As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Blogosfera

Os ‘meus’ Blogues – Do trapézio, sem rede

(…) uma coisa que eu acho belíssima, essa ideia de que, quando nos confrontamos com um texto, olhamos e dizemos: «tenho aqui uma guerra». Ou seja, há uma opacidade original do texto original, opacidade não quer dizer que a gente não perceba a uma primeira leitura, há uma opacidade à tradução, há uma barreira à tradução, na qual depois aplicamos tudo isto que estamos a teorizar. Mas aplicamo-la como? Quando estamos a traduzir uma frase não estamos a decompô-la, pelo menos racionalmente. Há um mecanismo quase espontâneo, digamos, intuitivo.” – António Mega Ferreira, em “tradução: a panela, o cozido e o caldo”, debate sobre a Tradução, realizado em Março de 2004, publicado em “A Phala 1″ (segunda série, 2007, Assírio & Alvim).

No silêncio discreto, no anonimato das iniciais L.P., o autor do blogue Do trapézio, sem rede tem vindo a realizar um trabalho de grande valor e, por vezes, de descobertas inesquecíveis. Esta ‘poesia passada para português’ não nos oferece apenas, com uma regularidade de metrónomo, poemas de 130 autores (and counting…) vertidos para a língua portuguesa: tem a virtude de nos dar a conhecer muitos poetas que estão fora dos círculos do reconhecimento mais imediato; e o mérito de nunca omitir a fonte, numa atitude de honestidade e seriedade que se deve assinalar. Visito muitas vezes ao Do trapézio, sem rede – nome que, reportando-se à tradução, é já uma enunciação da percepção do autor sobre o seu trabalho. Vou lá muitas vezes, repito, jamais me desiludo. Nunca encontrei cedências de gosto. Antes uma criteriosa escolha de autores; de poéticas; e traduções que admiro. Agradeço muito. Recomendo muito o Trapézio, essa caixa de rebuçados da poesia universal.

Aqui se deixa o último poema que nos é oferecido em tradução – data de dia 18 -, com a respectiva indicação da fonte, cuidado que o autor infalivelmente não descura.

Vladimír Holan

Mãe

Alguma vez observaste a tua velha mãe
a compor a cama para ti,
a maneira como ela estica, endireita, aconchega e alisa os lençóis
para que não sintas um só vinco?
A sua respiração, o movimento das palmas das mãos
são tão ternos
que no passado apagam esse incêndio em Persepolis
e agora acalmam uma futura tempestade
nas costas da China ou em mares desconhecidos.

(versão minha [Nota: do autor do blogue, L.P.], a partir da tradução inglesa de Ian e Jasmila Milner, reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), 1993, p. 37).
'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online [D.R.]

'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online

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Henrique Fialho. Um adeus contra o esquecimento.

O acontecimento que marcou o ‘meu’ Dia Mundial da Poesia foi péssimo. Descobri que, anteontem, Henrique Manuel Bento Fialho terminou os blogues Volumen e Insónia. Assim, de repente, como o Clint Estwood virava costas ao nojo e desaparecia no horizonte. Creio que foi um acto libertador, avaliando o que escreveu na despedida. Aquele que, com inteira liberdade produziu o melhor corpo de crítica literária especificamente no espaço da blogosfera; aquele que, não integrando ‘escolas’, capelas, redacções, entregava uma dose de atenção, aguda sensibilidade e visível amor pela literatura – particularmente pela poesia – não deixaria de tomar uma decisão destas sem uma razão. Henrique Fialho, que  entendia os seus blogues como um espaço de ‘partilha’ esclarece-a: “por que me vou? Porque enjoei, porque já não tenho paciência, porque sim, porque estou cansado, porque tenho mais que fazer, porque me doem as costas, porque está um belo dia lá fora.” Nada a dizer. Apenas agradecer. E pedir ao Henrique Fialho duas simples coisas: que continue a ‘partilhar’ as suas leituras, eventualmente noutros lugares, quando lhe deixarem de doer as costas e os dias estiverem feios; e que não apague nunca os seus blogues. Eles são uma antologia contra o esquecimento.


Farewell, Henrique Fialho…

 © Don Relyea, MONOCHROME / Series / Incident.net / 2007-08

© Don Relyea, MONOCHROME / Series / Incident.net / 2007-08

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Busca, busca…

Uma das benesses que me dá a existência deste blogue é a possibilidade de bisbilhotar o que as pessoas procuram, através dos “motores de busca” pesquisa essa que, sabe-se lá por que razão, as faz aterrar aqui. Na última semana fiz uma selecção das ‘pesquisas’ mais interessantes, dividindo-as (se tal é possível) em duas áreas: culturais e delirantes. Em cada uma delas, embora com a dificuldade que se pode imaginar, atribuí o Prémio As Folhas Ardem da Curiosidade Atrapalhada (PAFACA). Ainda há-de ser um evento de relevo, anual e transmitido pela RTP, com apresentação do Malato.


Pesquisas ‘Culturais’

publicar colóquio letras – Vamos lá a isso!

jonas, daniel email poeta – Desejo de contacto directo com a poesia?

literatura surda – Um género literário novo?

poesia coração dos bosques – A nostalgia do Lobo Mau.

o ano em que morreu poeta herberto hélder – Pesquisa previamente bem informada!

morte de herberto helder – É como a do Mark Twain…

j carlos poeta portugues – Todos os J Carlos são poetas. Somos um país de.

fernando assis pacheco não me fodas cor – O gosto de ler pode levar a excessos.

cesariny pintura mais conhecida – Não, não é a Gioconda.

1 quadro de matisse inesquecivel com inf – É como o poema do Cesariny.

poemas muitas vezes não vemos, ou não – Pesquisa especulativa.


E o prémio  PAFACA vai para:

capinhas para galão de agua – Isto não é uma pesquisa, é um poema.

Pesquisas ‘Delirantes’

falar verdade a mentir duarte citações – Pesquisa cifrada, vou passar ao SIS.

children playing – Ui!… vou mesmo passar ao DIAP.

no diva – Ou o género está errado, e vamos à Ópera, ou falta o acento e vamos..

coraçao nua – Outro poeta, sem preocupações com a acentuação.

mulher bonita de saia – Tão bonito…

bonito ser feio europa – Um eleitor à procura de critérios para votar nas europeias?

porque uma casa no campo? Sim? Porque?

texturas de cobertores antigos – Requintado.

portugal plastico barato alexandre – Outra pesquisa cifrada. SIS com ela.

mentir manuel esteves cardoso – Traz água no bico. SIS já.

quem eram maltecos – Sim? Quem eram?

escrava cezaria – Escrava Isaura? Cesária Évora?

dias de luta são dias de gloria – Uma excelente palavra de ordem para a CGTP.

obama sexo – Já começaram a querer tramar o homem. Passar à CIA.

E o prémio  PAFACA vai para:

depilação vela – Pesquisa onde a palavra ‘vela’ abre um mundo de especulações.

'falso rene magritte copos hic'

'falso rene magritte copos hic'

Os ‘meus’ Blogues – irmaolucia

Escrever um blogue não será exactamente um exercício de verborreia regular, onde o autor ou autores desabafam pensamentos definitivos sobre questões muitas vezes excessivamente passageiras. Ou será. Não entendo assim, defeito meu. Tal como não compreendo bem a lógica de copy/paste, o exercício de partilha do diário que deveria estar fechadinho com um cadeado, a trincheira para guerrilhas pessoais com um vastíssimo número de interessados que se esgota nos próprios, o anonimato que tantas vezes esconde o faccioso. Na magnífica plataforma de expressões plurais que a blogosfera permite, muitas são as modalidades possíveis para os autores darem forma ao desígnio a que se propõem: fazer ouvir, num meio que tem recursos comunicacionais cada vez mais vastos, a sua singular (plural) voz,  para ser visto. Escutado. Lido. É essa a vontade que está na origem de um blogue. Mas a ideia de ter um auditório e correspondente público implica que se tenha uma ideia discursiva. Ou melhor, anterior a ela, uma identidade (mesmo que fragmentada, questão identitária que nos levaria longe).

Entendo o blogue que escrevo como um lugar de partilha das coisas que me espantam, dão prazer, gozo, ou suscitam por vezes a ironia. Mas sobretudo um lugar de encontros, onde se podem cruzar, casualmente (a norma é tantas vezes essa casualidade ter um sentido) a cintilação de um poema com o relâmpago de uma imagem; o fulgor de um texto com a doçura de uma alfinetada no traseiro da idiotice. Aqui é um lugar de conjugações, portanto. De acasos que não são por acaso. Lugar de partilha do prazer. Da uma ética da beleza (não escrevi ‘do bonito’, está bem?).

Ontem editei um poema de Nuno Júdice. Apetece-me pensar que não foi por acaso que me chegou às mãos. Tal como não foi por acaso, que, mal o publiquei e dei uma última olhadela a alguns blogues, tenha ‘tropeçado’ neste post de um blogue que muito estimo, o irmaolucia (assim mesmo), um dos mais amados na blogosfera, aposto. O autor, Pedro Vieira, é um ‘blogger’ (como raio se escreve autor de blogue?) por definição. Ou seja, ele próprio se encarregou de alargar conceptualmente a ideia de blogue, com a mão notável para os títulos, para o post curto e tantas vezes letal, outras tantas paródico, intercalando o registo pessoalíssimo com um olhar ácido, irónico, terno sobre o quotidiano; concebendo as suas próprias ilustrações – que resultam, as dele, neste meio como em nenhum outro. Aliás, não imagino o irmãolúcia de Pedro Vieira fora da blogosfera, ao contrário de muitos que escrevem o blogue nosso de todos os dias a pensar na primeira edição em papel.

Ontem, dizia, editei o poema Lusofonias, de Nuno Júdice. Nem dez minutos haviam passado quando deparei com este post. Ora venham lá dizer-me se o acaso não produz o encontro. E se o resultado da simultaneidade não é poético!

*

bica a metro

Há um tipo de local que me repugna/fascina pela cidade fora, mais concretamente os quiosques/cafés da Sical, em tons de vermelho e ocres, mergulhados no metro/politano, cheios de gente mas tão vazios, corpos carentes de cafeína mas também de um ombro consolador que ali não se encontra. Incrível a quantidade de gente de cara fechada que ali ruma em busca do abatanado, da italiana, do galão claro e morno, há vidas assim, da bica cheia, do garoto, do diabo a sete e mais um queque de cujas moléculas suspeito imenso, as merendas que podem ser de maçapão ou folhadas na voz de uma especialista que ouvi aqui há dias, todas reluzentes debaixo da luz fluorescente do balcão, a natureza não produz coisas assim, que luzem e que se trinquem na companhia de cegos, migrantes, passeantes, aleijados e trabalhadores de outros comércios, executivos de casta baixa, mochileiros, e esfomeados de ocasião mortinhos por uma vida mista, o queijo e fiambre a desafiar pelo menos a penumbra dos dias. Nos quiosques/cafés da Sical há gelados da Maxibon, bolos instantâneos, empregados que enfiaram a palavra sorriso num paradeiro desconhecido, e sente-se um frio que as paredes decoradas em motivos quentes, africanos, não disfarçam, a preta ilustrada de lenço na cabeça e moldura de fancaria tem mais vida do que aqueles microscosmos em que até as migalhas brilham, ali, aos pés dos incautos. E as migalhas não é suposto brilharem, foda-se.


Leia-se o post na sua origem, com os comentários que suscitou. Para o caso de alguém não conhecer o irmaolucia, o que duvido.

'num café perto de si © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

'num café perto de si' © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

(não é Sical, mas não fica mal)

O meu post favorito de 2008

Não, não será o melhor post escrito na blogosfera em 2008; nem o mais pertinente; nem o mais incisivo; nem o mais luminoso; nem o mais… mas também quem definirá estas coisas? Li alguns blogues no ano que passou (digamos que gastei o dobro do tempo que devia com o assunto, facto de que não me arrependo nadinha) Quando li este post, da Ana Cristina Leonardo, no seu blogue Meditação na Pastelaria, a palavra mais exacta que me ocorreu foi júbilo. Numa penada absolutamente fulgurante, onde se passa de J. M. Cotzee a Kant, a Lewis Black, a Buñuel, a Machado de Assis, a Richard Dawkins (não necessariamente todos, nem por esta ordem) começando logo, à cabeça, por acertar o alvo bem no meio da testa – José Sócrates, who else?Ana Cristina Leonardo produz uma das mais inteligentes e hilariantes peças de retórica que li em muito tempo. Todo o post é tóxico para o alvo, o resultado absolutamente assassino (até pelo tom aparentemente negligé). Quando eu for grande gostava de escrever com este desfastio letal. Autorizado pela autora, aqui deixo o texto do post e o respectivo link. Já que é obrigatório ler duas vezes, ao menos que se leia a segunda no seu contexto primitivo. Obrigado, Ana Cristina Leonardo. Abriu todo um Freeport para nós. Absolutamente :-)

