As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Cinema

Manoel de Oliveira – Amor de Perdição

 

No 102º aniversário de Manoel de Oliveira. Por este filme cheguei ao Camilo, ao cinema da palavra, a um Romantismo que só podia ser português.

“Tess of the D’ Ubervilles” – Thomas Hardy

“I agree to the conditions, Angel; because you know best what my punishment ought to be; only – only – don’t make it more than I can bear!”
– Thomas Hardy, Tess of the d’Urberville

Nos 170 anos da nascimento de Thomas Hardy (2 Junho de 1840 – 11 Janeiro de 1928), pretexto para recordar um dos filmes da minha vida (damn, não se consegue fugir a citar o João Bénard da Costa). Melhor dito, pretexto para a memória da adolescência de hormonas e borbulhas, amplamente estimuladas pelo intensa desempenho de Natasha Kinski, então com 19 anos, uma linhagem cinematográfica de peso e uma carreira que tudo parecia prometer. De “Tess of the D’ Ubervilles” (1979) se fala, em Portugal estreado com um simplificado e muito apelativo título: “Tess“. Via este filme de Roman Polanski (que a justiça divina o proteja dos tribunais) cheguei ao livro, mais tarde ao autor. E se, de Thomas Hardy, aprecio bastante a poesia (obrigado, Rui Lage, por esta tradução), quando surge o nome do escritor de Dorset é do filme, não do romance, que imediatamente me lembro. Mas quem lhe ficou indiferente, a ele filme? Quem não suspendeu a respiração na cena final?

“Como Desenhar Um Circulo Perfeito”, de Marco Martins.

Como desenhar um círculo perfeito, de Marco Martins (cartaz)

(clique para ampliar)


Quando estreou Alice (2005) fascinou-me a capacidade de Marco Martins dar espessura e dimensão a uma história tão “magra”. A brilhante linguagem cinematográfica do autor encarregou-se de criar um filme inesquecível (para o qual muito contribuíram, claro, a soberba interpretação de Nuno Lopes, a banda sonora de Bernardo Sassetti, a direcção de fotografia de Carlos Lopes (Cácá).

Hoje estreia “Como Desenhar Um Circulo Perfeito“, do mesmo realizador. Já não estamos no domínio da disfuncionalidade social/familiar, mas na ruptura dos conceitos família/relação. Histórias limite, histórias no limite, antítese da imagem do “desenho de um círculo perfeito”; ou metáfora (porque a história permite leituras plurais e, ou muito me engano ou vai ser alvo de debate no mais cretino dos terrenos, o da moral). Como diz Marco Martins em excelente entrevista dada hoje a Eurico de Barros, no DN.”Quando estava a escrever o argumento, descobri no YouTube que havia um campeonato mundial de desenho de círculos perfeitos e pareceu-me que seria uma metáfora perfeita e muito forte para a personagem do Guilherme e para sugerir que eles estão presos dentro de um desses círculos.

Sinopse: “Numa velha mansão com traços de uma Lisboa há muito desaparecida, os gémeos Guilherme e Sofia cresceram a partilhar experiências e, aos poucos, vão descobrindo a sua sexualidade. Mas Guilherme, incapaz de lidar com o amor não correspondido da sua irmã e das relações que ela mantém com outros rapazes, acaba por fugir de casa. Refugia-se em casa do pai, que vive isolado, imerso num mundo quase autista. Guilherme descobre então que a vida não cabe num círculo perfeito e volta para casa. Quando os gémeos se reencontram, surge finalmente o amor. De forma íntima e silenciosa, o filme oferece o prazer da exploração dos limites, criando um universo fechado e claustrofóbico, inocente e contagiante na simplicidade das suas emoções. (fonte: http://www.best-cine.com).”

Assinale-se que o argumento é assinado em conjunto pelo realizador e pelo escritor Gonçalo M. Tavares; que a banda sonora continua a contar com Bernardo Sassetti; e que no elenco surgem, para lá dos jovens “actores” protagonistas, gente como Beatriz Batarda e Lourdes Norberto, razões de expectativa, escolhas inteligentes. Refira-se ainda a troca de produtor: de Paulo Branco em Alice, Marco Martins passa a trabalhar com António e Pandora Cunha Telles; e, finalmente, o link para o site oficial do filme, muitíssimo cuidado para o que é norma cá no burgo. E bem bonito.

