo, o não-vivo e o morto está disponível por 3,50€ (portes incluídos); para isso basta enviar um e-mail para revista@cepia-web.org

Não possuindo ainda o exemplar deste segundo número, impressionam-me o seu grafismo, da autoria de Isabel Bilro, e as ilustrações de Isotta Dardilli. Pela lista de autores, deverá ser estimulante, esta revista, de resto já comentada pela rigorosa e sempre pertinente leitura de Henrique Fialho, no seu incontornável blogue Volumen.

Isotta Dardilli, Notebook, 2007

Isotta Dardilli, Notebook, 2007

O Alçada

Já passei dos setenta anos e tive uma vida cheia de coisas. Quando estou bem de saúde, tenho um grande enternecimento pela vida que vivi e, como o meu querido Jorge Amado, apetece-me dizer que «a vida me deu mais do que pedi, esperei e mereci». Direi até que esta é uma condição óptima para receber a morte.

António Alçada Baptista, in ‘’A Pesca à Linha – Algumas Memórias’, Editorial Presença, Lisboa, Janeiro de 1998.

Aos 81 anos, morreu o Senhor António Alçada Baptista. O Alçada, como lhe chamavam os da sua geração e aqueles que, sob a sua visão e protecção, medraram. Nunca ouvi alguém dizer mal dele. Parece pouco. É imenso, habitando Alçada Baptista em Portugal, imerso no meio intelectual lisboeta, ele, um burguês beirão civilizadíssimo. E católico. Deu (literalmente) a Moraes e o Tempo e o Modo à cultura portuguesa da segunda metade do século XX (e ainda a sua obra literária, ensaística, memorialista). Só por isso merecia nome de avenida. Seria bonito: Avenida Alçada.

António Alçada Baptista (1927 - 2008

António Alçada Baptista (1927 - 2008

Sob o signo de Llansol

Com entusiasmo, Helena Vieira, directora da Mariposa Azual e sócia activa (se bem a conheço, hiper-activa) do Espaço Llansol, faz chegar a notícia da evocação de Maria Gabriela Llansol, dia 24 de Novembro, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Sintra. É a data de nascimento da escritora que se celebra e serve como convocação do evento, onde serão apresentados dois livros dedicados à sua obra (ver, Programa, abaixo), ambos editados pela Mariposa Azual, na nova colecção, já aqui anunciada, Rio Da Escrita. Como não é todos os dias que podemos encontrar Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça comentando obras de João Barrento e de Maria Etelvina Santos, (havendo ainda lugar à leitura de fragmentos dos Cadernos Inéditos a cargo de Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça, sendo que os próprios autores das suas obras falarão, estamos perante um acontecimento cultural que deve ser acompanhado e, de preferência, presenciado. A entrada é livre. Não me consta que haja croquetes e tapas, com copinhos de porto e sumo de laranja. Se assim for, ainda bem. Se houver, olha…

PROGRAMA

MARIA GABRIELA LLANSOL
Um Lugar e um legado

Sessão evocativa e lançamento de livros
Biblioteca Municipal de Sintra
24 de Novembro de 2008, 18 h.

• João Barrento: «Llansol entre nós»
• Maria Etelvina Santos: «M. G. Llansol – Um registo de vida»
• Leitura de fragmentos dos Cadernos inéditos por
Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça,
• O espólio de Maria Gabriela Llansol: uma visita virtual

• Helena Vieira apresenta a Mariposa Azual
• Apresentação dos livros da nova colecção «Rio da Escrita»,
da editora Mariposa Azual:

• Como Uma Pedra-pássaro que Voa. Llansol e o improvável da leitura

de Maria Etelvina Santos, por José Tolentino Mendonça

• Na Dobra do Mundo. Escritos LLansolianos, de João Barrento,

por Gonçalo M. Tavares

(APOIO: Câmara Municipal de Sintra)

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos'. João Barrento

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos' - João Barrento

'Como uma pedra pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos

'Como uma pedra-pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos