As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Citações

os fantasmas inquilinos: Maria Callas – «Una voce poco fa»

«Maria Callas», Henry Koerner, 1956 © National Portrait Gallery, Smithsonian Institution; doação da Time magazine

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«When one wants to find a gesture, when you want to find how to act onstage, all you have to do is listen to the music. The composer has already seen to that. If you take the trouble to really listen with your Soul and with your Ears – and I say ‘Soul’ and ‘Ears’ because the Mind must work, but not too much also – you will find every gesture there.» — Maria Callas

 

Em Hamburgo, 1959, interpretando a bem conhecida ária de «O Barbeiro de Sevilha» de Rossini, que não sendo obra característica do seu repertório, deixa perceber bastante bem o que a cantora lírica queria dizer na citação.


*o título do post faz evidente alusão ao livro de poesia de Daniel Jonas Os Fantasmas Inquilinos.

Concurso Faça Lá Um Poema

«Por ocasião da comemoração do Dia Mundial da Poesia 2010, que se realiza no CCB no dia 21 de Março, o Plano Nacional de Leitura e o Centro Cultural de Belém, numa iniciativa conjunta, lançam um desafio às escolas, convidando-as a participarem num Concurso de Poesia. Procurando incentivar o gosto pela leitura e pela escrita de poesia, o concurso Faça lá um poema destina-se a quatro níveis de ensino, desde o 1º Ciclo ao Ensino Secundário, e nele poderão participar quaisquer alunos de escolas públicas ou privadas. A entrega de prémios terá lugar no CCB a 21 de Março de 2010 e será integrada no programa do Dia Mundial da Poesia.» [sic] – (sublinhado meu, em bold)

Deliremos:

“Olhe, Gonçalo, faça lá um poema e ainda vai aparecer nas revistas e nos jornais e se calhar até na tevisão. Vá lá, não custa nada, escreva uns versos, sei lá, pode ser sobre o amor, você já deve saber o que é o amor… ou sobre os pobrezinhos, também é um tema giro; ou sobre o ambiente, pe’cebe, com o ambiente é capaz de ganhar, porque está muito na moda. Vá lá, faça um poema e ainda vai ver que vence, o Gonçalo é um vencedor, sabia?… Se quiser eu corrijo os erros de português, ‘tá bem? Sim, pode comer um éclair, mas não se esqueça… faça lá um poema”.

O Plano Nacional de Leitura tem vários méritos, estabelecendo e caucionando pontes entre autores, leitores, escolas, editoras, muitas vezes  acertando com critério. O Centro Cultural de Belém muitos outros méritos terá. Mas há pérolas de retórica que são, sei lá… um acontece a todos.

"Surprise", ilustração de Norman Rockwell

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Só por hoje

Só deus nosso senhor, a Louise L. Hay, a Isabelle Fillozat, a senhora que escreveu o “Comer, orar, amar”, o Paulo Coelho ou a Margarida Rebelo Pinto sabem a estima que tenho pelos livros e pelos textos de “auto-ajuda”. São excelentes alternativas de entretenimento; não aquecem nem arrefecem, podendo embora fazer estragos no espírito dos crédulos. Mas não deixam de ser fantásticos meios de auto-ajuda para quem os escreveu.

E, contudo, veio parar-me às mãos uma pequena cartolina impressa em formato A6. Um texto breve, lapidado pelo tempo e pela experiência dos Alcoólicos Anónimos (A.A.), desde há décadas uma discreta comunidade de resgate de vidas, de mudança de paradigma e de comportamentos, um lugar de liberdade para aprender a lidar com uma doença de sentimentos e emoções. Através da partilha. O texto chama-se “Só por hoje”. Na simplicidade dura, na suavidade firme das palavras, poderia servir para reflexão de toda a gente. Toda a gente mesmo. Não como doutrina, credo, oração. Mas como uma perspectiva das possibilidades do humano, na sua ínfima, gigantesca condição.

Pronto, podem chamar-me corny.

Ilustração de Danuta Wojciechowska para "O menino eterno", José Jorge Letria, Porto, Âmbar, 2002. (d.r.)

Só por hoje

Só por hoje, vou procurar viver unicamente o dia presente, sem tentar resolver de uma vez só todos os problemas da minha vida. Durante doze horas posso fazer qualquer coisa que me assustaria se eu pensasse que tinha de a fazer por uma vida inteira.

Só por hoje vou estar feliz. A maior parte das pessoas é tão feliz quanto se dispõe a sê-lo.

Só por hoje vou tentar ajustar-me à realidade e não tentar adaptar tudo aos meus desejos. Vou aceitar a minha «sorte» como ela vier e vou moldar-me a ela.

Só por hoje, vou tentar fortalecer o meu espírito. Estudarei e vou aprender alguma coisa útil. Não vou manter o meu espírito ocioso. Vou ler alguma coisa que exija esforço, pensamento e concentração.

Só por hoje, vou exercitar a minha alma de três maneiras: vou fazer um favor a alguém sem que se note e, se alguém se aperceber disso, esse facto não conta. Vou fazer pelo menos duas coisas que não me apetece – só por exercício. Não vou mostrar a ninguém os meus sentimentos de dor. Poderei estar magoado mas não revelarei a minha dor.

Só por hoje, vou ser agradável. Vou apresentar-me aos outros da melhor maneira possível: vou vestir-me bem, falar baixo, agir delicadamente, não farei críticas, não vou ter nada de negativo que dizer aos outros, não vou tentar melhorar  nem controlar ninguém, excepto a mim próprio.

Só por hoje vou ter um programa. Pode ser que eu o não siga a rigor, mas vou tentar. Vou evitar duas pragas: a pressa e a indecisão.

Só por hoje, vou ter meia hora tranquila só para mim, e descansar. Durante esta meia hora, num determinado momento, vou procurar ter uma melhor perspectiva da minha vida.

Só por hoje, não vou ter medo. Muito em especial não vou ter medo de apreciar a beleza e de acreditar que aquilo que eu der ao mundo, o mundo me devolverá.

(sublinhado meu)

Pérolas (21) – A vitalidade do Vital

(No Expresso online de hoje)

“O PS não precisa de acasalar com outros partidos na Europa”

É este o título da notícia sobre as declarações do Professor Vital Moreira num jantar em Vila do Conde. (Em bom rigor ele afirmou: “não precisa de acasalar com outros para se reforçar no Parlamento Europeu“, mas o Expresso deu-lhe uma pitadina mais de sal.)

O estimável Professor Vital começa a ser um habitué nas ‘pérolas’ que amorosamente se juntam neste blogue. Porque só dá vontade de lhe fazer duas ou três perguntinhas:

– O PS não precisa de ‘acasalar’. Mas não quer? ‘(Acasalar’ é bom, dizem-me.)

– Em não ‘precisando’ de ‘acasalar’ na Europa, precisa de acasalar em Portugal?

– E ‘precisando’ de acasalamento em Portugal, tem em vista dar continuidade à espécie (ao poder)? É o inato impulso de espalhar a sementinha?

– O PS já discutiu, na sua Comissão Política, os prazeres do acasalamento ‘internacional’?

Questões Vitais. Questões de Vitalidade. Grande Vital, és danado pr’á brincadeira. Dentro do ‘torrão’, claro.

Palavra de honra…

(clique para ampliar)

'Vem Vital, que eu não levo a mal!'

'Vem Vital, que eu não levo a mal!'

‘O Rapto de Europa’ (1628-29), Peter Paul Rubens, Museo del Prado


Pérolas (20) – O flagelado

 

(No Expresso online de hoje)

Vital Moreira: Sem maioria absoluta Sócrates já teria morrido flagelado


O senhor Professor Vital não quereria sugerir “já teria morrido por ingestão de cicuta“? Sempre se cumpria uma tradição onomástica. E evitava-se esta referência ao imaginário cristão. Não, já não é impressão minha. A martiriologia vai ser a gramática e a retórica das eleições – de todas! – para o P.S.


"Na luta, morre-se de cicuta!" - Sócrates, citação apócrifa

"Na luta, morre-se de cicuta!" - Sócrates, citação apócrifa

Pérolas (14) – Fazer um morto: a chacina

(Como se pode comprovar, o D.N. apresenta hoje este requintado título noticioso)

Fez um morto e três feridos e depois matou-se

(não satisfeito, o perpetrador da notícia acrescenta o seguinte sub-título, que evoca Darfur ou, mais modestamente, a Praia do Osso da Baleia)

A chacina começou com agressões e terminou a tiro

muitas 'chacinas' acabam em holocaustos

não se brinca com coisas sérias, mas pasma-se com a indigência

Pérolas (13) – Raios partam

(Raios partam se isto não foi publicado ontem no Diário Digital. Raios partam tanta indigência)

‘«Frida Kahlo» adiado no Casino Lisboa por gravidez’

A peça de teatro «Vida La Vida – Frida Kahlo», com temporada agendada para o auditório dos Oceanos do Casino Lisboa entre 18 de Fevereiro e 15 de Março, foi adiada devido à gravidez da protagonista, Fernanda Serrano. A data de apresentação ainda está por confirmar.

A protagonista da peça encenada por António Feio encontra-se em pleno período de gestação e necessita de repouso absoluto por indicação médica.

As pessoas que já compraram bilhete deverão reivindicar o reembolso no mesmo local em que realizaram a compra, informou em comunicado a Uau (sic) produtora do espectáculo.

Algumas observações absolutamente inúteis:

1. O título, no seu conjunto, constitui uma das mais brilhantes peças de escrita surrealista que já li. É uma notável primeira frase para um cadavre exquis que poderia revolucionar (anacronicamente, é certo) o valor literário do movimento em Portugal.

2. ‘adiado’ não pode concordar em género com Frida Kahlo, visto tratar-se este de um nome feminino.

3. Lendo o lead, percebe-se que também não pode concordar com ‘peça’, nem remotamente, com ‘apresentação’; e descobre-se que ‘Frida Kahlo’ afinal se designa por «Vida La Vida – Frida Kahlo».

4. O que quer dizer “em pleno período de gestação?” Quanto tempo dura? “Por indicação médica”?. Onde está a fonte?

5. O verdadeiro cerne da notícia não está no adiamento da peça. Está na implícita ‘fofoca’, na indignidade de, pela tortuosa via da associação de ideias, haver uma intromissão clara e uma implícita ligação de terrível mau gosto entre a gravidez da actriz principal da peça e a sua conhecida (pública) luta contra uma patologia de natureza cancerígena.

6. Talvez haja, naquele título, uma verdade escondida e, portanto, uma tábua de salvação. Escrito como está, canhestro título de chispe gerado, até permite, por momentos, divagarmos com a ideia da gravidez do Casino de Lisboa.

Raios partam.

'Vou ser adiado no Casino por gravidez. Raios partam'

'Vou ser adiado no Casino por gravidez. Raios partam'



Pérolas (12) – Sócrates avaliado

(Ontem, dia 7, o Público escrutina as ‘afirmações factuais’ da entrevista de José Sócrates à SIC. E conclui com esta exigente fasquia:)

‘O primeiro-ministro passa no teste: dos 17 factos analisados, nove são verdadeiros’

'Quando eu for grande quero ter uma média de 10,3. Depois já posso ser primeiro-ministro e avaliar toda a gente'

'Quando eu for grande quero ter uma média de 10,6. Depois já posso ser primeiro-ministro de Portugal e mandar avaliar toda a gente. Os professores, por exemplo'

Pérolas (11) – Os Helicópteros e os SAP

(mas no Diário de Notícias nunca mais aprendem a fazer títulos?)

“3 helicópteros apoiam fecho de 20 SAP”

'como é que os fechamos? Bombas, tirinhos, ou sobrevoamento de proximidade?'

'como é que os fechamos? Foguetes, tirinhos, ou voos de intimidação?'