*

«Ao vencedor, as batatas»

“Vou ser absolutamente pueril. E, sim, gosto de advérbios de modo. Ao invés, aborrece-me Sócrates, o primeiro-ministro. Tudo nele me aborrece. O curso, o inglês, as casas (ah, como me aborrecem as casas!), os livros que finge ter lido, os esgares, o perfil e os lugares-comuns, até os fatos me entediam de tão óbvios. E por falar em fatos abrevio: repugna-me a enfatuada ignorância.
Citando de novo esse génio do humor que dá pelo nome de Lewis Black, José Sócrates é a prova de que o americano estava universalmente certo quando disse: In my lifetime, we’ve gone from Eisenhower to George W. Bush. We’ve gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we’ll be voting for plants.
Da política tive eu, em pequenina, sem naturalmente o saber que não venho para aqui armar-me em génio, uma visão pré-maquiavélica. Resume-a muito bem J.M.Coetzee em Diário de um Mau Ano: A posição pré-maquiavélica era a da supremacia da lei moral. Se acontecesse a lei moral ser por vezes infringida, era uma infelicidade, mas no fim de contas os governantes eram apenas humanos. A nova posição, a maquiavélica, é que a infracção à lei moral se justifica quando necessária.
De Maquiavel, que era esperto, fomos andando até chegarmos às plantas que, como é fácil entender mesmo sem ter lido Kant, escapam à lei moral.
Um pragmatismo alucinado invadiu a política. A presente crise internacional, nascida disso mesmo, não teve como resultado nenhuma discussão séria. Comemos mais do mesmo. Não que eu me encontre ainda na fase anal pré-maquiavélica ou tenha qualquer ilusão sobre o «homem novo» (neste capítulo estou com o Viridiana do Buñuel). Apesar disso, as Luzes continuam a pestanejar a espaços no trapézio do meu cérebro, como diria Machado (e, já agora, diga-se que o título deste post também é do brasileiro).
Tudo isto me foi gerundicamente ocorrendo (eu avisei que gosto de advérbios de modo), após ler estas declarações de José Sócrates a respeito do próximo ano, chamado pelo próprio (ou pelos assesores de agit-prop) o «cabo das tormentas»: É preciso agir sem ortodoxia e sem ideias feitas (…) É preciso estar com a mente aberta para responder aos problemas e não para responder às necessidades da nossa ideologia. Precisamos de ter mente aberta e não ficarmos reféns da ideologia ou das respostas clássicas, porque problemas novos exigem respostas novas.

Ou seja, e sem lembrar agora a frase de Richard Dawkins: There’s this thing called being so open-minded your brains drop out. Ou lembrando-a. Pronto. Esqueçamo-nos por uns segundos que o iluminado engenheiro se refere à actual crise. Façamos de conta que fala durante os heróicos tempos do boom financeiro que acabou como se sabe. Sublinhem-se as diferenças. Zero! Ideias novas? Zero. O mesmo ódio ao pensamento (entendido pejorativamente como “respostas clássicas”), a mesma crença no fim das ideologias (depois ― ou antes? ― foi ― ou fora? ― o fim da História), o mesmo credo pragmático. O paleio é decalcadinho… como decalcadinho de outras matrizes se mostra o paleio de Alegre. É o cabo das tormentas: estamos entregues às plantas.” – Ana Cristina Leonardo, in Meditação na Pastelaria, 21-12-2008
'realmente, exactamente, optimisticamente, exigentemente'

'pois, realmente, exactamente, optimisticamente, exigentemente'

(clique para ‘diminuir’)

Gaja nua XXX – A Vitória!

No dia 18 escrevi aqui um post de ingénua (ou mesmo falsa) indignação. Julia Ormond suscitava seis vezes mais visitas que um belo poema de António Osório. Insatisfeito com a falta de uma justa paridade entre duas preciosidades – o olhar de Ormond, a poética de Osório – publiquei novo poema deste autor com o manhoso título ‘Gaja nua XXX‘ e uma série de tags destinados a excitarem os motores de busca. Prometi divulgar os resultados. Pois bem, 12 dias depois, venho clamar ‘vitória’.