Isto posto… só falta ir ver o filme.

“Vincent” – Tim Burton

O primeiro trabalho em stop-motion de Tim Burton ( ←que tem um fabuloso site, basta clicar sobre o nome). Conta a história de Vincent Malloy, um menino de 7 anos que quer ser como Vincent Price. A narração é do próprio Price.

Tim Burton’s “Alice in Wonderland”

[clique para ampliar]

Podia ser pelo Tim Burton, e era mais que suficiente; ou pelo Johnny Depp; ou por não ir ao cinema há muitas luas; ou pela Alice. Mas raios partam se não vou ver este filme, para aí três vezes de seguida. Sem pipocas. Bastaram estes cartazes para me hipnotizar.

(obrigado, Sofia B. por me teres recordado o que já sabia. Relembrado por ti é como dizia o outro: “your wish is my command”)

Tim Burton's Alice in Wonderland" © Disney

[clique para ampliar]


Signs

(tks Nuno Seabra Lopes!)

Uma ‘curta’ de 12 minutos inesquecíveis.

Sem telemóveis, telefones, faxes, mails, sms. Comunicação em estado de empolgamento.

(Clique no link em baixo para ver)↓

Signs, by Nick Russell

Signs © Nick Russell

Signs © Patrick Hughes

Morreu o meu ‘grasshopper’


Master Po: [after easily defeating the boy in combat] Ha, ha, never assume because a man has no eyes he cannot see. Close your eyes. What do you hear?
Young Caine: I hear the water, I hear the birds.
Master Po: Do you hear your own heartbeat?
Young Caine: No.
Master Po: Do you hear the grasshopper that is at your feet?
Young Caine: [looking down and seeing the insect] Old man, how is it that you hear these things?
Master Po: Young man, how is it that you do not?

Morreu David Carradine (1936 – 2009) um actor que muito apreciei, estando mesmo em crer que foi bastante mal aproveitado pela indústria do cinema. Mas, seja qual for o filme em que mais gostei de o ver (e foram tantos), de quem vou ter mesmo saudades é do meu ‘grasshopper’, do meu gafanhoto, na série “Kung Fu”. É bom, muito bom, quando nos assaltam, felizes, as memórias da infância. So long, Master Caine.

'Eu não faço mal a ninguém, por isso o melhor é sossegarem'

'Eu não faço mal a ninguém, por isso o melhor é sossegarem'

Até já, senhor João Bénard da Costa

Agora que já toda a gente falou bem, falando bem, e justamente bem, de João Bénard da Costa, é fútil dizer seja o que for. Mas apetece-me muito citar as últimas linhas do livro onde se reúnem as suas crónicas n’ O Independente:

(…) Também, por isso não me despeço. Vou ficar por aqui enquanto gostar e sei que hei-de gostar enquanto cá estiverem as pessoas por causa de quem gosto. Vou só descansar um bocadinho e voltar com fato novo. Feito de fitas, feito de mim. Também nisso não vou mudar. Não sei fazer ou falar de outra coisa. Até já.

BÉNARD DA COSTA, João, Os filmes da minha vida/Os meus filmes da vida, p. 268, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 1990.

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

Farrah Fawcett vai morrer

Lentamente chega à perturbante morte, ela que era, para nós rapazinhos, a perturbadora imagem da vida. E a morte da vida dela tem o rosto da vida da nossa morte.

Farrah Fawcett

Farrah Fawcett

(…)

2. Repare. Sobre os telhados da cidade, nas ruas esguias, onde a multidão dos homens se aglomera e dispersa, nunca se extinguem verdadeiramente o pavor e a graça. Perseguidos aqui… reaparecem além… (…)

MENDONÇA, José Tolentino, Perdoar Helena, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 2005.

Man on Wire

“When I see three oranges, I juggle; when I see two towers, I walk.” – Philippe Petit

Life should be lived on the edge“, diz Philippe Petit, no documentário Man on Wire, que relata a aventura sem paralelo deste homem. Atravessar sobre o arame o abismo que separava as Twin Towers. Foi o que fez, em 7 de Agosto de 1974. Uma única pergunta vale a pena colocar, depois de ver o emocionante documentário (vencedor do Oscar de 2009 para a categoria).

Porquê?

A resposta a esta pergunta não existe. Ao contrário dos montanhistas, Petit arriscou incrivelmente a vida porque concebeu o abismo e enunciou a sua possibilidade.

[Em baixo, o trailer do documentário, e a letra de “Bird on a Wire“, de Leonard Cohen. Quem sabe se a motivação de Petit não se encontra inscrita, oblíqua, nas palavras de Cohen?]

Bird On The Wire

Like a bird on the wire,

Like a drunk in a midnight choir

I have tried in my way to be free.

Like a worm on a hook,

Like a knight from some old fashioned book

I have saved all my ribbons for thee.

If i, if I have been unkind,

I hope that you can just let it go by.

If i, if I have been untrue

I hope you know it was never to you.

Like a baby, stillborn,

Like a beast with his horn

I have torn everyone who reached out for me.

But I swear by this song

And by all that I have done wrong

I will make it all up to thee.

I saw a beggar leaning on his wooden crutch,

He said to me, you must not ask for so much.

And a pretty woman leaning in her darkened door,

She cried to me, hey, why not ask for more?


Oh like a bird on the wire,

Like a drunk in a midnight choir

I have tried in my way to be free.

Leonard Cohen

Quem Quer Ser Bilionário? – uma outra perspectiva

«Quem Quer Ser Bilionário?, de Danny Bolye foi o esperado grande vencedor da noite. Venceu as categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Banda Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Fotografia, Melhor Montagem e Melhor Mistura de Som. No final da cerimónia, os elementos do elenco e da equipa técnica do filme invadiram, literalmente, o palco.» → sound + vision, blogue que faz um resumo dos acontecimentos da madrugada passada.

Muito bonito, de facto. Impecável cerimónia, plena de um encanto aggiornato aos tempos que se vivem, globalizado (Slumdog Millionaire) e liberal (Milk).

(Só tenho pena por Mickey Rourke, dividida pela satisfação por Sean Penn.)

E em Bombaim (agora diz-se Mumbai, parece), como será acolhido um filme como Milk?

     Vizinhos do actor Azharuddin Mohammed Ismail (Quem Quer Ser Bilionário') vêem a cerimónia dos Oscars em Bombaim, India © The First Post

Vizinhos do actor Azharuddin Mohammed Ismail (Quem Quer Ser Bilionário') vêem a cerimónia dos Oscars em Bombaim, India © The First Post

(clique para ampliar)


Óscares de 2009 – A lista de nomeados

Estas coisas valem o que valem e apenas ocasionalmente as grandes expressões da arte cinematográfica foram reconhecidas pela Academia (Academy of Motion Picture Arts and Sciences) com o mais célebre prémio mundial (não deixa de ser curioso que uma indústria nascida no século passado dispute com os Prémios Nobel – cujas categorias são, na generalidade, referentes a domínios perfeitamente referenciais no plano científico e das humanidades – a primazia dos media, com clara vantagem para os prémios que consagram o cinema, arte das massas por excelência). Valem o que valem, os Óscares, dizia. Mas não lhes escapamos nunca, ao seu sortilégio, ao jogo de adivinhação, à marca das nossas preferências.

*

Este ano algumas tendências são desenhadas como jogo e manifestação de vontade, no blogue Sound + Vision, de Nuno Galopim e João Lopes. Por mim registo alguns desejos e verifico singularidades: a estrondosa irrupção de Bollywood em Hollywood, com as 10 nomeações de Slumdog Millionaire; a presença de WALL-E em categorias pouco transcendem as tradicionalmente destinadas aos filmes de animação (por mim deveria estar, seguramente, na lista do Melhor Filme; e ganhar, mesmo não tendo eu ainda visto nenhum dos outros!); a 15ª. nomeação de Meryl Streep (fará 60 anos em Outubro, é como se fosse nomeada de quatro em quatro anos desde que nasceu); o regresso, em grande, de David Fincher com The Curious Case of Benjamin Button; Sean Penn, com nova janela de oportunidade para ver a sua notável carreira reconhecida (Milk), depois de Mystic River; o regresso – que regresso – de um canastrão profundamente estimável, vindo do mundo dos desaparecidos: Mickey Rourke (The Wrestler). Sim, esse valente, que andou nove semanas e meia a levar com a Kim Basinger e sobreviveu. E, claro, para gáudio da imprensa cor-de-rosa, o par Pitt&Jolie Inc. pode levar um par de jarras (estatuetas, perdão), para casa. Seria mais um caso de adopção feliz.

Nota: Alguém reparará na presença do grande Werner Herzog na categoria Documentários. Seria uma ‘justiça’ travessa, esta, ganhasse ele. Mas talvez pouco se importe.

(aqui está a lista, copiada no The Independent)

Best picture
The Curious Case of Benjamin Button
Frost/Nixon
Milk
The Reader
Slumdog Millionaire

Best Director
David Fincher, The Curious Case of Benjamin Button
Ron Howard, Frost/Nixon
Gus van Sant, Milk
Stephen Daldry, The Reader
Danny Boyle, Slumdog Millionaire

Best supporting actress
Amy Adams, Doubt
Penélope Cruz, Vicky Cristina Barcelona
Viola Davis, Doubt
Taraji P Henson, The Curious Case of Benjamin Button
Marisa Tomei, The Wrestler

Best actress
Anne Hathaway, Rachel Getting Married
Melissa Leo, Frozen River
Kate Winslet, The Reader
Angelina Jolie, Changeling
Meryl Streep, Doubt

Best supporting actor
Josh Brolin, Milk
Robert Downey Jr, Tropic Thunder
Heath Ledger, The Dark Knight
Michael Shannon, Revolutionary Road
Philip Seymour Hoffman, Doubt

Best actor
Richard Jenkins, The Visitor
Frank Langella, Frost/Nixon
Sean Penn, Milk
Brad Pitt, The Curious Case of Benjamin Button
Mickey Rourke, The Wrestler

Best original screenplay
Frozen River
Happy-Go-Lucky
In Bruges
Milk
WALL-E

Best adapted screenplay
The Curious Case of Benjamin Button
Doubt
Frost/Nixon
The Reader
Slumdog Millionaire

Best cinematography
Tom Stern, Changeling
Claudio Miranda, The Curious Case of Benjamin Button
Wally Pfister, The Dark Knight
Chris Menges, Roger Deakins, The Reader
Anthony Dod Mantle, Slumdog Millionaire

Achievement in art design
James J Murakami, Gary Fettis, Changeling
Donald Graham Burt, Victor J Zolfo, The Curious Case of Benjamin Button
Nathan Crowley, Peter Lando, The Dark Knight
Michael Carlin, Rebecca Alleway, The Duchess
Kristi Zea, Debra Schutt, Revolutionary Road

Achievement in visual effects
Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton, Craig Barron, The Curious Case of Benjamin Button
Nick Davis, Chris Corbould, Tim Webber, Paul Franklin, The Dark Knight
John Nelson, Ben Snow, Dan Sudick, Shane Mahan, Iron Man

Achievement in editing
Kirk Baxter, Angus Wall, The Curious Case of Benjamin Button
Lee Smith, The Dark Knight
Mike Hill, Dan Hanley, Frost/Nixon
Elliot Graham, Milk
Chris Dickens, Slumdog Millionaire

Achievement in costume design
Catherine Martin, Australia
Jacqueline West, The Curious Case of Benjamin Button
Michael O’Connor, The Duchess
Danny Glicker, Milk
Albert Wolsky, Revolutionary Road

Achievement in makeup
Greg Cannom, The Curious Case of Benjamin Button
John Caglione, Jr, Conor O’Sullivan, The Dark Knight
Mike Elizalde, Thom Floutz, Hellboy II: The Golden Army

Best foreign-language film
The Baader Meinhof Complex (Germany)
The Class (France)
Departures (Japan)
Revanche (Austria)
Waltz With Bashir (Israel)

Best documentary feature
Ellen Kuras, Thavisouk Phrasavath, The Betrayal (Nerakhoon)
Werner Herzog, Henry Kaiser, Encounters at the End of the World
Scott Hamilton Kennedy, The Garden
James Marsh, Simon Chinn, Man On Wire
Tia Lessin, Carl Deal, Trouble the Water

Best animation
Bolt
Kung Fu Panda
WALL-E

Best original song
Down to Earth, WALL-E
Jai Ho, Slumdog Millionaire
O Saya, Slumdog Millionaire

slumdog-millionaire, de

Slumdog Millionaire, de Danny Boyle

(clique para ampliar)

Dream’s what?

David Geffen e Steven Spielberg zangaram-se com Jeffrey Katzenberg (The little midget, Eisner says). O resultado deu nisto.

O problema eram as orelhas...

O problema eram as orelhas...

Mamma Mia

Fui ver por insistência de amigos. Mamma Mia. Os ABBA!? Desde miúdo que gosto de musicais e da sua época de ouro. Mas, nas últimas décadas, após o período clássico, salvaram-se talvez West Side Story, One From the Heart, The Cotton Club, sem esquecer o grande The Lion King. Esse mesmo. Os tempos, portanto, não são favoráveis ao género. Muito menos os autores da música. Prolíferos compositores e intérpretes de inúmeros sucessos nos nada recomendáveis anos 70, sintomaticamente falecendo no início da década seguinte, tinham na minha memória um acentuado travo xaroposo. E contudo…

E contudo dei comigo a ver um filme despretensioso e… delicioso. Não foge muito dos cânones do género, no seu período clássico. Com a devida licença, fez-me até lembrar (apenas lembrar) um monumento: On the Town. O plot vagamente semelhante, em que três tipos chegam ao engano, não ao encontro da grande cidade e de uma idealizada Miss de província, mas do lugar onde – e da mulher com quem – já foram felizes, a partir de um equívoco (um cartaz num, uma carta noutro). Gene Kelly e Frank Sinatra, claro, encarregam-se de marcar as distâncias. Stanley Donen também. E a cenografia, que nunca tira partido do locus que a Grécia oferece, como o outro Nova Iorque nos oferecia. Os diálogos, as famosas lines, que são arrebatadores no filme de Donen, aqui ficam-se quase sempre pela ligeireza. Para não falar da ausência de momentos dramáticos verdadeiramente credíveis. Brosnan está ali por engano… Para contrapor, apenas uma Meryl Streep fabulosa. É um lugar comum, mas a mulher não falha. Sai-se sempre melhor do que esperamos. E esperamos muito. E, ainda, uma brilhante ideia, com a utilização dos figurantes, coristas e bailarinos como Coro da Comédia Grega. Aí, por vezes, o filme chega a ter espessura.

Mas, se a excepcionalidade da música de Leonard Bernstein se cola imaculadamente a On the Town (e é a música a essência da progressão narrativa do género), Mamma Mia é o momento certo para tentar perceber uma perplexidade pessoal: como é que nunca me dei conta que o imenso trabalho dos ABBA era tão bom? Como é que deixei escapar, na gaveta mental dos meus favoritos, temas como The Winner Takes It All, Slipping Through My Fingers, The Dancing Queen (da qual apenas apreciei – e muito – um divertimento a que Bono e os U2 se dedicam num bootleg live)? Porque os ABBA eram pirosos? Sim, por preconceito. Mas também porque só o tempo ajuda a distinguir aquilo que fica daquilo que desaparece. Com Mamma Mia a música dos ABBA é definitivamente resgatada para a posteridade dos grandes núcleos criativos da música pop. É pouco? Paul McCartney é um ícone. Fez melhor?

Os Actores do filme e os ABBA. O que é consensual é bom?

Os Actores do filme e os ABBA. O que é consensual é bom? © Daniel Karlsson.