Pérolas (10) – Os ‘novos’ Leonardos

“Três novos desenhos de Leonardo no Louvre”

– Ípsilon online –

'a criar desde 1452'

'a criar desde 1452'

Pérolas (9) – Benfica vs Metalist

«Para os 8-0 só ficaram a faltar… 7»

-‘ Zé’, in Jornal Record online (comentário), 18.12.08

'Eles eram metaleiros, pô. Nós somos gente de fé'

'Eles eram metaleiros, pô. Nós somos gente de fé'

Pérolas (8) – Mário Soares no PCP ?

(Assim mesmo, escrito com os pés, sem concordância de género e número na frase, tal a rubra indignação)

“Mas o povo pergunta: e as roubalheiras, ficam impunes? E o sistema que as permitiu – os paraísos fiscais -, os chorudos vencimentos (multimilionários) de gestores incompetentes e pouco sérios, ficam na mesma?”

– Mário Soares, in Diário de Notícias, 16 de Dezembro de 2008

'Contigo Isto Muda, Soares'

'Contigo Isto Muda, Soares!'

Pérolas (7)

(A Ípsilon é tão boa que até tem pérolas)

“José Rodrigues dos Santos vendido para a Hungria”

– Ípsilon online –

'como é que se diz best-seller em magiar?'

'como é que se diz best-seller em magiar?'

Citações (1)

O PSD E A QUADRATURA

“Rui Rio vai estar em directo com os “Quadraturas” na Figueira da Foz. Rio é de poucas falas e talvez por isso a “Quadratura” consiga escapar ao seu sensaborão “círculo”. Seria interessante saber se Rio, por exemplo, ainda é o “número dois” de Ferreira Leite. E se Ferreira Leite ainda é o “número um” do PSD.”

Do João Gonçalves, autor do blogue Portugal dos Pequeninos, com quem não chego a dialogar hoje no Rádio Clube Português, por ‘contingências tecnológicas’. Um prazer que se perdeu, uma informação que lhe presto:  Rui Rio falou pouco. Pacheco estava literal e metaforicamente em casa. Portanto, muito largado. Sim, a coisa foi sensaborona, apesar, ou por causa, da mudança de cenário e de interlocutor. Sim, Ferreira Leite ainda é “número um” do PSD, apesar das sondagens de hoje. O ainda é cada vez mais ainda.

mesa redonda, gente quadrada, problemas bicudos

'mesa redonda, problemas quadrados, gente bicuda'

Pérolas (5)

“Foi uma verdadeira revolta contra o estabelecimento”

-tradução no documentário A Geração de 68, Canal Odisseia, 05.08.2008. Legendagem e locução: Santa Claus Audiovisual –

'bora abrir um 'stablishment', amori?

'bora abrir um 'establishment', amori?'

Pérolas (4)

(delírios dos dias febris)

“As repúblicas são contranatura. Excepto aquelas repúblicas muito tradicionais, como a Suíça, ou os EUA, onde, de algum modo, elegem um rei.”

– D. Duarte Nuno de Bragança, in Público (P2), 01.12.2008 –

'Sou tradicional na Suiça. Serei elegivel?'

‘Sua Majestade, El-Rei da Suíça (eleito)’

Pérolas (3)

«Não existe natureza no estado pristino. A evolução dos padrões ambientais ao longo dos séculos tem sido o desenrolar, sobre o meio envolvente, da luta de classes.»

– Carlos Ferreira de Moura, Lisboa, in ‘Tribuna do Congresso’, Avante online. –

© Frank de Nota

© Frank de Nota

‘Nada de luta de classes, camaradas. Senão ainda nos extinguimos!’

Pérolas (2)

“Uma carta que recebi de um menino que recebeu um computador para ter em casa, não sei já em que circunstância, e escreveu-me a dizer: ‘Quando for grande, vou inscrever-me no PS.’ É tocante.”

– Maria de Lurdes Rodrigues (Ministra da Educação, Público (P2), 28.11.2008 –

'Receber do PS é tocante. Vou-me inscrever'

'Receber do PS é tocante. Vou-me inscrever'

Pérolas (1)


“The financial situation at the moment is so bad

that women are now marrying for love”

– anónimo –


'lovers on the Seine'

'mori, se não tiveres uma cabaninha, serve uma tendinha'