Graças ao ardil, António Osório, clandestinamente divulgado com identidade forjada, foi visitado pelo triplo dos cultores da bela actriz britânica. Melhor ainda: graças à brincadeira, o primeiro poema de António Osório que aqui publiquei disparou nas visitas, multiplicando por dez a sua procura. É caso para pensar que, quem anda atrás de ‘gajas nuas’ tem também alma de poeta.

Apolo venceu Dionísio, com ajudinha de um Hermes malandro.

Terei forçosamente, a benefício de inventário e satisfação das almas, de publicar aqui as palavras e combinações de busca que conduziram quase uma centena de portugueses ao post. Enganados, é certo. Mas felizes. Afinal, cumpri o que prometera. Mostrei mesmo uma ‘gaja nua’.

gajas nuas (várias pesquisas)
gaja nua
(várias pesquisas)
parodias (várias pesquisas)
xxx
(várias pesquisas)
gajas nuas xxx (várias pesquisas)
xxx gajas nuas (várias pesquisas)
http://www.gajas nuas xxx (um internauta menos habilitado)
parodias (um bacano)
feitiço de amor queria ver o episodio d (uma velhinha que acompanha novelas, decerto)
parodias de portugues (um bacano patriótico)
gajas nuas portuguesas (patriótico plural)
gaja portugal nua (patriótico singular)
portuguesa nua (à procura de sua dama, este)
luisa do portugal no coracao nua
(Grande Prémio ‘fixação de carácter obsessivo’)


Em homenagem a todos aqueles que, de ‘gaja nua’, passaram directamente à poesia, resta-me assegurar-lhes que são a prova do Portugal país de poetas. E oferecer-lhes mais uma gaja nua!


Vénus de Milo - Museu do Louvre

Vénus de Milo - Museu do Louvre

Blog Digest (2)

Alguns posts, recolhidos esta semana na blogosfera, que pedem atenção e gratidão.

No Provador de Venenos, (creio que publicado originalmente no Jornal de Negócios) João Pinto e Castro desenvolve opinião tão estimulante como polémica sobre a questão, incontornável nestes dias, da avaliação dos professores. Obrigado por ir contra a corrente.

Ana Cristina Leonardo, no seu Meditação na Pastelaria, escreve um post delicioso, com dois links que seriam hilariantes, não fossem também tristes. Crie-se algum suspense: sob o título E ninguém os interna…, aborda as directivas comunitárias sobre espécies hortícolas e frutícolas; e a notícia da proibição de distribuir frutas e legumes, imposta ao Banco Alimentar contra a Fome, em nome dos ‘parâmetros da U.E.’. Obrigado pelas gargalhadas. Tristes gargalhadas, é certo.

Quem diria que Barack Obama escreveu poemas na juventude? Claro, todos escrevemos, por que não ele? Certo é que foram ‘encontrados’ pela New Yorker, que os publicou e comentou. Atento, Eduardo Serra Lopes deles dá notícia no Casa dos Poetas, e edita-os em português, com tradução de Tiago Nené. Ainda por cima não são nada ‘beras’, os dois poemas. Obrigado pela descoberta.

Rui Bebiano dá conta da morte de João Martins Pereira, no Caminhos da Memória, em notável artigo (Uma Lição de João). Conheci a obra de João Martins Pereira naturalmente mal, na juventude borbulhenta, mas ainda comprei No reino dos falsos avestruzes, na pequenina livraria da Assírio, no defunto Terminal – quem se lembrará? – Li o livro e só pesquei perplexidades, claro. Mas percebi que  era pessoa com pé na realidade, e outro na utopia. Uma raridade, portanto. Alguém ter-se lembrado de registar dignamente o óbito deste pensador de esquerda, que, apesar da heterodoxia (ou por causa dela) era muito estimulante, deve ser assinalado. Obrigado pela memória.

Lutz Brückelmann, autor do excelente quase em português, também tem memória. Num post datado de 11 de novembro, recorda a passagem dos 90 anos sobre o fim da I Guerra Mundial, a drôle de guerre. O texto é breve, contundente e introduz uma impressionante (adjectivo de Lutz, que subscrevo, acrescentando que estamos perante uma obra que espelha magistralmente a tragédia da guerra) galeria de desenhos de Otto Dix, soldado sobrevivente ao conflito, que pode ser descarregada em pdf. a partir do post. Obrigado pelo achado, e por tê-lo partilhado.

Termine-se com um post que, não sendo desta semana (é de Agosto e, aparentemente, o último do Letra de Forma) dá gosto, pela forma apaixonada como Augusto M. Seabra fala de um disco. Neste caso as Sinfonias nº38 “Praga” & nº41 “Júpiter”, de Mozart, interpretadas pela Freiburger Barockorchester, dirigida por René Jacobs, em edição da Harmonia Mundi. Obrigado pela contagiante paixão.

desenho nº 26 do álbum Der Krieg, de Otto Dix

desenho nº 26 do álbum Der Krieg, de Otto Dix


Blog Digest

Alguns posts, editados esta semana na blogosfera, que alimentaram a atenção e a gratidão.

No refogado & hortelã, um médico contraria a ideia que (por generalização estúpida) temos da classe. Um olhar duro e desolado sobre a morte comum, a morte corrente, anónima, hospitalizada. Obrigado pela compaixão.

Eduardo Pitta, no Da Literatura, dá-nos conta de uma querela, da qual deixa perceber os alarmantes contornos e, acima de tudo, a tremenda consequência: o possível desaparecimento da Colóquio-Letras, paixão grande  e antiga, alimentada e aumentada por Joana Morais Varela. Obrigado pela denúncia.

A emotiva leitura que António Barreto faz, no Jacarandá, do livro Cidades Sem Nome – Crónica da Condição Suburbana (Edições Tinta da China), da autoria de Fernanda Câncio. Obrigado pela revelação.

Rui Bebiano consegue encontrar uma história que desmente a minha convicção de ser Portugal o crónico ‘Campeão Mundial do Ridículo’ (como ainda ontem desabafava em ‘Patetices’). Em Espanha passou-se este episódio delicioso (por patético), que pode ser lido no blogue A Terceira Noite. Obrigado pela trouvaille.

António Godinho Gil prova, no Boca de Incêndio, que ainda podemos apaziguar o desejo de uma escrita maior. Também nos blogues, essa imaterialidade. Obrigado pelo golpe de asa.

un mare di ricordi2 © Roberto Cicchine, Olhares, Fotografia Online

un mare di ricordi2 © Roberto Cicchine, Olhares, Fotografia Online


Welcome to Elsinore – cinco anos

Parabéns à Carla Carvalho, A.K.A. Carla de Elsinore, pelo quinto aniversário de um blogue que merece respeito pelo prazer que nos dá. Welcome to Elsinore. Onde o que mais admiro será a dimensão autoral. Depois a irreverência e a juvenil idade, o jogo entre o lúdico, o estético, o peso e a leveza. É há coisas tão bonitas como esta, que não resisto a ‘gamar e copiar’. Sim, vou publicar um post de outro blogue, em vez de fazer um hiperlink. É contra as regras? Estou-me nas tintas. Espero que a autora não me leve a mal. Porque é uma forma de dizer: gostei tanto que o achei como meu.

(publicado em 11 de Outubro no blogue Welcome to Elsinore)

Procrastinação

© Carla de Elsinore (Alentejo, AGO/2008)

© Carla of Elsinore (Alentejo, AGO/2008)

Pela manhã sentava-me nas tábuas frias da ponte observando o espectáculo das trutas a engolirem libelinhas coloridas, duas a duas, em dia de acasalamento. De um golpe, sem compaixão. Ploc. A puta da máquina estava outra vez avariada depois de ter passado um mês de férias na Canon. Who gives a fuck? Era Outubro e haveríamos de passar o resto do dia na nossa praia, adormecendo ao sol e bebendo caipirinhas – que não é tempo de morangos – antes de anoitecer, no barzinho escondido. O mar grande era todo meu e nem a gruta parecia um lugar estranho. Tudo distante agora e, afinal, nem passaram os dias suficientes para o gajo que dizem que fez o mundo repetir a proeza.

Fica claro porque trouxe este post para as folhas ardem? Porque tinha de ser.